sábado, 22 de dezembro de 2012

BRIGA DE MENINOS, de Henry Miller








Estou pensando agora na briga a pedradas que tivemos uma tarde de verão há muito tempo quando eu estava na casa de minha tia Caroline perto de Hell Gate. Meu primo Gene e eu havíamos sido encurralados por um bando de meninos quando brincávamos no parque. Não sabíamos de que lado estávamos lutando, mas lutávamos muito a sério no meio do monte de pedras à margem do rio. Tínhamos de demonstrar ainda mais coragem que os outros meninos porque suspeitavam que fôssemos maricas. Foi assim que aconteceu de matarmos um menino do bando rival. Quando estavam nos atacando meu primo Gene investiu contra o chefe do bando e acertou-lhe na barriga uma pedra de bom tamanho. No mesmo instante eu joguei outra, que lhe acertou na têmpora. Quando ele caiu ficou tombado de uma vez e não abriu mais os olhos. Alguns minutos depois chegaram os guardas e viram que o menino estava morto. Tinha oito ou nove anos, mais ou menos a mesma idade que nós. Não sei o que nos teriam feito se nos apanhassem. Seja como for, para não despertar suspeitas corremos para casa. Limpamo-nos um pouco no caminho e penteamos os cabelos. Entramos parecendo quase tão limpos como quando havíamos saído de casa. Tia Caroline deu-nos como de hábito duas grandes fatias de pão de centeio com manteiga fresca e um pouco de açúcar por cima. Sentamo-nos à mesa da cozinha ouvindo-a com um sorriso angelical. Era um dia extremamente quente e ela achou que seria melhor ficarmos em casa, na grande sala da frente onde as persianas tinham sido fechadas, e jogar bolinhas de gude com nosso amiguinho Joey Kasselbaum. Joey tinha a reputação de ser um pouco retardado e geralmente nós o limpávamos, mas naquela tarde, por uma espécie de silencioso entendimento, Gene e eu deixamos que ele ganhasse tudo quanto tínhamos. Joey ficou tão contente que mais tarde nos levou ao porão de sua casa e fez sua irmã erguer o vestido para mostrar-nos o que havia por baixo. Weesie era como a chamavam e lembro-me que gostou de mim instantaneamente. Eu vinha de outra parte da cidade, que lhes parecia tão distante a ponto de ser quase como vir de outro país. Pareciam mesmo pensar que eu falava diferente deles. Enquanto os outros moleques pagavam para Weesie erguer seu vestido, para nós isso era feito por amor. Depois de algum tempo convencemo-la a não fazer mais aquilo para os outros meninos - estávamos amando-a e queríamos que ela fosse direita.

Depois que deixei meu primo no fim do verão, não voltei a vê-lo durante vinte anos ou mais. Quando nos encontramos o que me impressionou profundamente foi o ar de inocência que ele tinha - a mesma expressão do dia da briga a pedradas. Quando lhe falei sobre a briga fiquei ainda mais espantado ao descobrir que ele se esquecera de termos sido nós que havíamos matado o menino. Lembrava-se da morte do menino, mas falava nele como se nem ele nem eu tivéssemos tido qualquer participação. Quando lhe mencionei Weesie teve dificuldade em lembrar-se dela. Não se lembrava do porão da casa vizinha... Joey Kasselbaum? Ao ouvir esse nome um débil sorriso surgiu em seu rosto. Achou extraordinário que eu me lembrasse de tais coisas. Ele já estava casado, era pai e trabalhava em uma fábrica de estojos para cachimbos. Achou extraordinário lembrar acontecimentos que haviam ocorrido em passado tão distante.

Após separar-me dele naquela noite senti-me terrivelmente abatido. Era como se ele tivesse tentado arrancar de minha vida uma parte preciosa e com ela arrancar também a si próprio. Pareceu-me mais apegado aos peixes tropicais que colecionava do que ao maravilhoso passado. Quanto a mim, lembro-me de tudo, de tudo quanto aconteceu naquele verão e particularmente da briga a pedradas. De fato, há ocasiões em que o gosto da grande fatia de pão de centeio que sua mãe me deu naquela tarde é mais forte em minha boca do que o alimento que estou realmente saboreando. E a vista do botaõzinho de Weesie é quase mais forte que o contato real daquilo que tenho na mão. A maneira como o menino ficou lá caído depois que o derrubamos é muito, mas muito mais impressionante que a história da Guerra Mundial. De fato, todo o longo verão parece um idílio saído das lendas do Rei Artur. Às vezes pergunto a mim mesmo o que houve neste determinado verão que o torna tão vívido em minha memória. Basta-me fechar os olhos por um momento para reviver cada um daqueles dias. A morte do menino certamente não me causou angústia - foi esquecida depois de uma semana. A vista de Weesie em pé na penumbra do porão com o vestido erguido também passou facilmente. Por estranho que pareça, a grossa fatia de pão de centeio que sua mãe me dava todo dia parece ter mais potência que qualquer outra imagem daquele período. Pergunto-me por quê... pergunto-me profundamente. Talvez seja porque sempre que me dava a fatia de pão era com uma ternura e uma simpatia que eu nunca antes conhecera. Era uma mulher muito sem graça, minha tia Caroline. Tinha o rosto marcado por bexigas, mas era uma fisionomia bondosa e cativante que nenhuma deformação poderia desfigurar. Era enormemente robusta e tinha uma voz muito macia e muito cariciosa. Quando falava comigo, parecia dedicar-me mais atenção, mais consideração, do que a seu próprio filho. Eu gostaria de ter ficado sempre com ela; eu a teria escolhido para minha mãe se me permitissem. Lembro-me distintamente como minha mãe, quando chegou para uma visita, pareceu agastada pelo fato de eu estar tão contente com minha nova vida. Chegou a observar que eu estava sendo ingrato, observação de que nunca me esqueci, porque percebi então pela primeira vez que ser ingrato era talvez necessário e bom para a gente. Quando cerro os olhos agora e penso naquilo, na fatia de pão, penso quase imediatamente  que naquela casa eu nunca soube o que fosse ser repreendido. Acho que se tivesse contado a tia Caroline que havia matado um menino no parque, se lhe tivesse contado exatamente como acontecera, ter-me-ia abraçado e perdoado - instantaneamente. Por isso talvez aquele verão é tão precioso para mim. Foi um verão de tácita e completa absolvição. É por isso que não posso também esquecer-me de Weesie. Era cheia de bondade natural, uma criança que tinha amor por mim e que não fazia censuras. Foi a primeira pessoa de outro sexo a admirar-me por ser diferente. Depois de Weesie, aconteceu o contrário. Fui amado, mas fui odiado também por ser o que era. Weesie fez um esforço para compreender. O próprio fato de eu vir de um país estranho, de falar outra língua, aproximou-a de mim. A maneira como seus olhos brilhavam quando me apresentava a seus amiguinhos é coisa de que nunca me esquecerei. Seus olhos pareciam estar estourando de amor e admiração. Às vezes nós três íamos passear na beira do rio ao anoitecer e, sentados na margem, falávamos como crianças falam quando estão longe das vistas dos mais velhos. Falávamos então, sei bem disso agora, com mais intimidade e profundidade do que nossos pais. Para dar-nos aquela grossa fatia de pão todo dia os pais tinham se sofrer pesado castigo. O pior castigo era que se tornavam estranhos a nós. Isso porque, a cada fatia que davam, nós nos tornávamos não só mais diferentes a eles, mas também mais e mais superiores a eles. Em nossa ingratidão residia nossa força e nossa beleza. Não sendo devotados éramos inocentes de todo crime. O menino que eu vi cair morto, que lá ficou imóvel, sem soltar o mais leve gemido ou lamúria, a morte daquele menino quase parece uma ação limpa e saudável. A luta pela comida, por outro lado, parece suja e degradante; quando estamos na presença de nossos pais sentimos que eles chegaram a nós sujos e por isso nunca podemos perdoá-los. A grossa fatia de pão à tarde, precisamente porque não era ganha, tinha sabor delicioso. Nunca mais o pão terá esse sabor. Nunca mais será dado desse jeito. No dia do assassínio foi ainda mais saboroso do que nunca. Tinha um ligeiro gosto de terror que vem faltando desde então. E foi recebido com a absolvição tácita mas completa de tia Caroline.



(Trópico de Capricórnio, tradução de Aydano Arruda)




(Ilustração:  João Ruas - beggar)



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