terça-feira, 10 de setembro de 2019

UM SENHOR PIQUENIQUE! de Adoniran Barbosa



 



– Que horas são? 

– Três de la matina. Eu vou dormir. 

– Eu não vou. Já são três horas e o ônibus sai às cinco! 

– Que ônibus? 

– Não sabe? Eu conto pro senhor. Nóis vai fazê um piquenique na Praia Grande. O ônibus sai às cinco, nóis chega lá às sete e meia. Vai ser um senhor piquenique! Um sinhô piquenique! 

– Nóis? Nóis quem? 

– Gente da minha rua. Todos de lá. Quase tudo da mesma firma. Gente da Casa Pirani, da Companhia de Gás, ali no Gasômetro, da Maria Zélia, Matarazzo, da Arno. A gente mora quase todos na mesma rua. Quase todos. Pessoal da Caetano Pinto, Carneiro Leão, Visconde de Parnaíba e adjacência. Todos nóis! Quase uma família só, a bem dizer. Trabalhemos quase tudo na mesma firma, e moremos tudo perto um do outro. 

– Mas como é que é o piquenique? 

– O sinhô nunca foi num piquenique? 

– Não. 

– Qué i junto? Eu falo com o Dante e nóis arranja lugá pro sinhô no ônibus! O sinhô vai vê o que é o piquenique na Praia Grande, feito por nóis. 

– Deve ser bom demais… 

– Ô!!! O Dante, que é o mais velho da turma, é que organiza tudo. Primeiro, ele consurta quem qué i. Depois que tudo mundo aceita, ele vem e fala: o ônibus custa cento e quarenta conto. Aumentou. Mas tem uma coisa: o ônibus fica à nossa disposição o dia inteirinho, com chofer e tudo. O ônibus chega na praia, deixa nóis ali, encosta num canto longe da praia, e espera até a hora que a gente marquemos pra volta. No ano passado teve um. Foi ótis, doutor, ótis! Ninguém mais esquece aquele piquenique do ano passado, de tão ótis que foi! 

– Vai muita gente? 

– Hiii! Lotação compreta: trinta e seis sentado. Se a agência do ônibus deixava, ia mais uns vinte. Mas nós somos ordeiro, respeitemos tudo. Eu vou contar, só pro sinhô ter uma idéia. Quando é na véspa, cada um arruma as suas coisa, principalmente essas coisa pra comê, o sinhô sabe, não? Nessa altura, o Dante já recolheu o dinheiro de cada um. Uns cinco, déis conto por pessoa. Já pagou a agência, e já tá com o recibo. Hora marcada e tudo. Aí ele e a patroa (conhece dona Mafalda? Não? Magina!!!) começa a preparar as coisa. Ela faz uns vinte frango cheio, sendo que cada uma das mulher faz outras coisa. As moça se arruma, corta as unha dos dois pé, tem umas que compra maiô novo na loja, tem as outras que manda enrolá o cabelo, pra soltá de manhã, e é uma beleza! Nessa noite, tudo mundo pega o berço mais cedo, que é pra levantar disposto, porque o Dante é igigente e todo mundo respeita ele, porque ele num demite atraso e nem confusão. Ele avisa um por um: “Ângelo, o ônibus sai cinco hora. Quatro e meia no largo da Concórdia, tudo mundo. Avisa quem você encontrar!” Nessa noite, doutor, tou garantindo que ninguém drome dereito. O mar fica fazendo onda na cabeça da gente! E gente que ainda sonha fica sonhando com o céu azulzinho, a espuma branca batendo na areia, as onda que vai e que vem! É um sonho, doutor, um sonho! O sinhô já sonhô furta-cor? Contaram alguma vez da Disneylândia pro sinhô? É quase igual, eu nunca fui lá, mas é quase igual! 

– Esse é o nosso ônibus! Vamo pegá o nosso lugar! Cada um com a sua sacola. Ninguém perturba! – esse é o Dante que fica de olho na gente. O Dante – sabe? – é gordo, corado, bonito, um pedaço de homem desse tamanho! Ele gosta de piquenique, doutor, nem queira saber! 

– Aquiles, não sai de perto de nóis! Quando chega lá, fica tudo mundo junto! – É a dona Carmeluccia que tá falando. Coitada! Com as criança, a cesta, a sacola, pacote de sanduíche (para comer na viagem), ela entra no ônibus. E o resto vai subindo, pegando lugar, até um casal de namorado (o filho da dona Guiomar com a filha do seu Orlando) senta lá atrás, porque os dois não quer se misturar com a gente. Nóis também não se incomoda, porque o ano passado aconteceu igual com a Iolanda e o Amílcar e os dois casaram e nem vão amanhã, porque ela vai ter nenê por esses dias. Bem feito! Aí, o ônibus sai. As mãe manda as criança dá tchau pra gente que ficou no largo da Concórdia. Nem bem começa a viagem, o Gardelito (ele mora com a nona na Visconde de Parnaíba) começa a tocar violão. Doutor, ninguém quase fica queto. A gente canta pro motorista: 

“Motorista meu amor! Motorista você é artista! Não corra tanto, por favor, queremos chegar vivo, sim senhor!” 

– Para na biquinha pra gente fazê xixi. 

– Para pra bebê água! Xixi é na moita! 

– Qué sanduíche, filho? 

– Não, mãe, espera mais pra adiante! 

– Num afasta o banco que me espreme as perna! 

– Coitado do Romano, não pôde vim! 

– Por quê? 

– Teve que drobá no serviço lá no Gasômetro. 

Aí o Américo aponta pro lado e tudo mundo olha: 

– Óia a Voquisvage! Aí que é a Voquisvage! São Bernardo do Campo! 

– O ano que vem, eu acho que compro um Fusquete desses! Olha quantos que tem aí! 

– Tudo zero quilómis! 

Tem gente dormindo no ônibus. Menos as mocinha e o Dante (esse não dorme), olhando sempre pra tráis. E as mocinha canta: 

“Eu te amo! Eu te amo!” 

Vem a bronca do Riccieri: 

– Mas até aqui? Já não chega o dia inteiro lá em casa? 

Mas as moça dão o troco: 

– Eh, tio, vê se num enche. Seu tempo já passô. 

– Passô? Gardelito, dá o tom maior aí. 

Gardelito dá um acorde, e nóis batuca nos braço da poltrona, e no pandeiro do Cláudio, só pra elas ver que nóis num passemos: 

“É da banda da banda de lá! É da banda da banda de cá! Houve retreta domingo e a banda da banda de lá veio tocar na banda de cá. Durante a retreta com a banda da banda de lá e a banda da banda de cá, alguém desafinou: trocaram o dó pelo fá e todo mundo protestou! É da banda da banda de lá! É da banda da banda de cá!” 

– Velho, hein? Todo mundo cantou com nóis. E teu “ti amo”, alguém cantou? 

– Pessoal, sigura que tá descendo a serra! Já tô meio surdo! 

– Não é nada. É a impressão da altura da serra! Respira fundo que passa! 

– Magina se o ônibus rodopeia daqui! Não sobra ninguém! 

– Bidu! Olha o Cubatão! Lá tem oloduto! 

– Que qui é oloduto, pai? 

– Ólio encanado. Vai dereto pras bomba de gasolina de São Paulo. 

– Tá chegando! 

– O mar num é lá? 

– Acho que é! 

– Daí a pouco a gente tá chegando na Praia Grande. 

O ônibus para e o motorista avisa a gente: 

– É aqui. Desce tudo mundo e as coisa pode ficá no carro que eu tomo conta. Eu vou encostá um pouco retirado, porque é proibido estacioná na praia, o sinhô sabe, não? 

Aí os home desce. Fica só as mulher, que é pra poder trocar de roupa. O Dante leva a gente pra trocar de roupa numa casa que tá em construção. O Dante conversa com o home e a gente pode tomar banho e vestir o calção e, na volta, ele disse que pode tirá o sal. Tem chuveiro. A gente troquemos, dobremos nossas roupa e tudo mundo vai guardar suas coisa no ônibus. 

– Não entra ainda! Tem moça se trocando! – é a dona Mênega que fala. 

– Já dá pra tomar uma batida, não dá, seu Dante? 

– Não! Eu truxe um garrafão. Fiz onti di noite, no capricho. 

– Mas mesmo assim nóis vai – cochicha o Ernesto. 

A mãe do Amílcar dá bronca: 

– Olha, vocês viero aqui pra tomá banho de mar, e não pra enchê o caco. Cuidado, hein, bom? 

Tá tudo pronto. As moça tudo de maiô, bem penteada, os home de calção e as mãe de maiô cumprido, se cobrindo com o penhoar. 

– Meio-dia tudo mundo aqui! Não vão longe! Aqui embaixo dessas álvores. 

– Perfeitamente, seu Dante! Fica sossegado! 

O seu Dante ainda avisa: 

– Não vão longe! Olha as criança, pelo amor de Deus! 

O Romeu trouxe a bola pra uma pelada na praia. Ele é o Rivelino da turma. A gente formemos dois time: velho contra moço. As mocinha vão jogar peteca e as mulher vão arranjando lugar na areia, enquanto que as criança vão fazer castelinho de areia, mas alguns querem mesmo é pegar conchinha pra trazer de lembrança. 

A essa altura, o Étore já está no bar, arrepiado com a primeira: 

– Não sei como é que branco bebe isso! 

O resto da turma vai deixando o futebol e vem encostá o imbigo no balcão. 

– Eu quero uma com maracujá. 

– Uma pura e um picolé de limão pra misturá. 

– Pra mim faz uma caipirnha sem casca! 

– Pra mim tamém! 

– Pra mim tamém! Mas coadinha! 

– Pra mim tamém! Com bastante gelo. 

O Dante vem e bronqueia: 

– E quem é que vai bebê aquela que eu truxe? Voceis não tem jeito mesmo. Parece que nunca viro cachaça! 

E depois o Dante pede pro dono do bar: 

– Duas dúzia de cerveja, e duas de guaraná pras criança. Eu pago o depósito do vasilhame. Tudo bem geladinho, hein! 

– Tudo mundo tomá banho! 

– Não vão longe, hein? 

A espuma do mar vem vindo, vem vindo e chega na ponta do meu pé: 

– Brrrrrrrrrrr! 

– Tá fria, Rolando? 

– Que fria nada, paulista. Entra duma vez que você perde o medo! 

A gente olha e já vê tudo mundo brincando nas onda! 

O filho da dona Guiomar e a filha do seu Orlando não se mistura com a gente. Tão suzinho lá adiante. Dois bobocas… 

– Aquilo vai dá casamento! 

– Deus queira! 

Tudo mundo da turma tá alegre demais! 

– Pula essa onda, manhê! 

– Que lindo que é o mar! Dá vontade de comê! 

– Olha o sol! Parece um remendo branco na calça azul do céu! 

– Já perdi a fome. Queria bebê o mar inteiro! 

– Que pena que daqui a pouco teremos que i simbora! 

Um menino dá risada: 

– Olha os gambito branco do Seu Adamo! Branco que nem leite! 

Aí o Brancato fica beservando a moça: 

– Bobona! Não quer mostrar as gâmbia! Bela porcaria. 

O último que saiu do bar foi o Roberto! 

– Já me esquiatei quatro bela caipirinha dupra e, agora, eu vou ver a cor d’água! 

E lá vai ele cantando: 

“Por que bebes tanto assim, rapaiz?” 

O Ricieri dá uma baita bronca no garoto. 

– Porco! Onde se viu fazê xixi no mar? Quem te ensinô a fazê isso daí? Alguma vez seu pai fez isso? E agora temo que nadá nisso aí? Porco! 

Chega o Dante: 

– Hi, quantas vez eu discarreguei no mar! Se fosse contá, dava pra enchê um balde! 

A pelada está no fim. Os velho ganharam, como sempre. 

É aí que a dona Olívia não aguenta mais: 

– Pessoar! Vamo comê! Chega de água do mar! 

Então todo mundo vai saindo d’água, vai rindo, tomando o caminho do ônibus, pra ir pegar comida e arranjar lugar embaixo das álvores. Cada um vai arrumando a toalha no chão, as mulher vão abrindo os pacote, as sacola e vão pondo tudo na toalha e já tem gente mastigando em falso, com água na boca! 

O almoço é uma festa. Cada família fez uma coisa. É só olhar e ver tudo em cima das toalhas estendidas na grama: frango cheio, pimentão cheio, brajolinha, abobrinha cheia, torta de frango, cuscuz, bife à milanesa, coxinha, mortadela, presunto, salaminho, pão de peito da Rua Glicério, vinho da cantina do irmão do Dante (vinho bom), garrafão de pinga com limão, que o Étore preparou, cheiro de frango, cheiro de pastéis (foi a nona do Gardelito quem fez), a risada do Roberto e os palpites do Guido: 

– Fui até naquela onda lá! 

O Dante previne a gente: 

– Dispois de comé, ninguém vai nadá na água, porque dá digestão! 

Tudo mundo divagarzinho vai ficando quieto. O sono tá batendo na gente e a persiana do zolhos querendo fechar. Os moço não dorme. O Gardelito pega o violão e começa a cantar tango: 

“Estoy me poniendo viejo de tras de la alma se va la vida. Hoy me miré al espejo e senti mi alma que está moriendo cuando mi amor me acariciava…” 

Música vai, música vem e está na hora do último banho: 

– Vamo entrar mais um poco n’água? 

Tudo mundo volta pra água. E começa de novo as risadas, o jogo de bola, gente furando onda, batendo peteca, as criança na areia, o namorado desenhando com o dedão do pé um coração com flecha na areia molhada, as mulher conversando, e começa o cansaço até que o Dante dá a orde: 

– Vamo se arrumá, que às quatro o ônibus sai. São três e meia. Acho que já chega. 

O pessoal vai saindo, as mulher vão tirá o sal no chuveiro da casa em construção, que o Dante pediu emprestado. E, depois do banho, a gente já tá meio triste, cansado, tudo mundo se arrumou e vão subindo no ônibus. E, quando tá tudo pronto, o motorista avisa que vai embora e o Dante examina, vê se não falta ninguém e manda tocar. E a gente nas janelinha vai olhando a praia que fica dizendo que é uma pena! 

– Ainda é cedo! Fica mais um pouco, pessoar! 

Mas a gente diz que não pode, porque a estrada tá muito cheia, tem muito carro e a gente precisamos chegar cedo, pra trabalhar amanhã no nosso serviço, porque temos os nosso compromissos. 

O ônibus sai depressa e levanta as folha de jornal e de papel que deixemos na praia e esses papel voando lá atrais parece que tão dizendo adeus e querendo que a gente fique mais um pouco! 

A tarde vai morrendo e nóis na estrada, ouvindo só o ronco do motor, mas tem alguém que ainda canta: 

“Motorista, motorista, por favor. Não corras tanto! Devagar é pressa! É pressa, sim senhor. Do jeito que saímos nós queremos chegar…” 

Já é quase noite. O ônibus já está no Brás. Para no Largo da Concórdia, justo onde o Dante combinou a chegada. A porta abre e a gente vai descendo e ninguém diz até logo e nem nada. Nós moremos perto, quase tudo uma família só. E nessa noite tem alguém que sonha com a espuma branca do mar, a onda braba que vinha, o sol tostando o corpo, e a areia queimando o pé da gente, e nós ouvindo o ronco do mar, a voz do Gardelito, o samba no ônibus, o iê-iê das meninas, tudo que a gente viu e ouviu. E a gente fica triste, quando escuta dona Edna dizendo que não pôde aproveitar: 

–Justo hoje! Porca pipa! Não faz mal, as minhas menina se divertiro bastante! Graças a Deus! 

E quando tudo mundo já entraram cada um em suas casa, nóis entremo no bar, pedimos a penúltima, olhamos pra tudo mundo, até gente que nós não conhece, enchemos o peito, depois de um gole, e suspiramos fundo, mas cheio de orgulho: 

–Grande! Como é grande um piquenique na Praia Grande!… 




(Dá Licença de Contar, biografia de Adoniran Barbosa, por Ayrton Mugnaini Jr.) 




(Ilustração: John Edward Costigan -Picnic along the Brook)



sábado, 7 de setembro de 2019

ELEGIA 1.8, de Sexto Propércio






Tune igitur demens, nec te mea cura moratur?

,,,,An tibi sum gelida uilior Illyria?

Et tibi iam tanti, quicumquest, iste uidetur,

….ut sine me uento quolibet ire uelis?

Tune audire potes uesani murmura ponti (5)

….fortis et in dura naue iacere potes?

Tu pedibus teneris positas fulcire pruinas,

….tu potes insolitas, Cynthia, ferre niues?



O utinam hibernae duplicentur tempora brumae,

….et sit iners tardis nauita Vergiliis, (10)

nec tibi Tyrrhena soluatur funis harena,

.…neue inimica meas eleuet aura preces

et me defixum uacua patiatur in ora

….crudelem infesta saepe uocare manu!



Sed quocumque modo de me, periura, mereris, (15)

….sit Galatea tuae non aliena uiae;

atque ego non uideam talis subsidere uentos,

….cum tibi prouectas auferet unda ratis,

ut te, felici praeuecta Ceraunia remo,

….accipiat placidis Oricos aequoribus! (20)



Nam me non ullae poterunt corrumpere de te

….quin ego, uita, tuo limine uerba querar;

nec me deficiet nautas rogitare citatos:

….“Dicite, quo portu clausa puella mea est?”,

et dicam “Licet Artaciis considat in oris, (25)

….et licet Hylaeis, illa futura mea est.”



Hic erit! Hic iurata manet! Rumpantur iniqui!

….uicimus: assiduas non tulit illa preces.

Falsa licet cupidus deponat gaudia Liuor:

….destitit ire nouas Cynthia nostra uias. (30)



Illi carus ego et per me carissima Roma

….dicitur, et sine me dulcia regna negat.

Illa uel angusto mecum requiescere lecto

….et quocumque modo maluit esse mea,

quam sibi dotatae regnum uetus Hippodamiae, (35)

….et quas Elis opes apta pararat equis.



Quamuis magna daret, quamuis maiora daturus,

….non tamen illa meos fugit auara sinus.

Hanc ego non auro, non Indis flectere conchis,

….sed potui blandi carminis obsequio. (40)



Sunt igitur Musae, neque amanti tardus Apollo,

….quis ego fretus amo: Cynthia rara mea est!

Nunc mihi summa licet contingere sidera plantis:

….siue dies seu nox uenerit, illa mea est!

Nec mihi riualis certos subducit Amores: (45)

….ista meam norit gloria canitiem.



Tradução de Guilherme Gontijo Flores:


Enlouqueceste? Não te prendem meus carinhos?

….Te importo menos que a Ilíria gélida?

E quem é esse que parece valer tanto,

….que num vento qualquer, sem mim tu segues?

Tu podes escutar o mar insano e múrmure, (5)

….podes deitar sem medo em dura barca?

Tu pousarás teus tenros pés sobre a geada,

….tu suportas, ó Cíntia, a estranha neve?



Quero que dobre o tempo da bruma invernal,

….que pare o nauta e atrasem as Vergílias, (10)

que a corda não se solte da areia Tirrena,

….nem brisa imiga anule as minhas preces 


e eu parado, pregado no porto deserto, 


….ameaçador, gritando que és cruel!



Mas mesmo que mereças mal de mim, perjura, (15)

….que Galateia ampare tua viagem! 

Não quero ver arrefecerem esses ventos 

….quando a onda embalar teu barco avante;  

ao dobrar o Ceráunio com remo seguro, (19)

….que as águas calmas do Órico te acolham! 




Pois nenhuma mulher poderá me impedir

….de lamentar, querida, à tua porta;

nem deixarei de perguntar aos marinheiros:

….“Dizei — que cais retém a amada minha?”

Direi: “Pode estar presa nas margens Artácias, (25)

….ou nas Hileias, ela será minha!”



Aqui fica! Jurou ficar! Adeus, rivais!

….Venci! Ela cedeu a tantas súplicas.

Pode a cúpida Inveja depor falsos gozos:

….minha Cíntia largou a nova estrada. (30)



Diz que me adora e que por mim adora Roma,

….sem mim renega haver um doce reino.

Prefere repousar comigo em leito estreito

….e ser só minha — não importa como —

a ter por dote um reino, como Hipodamia, (35)

….e os bens que em seus corcéis ganhara Élida.



Inda que ofertem muito, inda que mais prometam,

….não foge do meu peito por cobiça.

Não a ganhei com ouro ou pérolas da Índia,

….mas com o agrado de um suave canto. (40)



Existem Musas! Febo não tarda a quem ama!

….Neles confio — Cíntia rara é minha!

Hoje posso pisar sobre os astros mais altos:

….que venha o dia e a noite — ela é minha!

Não há rival que roube meu Amor seguro: (45)

….ah! essa glória vai me ver grisalho.




Notas: 


Esta elegia começa abruptamente, como várias outras, e se constrói como um skhetliasmos (protesto contra viagem) a Cíntia, que foge com um rival, mas que depois se torna ironicamente um propemptikon (um desejo de boa viagem). Também tece um diálogo com 2.16, quando o mesmo rival retorna da Ilíria, identificado como um pretor, portanto um homem de vida pública e detentor de bens — o típico rival do amante elegíaco. 

vv. 7-8: A semelhança entre estes versos e os de Virgílio, Bucólicas 10.23-4 (tua cura Lycoris / perque niues alium perque horrida castra secuta est? (“Tua paixão Licóris / por entre neve e guerra segue um outro?”)) e 10.49 (a tibi ne teneras glacies […] secet aspera plantas (“que áspero gelo não te corte os frágeis pés”)) faz cogitar que os dois trechos sejam imitação da poesia de Cornélio Galo, fundador da elegia erótica romana. 

v. 10: As Vergílias são as Plêiades, cujo aparecimento, em 16 de abril, anunciava a chegada a primavera, a melhor estação para a navegação. 

v. 18: Galateia é a mais famosa das Nereidas, deusas do mar, filhas de Nereu. 

vv. 19-20: Ceráunio é um perigoso promontório da Acroceráunia, na costa de Epiro; Órico é um porto da Ilíria, nas margens do Epiro. 

vv. 25-26: Heyworth aponta para o fato de que Propércio cita os Ceráunios e Óricos (dois pontos que aparecem na viagem de volta dos argonautas, Apolônio de Rodes Argonautica 4.1214-5), enquanto a Artácia (1.957) aparece na ida, além da Hileia (4.524), que seria ser um povo da Ilíria. Nesse caso, as referências a pontos distantes também seriam uma referência literária, que remetem a uma viagem de ida e volta, fato que se realiza dentro da elegia properciana a partir dos versos seguintes, com a desistência de Cíntia. 

vv. 35-6: Hipodamia era filha de Enomau, rei de Pisa na Élida, e esposa e Pélops. 

v. 40: A referência à elegia como blandum carmen (“suave canto”) parece retomar o debate apresentado nos poemas 1.7 e 1.9, dirigidos a Pôntico. 






(Poemas de Sexto Propércio, apresentação, tradução & notas de Guilherme Gontijo Flores) 






quarta-feira, 4 de setembro de 2019

CRUELDADE, de Lucienne Samôr





Usuária de telefone público, utilizava-os diariamente. Tenho muitos amigos e conhecidos na cidade. Outros em cidades vizinhas. E era gostoso, delicioso, falar com eles. Eu não determinava horários rígidos para dar esses telefonemas. Descartava a parte da manhã. Escoava-se rapidamente. A tarde era mais propícia para fazer as ligações. Raramente havia alguém usando o telefone público e, se houvesse, a ligação não era demorada. Pegava o fone ainda quente do calor das mãos das outras pessoas. No bocal, resíduos de hálito nem sempre agradável. Paciência! 

Num determinado dia, quando me dirigi ao telefone público, avistei uma moça que se agarrava ao aparelho. De corpo inteiro. Ao me aproximar, notei que ela me olhou e se colou ainda mais no bocal, e começou a sussurrar as palavras. Será que era para o namorado?, arrisquei. Ela continuou naquela postura grudenta, sem olhar para os lados. Isolava-se como se estivesse em casa ou numa cabine fechada. As cabines fechadas davam maior privacidade. As que existiam foram retiradas, para desconforto dos usuários. 

Bom, a moça continuava lá. Parecia que sua argumentação era infinita. E, como não havia bancos públicos, sentei-me à porta de um bar fechado. O tempo parecia não passar. Ela continuava sua longa conversação. Eu já estava ficando impaciente. O que poderia fazer? Havia outros telefones públicos, mas esses se encontravam mais distantes de minha casa. E tinha um problema. Um problemão! Os telefones podiam estar mudos, danificados. Isso já acontecera antes. Percorrera várias ruas para telefonar e tentei em cinco telefones públicos. Todos estavam mudos. Haviam sofrido a ação do vandalismo das gangues urbanas, de garotos pré-adolescentes. Mal-encarados. Usando bermudas, camisetas, bonés e tênis sem cadarços, com as linguetas para fora. Sem meias. Magérrimos. Podia-se perceber os gambitos grudados nas bermudas. Semelhantes aos de cães vira-latas. Eram garotos de expressões carrancudas, com os cacetes nas mãos. O telefone público que eu usava era vigiado por alguns moradores próximos que também o utilizavam. 

A moça continuava a conversar ao telefone. Agora, o tempo passava. As pessoas também. Algumas vindo do trabalho e outras indo para a escola, com livros e cadernos nas mãos. Eu já estava cansada de esperar a moça sair do telefone público. Anoitecia. Ela devia estar telefonando a cobrar. Era a opção real. Decepcionada por não conversar com o meu amigo, decidi voltar para casa. Pelo horário, não mais o encontraria no escritório. Ele já devia estar em trânsito. Retornando ao seu apartamento ou visitando clientes. Era designer. Decorava interiores de apartamentos. Também estava com sede. A moça parecia não sentir sede ou fome. Nem cansaço. Sentia-se confortável naquela postura. Suponho. 

Voltei para casa irritada. O dia não se concluíra. Havia uma lacuna. Proporcionada pela moça. Quem seria ela? Eu nunca a vira. Nem ontem, nem anteontem. Fazer o quê? A vida estipula limitações, surpresas e imprevistos. Amanhã tentaria novamente. Como não havia nada especial naquela noite, decidi limpar a estante. Assim me distrairia do meu aborrecimento. Com uma espanada na poeira diluiria a tristeza e a impotência daquela tarde. 

No dia seguinte, não telefonei. Ao limpar a estante achei um convite para um aniversário de criança. E era naquela terça-feira, véspera de feriado. Pior do que ir a um aniversário de criança era assistir, contra a vontade, aos DVDs domésticos. De casamentos, debutantes, bodas de ouro, aniversários, batizados e de outras coisas infernais, inerentes aos tempos modernos. Charles Chaplin não viu tudo. 

Nos aniversários de crianças sofre-se com a altura do som vomitado pelas caixas. A histeria das crianças. Os doces espalhados pelo chão, pisados, massacrados, pastas nojentas parecendo fezes. 

“Ruim com ele, pior sem ele”, você já ouviu essa máxima? Era pior não ir, porque os pais da criança eram meus amigos. O Diabo articulava tão bem as coisas que era impossível fugir. 

O evento ainda forçava a convivência com tios, tias, primos, primas, avós e avôs, ouvindo-os dizer sandices. O melhor momento era quando acabava. Aliás, eu não comentava com ninguém, senão poderiam esticar a festa. A falta de requinte e ética social eu já presenciara em outras festas. Quando eu dizia que não gostava de doces e gases gelados… era o que vinha na bandeja. Doces e gases gelados. O consolo era que aquilo passaria e logo eu voltaria para casa. Descansaria os pés tirando os sapatos, a roupa nova e outros adereços para me refestelar no sofá. Ufa, que vida dura! 

Na quinta-feira, após o banho, fui telefonar. Quando me aproximei do telefone público, a moça estava lá. Agarradíssima. Ela olhou-me de esguelha e continuou a falar. Parecia que falava mais para si. Supostamente, o seu interlocutor seria fictício? Sei lá. Talvez ela fosse lunática. Continuou a se comportar da mesma maneira que na terça-feira. Mas, daquele dia, houve uma mudança de comportamento. Não, ela não me cedeu o telefone. Mas parece que, desta vez, ela usava um cartão. Os créditos acabaram, presumi, observando-a. Mesmo assim, ela se impôs uma nova conduta. Começou a teclar, em ritmos alternados, no aparelho. Sequer piscava. Concluí que seria inútil continuar a esperar, persistir, sacrificar-me por uma coisa que não aconteceria. Fui para casa decidida a não retornar ao telefone público nos horários coincidentes com os da moça. Assim fiz. No outro dia e em outro horário o telefone público estava vazio, disponível. Consegui então efetuar as minhas ligações. 

Passaram-se algumas semanas e, andando pela rua, avistei a moça do telefone em companhia de duas mulheres. Uma, matrona, de quadris largos, devia ser a mãe. A outra, bisonha, a irmã. De focinhos, eram idênticas. Pode ter mudado de bairro, rua ou até mesmo de cidade. Era-me indiferente. O tempo passou rapidamente e parece que ela se evaporou. Não sei que fim levou a moça. Você sabe? 



(Ilustração: Suzanna Schlemm) 




domingo, 1 de setembro de 2019

ELEGIA 1.7, de Sexto Propércio







Dum tibi Cadmeae dicuntur, Pontice, Thebae 

….armaque fraternae tristia militiae, 

atque, ita sim felix, primo contendis Homero 

….(sint modo Fata tuis mollia carminibus), 

nos, ut consuemus, nostros agitamus Amores (5) 

….atque aliquid duram quaerimus in dominam; 

nec tantum ingenio quantum seruire dolori 

….cogor et aetatis tempora dura queri. 



Hic mihi conteritur uitae modus, haec mea Fama est, 

….hinc cupio nomen carminis ire mei. (10) 

Me laudent doctae solum placuisse puellae, 

….Pontice, et iniustas saepe tulisse minas; 

me legat assidue post haec neglectus amator, 

….et prosint illi cognita nostra mala. 



Te quoque si certo puer hic concusserit arcu (15) 

….(quam nollim nostros te uiolasse Deos!), 

longe castra tibi, longe miser agmina septem 

….flebis in aeterno surda iacere situ; 

et frustra cupies mollem componere uersum, 

….nec tibi subiciet carmina serus Amor. (20) 

Tum me non humilem mirabere saepe poetam, 

….tunc ego Romanis praeferar ingeniis; 

nec poterunt iuuenes nostro reticere sepulcro: 

….“Ardoris nostri magne poeta, iaces?” 



Tu caue nostra tuo contemnas carmina fastu: (25) 

….saepe uenit magno faenore tardus Amor. 



Tradução de Guilherme Gontijo Flores: 



Enquanto cantas, Pôntico, a Tebas de Cadmo 

….e as armas tristes do fraterno exército 

e — quem dera fosse eu! — competes com Homero 

….(que os Fados sejam leves com teus cantos!); 

eu, como de costume, fico em meus Amores (5)

….e busco combater a dura dona, 

mais escravo da dor do que do meu talento, 

….e lamento o infortúnio desta idade. 



Assim eu passo a vida, assim é minha Fama, 

….aqui desejo a glória do meu canto: (10)

louvado — o único que agrada à moça culta 

….e aguenta injustas ameaças, Pôntico. 

Que amiúde me leia o amante repelido 

….e encontre auxílio ao conhecer meus males. 



Se o menino certeiro também te flechar (15)

….(se ao menos não violasses nossos Deuses!), 

dirás adeus quartéis, adeus aos sete exércitos 

….que jazem surdos no sepulcro eterno 

e em vão desejarás compor suaves versos, 

….pois tardo Amor não te dará poemas. (20)

Então te espantarás: não sou poeta humilde, 

….entre os mais talentosos dos Romanos; 

jovens não poderão calar-se ante meu túmulo: 

….“Grande poeta do nosso ardor, morreste?” 



Evita desprezar meus cantos com orgulho: (25)

….o Amor tardio cobra imensos juros. 



Notas: 

Esta elegia dirigida ao poeta épico Pôntico (que supostamente teria escrito uma Tebaida, cuja referência aparece também em Ovídio, Amores 2.18 e Tristia 4.10.47-8) dialoga diretamente com 1.9, onde vemos que as profecias de Propércio se cumprem. Não obstante, o poema 1.8, que gera um intervalo entre os dois, já foi indicado como configurador de uma tríade entre as elegias 7-8-9, bem representados por Aires A. Nascimento como “a poesia amorosa não deve ser tida em menor conta (7); o seu desprezo leva a resultados funestos (8); a poesia amorosa tem uma função moderadora (9)”. Vale notar como a tópica da utilidade da poesia entra na defesa da elegia contra a épica praticada por Pôntico, o que leva o poema à proposta da elegia como modo de vida. 

v. 2: O fraterno exército nos remete ao combate entre os irmãos Etéocles e Polinices, filhos de Édipo, pelo poder de Tebas, principal assunto dos Sete contra Tebas de Ésquilo e também da Tebaida na versão de Estácio. 

v. 3: Propércio pode referir-se ao fato de que a mais antiga Tebaida era, na Antiguidade, atribuída a Homero, junto com outros poemas do Ciclo Épico de que só nos restaram fragmentos. 

v. 26: A temática do amor tardio que causa mais sofrimento aparece também em Tibulo 1.2.87-8 e Ovídio, Heroides 4.19. 



(Poemas de Sexto Propércio, apresentação, tradução & notas de Guilherme Gontijo Flores) 



(Ilustração: Peinture murale romaine - Scène érotique)