sábado, 16 de julho de 2011

AMAR, VERBO INTRANSITIVO, de Mário de Andrade






Pancadas na porta de Fräulein. Virou assustada, resguardando o peito. Abotoava a blusa:


— Quem é?


— Sou eu, Fräulein. Queria lhe falar. Abriu a porta e dona Laura entrou.


— Queria lhe falar. Um pouco...


— Estou às suas ordens, minha senhora.


Esperou. Dona Laura respirava muito nervosa, não sabendo principiar.


— É por causa do Carlos...


— Ah... Sente-se.


— Não vê que eu vinha lhe pedir, Fräulein, pra deixar a nossa casa. Acredite: isto me custa muito porque já estava muito acostumada com você e não faço má idéia de si, não pense! mas... Creio que já percebeu o jeito de Carlos... ele é tão criança!... Pelo seu lado, Fräulein, fico inteiramente descansada... Porém esses rapazes... Carlos...


— Já vejo que o senhor seu marido não lhe disse o que vim fazer aqui.


Dona Laura teve uma tontona, escancarou olhos parados:


— Não!


— É lamentável, minha senhora, o procedimento do senhor seu marido, evitaria esta explicação desagradável. Pra mim. Creio que pra senhora também. Mas é melhor chamar o seu marido. Ou quer que desçamos pro hol?


Foram encontrar Sousa Costa na biblioteca. Ele tirou os olhos da carta, ergueu a caneta, vendo elas entrarem.


— O senhor me prometeu contar a sua esposa a razão da minha presença aqui. Lamento profundamente que o não tenha feito, senhor Sousa Costa.


Sousa Costa encafifou, desacochado por se ver colhido em falta. Riscou uma desculpa sem inteligência:


— Queira desculpar, Fräulein. Vivo tão atribulado com os meus negócios! Demais: isso é uma coisa de tão pouca importância!... Laura, Fräulein tem o meu consentimento. Você sabe: hoje esses mocinhos... é tão perigoso! Podem cair nas mãos de alguma exploradora! A cidade... é uma invasão de aventureiras agora! Como nunca teve!. COMO NUNCA TEVE, Laura... Depois isso de principiar... é tão perigoso! Você compreende: uma pessoa especial evita muitas coisas. E viciadas! Não é só bebida não! Hoje não tem mulher-da-vida que não seja eterômana, usam morfina... E os moços imitam! Depois as doenças!... Você vive na sua casa, não sabe... é um horror! Em pouco tempo Carlos estava sifilítico e outras coisas horríveis, um perdido! É o que eu te digo, Laura, um perdido! Você compreende... meu dever é salvar o nosso filho... Por isso! Fräulein prepara o rapaz. E evitamos quem sabe? até um desastre!... UM DESASTRE!


Repetia o "desastre" satisfeito por ter chegado ao fim da explicação. Passeava de canto a canto. Assim se fingem as cóleras, e os machos se impõem, enganando a própria vergonha. Dona Laura sentara numa poltrona, maravilhada. Compreendia! Porém não juro que compreendesse tudo não. Aliás isso nem convinha pra que pudesse ceder logo. Fräulein é que estava indignada. Que diabo! atos da vida não é arte expressionista, que pode ser nebulosa ou sintética. Não percebera bem a claridade latina daquela explicação. O método germanicamente dela e didática habilidade no agir, não admitiam tal fumarada de palavras desconexas. Aquelas frases sem dicionário nem gramática irritaram-na inda mais. Queria, exigia sujeito verbo e complemento. Só uma coisa julgara perceber naquele ingranzéu, e,
engraçado! Justamente o que Sousa Costa pensava, mas não tivera a intenção de falar: pagavam só pra que ela se sujeitasse às primeiras fomes amorosas do rapaz. Este circunlóquio das "fomes amorosas" fica muito bem aqui. Evita o "libido" da nomenclatura psicanalista, antipático, vago masculino, e de duvidosa compreensão leitoril. As fomes amorosas são muito mais expressivas e não fazem mal pra ninguém. Isto é: vir na casa de Sousa Costa unicamente pra se sujeitar às tais de Carlos, o homem-do-sonho de dentro de Fräulein vê nisso um insulto, dá uns urros e principia chorando. Sem um gesto, bem plantadinha nos pés, com a nobreza que a indignação nunca negou ninguém, Fräulein discursa:


— Não é bem isso, minha senhora (Se dirigia a dona Laura, porque o homem-da-vida estava um pouco amedrontado com os modos de Sousa Costa. E também, sejamos francos, isto é, parece... será que conservava uma esperancinha? Aquilo ainda podia se arranjar... Homem! ninguém o saberá jamais...) Não é bem isso, minha senhora. Não sou nenhuma sem-vergonha nem interesseira! Estou no exercício duma profissão. E tão nobre como as outras. É certo que o senhor Sousa Costa me tomou pra que viesse ensinar a Carlos o que é o amor e evitar assim muitos perigos, se ele fosse obrigado a aprender lá fora. Mas não estou aqui apenas como quem se vende, isso é uma vergonha!


— Mas Fräulein não tive a intenção de!


—... que se vende! Não! Se infelizmente não sou mais nenhuma virgem, também não sou... não sou nenhuma perdida.


Lhe inchavam os olhos duas lágrimas de verdade. Não rolavam ainda e já lhe molhavam a fala:


—... E o amor não é só o que o senhor Sousa Costa pensa. Vim ensinar o amor como deve ser. Isso é que eu pretendo, pretendia ensinar pra Carlos. O amor sincero, elevado, cheio de senso prático, sem loucuras. Hoje, minha senhora, isso está se tornando uma necessidade desde que a filosofia invadiu o terreno do amor! Tudo o que há de pessimismo pela sociedade de agora!


Estão se animalizando cada vez mais. Pela influência às vezes até indireta de Schopenhauer, de Nietzsche... embora sejam alemães. Amor puro, sincero, união inteligente de duas pessoas, compreensão mútua. E um futuro de paz conseguido pela coragem de aceitar o presente.


Rosto polido por lágrimas saudosas, quem vira Fräulein chorar!... —... É isso que eu vim ensinar pra seu filho, minha senhora. Criar um lar sagrado! Onde é que a gente encontra isso agora?


Parou arfando. "Lar sagrado" lhe fizera resplandecer o castanho dos olhos num lumeiro de anseios. Se aproximava da santa sob a figura enérgica da enfermeira. Mas convicção protestante, nobilíssima não discuto, porém sem a latinidade que dá graça e objetiva o calor da beleza sensual. Lembrou, ainda outra vez indignada:


— Foi isso que vim ensinar a seu filho e não: me entregar! Mas vejo que sou tomada por outra mulher aqui. Deixarei a sua casa amanhã mesmo, minha senhora. E penso que não tem mais nada pra me dizer?...


É certo que Fräulein tinha esclarecido muito o que viera fazer na casa deles, porém dona Laura que tinha percebido tudo com a explicação de Felisberto, agora não compreendia mais nada. Afinal: o que era mesmo que Fräulein estava fazendo na casa dela!


Fräulein esperou um segundo. Nada tinham para lhe falar aqueles dois. Cumprimentou e saiu. Subiu pro quarto. Fechou-se. Tirou o casaco. O pensamento forte imobilizou-a. Comprimiu o seio com a mão, ao mesmo tempo que amarfanhava-lhe a cara uma dor vigorosa, incompreendida assim! Mas foi um minuto apenas, dominou-se. Tinha que despir-se. Continuou se despindo. E Carlos?... Minuto apenas. Varreu o carinho. Prendeu com atenção os cabelos. Lavou o rosto. Se deitou. Um momento no escuro, os olhos inda pestanejaram pensativos. Não nada com isso: haviam de lhe pagar os oito contos. Mas agora tinha que dormir, dormiu.




(Amar, Verbo Intransitivo)


(Ilustração:  Ernst Ludwig Kirchner - Autoritratto da soldato -Self-Portrait as Soldier)


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