sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

'LEITURA DE MASSA É FOLHETIM', de Ernesto Luiz Maia







Os escritores no Brasil parece que são intermitentes. De repente escrevem muito numa média de um livro por ano e depois somem por um tempo indeterminado. É lógico que nos referimos aos escritores não bissextos, isto é, àqueles que mesmo longe do público permanecem trabalhando e procuram realizar alguma obra. Mas é preciso fazer também um outro esclarecimento porque a palavra escritor está tomada aqui num sentido restrito, excluindo o trabalhador da imprensa que, evidentemente, não está longe do público em ocasião alguma, podendo, quando muito, ficar irreconhecível atrás de um pseudônimo ou do anonimato. Refere-se mais ao romancista, ao poeta e ao novelista.

Desse modo, distanciado dos escritores, o público não sabe muito o que pensar deles. Cada um vai inventando sua própria explicação que à força de não ser contestada termina por se tornar irrevogável. Inventam-se pontos de vista de fulano e de sicrano, agrupam-se pessoas inteiramente à revelia delas, determinam-se "gerações" literárias e influências diversas num esforço de mera explicação pessoal que não tem, frequentemente, o menor valor positivo. E não é só isso. Na interpretação do conjunto literário cada um de nós vai criando um sistema: isso aconteceu porque o escritor ganha pouco; foi assim porque não se pode escrever sem fazer enormes concessões aos editores; porque há necessidade de climas políticos determinados para a literatura; e por aí vai tudo.

Para corroborar cada um desses pontos de vista levantam-se montanhas de "exemplos" e se prova por A mais B que a literatura foi assim e assado porque houve isso e aquilo.

Quase nunca alguém vai procurar saber a opinião dos próprios escritores a respeito.

Mas há outros fatos também.

Fica-se dizendo que o romancista A é mais popular do que o romancista B e não se cuida ao menos de fixar um conceito sobre o que é popular ou sobre o que deixa de ser.

Para explicar a falta de penetração de muitos escritores na massa vai-se dizendo que é porque eles escrevem sobre misérias de que o pobre está farto. Cada um vem dar a última palavra e ora o analfabetismo, ora a falta de instrução, às vezes o preço dos livros, encontram maior número de adeptos.

E raramente são os próprios escritores (no sentido em que se toma aqui) que dizem o que acham a respeito. Dizem uma vez ou outra, pela boca de uma personagem sua ou num artigo ou entrevista. Mas como as personagens não estão defendendo teses, os artigos são raros e as reportagens difíceis de fazer, vai ficando tudo assim.

Foi por isso que o repórter pensou em entrevistar um escritor representativo para inquiri-lo sobre esses aspectos todos e mais outros. Mas para isso era preciso procurar um escritor e conseguir dele essas respostas todas ou, pelo menos, parte, que mais vale pouco do que nada. O caso é que o repórter não conhecia escritor nenhum e além disso nunca tinha feito reportagem. E se ele quisesse entrevistar um literato qualquer era muito fácil, porque podia ir à Academia e procurar um canastrão aposentado dos que lá existem, doidos por uma entrevistazinha, ou um político manhoso amante do fardão.

Mas o que interessava era saber alguma coisa vinda de alguém que se preocupe com o povo, em cogitar se conseguiu ou não identificar-se com a massa e ser lido por ela.

Foi por isso que a escolha recaiu em Graciliano Ramos. Basta olhar seus romances para ver que ele está com o povo. E quem achar que isso é muito abstrato procure concretização num célebre relatório que ele fez.

O repórter foi, na companhia de um amigo comum, procurar o autor de São Bernardo e fez o possível para fazê-lo falar. Mas Graciliano parece que não gosta de ser entrevistado e pergunta muito mais do que responde. Começou dizendo que não havia motivo que justificasse aquilo e, mesmo depois de aceder, aproveitou todas as ocasiões para despistar e fugir do assunto. E não foi só: muitas vezes falava mas dizia ao repórter que não podia publicar o que estava ouvindo. Foi, portanto, difícil a entrevista. E se não foi, vejamos:

- Pode alguém, no Brasil, viver exclusivamente de escrever?

- Os tabeliães estão aí...

- Bem, eu sei que o Olegário continua vivo... Mas se deixarmos de lado o reconhecimento de firmas e o registro de contratos, o senhor acredita que alguém possa viver como escritor?

- Os jornalistas...

- Quer dizer, então, que podemos falar de uma classe de escritores profissionalmente definida?

- Classe?!!! O que chama você de "classe" de escritores profissionalmente definida? O termo não cabe aqui, mesmo porque enquanto uns literatos servem a uma classe, outros servem a outra (o repórter pensou no Tristão como um tipo e no Jorge Amado como outro). Há escritores e nada mais.

- E eles podem encontrar editores sem fazer concessões?

- Os editores não influem. Pode ser que outros fatores muito mais positivos coajam o escritor, mas os editores não. Nunca tive de mudar qualquer trecho de livro porque um editor pedisse. É verdade, porém, que nunca andei atrás de editor para livro meu. Se andasse talvez aparecesse alguma exigência. Mas não conheço nenhum exemplo. Não, os editores não influenciam absolutamente.

Evidentemente, o repórter estava infeliz: depois de uma "blague", uma correção e, depois de uma correção, uma negativa. Era melhor mudar de assunto e arriscar ver se Graciliano acreditava na existência de escritores populares no Brasil.

- Não acredito não. Acho que as massas, as camadas populares, não foram atingidas e que nossos escritores só alcançaram o pequeno burguês. Por quê? Porque a massa é muito nebulosa, é difícil interpretá-la, saber de que ela gosta. Além disso, os escritores, se não são classe, estão em uma classe, que não é, evidentemente, a operária. E do mesmo jeito que não puderam penetrar no povo, não podem dizer o motivo pelo qual não conseguiram isso. Somente um inquérito entre o próprio povo poderia dizer dos motivos, e eis aí ótimo tema para uma investigação. Talvez seja isso mesmo: talvez porque um escritor não sente os problemas como o povo, este não o deixe penetrar nele.

- E o que diria o senhor sobre a questão de tema e tratamento? Eu me explico: será o assunto que afasta o escritor da massa ou o êxito depende muito mais do modo como foi escrito?

- Acho que não é o tema que tem a maior importância. A miséria, por exemplo, pode não dar a quem a trata a mesma impressão que naquele que a sofre.

- Nesse caso porque não foi tratada objetivamente...

- Até pelo contrário. Objetivamente ela pode ter sido. O objeto, a coisa, não está ali dentro do livro? Justamente o que desafinou foi a parte subjetiva. E sem ela não pode haver obra alguma, porque qualquer um só pode escrever o que sente e não o que os outros estão sentindo ou poderiam sentir.

- Somente um proletário pode escrever efetivamente para o proletário?

- Sim. Um burguês só pode fazer contrafação quando trata um tema proletário. Mas eu já lhe disse que o porquê da coisa somente o próprio povo poderia dizer. Como iria eu dizer por que um operário não gosta de um livro, se não sou operário? O que nossos escritores podem alcançar é a pequena burguesia.

- Mas então é lógico que se não foi o tema, foi o tratamento que afastou o povo. É porque as camadas desfavorecidas (com eufemismo e tudo) não têm, ainda, uma instrução suficiente para apreciar uma literatura melhor, admitindo-se, a priori, que o escritor seja bom.

- Você não vai querer dizer com isso que o escritor passe a escrever mal... Ou vai?

- De modo algum, é claro. Mas eu pergunto, então, se o senhor acha que um gênero, uma escola, influi. Se a poesia, por exemplo, tem mais possibilidades do que o romance, entre o povo, ou se é o teatro que reúne maiores condições de êxito.

- Nas massas iletradas, o romantismo é de mais fácil êxito. Mas o que vigora mesmo é o folhetim, que a massa vai aceitando como entorpecente... Olhe bem, eu não estou citando ninguém... Mas o fato é este: o que se lê entre a massa é o folhetim.



(Entrevista de 1944, publicada em OESP/Sabático, 20 de outubro de 2012)


(Ilustração: Paul Cadmus)



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