terça-feira, 22 de outubro de 2019
UMA NOITE DE MÚSICA, de Isaac Asimov
Tenho um amigo que insinua, às vezes, que é capaz de conjurar espíritos do além.
Ou pelo menos um espírito. Um espírito pequeno, com poderes limitados. Na verdade, ele só fala a respeito depois do quarto uísque com soda. É um equilíbrio delicado: com três drinques, não sabe nada a respeito de espíritos; com cinco ele pega no sono.
Naquela noite, achei que ele estava bem no ponto, de modo que puxei o assunto:
— Você se lembra daquele espírito seu amigo, George?
— Hein? — disse George, olhando para o seu drinque como se não soubesse do que eu estava falando.
— Aquele pequeno espírito de dois centímetros de altura, que uma vez você disse que era capaz de chamar na hora que quisesse. Aquele que possui poderes paranormais.
— Ah! — exclamou George. — Está falando de Azazel! é o nome dele, é claro. Não seria capaz de pronunciar o nome verdadeiro. É por isso que o chamo de Azazel. Sim, eu me lembro.
— Você recorre muito a ele?
— Não. É perigoso. Muito perigoso. Há sempre a tentação de brincar com o poder. Sou muito cauteloso com isso.
— Sabe, tenho altos padrões morais. Foi por isso que me senti na obrigação de ajudar um amigo em dificuldades. Foi grande erro! Não gosto nem de pensar...
— Que aconteceu?
— Acho que estou mesmo precisando desabafar com alguém — disse George, pensativo. — Talvez isso faça com que eu me sinta melhor...
Eu era bem mais moço [disse George], e naquele tempo as mulheres eram uma parte importante da vida dos homens. Parece tolice agora, mas me lembro nitidamente de pensar, naquela época, que não me interessaria por qualquer mulher.
Hoje em dia, a gente fica com a que aparecer, não faz muita diferença, mas naquele tempo...
Eu tinha um amigo chamado Mortenson. Andrew Mortenson. Acho que você não o conhece. Há anos que não o vejo.
Acontece que Mortenson estava caído por uma mulher, uma mulher em particular. Ela era um anjo, dizia meu amigo. Não podia viver sem ela. Era um ser único no universo. Você sabe como falam as pessoas apaixonadas.
O problema é que ela o havia deixado, e de uma forma particularmente cruel e humilhante. Começara um namoro com outro homem bem na frente dele, estalando os dedos na cara dele e rindo impiedosamente das lágrimas dele.
Não estou falando de forma literal. Estou apenas tentando transmitir a impressão que ele me causou. Estava aqui sentado, bebendo comigo, neste mesmo bar. Fiquei com muita pena e disse para ele:
— Sinto muito, Mortenson, mas você não deve se deixar abalar desse jeito. Quando puder pensar com clareza, verá que ela é apenas uma mulher. Se olhar para a calçada, verá centenas como ela.
Ele protestou, com amargura:
— De agora em diante, meu amigo, não quero saber mais de mulheres..., com exceção, é claro, da minha esposa, que de vez em quando não consigo evitar. Só que eu gostaria de fazer alguma coisa para ela.
— Para sua mulher? — perguntei.
— Não, não, por que eu estaria querendo fazer alguma coisa para minha esposa? Estou falando daquela mulher que me tratou de forma tão impiedosa.
— O que você faria com ela?
— Sei lá...
— Talvez eu esteja em condições de ajudá-lo — disse eu, ainda com pena do meu amigo. — Posso recorrer a um espírito com poderes extraordinários. Um espírito pequeno, é claro — mostrei-lhe o polegar e indicador, separados por uma distância de uns dois centímetros, para ter certeza de que estava me entendendo —, que também tem suas limitações.
Contei-lhe a respeito de Azazel e ele, é claro, acreditou. Já reparei que quando conto uma história, todos acreditam em mim. Agora quando você conta uma história, amigo velho, o ar de incredulidade que paira sobre a sala é de dar gosto.
Nada como uma reputação de probidade e um ar de decência.
Quando lhe contei sobre Azazel, seus olhos brilharam. Perguntou-me se ele poderia fazer alguma coisa para a ex-namorada.
— Depende do que for, amigo velho. Espero que não esteja pensando em algo como fazê-la cheirar mal ou cuspir um sapo toda vez que tentar falar.
— Claro que não! — protestou, indignado. — Quem pensa que sou? Ela me deu dois anos de felicidade e quero recompensá-la. Você disse que os poderes do seu espírito são limitados?
— Ele é deste tamaninho — disse eu, mostrando de novo o polegar e o indicador.
— Poderia dar a ela uma voz perfeita? Nem que fosse temporariamente? Nem que fosse para uma única apresentação?
— Vou perguntar a ele.
A proposta de Mortenson parecia muito cavalheiresca. Sua ex-namorada cantava na igreja. Naquela época, eu tinha um bom ouvido e costumava frequentar a mesma igreja (mantendo distância da caixa de oferendas, é claro). Gostava de ouvi-la cantar e acho que os outros fiéis também. Talvez a sua conduta moral não estivesse de acordo com o ambiente, mas Mortenson me explicou que, no caso de sopranos, eles estavam dispostos a ser bastante compreensivos.
De modo que consultei Azazel. Estava ansioso para ajudar. Nada daquelas bobagens de exigir minha alma em troca. Lembro-me de que uma vez perguntei a Azazel se ele queria minha alma e ele me perguntou o que era alma. Não soube o que responder. Acontece que ele é um ser insignificante em seu próprio universo e se sente muito importante podendo fazer coisas grandiosas no nosso universo. Ele gosta de ajudar.
Azazel me disse que poderia fazer com que ela cantasse com perfeição durante três horas. Contei a Mortenson, e ele me disse que estava ótimo. Escolhemos uma noite em que ela estaria cantando Bach, Haendel ou outro daqueles velhos batucadores de piano, e daria um solo longo e difícil.
Mortenson foi à igreja naquela noite e, naturalmente, eu fui também. Sentia-me responsável pelo que estava para acontecer e achei que era melhor ver a situação de perto.
Mortenson me disse, em tom sombrio:
— Assisti aos ensaios. Ela estava cantando da mesma maneira que antes. Você sabe, como se tivesse um rabo e estivesse pisando nele.
Não era assim que costumava descrever a voz da moça. A música das esferas, era como se referira a ela em várias ocasiões. Daí para mais. Naturalmente, ele tinha sido passado para trás, o que pode distorcer o senso crítico de um homem.
Olhei-o com ar de censura.
— Isso não é jeito de falar de uma mulher a quem você está prestes a oferecer um grande presente.
— Aí é que está. Quero que a voz dela seja perfeita. Simplesmente perfeita. E agora compreendo, agora que meus olhos estão livres do manto diáfano do amor que os cobria, que a voz dela está longe da perfeição. Acha que seu amigo pode fazer isso para mim?
— A mudança vai ocorrer exatamente às 8:15 da noite. — Senti uma ponta de suspeita. — Você não estava pretendendo usar a perfeição no ensaio para depois desapontar a audiência?
— De jeito nenhum — disse ele.
A coisa começou antes da hora, e quando ela se levantou para cantar, toda vestida de branco, eram 8:14 pelo meu velho relógio de bolso, que nunca está errado mais que dois segundos. Ela não era um daqueles sopranos raquíticos; pelo contrário, tinha um físico avantajado, com muito espaço interno para conseguir aquele tipo de ressonância que se torna necessário para sustentar uma nota aguda sem se deixar abafar pela orquestra. Quando inspirou profundamente para dar o primeiro agudo, pude ver o que Mortenson via nela, mesmo descontando as várias camadas de tecido.
Ela começou a cantar normalmente, mas, exatamente às 8:15, foi como se uma segunda voz tivesse entrado em cena. Vi quando num leve sobressalto, como se não acreditasse no que estava acontecendo, a mão, que estava na altura do diafragma, começou a tremer.
A voz aumentou de volume. Era como se tivesse se transformado em um órgão. As notas eram perfeitas, límpidas, irretocáveis. Diante delas, todas as notas anteriores pareciam imitações grosseiras.
Cada nota era emitida com o vibrato correto, se é esta a palavra, aumentando ou diminuindo de intensidade com um controle perfeito da emissão.
E ela melhorava a cada nota. O organista não estava olhando mais para a partitura, e sim para ela, e não posso jurar, mas acho que parou de tocar. Mesmo que estivesse tocando, ninguém notaria. Ninguém ouviria nenhum outro som enquanto ela estivesse cantando.
O olhar de surpresa desapareceu do rosto da moça e foi substituído por uma expressão de júbilo. Ela também pôs de lado a partitura que estava segurando; não precisava mais dela. Cantava sem nenhum esforço, sem pensar no que estava fazendo. O maestro estava paralisado, e os membros do coro pareciam atônitos.
Afinal, o solo acabou e o coro começou a cantar de forma tímida, titubeante, como se estivessem com vergonha de que suas vozes fossem ouvidas na mesma igreja e na mesma noite.
O resto do programa foi todo dela. Quando cantava, era a única a ser ouvida, mesmo que o coro e a orquestra a estivessem acompanhando. Quando calava, era como se estivéssemos no escuro e não pudéssemos suportar a ausência da luz.
E quando a audição terminou... eu sei que não é costume aplaudir na igreja, mas todo mundo bateu palmas. Todos se puseram de pé como se fossem marionetes e aplaudiram freneticamente. Era evidente que continuariam aplaudindo até que ela cantasse de novo.
Ela cantou de novo; desta vez, sozinha, acompanhada apenas pelo órgão e iluminada pelo projetor de luz. O coro tinha desaparecido.
Cantava sem nenhum esforço. Era impressionante. Tento observar sua respiração, surpreendê-la tomando fôlego, descobrir quanto tempo conseguiria sustentar uma nota a todo volume com apenas um par de pulmões para fornecer o ar.
Mas não podia durar para sempre, e não durou. Até os aplausos cessaram. Só então me dei conta de que, ao meu lado, Mortenson parecia estar em transe, com os olhos fixos, todo o seu ser concentrado no sentido da audição. Só então comecei a compreender o que havia acontecido.
Afinal de contas, sou uma pessoa reta, sem nenhuma malícia, de modo que posso ser desculpado por não perceber qual era a intenção real de meu amigo. Você, por outro lado, um tipo tão tortuoso que é capaz de subir uma escada em espiral sem virar o corpo, já deve saber há muito tempo o que ele pretendia.
A ex-namorada havia cantado com perfeição... mas nunca mais seria capaz de repetir a façanha.
Era como se fosse cega de nascença e de repente, por apenas três horas, fosse capaz de ver. Ver tudo que existe para ver, todas as cores, formas e maravilhas que nos cercam e que não nos despertam a atenção porque já estamos acostumados. Suponha que você pudesse ver tudo que existe durante três horas... e depois ficasse cego outra vez!
É relativamente fácil suportar a cegueira se você nunca enxergou. Mas saber por alguns instantes o que é ver e depois ficar cego de novo? Ninguém suportaria isso.
Aquela mulher nunca mais tornou a cantar, naturalmente. Mas isso é apenas parte da história. A tragédia real foi para nós, para a plateia.
Tivemos uma música perfeita durante três horas. Uma música perfeita. Acha que desse dia em diante podemos nos contentar com menos que isso?
Até hoje, meus ouvidos se recusam a ouvir música. Recentemente, fui a um desses festivais de rock, que estão tão na moda, só para experimentar. Você não vai acreditar, mas não consegui distinguir uma nota musical. Para mim, era apenas ruído.
Meu único consolo é que Mortenson, que escutou com mais ansiedade e concentração do que todo mundo, foi a pessoa mais atingida da plateia. Ele passa o tempo todo usando tampões nos ouvidos. Qualquer som o deixa nervoso.
Bem feito!
(Azazel; tradução de Ronaldo Sérgio de Biasi)
(Ilustração: Pierre Auguste Renoir - Yvonne et Christine Lerolle au piano)
Marcadores:
Isaac Asimov - Uma noite de música
sábado, 19 de outubro de 2019
TO NATURE / À NATUREZA, de Samuel Taylor Coleridge
It may indeed be phantasy, when I
Essay to draw from all created things
Deep, heartfelt, inward joy that closely clings;
And trace in leaves and flowers that round me lie
Lessons of love and earnest piety.
So let it be; and if the wild world rings
In mock of this belief, it brings
Nor fear, nor grief, nor vain perplexity.
So will I build my altar in the fields,
And the blue sky my fretted dome shall be,
And the sweet fragrance that the wild flower yields
Shall be the incense I will yield to thee,
Thee only God! and thou shalt not despise
Even me, the priest of this poor sacrifice.
Tradução de Ricardo Sobreira:
Talvez seria phantasia achar
Que eu posso ver em todo ser vivente
Um gozo imo, cordial e comovente;
E nestas folhas e flores traçar
Lições de amor e de franca piedade.
Que assim seja; e se o mundo maldizente
Ri desta crença, isso sinceramente
Não traz nem temor nem perplexidade.
Nos campos farei meu altar então,
E o teto será o azul celestial,
E da mais doce flor a exalação
Será um incenso a ti deste mortal;
E não desprezarás a mim, Senhor!
Que do sacrifício sou o pobre autor.
(Ilustração: Camille-Pissarro - The Pond at Montfoucault)
Marcadores:
Samuel Taylor Coleridge - To nature / À natureza
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
NASCENDO DE NOVO, de Salman Rushdie
"Para nascer de novo", cantava Gibreel Farishta despencando do céu, preciso morrer primeiro. Ho ji! Ho ji! Para pousar no seio da terra, é preciso voar primeiro. Tat-taa! Taka-thun! Como sorrir de novo, se não se chorou primeiro? Como conquistar o coração da amada, mister, sem um suspiro? Baba, se você quer nascer de novo..." Pouco antes do amanhecer de uma manhã de inverno, no dia de Ano-Novo, ou por aí, dois homens de verdade, adultos, vivos, caíram de grande altura, vinte e nove mil e dois pés, em direção ao canal da Mancha, sem a garantia de paraquedas nem de asas, caíram do céu limpo.
"Tem de morrer, estou dizendo, tem de morrer, tem de morrer", e assim foi, sob uma lua de alabastro, até que um grito alto atravessou a noite: "Pro inferno com essa música", as palavras suspensas, cristalinas, na branca noite gelada. "Nos filmes você usava playback e só mexia a boca, portanto me poupe desse barulho infernal."
Gibreel, o solista desafinado, brincava ao luar, cantando seu gazal improvisado, nadando no ar, borboleta, de peito, se enrolava numa bola, abria braços e pernas no quase-infinito do quase alvorecer, adotava posturas heráldicas, rampante, agachado, opondo leveza à gravidade. Ele rolou, feliz, na direção da voz sardônica. "Alô-alô, Salad baba, é você, que bom. Que tal, Chumch?" Ao que o outro, uma sombra meticulosa caindo de cabeça, o terno cinzento com todos os botões do paletó abotoados, braços colados ao corpo, confiante na improbabilidade do chapéu-coco na cabeça, fez uma careta de quem não gosta de apelidos. "E aí, Spoono", Gibreel gritou, provocando uma segunda careta de ponta-cabeça, "A Própria Londres, bhai! Lá vamos nós! Aqueles filhos da puta lá embaixo não vão nem saber o que foi que caiu em cima deles. Se foi meteoro ou raio ou a ira de Deus. Saído do nada, baby. Drrraaammm! Rrram, na? Que chegada, yaar. É ou não é: splat."
Saindo do nada: um big bang, seguido de estrelas cadentes. Um começo universal, um eco em miniatura do nascer do tempo... o jato jumbo Bostan, voo AI-420, desintegrou-se sem aviso prévio, muito acima da grande, podre, bela, branca de neve, iluminada cidade, Mahagonny, Babilônia, Alphaville. Mas Gibreel já a batizou, não devo interferir: Própria Londres, capital de Vilayet, cintilando, piscando, acenando na noite. Enquanto nas alturas himalaias um sol breve e prematuro explodia no ar empoeirado de janeiro, um bip desaparecia das telas de radar, e o ar rarefeito se enchia de corpos, despencando do Evereste da catástrofe para a palidez leitosa do mar.
Quem sou eu?
Quem mais está aí?
A aeronave partiu-se em dois, como uma vagem cuspindo sementes, como um ovo que revela seu mistério. Dois atores, o irrequieto Gibreel e o abotoado, carrancudo Mr. Saladin Chamcha, caíam como farelos de tabaco de dentro de um velho charuto partido. Acima, atrás, abaixo deles no vazio, poltronas reclináveis, fones de ouvido estereofônicos, carrinhos de bebidas, saquinhos para enjoo, cartões de embarque, videogames do free shop, toucas, copos de papel, cobertores, máscaras de oxigênio. Além disso — pois havia mais do que uns poucos migrantes a bordo, sim, uma boa quantidade de esposas que tinham sido interrogadas por razoáveis, aplicados funcionários sobre o tamanho e as pintas da genitália dos maridos, um bom número de crianças cuja legitimidade o governo britânico colocava em mui compreensível dúvida — misturados aos restos do avião, igualmente fragmentados, igualmente absurdos, flutuavam fragmentos de alma, memórias partidas, eus degradados, línguas pátrias cortadas, privacidades violadas, piadas intraduzíveis, futuros extintos, amores perdidos, sentidos esquecidos de palavras ocas e sonoras, terra, vínculo, lar. Um pouco tontos por causa da explosão, Gibreel e Saladin caíam como trouxas derrubadas pelo bico aberto de uma cegonha descuidada, e como Chamcha estava caindo de cabeça para baixo, na posição recomendada para os bebês que penetram no canal de parto, começou a sentir uma surda irritação pela recusa do outro em cair do jeito normal. Saladin mergulhava de cabeça enquanto Farishta abraçava o ar com pernas e braços, um ator excessivo, exagerado, sem nenhuma técnica de contenção. Lá embaixo, cobertas de nuvens, esperando a entrada deles, as correntes congeladas do canal da Mancha, área escolhida para sua reencarnação aquática.
"Oh, meu sapato é japonês", Gibreel cantava, traduzindo a velha canção para o inglês, em deferência semiconsciente à nação hospedeira que se aproximava depressa, "este meu terno é bem inglês. Meu chapéu russo é vermelho, mas eu sou indiano, meu velho." As nuvens borbulhavam na direção deles, e talvez por causa da grande mistificação de cúmulos e cúmulos-nimbos, poderosos focos de trovão eretos como martelos no alvorecer, ou talvez por causa da cantoria (um aplicado no desempenho, o outro vaiando o desempenho), ou por causa do delírio da explosão que lhes poupava a previsão do iminente... pela razão que fosse, os dois homens, Gibreelsaladin Farishtachamcha, condenados a essa infindável, mas também finita queda angélicodivina, não se deram conta do momento em que os seus processos de transmutação começaram.
Mutação?
Simssenhor, mas não ao acaso. Lá em cima, no ar-espaço, naquele campo macio, imperceptível, que o século tornou possível, e que, desde então, tornou o século possível, transformando-se numa de suas locações definidoras, campo de movimento e guerra, redutor do planeta e vácuo de poder, mais insegura e transitória das zonas, ilusória, descontínua, metamórfica — porque quando se joga alguma coisa para o ar qualquer coisa passa a ser possível — láemcima, ocorreram nos delirantes atores mudanças que alegrariam o coração do velho Lamarck: sob pressão ambiental extrema, adquirem-se características.
Que características quais? Calma; está pensando que a Criação é coisa rápida? Então, a revelação também não... dê uma olhada nos dois. Está notando alguma coisa estranha? São só dois homens escuros, caindo depressa, nada de novo aí, você pode achar; subiram alto demais, acima de si mesmos, voaram perto demais do Sol, é isso?
Não é. Escute só: Mr. Saladin Chamcha, horrorizado com os ruídos que emanavam da boca de Gibreel Farishta, reagiu com versos próprios. O que Farishta escutou flutuando pelo improvável céu noturno foi uma canção velha também, letra de Mr. James Thomson, mil setecentos a mil setecentos e quarenta e oito."... por ordem do Céu", Chamcha cantarolou com lábios jingoisticamente vermelhobrancoazuis por causa do frio, "surgiiiiiu da aaaazul imensidão".
Farishta, horrorizado, cantou mais e mais alto os sapatos japoneses, os chapéus russos, os corações subcontinentais inviolados, mas não conseguiu silenciar o louco recital de Saladin: "e os anjos da guaaaaarda cantaram a missão".
Vamos encarar os fatos: era impossível um ouvir o outro, muito menos conversar e mesmo ainda competir, assim, cantando. Acelerando na direção do planeta, a atmosfera rugindo à sua volta, como poderiam? Mas encaremos também este fato: eles conseguiram.
Caindocaindo iam eles, e o vento de inverno que lhes congelava os cílios e ameaçava congelar seus corações estava a ponto de despertá-los daquele delírio sonhado, os dois estavam a ponto de tomar consciência do milagre do canto, da chuva de membros e de bebês de que faziam parte, e do terror do destino que se precipitava para eles, vindo lá de baixo, quando mergulharam na fervura a zero grau das nuvens e ficaram imediatamente encharcados e congelados.
Estavam no que parecia um longo túnel vertical. Chamcha, primoroso, rígido e ainda de cabeça para baixo, viu Gibreel Farishta com sua camisasafári roxa, nadando na direção dele pelo funil de nuvens, e podia ter gritado: "Fique longe, longe de mim", mas algo o impediu, o começo de uma espécie de gritinho flauteado em seu intestino, e, portanto, em vez de enunciar palavras de rejeição, abriu os braços, e Farishta nadou para dentro deles até que estavam abraçados, pés com cabeças, a força da colisão fazendo os dois rolarem em saltos estrela geminados ao longo de todo o buraco que ia até o País das Maravilhas; enquanto perfuravam seu trajeto pelo branco passou uma sucessão de formas nebulosas, em incessante metamorfose, deuses virando touros, mulheres virando aranhas, homens virando lobos. Híbridas criaturas de nuvens se lançavam sobre eles, flores gigantes com seios humanos dependurados de caules carnosos, gatos alados, centauros, e Chamcha em sua semiconsciência foi tomado pela ideia de que também ele tinha adquirido a qualidade nebulosa, também ele metamórfico, híbrido, como se estivesse se transformando na pessoa cuja cabeça se aninhava entre suas pernas e cujas pernas enlaçavam seu longo pescoço senhorial.
Essa pessoa não tinha, porém, tempo para tão "altas pretensões"; era, na verdade, inteiramente incapaz de qualquer pretensão; tendo acabado de ver, surgindo do redemoinho de uma nuvem, a figura de uma sedutora mulher de certa idade, usando um sari de brocado verde e ouro, com um diamante na aba do nariz e os cabelos penteados para cima protegidos com laquê contra a pressão do vento naquela altitude, sentada com toda a serenidade sobre um tapete voador. "Rekha Merchant", Gibreel a saudou. "Perdeu o caminho do céu ou o quê?" Palavras pouco sensíveis para se dizer a uma morta! O estado de concussão mergulhatória, porém, pode servir de desculpa para ele...
Chamcha, agarrado a suas pernas, demonstrou incompreensão: "Que diabo?".
"Não está vendo?", Gibreel gritou. "Não está vendo o seu maldito tapete de Bukhara?"
Não, não, Gibo, a voz dela sussurrou no ouvido dele, não espere que ele diga sim. Eu só existo para os seus olhos, talvez você esteja ficando louco, que tal?, seu namaqool, pedaço de excremento de porco, meu amor. A morte traz a franqueza, meu amado, de forma que posso chamar você por seus nomes verdadeiros.
A nebulosa Rekha murmurou ácidas trivialidades, e Gibreel tornou a gritar para Chamcha: "Então, Spoono? Está vendo ou não?".
Saladin Chamcha não via nada, não ouvia nada, não dizia nada. Gibreel enfrentou-a sozinho: "Você não devia ter feito aquilo", censurou. "Não, senhora. Que pecado. Coisa mais feia."
Ah, pode fazer o sermão que quiser agora, ela riu. Você cheio de moralismos, essa é boa. Foi você que me abandonou, a voz dela relembrou no ouvido dele, parecendo mordiscar-lhe o lóbulo. Foi você, oh, lua das minhas delícias, que se escondeu atrás de uma nuvem. E eu no escuro, cega, perdida de amor.
Ele ficou com medo. "O que você quer? Não, não diga, vá embora."
Quando esteve doente eu não podia ver você, para evitar um escândalo, você sabia que eu não podia, e me afastei por sua causa, mas depois você se vingou, usou isso como desculpa para ir embora, como uma nuvem para se esconder. Isso, e ela também, a mulher de gelo. Filho da puta. Agora que morri esqueci como perdoar. Eu maldigo você, meu Gibreel, que a sua vida seja um inferno. Inferno, porque foi para lá que você me mandou, maldito, de lá que você saiu, demônio, e para onde está indo, idiota, aproveite a descida. A maldição de Rekha; e depois disso, versos numa língua que ele não entendia, toda aspereza e sibilos, na qual imaginou entender, mas talvez não, o nome Al-Lat várias vezes repetido.
Agarrou-se a Chamcha; e atravessaram o fundo das nuvens.
Velocidade, a sensação de velocidade voltou, assobiando sua nota apavorante. O teto de nuvens subia, o chão de água vinha em zoom na direção deles, seus olhos se abriram. Um grito, o mesmo grito que tinha flauteado em suas entranhas quando Gibreel nadava pelo céu, explodiu dos lábios de Chamcha; um raio de sol penetrou sua boca aberta e o libertou. Mas eles tinham atravessado as transformações das nuvens, Chamcha e Farishta, e era a fluidez, uma indistinção nos limites dos dois, e quando o sol tocou Chamcha ele liberou mais do que ruído: "Voe", Chamcha gritou para Gibreel. "Comece a voar agora." E acrescentou, sem identificar a fonte, um segundo mandamento: "E cante".
Como a novidade penetra no mundo? Como é que nasce?
De que fusões, transformações, conjunções é feita?
Como sobrevive, extrema e perigosa como é? Que concessões, que acordos, que traições de sua natureza secreta tem ela de fazer para repelir a fúria das multidões, o anjo exterminador, a guilhotina?
Nascer é sempre uma queda?
Anjos têm asas? Homens podem voar?
Quando Mr. Saladin Chamcha caiu das nuvens sobre o canal da Mancha, sentiu o coração cerrado por uma força tão implacável que compreendeu ser-lhe impossível morrer. Depois, quando seus pés estavam de novo plantados com firmeza no chão, ele começaria a duvidar disso, e a atribuir as implausíbilidades do seu trânsito à confusão provocada pela explosão em suas percepções, e a atribuir sua sobrevivência, a sua e a de Gibreel, à mera e cega sorte. Mas, naquele momento, ele não tinha dúvida; o que o dominara era a vontade de viver, não adulterada, irresistível, pura, e a primeira coisa que essa vontade fez foi informá-lo de que não queria ter nada a ver com sua patética personalidade, aquela coisa semi-reconstruída feita de mímica e vozes, que pretendia passar por cima de tudo aquilo, e ele se viu cedendo à vontade de viver, sim, continue, como se fosse um espectador de sua própria mente, de seu próprio corpo, porque a sensação começava no centro mesmo de seu corpo e se espalhava para fora, transformando o sangue em ferro, mudando a carne em aço, só que havia uma outra sensação também, como um punho que o envolvia de fora, prendendo-o de uma forma que era, ao mesmo tempo, insuportavelmente forte e intolerávelmente suave; até que finalmente o dominou por inteiro e podia mover sua boca, seus dedos, o que escolhesse, e ao ter segurança de seu domínio começou a expandir-se para fora de seu corpo até agarrar Gibreel Farishta pelo saco.
"Voe", a força ordenava a Gibreel. "Cante."
Chamcha continuou agarrado a Gibreel até que o outro começou, primeiro devagar, depois com progressiva rapidez e força, a bater os braços.
Mais e mais forte ele batia os braços, e, enquanto batia, uma canção brotou de dentro dele, assim como a canção do espectro de Rekha Merchant, essa também era cantada numa língua que ele não conhecia, com melodia que nunca tinha ouvido. Gibreel jamais repudiava o milagre; ao contrário de Chamcha, que tentava expulsá-lo racionalmente da existência, ele não parava de dizer que o gazal tinha sido celestial, que sem a canção o bater de braços não teria adiantado nada, e que sem o bater de braços com toda a certeza teriam atingido as ondas como pedras ou qualquer outra coisa e simplesmente explodido em pedaços ao fazer contato com a pele esticada do tambor do mar.
E, em vez disso, começaram a ir mais devagar. Quanto mais enfaticamente Gibreel batia os braços e cantava, cantava e batia, mais pronunciada era a desaceleração, até que finalmente os dois estavam flutuando em direção ao canal como pedaços de papel em uma brisa.
Eram os únicos sobreviventes do desastre, os únicos a despencar do Bostan e sobreviver. Foram encontrados atirados numa praia. O mais falante dos dois, o de camisa roxa, jurou, em seu matraquear descontrolado, que tinham caminhado sobre a água, que as ondas os tinham depositado suavemente na costa; mas o outro, em cuja cabeça um chapéu-coco ensopado parecia preso por mágica, negou. "Meu Deus, que sorte tivemos", disse. "Até onde vai a sorte?"
Evidentemente, eu sei a verdade. Eu vi tudo. Quanto a onipresença e potência, não estou pleiteando nenhuma das duas no momento, mas até esse ponto posso ir, acho. Chamcha decidiu assim e Farishta fez o que foi decidido.
Qual dos dois era o milagroso?
De que tipo — angélica, satânica — era a canção de Farishta?
Quem sou eu?
Vamos colocar da seguinte maneira: quem tem as melhores melodias?
Estas foram as primeiras palavras que Gibreel Farishta disse ao despertar na praia inglesa coberta de neve com a improbabilidade de uma estrela-domar ao lado da orelha: "Nascemos de novo, Spoono, você e eu. Feliz aniversário, mister; parabéns a você".
Ao que Saladin Chamcha tossiu, gaguejou, abriu os olhos e, como convém a um bebê recém-nascido, caiu no choro.
Glossário:
Baba — velho santo.
Bhai — irmão.
Bostan — um dos dois paraísos tradicionais do islamismo. O outro é Gulistan.
Gazal — forma poética da Pérsia clássica.
Ho ji! — expressão de entusiasmo usada como refrão de música popular.
Namaqool — (islâmico)
Spoono — palavra forjada a partir de spoon, colher, em inglês, equivalente a chamcha, colher em hindi.
Vilayet — país estrangeiro.
Yaar — amigo.
(Os Versos Satânicos; tradução de Misael H. Dursan)
(Ilustração: Harry Holland – Homeward)
Marcadores:
Salman Rushdie - Nascendo de novo
domingo, 13 de outubro de 2019
CONHEÇO VOCÊS PELO CHEIRO, de Ricardo Aleixo
Conheço vocês
pelo cheiro,
pelas roupas,
pelos carros,
pelos anéis e,
é claro,
por seu amor
ao dinheiro.
Por seu amor
ao dinheiro
que algum
ancestral remoto
lhes deixou
como herança.
Conheço vocês
pelo cheiro.
Conheço vocês
pelo cheiro
e pelos cifrões
que adornam
esses olhos que
mal piscam
por seu amor
ao dinheiro.
Por seu amor
ao dinheiro
e a tudo que
nega a vida:
o hospício, a
cela, a fronteira.
Conheço vocês
pelo cheiro.
Conheço vocês
pelo cheiro
de peste e horror
que espalham
por onde andam
– conheço-os
por seu amor
ao dinheiro.
Por seu amor
ao dinheiro,
deus é um
pai tão sacana
que cobra por
seus milagres.
Conheço vocês
pelo cheiro.
Conheço vocês
pelo cheiro
mal disfarçado
de enxofre
que gruda em
tudo que tocam
por seu amor
ao dinheiro.
Por seu amor
ao dinheiro,
é com ódio
que replicam
ao riso, ao gozo,
à poesia.
Conheço vocês
pelo cheiro.
Conheço vocês
pelo cheiro.
Cheiro um e
cheirei todos
vocês que só
sobrevivem
por seu amor
ao dinheiro.
Por seu amor
ao dinheiro,
fazem até das
próprias filhas
moeda forte,
ouro puro.
Conheço vocês
pelo cheiro.
Conheço vocês
pelo cheiro
de cadáver
putrefato que,
no entanto,
ainda caminha
por seu amor
ao dinheiro.
(Ilustração: Adriana Varejão - filho bastardo II)
Marcadores:
Ricardo Aleixo - Conheço vocês pelo cheiro
quinta-feira, 10 de outubro de 2019
DE REPENTE, FUGIU-SE-LHE A LUZ DOS OLHOS, de Adolfo Caminha
Quase nenhum movimento ainda na Rua da Misericórdia; sujeitos malvestidos, operários e ganhadores, desciam com ar miserável e bisonho de ovelhas mansas que seguem fatalmente, num passo ronceiro, numa lentidão arrastada, numa quase indolência de eunucos. A vaca do leite, com as grandes tetas pesadas, um chocalho ao pescoço, ia no seu giro quotidiano, muito dócil, o ventre bojudo, uma baba a escorrer-lhe do focinho em fios despuma. A carrocinha do lixo, pintada de azul, andava na sua faina matinal, parando aqui, parando acolá.
Nenhum esto de vista quebrava a monotonia do quarteirão; somente o ruído dos bondes e uma ou outra voz falando alto. Pairava um cheiro forte de urina, assim como uma emanação agressiva de mictório público, envenenando a atmosfera, intoxicando a respiração. Os primeiros reflexos do sol batiam nas vidraças obliquamente acordando os moradores, colorindo a frente das casas em pinceladas de ouro, dando brilhos de cristal puro ao granito dos portais, doendo na vista com fulgurações quentes de revérbero; e já se começava a sentir um calorzinho brando, uma tepidez morrinhenta, um princípio de mormaço.
Abriam-se botequins preguiçosos, lojas de negócio, estabelecimentos de madeira, carvoarias, quitandas.
O movimento, porém, aumentava com a luz; multiplicavam-se os transeuntes numa confusão bizarra de cores e toilettes: daqui, dali, surgiam caras estranhas, fisionomias amarrotadas pelo sono, como abelhas de um cortiço.
A vida recomeçava.
Bom-Crioulo foi encurtando o passo, diminuindo a marcha, calculando a distância, lento e lento, rumo do sobradinho. Já o avistava: era o mesmo de outrora, o mesmíssimo, com as duas janelas da frente, com o seu aspecto antigo, do tempo del-rei, e lá, no alto, lá cima, no telhado, a trapeira sumindo-se, enterrando-se, dependurada quase...
Veio-lhe um não sei quê, uma saudade, como cousa que lhe entrasse nalma, a dor de uma ingratidão: ali é que ele se juntara ao outro com uma confiança de noivos; ali é que ele tinha passado o melhor da sua vida; ali é que ele tinha aprendido a amar, a querer bem...
E murmurava entre dentes, banhado no eflúvio da suas reminiscências, levado pelo fio inquebrantável das doces recordações: Aquele sobradinho, aquele sobradinho!...
Lembrava-se claramente, nitidamente, de quando ele e o pequeno voltaram do cruzeiro e lá foram juntinhos para o quarto de cima, onde morrera, dias antes, o português, de febre amarela. Oh! tinha tudo na cabeça; lembrava-se bem: a primeira noite, os modos ingênuos de Aleixo, a cena da vela... tudo estava gravado em sua imaginação, tudo!
Enchiam-se-lhe os olhos dágua, turvava-se-lhe a vista, nem era bom pensar...
Bom-Crioulo sentia-se mais do que nunca abandonado, mais do que nunca lhe doía fundo o desprezo do grumete, esse desprezo calculado, proposital, voluntário, com que Aleixo o esmagava, o ludibriava impunemente. Ah! era assim, hein? Pois havia de lhas pagar hoje ou amanhã. A gente é como um copo dágua: vai-se enchendo, vai-se enchendo, até não poder mais!
Faiscavam-lhe as retinas como duas brasas, como dois fogachos, por trás da névoa úmida das lágrimas; todo ele vibrava, todo ele tremia como um epiléptico: vinham-lhe cóleras, ímpetos, aflições... Quase não se podia conter diante daquela casa, que era como o túmulo mesmo das suas ilusões. Transfigurava-se, enlouquecia de ódio, espumava de cólera, de raiva, de ciúme! O aspecto das cousas, o mundo exterior, a gente que passava para o trabalho, tudo quanto seus olhos viam naquela hora de amargura, o próprio sol, a própria luz torrencial do dia causava-lhe um tédio imenso; arrancando-lhe blasfêmias da boca entreaberta num sorriso agoniado e convulso. Não tinha coragem de fitar, de demorar os olhos no sobradinho: baixava-os logo gelado: Era ali mesmo, tal e qual!
Começou, de repente, a sentir uma zoada no ouvido, um rumor vago de insetos, uma cousa desagradável, incômoda e amofinadora; tremiam-lhe as pernas; ia-se-lhe faltando a respiração. Era um mal-estar, um nervoso, uma aflição, um delírio, um vago desejo de matar, de assassinar, de ver sangue... Passou a mão nos olhos, trêmulo, encostando-se à coluna de um gás; quase não podia ter-se em pé: estava sem forças, o hospital enfraquecera-o, debilitara-o horrorosamente, o maldito hospital. Nunca mais havia de lá pôr os pés, nunca mais!
A porta do sobrado estava fechada; em cima a meia vidraça de uma janela conservava-se aberta; nem parecia morar gente ali: uma imobilidade sepulcral, desoladora!
Bom-Crioulo rodou nos calcanhares, atônito, sem consciência do meio em que estava, o olhar perdido ao longe, na rua, e foi andando, andando, muito devagar por ali acima.
De repente: Ah! a padaria! Já se não lembrava; era a mesma também, a mesmíssima, com seu grande letreiro na fachada Padaria Lusitana, com suas três portas, debaixo de uma sobrado, quase defronte da portuguesa. Vinha lá dos fundos um cheiro bom de massa, um apetitoso cheiro de pão quente.
Enfiou pelo estabelecimento, e, sem reflexionar, dirigiu-se ao empregado, um muito vivo, rapazola, que, pelos modos, parecia de além-mar.
O senhor sabe me dizer se ainda mora ali defronte, no sobradinho, uma portuguesa? D. Carolina?
Essa mesma: uma gorda, bonitona...
Mora, pois não! disse o outro com um quê de malícia nos olhos.
E um rapazinho, marinheiro, de olhos azuis...?
Também, Acordam tarde. Ultimamente a porta vive fechada. Costumam sair juntos à noite...
Saem juntos?
Pois não! A mim me parece que o menino é bem espertinho...
Bom-Crioulo estremeceu. Ia saber tudo agora, pela boca do caixeiro: a ocasião era a melhor porque o dono do estabelecimento andava fora.
O senhor não estará enganado? tornou ele muito curioso, precipitadamente, numa voz quase humilde, o olhar grudado no rapaz.
E entrou a explicar, a dizer como era a portuguesa, como era o marinheiro: Uma gorda, bonitona, muito vistosa, d’olhos grandes, que alugava quartos...
Essa mesma, homem!
O outro não tinha barba, era meio criança ainda, olhos azuis, muito alvo, bonitinho...
Exatamente, informou o caixeiro. Foram ao teatro, ontem, à Tomada da Bastilha. Conheço muito D. Carolina. Dizem até que está amigada com o pequeno...
Quase as mesmas palavras do Herculano! A mesma história de mulher! Bom-Crioulo ficou imóvel, calado, perdido nas suas ideias. Aleixo amigado com a portuguesa, com a D. Carolina! Era inacreditável, era um desaforo sem nome, um desrespeito, uma falta de vergonha, um escândalo!
Está admirado? perguntou o rapaz fitando o negro, cujo olhar tinha agora uma dolorosa, uma extraordinária, uma indizível expressão de melancolia e surpresa. Não se admire, não, que é que o todos dizem...
E logo, interrompendo-se, com o braço estendido: Olhe, nem de propósito: aí vem ele, o pequeno...
Aleixo ia saindo porta fora, tranquilamente, apertado na sua roupa azul e branca de marinheiro, a camisa decotada, a calça justa.
O negro teve um daqueles ímpetos medonhos, que o acometiam às vezes; garganteou um oh! rouco, abafado, comprimido, e, ligeiro, furioso, perdido de cólera, em dar tempo a nada, precipitou-se, numa vertigem de seta, para a rua. Não via nada, tresvariado, como se de repente lhe houvesse fugido a luz dos olhos e a razão do cérebro. Precipitou-se, e, esbarrando com o grumete, fintou-o pelo braço.
Tremia numa crise formidável de desespero, os olhos congestionados, um suor frio a porejar-lhe da testa negra e reluzente.
O pequeno estacou surpreendido:
Sou eu mesmo, rugiu Bom-Crioulo, sou eu mesmo! Pensavas que era só meter-te com a portuguesa, hein? Olha para esta cara, olha como estou magro, como estou acabado... Olha, olha!
E apertava bruscamente o outro, sacudindo-lhe como se o quisesse atirar no chão.
Vê lá se me conheces, anda! Olha bem para esta cara!
O efebo debatia-se, pálido, aterrado:
Me largue! Não me provoque, senão eu grito!
Anda praí, grita, se és capaz! Grita, safado, sem vergonha... mal-agradecido!
Sua voz tomava uma inflexão voluptuosa e terrível ao mesmo tempo; a palavra saía-lhe gaguejada, estuporada e trêmula.
Grita, anda!
O outro mudava de cores, recuava trôpego, a língua presa, quase a chorar, numa aflição de culpado, o olhar azul submisso refletindo a imagem do negro:
Me largue, repetiu. Eu lhe peço: me largue!
Transeuntes olhavam-nos de banda e voltavam-se para os ver naquela posição, rosto a rosto, juntinhos, agarrados misteriosamente. Porque Bom-Crioulo não falava alto, que todos ouvissem, não dava escândalo, não fazia alarme: sua voz era um rugido cavernoso e histérico, um regougo abafado. longínquo e profundo. Grita, anda, grita pela vaca da Carolina!
Me solte! continuou o efebo trêmulo, acovardado. Me largue!
Não te largo, não, coisinha ruim, não te largo, não! Bom-Crioulo, este que aqui está, não é o que tu pensas...
Mas eu não fiz nada! Me solte, que é tarde!
Os olhos do negro tinham uma expressão feroz e amargurada, muito rubros, cruzando-se, às vezes, num estrabismo nervoso de alucinado.
Um sujeito parou defronte, a olhá-los; vieram depois outras pessoas, outros curiosos; um marinheiro da Capitania, um italiano carregado de flandres, um guarda municipal, crianças, mulheres...
Houve logo um fecha-fecha, um tumulto, um alvoroço. Trilaram apitos; vozes gritavam rolo! rolo! e a multidão crescia no meio da rua, procurando lugar, empurrando, abrindo caminho, precipitando-se, formando um grande círculo de gentes ao redor dos dois marinheiros, invisíveis agora.
Os bondes paravam. Senhoras vinham à janela, compondo os cabelos, numa ânsia de novidade. Latiam cães. Um movimento cheio de rumores, uma balbúrdia! Circulavam boatos aterradores, notícias vagas, incompletas. Inventavam-se histórias de assassinato, de cabeça quebrada, de sangue. Cada olhar, cada fisionomia era uma interrogação. Chegavam soldados, marinheiros, policiais. Fechavam-se portas com estrondo.
Alguma cousa extraordinária tinha havido porque, de repente, o povo recuou, abrindo passagem, num atropelo.
Abre! abre! diziam soldados erguendo o rifle.
De cima, das casas, mãos apontavam pra baixo.
E D. Carolina também chegara à janela com a vozeria, com o barulho, viu, entre duas filas de curiosos, o grumete ensanguentado...
Jesus! Meu Deus!
Uma nuvem escureceu-lhe a vista, correu um frio pelo corpo, e toda ela tremia horrorizada, branca, imóvel.
Muitas vistas dirigiam-se para o sobradinho.
Aleixo passava nos braços de dois marinheiros, levado como um fardo, o corpo mole, a cabeça pendida para trás, roxo, os olhos imóveis, a boca entreaberta. O azul-escuro da camisa e a calça branca tinha grandes nódoas vermelhas. O pescoço estava envolvido num chumaço de panos. Os braços caiam-lhe, sem vida, inertes, bambos, numa frouxidão de membros mutilados.
A rua enchia-se de gente pelas janelas, pelas portas, pelas calçadas. Era uma curiosidade tumultuosa e flagrante a saltar dos olhos, um desejo irresistível de ver, uma irresistível atração, uma ânsia!
Ninguém se importava com o o outro, com o negro, que lá ia, rua abaixo, triste e desolado, entre as baionetas, à luz quente da manhã: todos, porém, queriam ver o cadáver, analisar o ferimento, meter o nariz na chaga...
Mas, um carro rodou, todo lúgubre, todo fechado, e a onda dos curiosos foi se espalhando, se espalhando, té cair tudo na monotonia habitual, no eterno vaivém.
(Bom-Crioulo)
(Ilustração: Rio de Janeiro - Rua do Ouvidor em 1890 - foto de Marc Ferrez)
segunda-feira, 7 de outubro de 2019
THE POET'S EYE OBSCENELY SEEING... / O OLHO DO POETA OBSCENO VENDO..., de Lawrence Ferlinghetti
The poets eye obscenely
seeing
sees the surface of the
round world
with its drunk rooftops
and wooden oiseaux on clothesliens
and its clay males and females
with hot legs and rosebud breasts
in roll away beds
and its trees full of
mysteries
and its Sunday parks and
speechless statues
and its America
with its ghost towns and empty Ellis
Islands
and it's surrealist
landscape of
mindless prairies
supermarket suburbs
steamheated
cemeteries
cinerama holy days
and protesting
cathedrals
a kissproof world of plastic
toiletseats tampax and taxis
drugged store cowboys and las vegas
virgins
disowned indians and cinemad matrons
unroman senators and conscientious
non-objectors
and all other fatal shorn-up
fragments
of the immigrant's dream
come too true
and mislaid
among the sunbathers
Tradução de Paulo Leminski:
O olho do poeta obsceno
vendo
vê a superfície do mundo
redondo
com seus telhados bêbados
e pássaros de pau nos varais
e suas fêmeas e machos feitos de barro
com pernas em fogo e peitos em botão
em camas rolantes
e suas árvores de mistérios
e seus parques de domingos
no parque e estátuas sem fala
e seus Estados Unidos
com suas cidades fantasmas e
Ilhas Ellis vazias
e sua paisagem surrealista
de
pradarias estúpidas
supermercados subúrbios
cemitérios com calefação
e catedrais que protestam
um mundo à prova de beijo um
mundo de
tampas de privada e táxis
caubóis de butique e virgens de Las Vegas
índios sem terra e madames loucas por cinema
senadores anti-romanos e conformistas conformados
e todos os outros fragmentos
desbotados
do sonho imigrante real
demais
e disperso
entre esse pessoal que toma banho de
sol
(Ilustração: Edward Hopper - people in the sun-1960)
Assinar:
Postagens (Atom)




