sábado, 2 de julho de 2011

COMPARTILHANDO LEITURAS: MÁRIO DE ANDRADE, de Tatiana Carlotti






Estou me deliciando com Amar, Verbo Intransitivo do Mário de Andrade escrito nos anos 20 do século passado.

Vejam que pérola a cena abaixo e a forma como ele descreve a masturbação de um garoto a partir de palavras que embaralham o léxico do sagrado e do profano. Eis um abraço prá lá de gostoso de conceitos culturalmente opostos (e sacanamente complementares):

Baixam rápidos do Empíreo os anjos do Senhor, asas, muitas asas. Tatalam produzindo brisa fria que refrigera as carnes exasperadas do menino. As massagens das mãos angélicas pouco a pouco lhe relaxam os músculos espetados, Carlos se larga todo em beata prostração. Os anjos roçam pela epiderme dele esponjas celestiais. Essas esponjas apagam tudo, sensações estranhas, ardências e mesmo qualquer prova de delito. Na alma e no corpo. Ele não fez por mal! São coisas que acontecem. Porém, apesar de sozinho, Carlos encafifou.

Acham muita graça nisso os anjos, lhe passando nos olhos aquela pomada que deixa seres e vida tal-e-qual a gente quer.


São Rafael nos Céus escreve:


Nº 9.877.524.953.407:


Carlos Alberto Sousa Costa.

Nacionalidade: brasileiro

Estado social: solteiro

Idade: Quinze (15) anos.

Profissão: (um tracinho)
Intenções: (um tracinho)
Observações extraordinárias: (um tracinho)
“REGISTRO DO AMOR SINCERO”

Agora pensem comigo no alcance destas palavras - e assim é porque são palavras e tudo podem - ao nos fazer sentir o roçar de esponjas celestiais? E o que dizer desta pomada nos olhos? Uma pomada de puro prazer, capaz de fazer seres e vida tal-e-qual a gente quer? Duvido que exista esta pomada no mercado...

E quem nunca preencheu o Registro do amor sincero pelo menos uma vez na vida? Vejam como a literatura é generosa. Uma simples imagem e somos levados a buscar o amor sincero. Evocar experiências para compreender este garoto de 15 anos.

Trata-se de uma ponte entre nós e este outro chamado personagem. Este ser que surge e nos clama a energia, o cheiro, a cor, as delícias e angústias que guardamos para compor uma imagem. Claro que podemos ler isso tudo rápido e pular para outra página. Mas se formos lentos e curiosos, se nos permitirmos tempo e o direito de imaginar, quanta coisa está em jogo...

A delícia, na minha modesta visão, da leitura de ficção é que a imagem não vem pronta. Somos nós que a construímos a partir da sugestão do autor. A minha pomada, por exemplo, é diferente da dele e também da sua. As asas dos meus anjos idem. E há tanta liberdade nisto... Exatamente nisto! Fosse um filme, por exemplo, as asas já seriam dadas. Eu as veria prontas! Não poderia colocar nenhuma penugem a mais ou a menos... Sem falar que as palavras tudo podem. Inclusive o roçar profano de esponjas prá lá de celestiais na carne de um garoto com um registro que é pura doçura no livro do céu.

Enfim, um parênteses de encantamento pela leitura de ficção. Sem grandes elucubrações, apenas registro deste amor sincero, permeado de prazer.

(Ilustração: Anthony Christian – Mars and Venus)

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