segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

THE SPECTACLE OF SUFFERING / O ESPETÁCULO DO SOFRIMENTO, de Lee Siegel







I would like a day without images. I would like one day to go by without turning on my computer and being inundated by images both tragic and banal. I would like one day to go by without seeing the image of Kim Kardashian displayed alongside the image of a pile of corpses in the Congo.


But even if I boycotted the internet, kept the television turned off, and used my cellphone only for email or texting, the conquering hordes of images would engulf me from the video in the back of a taxi, the video in the bank or supermarket, the television in the waiting room, the images flickering like postmodern fireplaces in the living rooms of neighbors' homes. When my second child was born, a nurse insisted I give her my cellphone and then stood on the other side of the curtain, snapping away as my daughter was lifted out of my wife in a C-section. "How is the baby?"I asked, stretching out my arms to hold my new daughter. The nurse beamed at me and gently put the phone back in my hand. "I got some wonderful shots," she Said. 



Much used to be written about the moral ambiguity of the camera, the great book on the subject being Susan Sontag's "On Photography." Yet philosophical reflection on photography is, by this point, irrelevant. What surrounds us with the encompassing ubiquity of oxygen is not anything like "photography." Photography is the product of purpose and will. Our second-by-second siege of images is entirely random. It is the product not of purpose and will, but of distraction, prurience, and the timeless human impulse to shame and humiliate.



A friend of mine told me that she was walking along a street in Manhattan one day when she came upon a small crowd of people that had gathered on the sidewalk. As she drew closer, she saw that they had surrounded a bird with a broken wing that was struggling for life on the pavement. Evetyone had his digital device out, snapping pictures of the dying creature. 



What was the meaning of it all? Were they merely expressing the human urge to record the life around them, as artists have done from the time of the cave paintings up through the impressionists, to Atget's pictures of Paris, Salgado's photographs of workers, and beyond? Were they using their digital cameras to master a reality that appalled them? Or had they, like the decadent ruling class of the late Roman Empire, grown so indifferent to suffering that the spectacle of suffering had become yet another sensual Pleasure?



And why didn't someone just pick the bird up and try to take it to a place where it could be saved? Before my friend could do so, it died.

It seems that the digital age has brought us to a "tipping point." The curiosity that keeps us engaged with the world and alive to reality has become an obscene detachment that notes horrendous events in a fantasy of immunity from time and circumstance. The photographer, as Sontag noted, has always had to grapple with the fact that "capturing" someone on film confers on the photographer a potentially abusive power. But now no one grapples with anything. They simply snap other people's-or other creature's-agony, upload it and hit "send."


Last week, the New York Post, a tabloid newspaper devoted to florid reporting of lurid events, surpassed itself in the realm of promiscuous images. It published on its front page, over the headline, "DOOMED," and with the caption "PUSHED ON THE SUBWAY TRACK, THIS MAN IS ABOUT TO DIE," the picture of a man standing on the tracks and clinging helplessly to the edge of the subway platform as a train bears down on him. Seconds later he was crushed to death. It turned out that he was a Korean man who had gotten into a fight with a homeless person, who then threw the unlucky man onto the tracks.



The debate, so familiar now in our age of profligate picture-snapping, began once again. Why didn't the photographer try to rescue the man instead of taking his picture? How could even the New York Post publish such a picture, which was sure to wound and outrage the victim's family?



According to the photographer, who says he works freelance for the New York Post, he had only snapped the picture in hopes of using his flash to warn and stop the train. (Yes, and I have a pair of wings that I use to fly to California and back.) He also claimed that the other people on the platform were also taking pictures with their iGadgets instead of helping the Korean man. That I believe.



Yet the debate is beside the point. Pictures like this will continue to appear, and people will continue to elevate voyeurism to a sickening new type of morality. Coldhearted watching-the society of the spectacle, as someone once called it-is a quality of decadence and America is, in certain ways, in its late, decadent stage. And in our age of ascendant technology, our numerous miraculous devices serve, inevitably, as delusions of immortality.



The only answer is to declare war on meaningless or degrading images. Perhaps some genius, a Steve Jobs of the opposition, will invent a new type of digital graffiti. Until then, in this country at least, we must proclaim a national holiday in which everyone has to wear a blindfold for 24 hours. They will end up seeing more in one day than they have seen in years.





Tradução OESP (9.12.2012):





Eu gostaria que houvesse um dia sem imagens. Gostaria de passar um dia sem precisar abrir meu computador e ser inundado por imagens trágicas e banais. Gostaria de passar um dia sem ver a imagem de Kim Kardashian ao lado da imagem de uma pilha de cadáveres no Congo.



Mas mesmo que eu boicotasse a internet, mantivesse o televisor desligado e usasse meu celular só para e-mails e mensagens de texto, as hordas vitoriosas de imagens me envolveriam do vídeo no banco de trás do táxi, do vídeo em um banco ou supermercado, do televisor nas salas de estar de lares vizinhos. 



Quando nasceu meu segundo filho, uma enfermeira insistiu para eu lhe entregar o meu celular e depois ficou parada do outro lado da cortina tirando fotos enquanto minha filha era retirada de minha mulher numa cesariana. "Como está o bebê?", eu perguntei, esticando os braços para segurar minha nova filha. A enfermeira sorriu para mim e suavemente recolocou o celular em minha mão, dizendo: "Tirei algumas fotos maravilhosas".



Já se escreveu muita coisa sobre a ambiguidade moral da câmera, e o grande livro sobre o tema é Sobre a Fotografia, de Susan Sontag. No entanto, uma reflexão filosófica sobre a fotografia é, a esta altura, irrelevante. O que nos rodeia com a ubiquidade envolvente do oxigênio não é algo como "fotografia". 

A fotografia é um produto de propósito e vontade. Nosso cerco segundo a segundo por imagens é inteiramente aleatório. É um produto não de propósito e vontade, mas de distração, luxúria e o eterno impulso humano para envergonhar e humilhar.


Uma amiga minha me contou que estava andando por uma rua de Manhattan certo dia quando esbarrou numa pequena multidão de pessoas reunidas na calçada. Quando ela se aproximou, viu que elas estavam rodeando um pássaro com a asa quebrada que lutava pela vida na calçada. Todas brandiam seus aparelhos digitais tirando fotos da criaturinha moribunda.



Qual o significado disso tudo? Estariam simplesmente expressando a necessidade humana de registrar a vida que as cercava, como artistas fizeram desde o tempo das pinturas nas cavernas até os impressionistas, as fotos de Atget de Paris, as fotos de trabalhadores de Salgado, e outros? Ou teriam se tornado, como a decadente classe dirigente do Império Romano tardio, tão indiferentes ao sofrimento que o espetáculo do sofrimento havia se tornado mais um prazer sensual?



E por que alguém simplesmente não pegou a ave e tentou levá-la para um lugar onde ela pudesse ser salva? Antes que minha amiga pudesse fazê-lo, a ave morreu.



Ao que parece, a era digital nos levou a um "ponto de virada". A curiosidade que nos mantém engajados com o mundo e atentos à realidade se transformou num distanciamento obsceno que constata eventos tenebrosos numa fantasia de imunidade de tempo e circunstância. O fotógrafo, como observou Sontag, sempre teve de lidar com o fato de que "capturar" alguém numa película lhe confere um poder potencialmente abusivo. Agora, porém, ninguém lida com nada. As pessoas simplesmente fotografam a agonia de outras pessoas - ou de outras criaturas -, fazem o upload e acionam "enviar".



Na semana passada, o New York Post, tabloide dedicado a reportagens floreadas de acontecimentos revoltantes, se superou no quesito das imagens promíscuas. Ele publicou em primeira página, sob a manchete CONDENADO, e com a legenda EMPURRADO PARA O TRILHO DO METRÔ, ESTE HOMEM ESTÁ PRESTES A MORRER, a foto de um homem de pé sobre os trilhos agarrando-se em desamparo à borda da plataforma enquanto um trem se aproxima para atingi-lo. Segundos depois, ele morreu esmagado. Verificou-se depois que ele era um coreano que havia se envolvido numa briga com um sem-teto, o qual havia atirado o pobre infeliz para os trilhos.



O debate, hoje tão familiar nesta era de captura desregrada de fotos, recomeçou. Por que o fotógrafo não tentou salvar o homem em vez de fazer a sua foto? Como o New York Post foi capaz de publicar tal foto, que seguramente magoaria e indignaria a família da vítima?



Segundo o fotógrafo, que declarou trabalhar como free lance para o New York Post, ele só fez a foto na esperança de usar o flash para alertar e parar o trem. (Sim, e eu tenho um par de asas que uso para ir e voltar voando à Califórnia). Ele também alegou que as outras pessoas na plataforma estavam tirando fotos com suas engenhocas em vez de ajudar o coreano. Nisso eu acredito.



Mas o debate é irrelevante. Fotos como essa continuarão a surgir, e pessoas continuarão alçando o voyeurismo a um repugnante novo tipo de moralidade. A observação indiferente - a sociedade do espetáculo, como alguém um dia a chamou - é uma qualidade de decadência e os Estados Unidos estão, de certo modo, em seu estágio tardio, decadente. E em nossa era de ascendência tecnológica, nossos inúmeros aparelhos milagrosos servem, inevitavelmente, como ilusões de imortalidade.



A única resposta a isso é declarar guerra às imagens degradantes ou sem sentido. Talvez algum gênio, um Steve Jobs da oposição, invente um novo tipo de grafite digital. Até lá, neste país ao menos, precisamos proclamar um feriado nacional em que as pessoas terão de usar uma venda sobre os olhos por 24 horas. Elas acabarão vendo mais em um dia do que viram em anos.







(Ilustração: Felix Nussbaum - camp synagogue)






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