quarta-feira, 14 de agosto de 2013
MANUAL DE INSTRUÇÕES, de Julio Cortázar
A tarefa de amolecer diariamente o tijolo, a tarefa de abrir caminho na massa pegajosa que se proclama mundo, esbarrar cada manhã com o paralelepípedo de nome repugnante, com a satisfação canina de que tudo esteja em seu lugar, a mesma mulher ao lado, os mesmos sapatos e o mesmo sabor da mesma pasta de dentes, a mesma tristeza das casas em frente, do sujo tabuleiro de janelas de tempo com seu letreiro HOTEL DE BELGIQUE.
Enfiar a cabeça como um touro apático contra a massa transparente em cujo centro bebemos café com leite e abrimos o jornal para saber o que aconteceu em qualquer dos cantos do tijolo de cristal. Resistir a que o ato delicado de girar a maçaneta, esse ato pelo qual tudo poderia se transformar, possa cumprir-se com a fria eficácia de um reflexo cotidiano. Até logo, querida. Passe bem. Apertar uma colherinha entre os dedos e sentir seu latejar metálico, sua advertência suspeita. Como custa negar uma colherinha, negar uma porta, negar tudo o que o hábito lambe até dar-lhe uma suavidade satisfatória. Quanto mais simples é aceitar a fácil solicitação da colher, usá-la para mexer o café. E não é mau que as coisas nos encontrem outra vez todo dia e sejam as mesmas. Que a nosso lado esteja a mesma mulher, o mesmo relógio e que o romance aberto em cima da mesa comece a andar outra vez na bicicleta de nossos óculos, por que haveria de ser mau? Mas como um touro triste é preciso baixar a cabeça, do centro do tijolo de cristal empurrar para fora, em direção ao outro tão perto de nós, inacessível como o toureiro tão perto do touro. Castigar os olhos fitando isso que anda no céu e aceita astuciosamente seu nome de nuvem, sua resposta catalogada na memória. Não pense que o telefone vai lhe dar os números que procura. Por que haveria de dá-los? Virá somente o que você tem preparado e resolvido, o triste reflexo de sua esperança, esse macaco que se coça em cima de uma mesa e treme de frio. Quebre a cabeça desse macaco, corra do centro em direção à parede e abra caminho. Oh, como cantam no andar de cima! Há um andar de cima nesta casa, com outras pessoas. Há um andar em cima onde moram pessoas que não percebem seu andar de baixo, e estamos todos dentro do tijolo de cristal. E se, de repente, uma traça parar pertinho de um lápis e palpita como um fogo cinzento, olhe-a, eu estou olhando, estou apalpando seu coração pequenino, e ouço-o: essa traça ressoa na pasta de cristal congelado, nem tudo está perdido. Quando abrir a porta e assomar á escada, saberei que lá em baixo começa a rua; não as casas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta de tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina.
Instruções para Chorar
Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente. Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca. Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.
Instruções para Cantar
Comece por quebrar os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça. Cante uma nota só, escute por dentro. Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois) algo como uma paisagem afundada no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas seminuas de cócoras, acho que estará bem encaminhado, e do mesmo modo se ouvir um rio por onde descem barcos pintados de amarelo e preto, se ouvir um gosto de pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo. Depois compre cadernos de solfejo e uma casaca e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz.
Instruções-Exemplos sobre a Forma de Sentir Medo
Numa aldeia da Escócia vendem-se livros com uma página em branco perdida em algum lugar do volume. Se o leitor desembocar nessa página ao soarem as três da tarde, morre.
Na Praça de Quirinal, em Roma, há um lugar conhecido pelos iniciados até o século XIX e do qual, em noites de lua cheia, veem-se mexer lentamente as estátuas dos Dióscoros que lutam com seus cavalos empinados.
Em Amalfi, no fim da zona costeira, há um dique que penetra pelo mar e pela noite. Ouve-se um cão latir para além do último farol.
Um senhor está pondo pasta nos dentes na escova. De repente, vê, deitada de costas, uma diminuta imagem de mulher feita de coral ou talvez de miolo de pão pintado.Ao abrir o armário para apanhar uma camisa, cai um antigo calendário que se desmancha, se desfolha, cobre a roupa branca com milhares de sujas traças de papel.
Sabe-se de um caixeiro-viajante que começou a sentir dor no pulso esquerdo, justo debaixo do relógio de pulso. Ao arrancar o relógio, o sangue jorrou: a ferida mostrava os sinais de uns dentes muito finos.
O médico acaba de nos examinar e nos tranquiliza. Sua voz grave e cordial precede os remédios, cuja receita ele escreve agora sentado à mesa. De vez em quando levanta a cabeça e sorri, animando-nos. Não é nada demais e daqui a uma semana estaremos passando bem. Nos refestelamos no sofá, felizes, e olhamos distraidamente em volta. De repente, na penumbra debaixo da mesa, vemos as pernas do médico. Ele arregaçou as calças até as coxas e veste meias de mulher.
Instruções para Matar Formigas em Roma
As formigas vão comer Roma, já se disse. Elas andam entre as lajes; loba, que fio de pedras preciosas secciona sua garganta? Por algum lado saem as águas das fontes, as lousas vivas, os trêmulos camafeus que no meio da noite criticam a história, as dinastias e as comemorações. Seria preciso achar o coração que faz latejar as fontes para preveni-lo das formigas e organizar nesta cidade de sangue intumescido, de cornucópias eriçadas como mãos de cegos, um rito de salvação para que o futuro lixe os dentes nos montes, se arraste manso e sem força, totalmente sem formigas.
Primeiro procuraremos a orientação das fontes, o que é fácil porque nos mapas coloridos, nas plantas monumentais, as fontes também têm abastecedores e cascatas de cor azul-celeste; só que é preciso procurá-las muito e envolvê-las num recinto de lápis azul, não vermelho, pois um bom mapa de Roma é vermelho como Roma. Por cima do vermelho de Roma o lápis azul marcará um recinto roxo em torno de cada fonte, e agora temos certeza de que as pegamos todas e conhecemos a folhagem das águas. Mais difícil, mais obscuro e sigiloso é o mister de perfurar a pedra opaca sob a qual serpenteiam as veias de mercúrio, compreender à força de paciência a cifra de cada fonte, montar nas noites de lua penetrante uma guarda apaixonada junto aos vasos imperiais, até que de tanto sussurro verde, de tanto borbulhar de flores, comecem a nascer os caminhos, as confluências, as outras ruas, as esquinas. E sem dormir segui-las com varas de avelã em forma de forquilha, de triângulo, com duas varinhas em cada mão, com uma só agarrada entre os dedos fracos, mas tudo isso é invisível à polícia e à população amavelmente temerosa, andar pelo Quirinal, subir ao Campidoglio, correr aos gritos pelo Pincio, aterrorizar com uma aparição imóvel como um balão de fogo a ordem da Piazza della Esedra, e assim extrair dos surdos metais do solo a nomenclatura dos rios subterrâneos. E não pedir ajuda a ninguém, nunca.
Depois se irá percebendo como nessa mão de mármore esfolado as veias correm em harmonia, por prazer de águas, por artifício de jogo, até se aproximar pouco a pouco, confluir, enlaçar-se, transformar-se em artérias, derramar-se duras na praça central onde palpitam o tambor de vidro liquido, a raiz das copas pálidas, o cavalo profundo. E logo saberemos onde está, em que fundo de abóbadas calcárias, entre miúdos esqueletos de lêmures, bate seu tempo o coração da água. Será difícil saber, mas se saberá. Então mataremos as formigas que cobiçam as fontes, calcinaremos as galerias que esses mineiros horríveis tecem para aproximar-se da vida secreta de Roma. Mataremos as formigas só em chegar antes à fonte central. E partiremos num trem noturno, fugindo a tubarões vingadores, sentindo-nos obscuramente felizes, misturados a soldados e freiras.
Instruções para Subir uma Escada
Ninguém terá deixado de observar que frequentemente o chão se dobra de tal maneira que uma parte sobe em ângulo reto com o plano do chão, e logo a parte seguinte se coloca paralela a esse plano, para dar passagem a uma nova perpendicular, comportamento que se repete em espiral ou em linha quebrada até alturas extremamente variáveis. Abaixando-se e pondo a mão esquerda numa das partes verticais, e a direita na horizontal correspondente, fica-se na posse momentânea de um degrau ou escalão.
Cada um desses degraus, formados, como se vê, por dois elementos, situa-se um pouco mais acima e mais adiante do anterior, princípio que dá sentido à escada, já que qualquer outra combinação produziria formas talvez mais bonitas ou pitorescas, mas incapazes de transportar as pessoas do térreo ao primeiro andar.
As escadas se sobem de frente, pois de costas ou de lado tornam-se particularmente incômodas. A atitude natural consiste em manter-se em pé, os braços dependurados sem esforço, a cabeça erguida, embora não tanto que os olhos deixem de ver os degraus imediatamente superiores ao que se está pisando, a respiração lenta e regular. Para subir uma escada começa-se por levantar aquela parte do corpo situada embaixo à direita, quase sempre envolvida em couro ou camurça e que salvo algumas exceções cabe exatamente no degrau. Colocando no primeiro degrau essa parte, que para simplificar chamaremos pé, recolhe-se a parte correspondente do lado esquerdo (também chamada pé, mas que não se deve confundir com o pé já mencionado), e levando-a à altura do pé faz-se que ela continue até colocá-la no segundo degrau, com o que neste descansará o pé, e no primeiro descansará o pé. (Os primeiros degraus são os mais difíceis, até se adquirir a coordenação necessária. A coincidência de nomes entre o pé e o pé torna difícil a explicação. Deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo pé e o pé.) Chegando dessa maneira ao segundo degrau, será suficiente repetir alternadamente os movimentos até chegar ao fim da escada. Pode-se sair dela com facilidade, com um ligeiro golpe de calcanhar que a fixa em seu lugar, do qual não se moverá até o momento da descida.
Preâmbulo às Instruções para dar Corda no Relógio
Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você - eles não sabem, o terrível é que não sabem - dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.
Instruções para dar Corda no Relógio
Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não correm, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.
(Histórias de cronópios e famas; tradução de Glória Rodrigues)
(Ilustração: Dalí)
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Julio Cortázar - Manual de instruções
domingo, 11 de agosto de 2013
ANTI-DELAÇÃO, de Vasco Cabral
A noite veio,
disfarçada em dia,
e ofereceu-me a luz,
diáfana como a Aurora.
Mas eu disse que não.
Depois veio a serpente
disfarçada em virgem
e ofereceu-me os seios e os braços nus.
Mas eu disse que não.
Por fim veio Pilatos,
disfarçado em Cristo,
e numa voz humana e doce
disse: "se quiseres eu dou-te o paraíso
mas conta a tua historia..."
Mas eu disse que não,
que não, não, não!
E continuei um Homem!
E eles continuaram
os abutres do medo e do silêncio.
(Vidas Lusófonas - site; poeta de
Guiné-Bissau)
(Ilustração: Ron English - apples and oranges)
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
PORCALOCA, de Carlo Manzoni
"Desculpe, foi o senhor que telefonou
para que eu viesse amputar a sua perna?"
"Eu? O que é isso? Nem sonhando!"
"Mas o senhor se chama Dante del
Torro, não é? Faz meia-hora, um fulano me telefonou para que viesse alguém que
lhe cortasse uma perna."
"Eu não telefonei. Deve ser outro
Dante del Torro."
"Não, não... O endereço que me deram
foi este. E neste endereço só há um Dante del Torro, que é o senhor. Um parente
seu deve ter telefonado."
"Impossível. Hortênsia, por acaso você
telefonou para que viessem cortar a minha perna?"
"Eu, não. Telefonei para o mercadinho
pedindo que mandasse marmelada."
"Aí está, viu? Se o senhor tiver um
doce de marmelada..."
"Como posso ter um doce de marmelada?
Eu trouxe uma serra, pois quem me telefonou me pediu que trouxesse a serra, uma
vez que na casa não existia uma serra."
"Engana-se. Eu tenho uma serra."
"Mas é evidente que a sua não deve
servir para cortar uma perna."
"Como não? É igual a sua."
"Mas se é igual a minha, por que me
levaram ao incômodo de trazer outra serra?"
"Ó Dante, deixa de discussão, homem de
Deus. Deixa logo cortar esta maldita perna, mande-o embora e acabe logo com
isso."
"Desculpa, Hortênsia, mas por que
haverei eu de mandar cortar a minha perna
quando não fui eu que telefonei? Tenho ou
não tenho razão?"
"O senhor tem razão. Mas o que é que
eu faço agora? Alguém telefona, eu compro uma serra nova, gasto meu dinheiro,
venho até aqui e acabo perdendo o meu dia a troco de nada. O senhor também
deve me compreender..."
"Bem, com boa vontade sempre se pode
encontrar uma maneira de se chegar a um acordo. Tampouco ele, coitado, tem
culpa. Escuta, Dante, você devia de algum modo concordar com ele. Por que não
deixa que ele ampute um dedo seu?"
"Êpa! Péra lá!, minha senhora: um dedo
não é o suficiente!"
"Antes isso de que nada. Compreenda: é
apenas para agradá-lo, porque eu poderia mandá-lo embora de mãos abanando,
mesmo porque não fui eu quem o chamou."
"Bem, nesse caso, dois dedos."
"Ou um ou nada."
"Está bem, como quiser. Mas nesse caso,
precisa que seja um polegar."
"Vá lá, vá lá... Que seja o polegar,
já que me coloca nesta posição, está bem? E que seja esta a última vez, ouviu? Da
próxima vez me telefone de volta para confirmar a chamada... Se o senhor não
fosse um cara tão simpático... Pode... Ai!... porc... ahhh... vá aos poucos,
isso, aos pouquinhos... Uuuuh!"
(Ilustração: Dino Valls)
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
OS COMPANHEIROS, de Salgado Maranhão
deixa eu fazer um parêntese,
pode alguém querer
tomar um cafezinho
enquanto eu conto uma piada:
falaram que os companheiros
comiam do mesmo grude,
lambiam a caçarola
cheirando o sexo de esmola,
tremiam no mesmo frio
da mesma noite assassina,
gemiam no mesmo açoite
da mesma nau da chacina,
falaram que um companheiro
esfaqueou o amigo do peito
e foi lavar as mãos
no botequim da esquina.
mas não vamos entrar em detalhes
de crimes passionais,
eu cá por dentro de mim
já trago uma dor tão grande
que nem cabe nos jornais,
e tenho plena certeza
que na casa dos amigos
os fuzis após o lanche
esperam a hora do arroto.
(Punhos da Serpente)
(Ilustração: Santiago Caruso)
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Salgado Maranhão - Os companheiros
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
O PERU DE NATAL, de Alberto Moravia
No dia de Natal, quando o comerciante Policarpi-Curcio ouviu no telefone a mulher pedindo-lhe que chegasse em casa pontualmente porque tinha peru, alegrou-se muito, visto que, com o passar dos anos, não lhe restara outra paixão a não ser a gula. Imensa porém foi sua surpresa quando, ao chegar em casa por volta de meio-dia, encontrou o peru não na cozinha, enfiado no espeto e girando lentamente sobre um fogo de carvão, mas na sala de visita. O peru, vestido com elegância antiquada, com um paletó preto com debruns de seda, calças em tecido xadrez preto e branco e colete cinza com botões de osso, conversava com a filha de Curcio. A surpresa de Curcio ao encontrar o peru numa atitude e num lugar tão insólitos foi tão grande que, após as apresentações, aproveitando um momento de silêncio, ele não pôde deixar de inclinar-se para frente e dizer com cortesia mas também com firmeza: "Com licença, senhor... não sei se estou enganado... mas... mas me parece que o seu lugar não deveria ser aqui... repito, não sei se estou enganado... mas... o seu lugar deveria ser..." ia dizer "na panela", quando a mulher que, como ela mesma dizia, conhecia o seu rebanho, pisou-lhe no pé; e Curcio, que sabia por longa experiência o que significava aquele gesto, calou-se. A mulher, então, fez-lhe um sinal e, arrastando-o para fora da sala, disse-lhe em voz baixa e excitada que, pelo amor de Deus, não estragasse tudo. O peru era nobre, rico e influente; enfim, um excelente partido; e já demonstrava um interesse particular e evidentíssimo por Roseta; por acaso, com seus estúpidos comentários, ele queria acabar com o casamento que estava quase para se concretizar?
Curcio desculpou-se com a mulher e jurou que não abriria mais a boca. Quanto ao peru, a pergunta do anfitrião desavisado teve apenas o efeito de fazê-lo pegar o monóculo e examinar o infeliz de cima a baixo. Logo depois voltou a conversar com a filha de Curcio.
"Não adianta falar", pensava Curcio daí a pouco, sentado à mesa, enquanto a mulher se desdobrava em cortesias com o peru, "com um tipo como este, mais que dar-lhe a filha em casamento, a gente gostaria de torcer-lhe o pescoço: Curcio estava irritado sobretudo com o ar de superioridade e displicência que o peru assumia toda vez que lhe dirigia a palavra. Curcio sabia muito bem que vinha, como se costuma dizer, do nada, e que suas maneiras não eram tão elegantes como a mulher e a filha desejariam que fossem. Mas ele trabalhara a vida toda e ganhara muito dinheiro, era essa a razão pela qual não tinha tido tempo de cuidar da sua educação. O peru, ao contrário, com toda aquela empáfia, não poderia dizer o mesmo. Belas maneiras, sem dúvida, ares de grão-senhor, mas no final das contas, Curcio poderia jurar, pouca substância. Outra coisa que irritava Curcio era a maneira com a qual o peru, após ter dito alguma coisa espirituosa ou profunda, atirava a cabeça para trás, enfiando o bico e os barbilhões na gravata preta de plastrão e estufando o peito debaixo do colete. E finalmente o peru falava com a mulher de Curcio com a mesma escolha cuidadosa de palavras e a mesma modulada preciosidade de acento com que se dirigiria a uma duquesa. Mas Curcio enfurecia-se porque lhe parecia perceber certa dose de ironia neste respeito excessivo.. "Para a panela", pensava, "para a panela..."Contudo, essa antipatia de Curcio era mais do que compensada pela enfatuação das duas mulheres, mãe e filha, pelo peru. A mulher de Curcio e Roseta ficavam simplesmente suspensas aos lábios, ou melhor, aos barbilhões do peru, que as fascinava com seus relatos incríveis de festas, divertimentos, viagens, sucessos mundanos. A familiaridade respeitosa de um peru como aquele, que tinha intimidade com a alta sociedade, envaidecia a mãe. Quanto a Roseta, ela enrubescia, empalidecia, tremia e dirigia ao peru olhares ora suplicantes, ora inflamados, ora lânguidos, ora assustados.
Acontece que desde o início do almoço o pé do peru, calçado numa antiquada e elegante bota de camurça cinza com botões de madrepérola, não parava um instante sequer de molestar a sapatilha da moça.
Depois que o peru foi embora, houve uma discussão violentíssima entre Curcio e a mulher. Curcio dizia que estava na hora de parar com esses elegantões sofisticados e esnobes que, como todo mundo sabe, escondem sob a arrogância um monte de trapaças. Ele tinha trabalhado a vida toda e não se sentia inferior a nenhum peru deste mundo. A mulher respondia que este furor era inútil; o peru nunca afirmou que era superior a ele; que bicho o tinha mordido?
Quanto a Roseta, tendo-se deitado como costumava fazer todo dia depois do almoço, já estava sonhando com o peru. Via-o inclinado sobre ela que estava deitada de costas, as asas em volta de seus ombros, o bico sobre seus lábios entreabertos. O peru olha para ela carrancudo, e começa a estufar-se, a estufar-se, enchendo o quarto com suas penas cinzentas: mas, embora seja imenso, ele parece leve ao colo de Roseta que suspira no sono e murmura: "Querido peru".
Nos dias seguintes, apesar da crescente e visível antipatia de Curcio, o peru acabou se instalando na casa. Almoçava com eles: em seguida, ia para a sala de visita com a filha e lá ficava até a hora do jantar. Os dois, disse a mulher a Curcio, estavam praticamente noivos, embora o peru por motivos de família não quisesse que fosse feito, por enquanto, o anúncio oficial. "Belo genro", resmungava Curcio, "aceito um homem trabalhador, simples, de bom coração, mas um peru..."
Curcio, entrando em casa, podia ver, através dos vidros da porta da sala, a graciosa cabeça da filha ao lado da cabeça oca, feroz e estúpida do peru. Ele pensava que aquelas mãozinhas tão brancas e miúdas podiam estar acariciando aqueles barbicões vermelhos e enrugados, e sua antipatia aumentava. Acontece que, mesmo continuando a cortejar Roseta, o peru não se decidia a pedi-la em casamento. Até a mãe começava a ficar preocupada. Se era um peru sério, disse ela um dia para a filha, devia apresentar-se aos pais e pedi-la em casamento.
Roseta, ao ouvir essas palavras, olhou assustada para a mãe e não disse nada. Na realidade, o peru tinha conseguido desde os primeiros dias obter da moça os extremos favores. E agora ela, não menos que a mãe, estava ansiosa para que o peru regularizasse, por assim dizer, sua situação.
Um dia Roseta recebeu o peru na sala com um rio de lágrimas. Ela não podia viver daquela maneira, balbuciava entredentes, mentindo para si mesma e para os pais. O peru percorria a sala com largas passadas, as penas desalinhadas fora do colete, o bico entreaberto e enfurecido, os olhos injetados de sangue.
Finalmente disse-lhe que ela podia tirar da cabeça a idéia de casamento. Em vez de casar, se ela quisesse, podia fugir com ele para o exterior. Naquela noite ou nunca mais.
Após muitas hesitações, Roseta acabou concordando.
Naquela noite, Curcio, que sofria de insônia, levantou-se para ir tomar um pouco de ar na janela. Era uma noite de verão com a lua no auge de seu esplendor. Os Curcio moravam num palacete. Olhando pela janela, sem fazer barulho nem acender as luzes para não acordar a mulher, a primeira coisa que viu foi a sombra gigantesca do peru, com a cabeça erguida e o pescoço estufado, o bico verruguento virado para cima, refletida nitidamente na parede da casa inundada pela branca luz do luar. Ele baixou os olhos e ainda teve tempo de ver a filha pular de uma janela do primeiro andar entre os braços do peru. Este, carregando-a nos braços como se fosse uma trouxa, com uma força de que ninguém suspeitaria, rapidamente levava a moça em direção ao portão. Curcio acordou a mulher, correu a buscar uma velha espingarda.
Mas quando desceu não encontrou nenhum sinal dos fugitivos.
No dia seguinte, Curcio deu parte à policia do rapto. Mas nas delegacias ninguém acreditou. Um peru, diziam, como é possível que um peru tenha raptado sua filha. Os perus ficam nas gaiolas. Aliás a filha era maior de idade e não havia nada a fazer.
Mas as trapaças do peru foram descobertas assim mesmo. Descobriu-se que era casado, com filhos. Descobriu-se ainda que não era nem nobre nem rico, mas apenas um simples garçom expulso de vários lugares por furto. Curcio exultava, embora cheio de bílis. A mulher só chorava e chamava a filha.Tudo acabou com o costumeiro pedido de resgate; e Curcio teve que desembolsar muitos daqueles "belos tostões" ganhos com tanto sacrifício para ter de volta em casa a filha desonrada. Isso aconteceu em dezembro. No dia de Natal, a mulher telefonou para Curcio pedindo que não demorasse a voltar para casa já que havia peru; para eliminar qualquer equívoco, acrescentou que se tratava de uma pessoa muito séria que demonstrava uma visível inclinação por Roseta. não era, enfim, um peru como aquele do ano passado, quanto a isso podia confiar. "Eis como são as mulheres", pensou Curcio. Mas desta vez ele jurou que abriria bem os olhos, e não se deixaria enganar pelas falsas aparências e pelas palavras vazias de nenhum peru, fosse ele aristocrático ou plebeu.
(Tradução de Álvaro Lorencini e Letícia Zini Arantes)
(Ilustração: Antoine Helbert)
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Alberto Moravia - O peru de natal
sábado, 27 de julho de 2013
UM ACIDENTE CHOCANTE, de Graham Greene
I
Jerome foi chamado ao gabinete do prefeito no intervalo entre a segunda e a terceira aula numa manhã de quinta-feira. Não tinha receio de encrenca, pois era uma sentinela - nome que o proprietário e diretor de uma dispendiosa escola preparatória resolvera dar a garotos estudiosos e dignos de confiança das séries mais atrasadas (de sentinela passava-se a guardião e por fim, antes de se sair, como era de esperar, para Marlborough ou Rugby, cruzado). O prefeito, Mr. Wordsworth, sentado atrás de sua mesa, tinha um ar de perplexidade e apreensão. Ao entrar, Jerome teve a estranha impressão de estar causando certo temor.
- Sente-se, Jerome - disse Mr. Wordsworth. - Vai tudo bem com a trigonometria?
- Vai, sim senhor.
- Recebi um telefonema, Jerome. Da sua tia. Lamento dizer que tenho más notícias para você.
- É?
- Seu pai sofreu um acidente.
- Oh!
Mr. Wordsworth encarou-o com alguma surpresa.
- Um acidente grave.
- É mesmo?
Jerome adorava o pai: o verbo é correto. Como o homem recria Deus, Jerome recriou seu pai, transfigurando um irrequieto escritor viúvo num misterioso aventureiro que viajava por lugares remotos: Nice, Beirute, Maiorca, até mesmo as Canárias. Mais ou menos aos oito anos Jerome passara a acreditar que o pai era ou traficante de armas ou agente do Serviço Secreto Britânico. Então veio-lhe à mente a possibilidade de seu pai ter sido ferido numa "saraivada de balas de metralhadora".
Mr. Wordsworth brincou com a régua sobre a escrivaninha. Parecia sem saber como continuar. Afinal disse:
- Sabia que seu pai estava em Nápoles?
- Sabia, sim senhor.
- Sua tia recebeu comunicação hoje do hospital.
- Oh!
Mr. Wordsworth explicou em desespero:
- Foi um acidente de rua.
- Mesmo, senhor? - A Jerome parecia perfeitamente natural que chamassem a isso acidente de rua. A polícia naturalmente atirara primeiro: seu pai não mataria a não ser em último recurso.
- Infelizmente seu pai ficou de fato gravemente ferido.
- Oh!
- Na realidade, Jerome, ele morreu ontem. Sem sentir dores.
- O tiro pegou bem no coração?
- Como? Como disse, Jerome?
- O tiro pegou bem no coração?
- Não houve tiro nenhum, Jerome. Um porco caiu em cima dele. - Uma convulsão inexplicável apoderou-se dos nervos faciais de Mr. Wordsworth; por um momento pareceu que ele ia estourar na gargalhada. Fechou os olhos, compôs a fisionomia e falou depressa como se fosse necessário expelir a história com a maior rapidez possível:
- Seu pai ia andando numa rua de Nápoles quando um porco caiu em cima dele. Um acidente chocante. Ao que tudo indica, nos bairros mais pobres de Nápoles é costume criar porcos nos balcões das janelas. Esse tal estava no quarto andar. Tinha engordado demais. O balcão quebrou-se. O porco caiu em cima de seu pai.
Mr. Wordsworth deixou a escrivaninha e foi para a janela, dando as costas a Jerome. Estremeceu um pouco, emocionado.
II
- Que aconteceu com o porco? - perguntou Jerome.
Isso não era insensibilidade da parte de Jerome, como foi interpretado por Mr. Wordsworth para seus colegas (com quem chegou até a discutir, achando que talvez Jerome ainda não estivesse apto para ser uma sentinela). Jerome estava apenas tentando visualizar a estranha cena e obter todos os pormenores. Tampouco era Jerome um menino dado a chorar; era um menino que meditava, e nunca lhe acudiu à mente, durante o período da escola preparatória, que as circunstâncias da morte de seu pai eram cômicas - eram ainda parte do mistério da vida. Só mais tarde, no primeiro ano de colégio, ao contar a história a seu melhor amigo, foi que começou a notar a reação que ela provocava nos outros. Naturalmente, depois dessa revelação, ganhou o apelido, um tanto desarrazoado, de Porco.
Infelizmente sua tia não tinha senso de humor. Havia um instantâneo ampliado de seu pai em cima do piano: um homem alto e triste metido num inadequado terno escuro, posando em Capri com um guarda-chuva (para protegê-lo contra insolação), os rochedos de Faraglione ao fundo. Aos dezesseis anos Jerome deu-se conta de que o retrato parecia-se mais com o autor de Luz e Sombra e Perambulações nas Baleares do que com um agente do Serviço Secreto. Apesar de tudo, reverenciava a memória do pai - ainda possuía um álbum cheio de cartões postais (havia muito tempo que tirara os selos para a outra coleção) e era-lhe doloroso ver a tia narrar a desconhecidos a história da morte de seu pai.
- Um acidente chocante - começava ela, e o estranho ou estranha ia tratando de dar à fisionomia uma expressão compatível com o interesse e a comiseração. As reações eram, evidentemente, falsas, mas era terrível para Jerome ver como de repente, no meio da divagante fala da tia, o interesse se tornava sincero. - Não consigo imaginar como se permitem tais coisas num país civilizado - dizia a tia. - Suponho que temos de considerar civilizada a Itália. Normalmente se está preparado para toda sorte de coisas no exterior, é claro, e meu irmão era um grande viajante. Sempre levava consigo um filtro. Você sabe, sai muito menos dispendioso do que comprar todas aquelas garrafas de água mineral. Meu irmão dizia sempre que seu filtro pagava o vinho do jantar. Por aí pode-se ver como ele era cuidadoso. Mas quem podia esperar que quando ele estivesse andando pela Via Dottore Manuele Panucci, a caminho do Museu Hidrográfico, um porco lhe cairia na cabeça? - Esse era o momento em que o interesse se tornava sincero.
O pai de Jerome não fora um escritor dos mais eminentes, mas sempre parece chegar o momento, depois da morte de um autor, em que alguém acha que vale a pena mandar uma carta para o Times Literary Supplement anunciando a preparação de uma biografia e pedindo para ver cartas ou documentos ou receber anedotas dos amigos do morto.
A maioria das biografias, é claro, nunca aparece - a gente se pergunta se tudo aquilo não é uma obscura forma de chantagem e se muito autor potencial de biografia ou tese não encontra desse modo o meio de concluir sua educação em Kansas, em Nottingham. Jerome, porém, sendo um perito-contador, vivia longe do mundo literário.
Não percebia que a ameaça era realmente muito pequena; nem que a fase de perigo para uma pessoa obscura como seu pai passara havia muito. Às vezes ensaiava o método de narrar a morte do pai de modo a reduzir o elemento cômico às suas dimensões mais insignificantes. Seria inútil recusar-se a dar informações, pois em tal caso o biógrafo indubitavelmente faria uma visita à tia que marchava para uma idade bastante avançada, sem indícios de debilitação. Afigurava-se a Jerome que havia dois métodos possíveis: o primeiro conduzia de mansinho ao acidente, de sorte que, no momento em que era escrito, o ouvinte estava tão bem preparado que a morte surgia realmente como um anticlímax. O principal perigo de gargalhada em tal história era sempre a surpresa. Ao ensaiar esse método, Jerome começava de maneira bastante tediosa.
- Conhece Nápoles e aqueles altíssimos edifícios de apartamentos? Certa vez me contaram que o napolitano sempre se sente à vontade em Nova York, exatamente como o sujeito de Turim se sente à vontade em Londres porque o rio corre mais ou menos do mesmo jeito nas duas cidades. Onde era que eu estava? Ah, sim. Nápoles, claro. Você ficaria surpreendido com as coisas que nos bairros mais pobres o povo põe nas sacadas daqueles arranha-céus... não roupa suja, compreende? mas coisas como animais domésticos, galinhas ou até mesmo porcos. Naturalmente os porcos não têm oportunidade de fazer exercícios e engordam com a maior rapidez. - Imaginava como a essa altura os olhos do ouvinte estariam arregalados. - Não tenho a mínima ideia, e você? do peso a que pode chegar um porco, mas aqueles edifícios velhos precisam todos de reparos urgentes. Uma sacada no quarto andar cedeu sob o peso de um desses porcos. Atingiu a sacada do terceiro andar na queda e como que ricocheteou na rua. Meu pai ia passando para o Museu Hidrográfico quando o porco o alcançou. Vindo daquela altura e daquele ângulo, quebrou o pescoço de meu pai. Essa era de fato uma tentativa magistral de tornar enfadonho um assunto intrinsecamente interessante.
O outro método ensaiado por Jerome tinha a virtude da concisão.
- Meu pai foi morto por um porco.
- Foi mesmo? Na Índia?
- Não. Na Itália.
- Interessante. Nunca imaginei que na Itália se caçava porco com chuço. Seu pai era fã de pólo?
No devido tempo, nem muito cedo nem muito tarde, exatamente como se em sua condição de perito-contador Jerome tivesse estudado as estatísticas e tirado a média, ficou noivo - noivo de uma moça de vinte e cinco anos, agradável, de rosto juvenil, cujo pai era médico em Pinner. Chamava-se Sally, seu autor favorito era ainda Dornford Yates, e adorava crianças desde que ganhara de presente aos cinco anos uma boneca que movia os olhos e fazia xixi. Como convinha aos amores de um perito-contador, as relações entre os dois eram marcadas mais pelo contentamento que pela excitação: não seriam corretas se atrapalhassem as contas.
Entretanto, um pensamento preocupava Jerome. Agora que dentro de um ano ele mesmo podia vir a ser pai, seu amor pelo morto aumentava; sabia quanta afeição banhava os cartões-postais. Sentia um intenso desejo de proteger a memória do morto e não tinha certeza de que esse seu amor tranquilo sobreviveria se Sally se mostrasse tão insensível a ponto de rir quando ouvisse a história da morte do pai dele.
Inevitavelmente ela iria ouvi-la quando Jerome a levasse a jantar com a tia. Várias vezes ele próprio tentou contar, já que ela, como era natural, estava ansiosa de saber tudo a respeito do noivo.
- Você era bem pequeno quando seu pai morreu?
- Tinha nove anos.
- Coitadinho - disse ela.
- Eu estava na escola. Eles é que me deram a notícia.
- Você sofreu muito?
- Não me recordo.
- Nunca me contou como é que foi.
- Foi muito de repente. Um acidente de rua.
- Você nunca vai dirigir em alta velocidade, vai, Jemmy? - (Ela começara a chamá-lo Jemmy.) Era muito tarde então para tentar o segundo método, ou a caçada de porco com chuço.
Iam casar-se sossegadamente num cartório e passar a lua-de-mel em Torquay. Ele evitou levar a noiva à casa da tia até uma semana antes do casamento, mas então chegou a noite de ir lá, e não pôde deixar de perguntar a si mesmo se sua apreensão era mais pela memória do pai ou pela segurança de seu amor. O momento não tardou a aparecer.
- Esse é o pai de Jemmy? - perguntou Sally, pegando no retrato do homem com o guarda-chuva.
- É, sim, querida. Como adivinhou?
- Ele tem os olhos e a testa de Jemmy, não tem?
- Jerome emprestou a você os livros dele?
- Não.
- Eu lhe darei uma coleção como presente de casamento. Ele escrevia com muita ternura sobre suas viagens. Meu favorito é Recantos e Frinchas. Tinha um belo futuro pela frente. Foi isso que tornou aquele acidente ainda mais chocante.
- Verdade?
Como Jerome desejou ardentemente deixar a sala para não ver aquele rosto amado encrespar-se com a vontade irresistível de rir!
- Recebi muitas cartas dos seus leitores depois que o porco caiu em cima dele.
A tia nunca fora tão abrupta antes.
E então ocorreu o milagre. Sally não riu. Sally sentou-se com os olhos esbugalhados de horror enquanto a tia contava a história, e no fim:
- Que coisa horrível! exclamou. - Faz a gente pensar, não é mesmo? Acontecer assim. Despencar lá de cima.
O coração de Jerome cantou de alegria. Era como se ela lhe tivesse aplacado o medo para sempre. No táxi, a caminho de casa, ele beijou-a com mais paixão do que jamais revelara, e ela retribuiu do mesmo jeito. Havia bebês nas pupilas azul-claro da moça, bebês que reviravam os olhos e faziam xixi.
- De hoje a uma semana - disse Jerome, e ela lhe apertou a mão. - Em que está pensando, meu amor?
- Fiquei curiosa de saber - disse Sally - o que aconteceu com o pobre do porco.
- É quase certo ter sido comido no jantar - disse Jerome feliz e beijou novamente a criaturinha adorada.
(Tradução de José Laurênio de Meio)
(Ilustração: Monica Cook)
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quarta-feira, 24 de julho de 2013
LES AVEUGLES / OS CEGOS, Charles Baudelaire
Pareils aux mannequins, vaguement ridicules
Terribles, singuliers comme les sonnambules;
Dardant on ne sait où leurs globes ténébreux.
Leurs yeux, d'où la divine étincelle est partie,
Comme s'ils regardaient au loin, restent levés
Au ciel; on ne les voit jamais vers les pavés
Pencher rêveusement leur tête appesantie.
Ils traversent ainsi le noir illimité,
Ce frère du silence eternel. O cité!
Pendant qu'autour de nous tu chantes, ris et beugles,
Éprise du plaisir jusqu'à l'atrocité,
Vois! je me trâine aussi! Mais, plus qu'eux hébété
Je dis: Que cherchent-ils au Ciel, tous ces aveugles?
Tradução de Ivan Junqueira:
Contempla-os, ó minha alma; eles são pavorosos!
Iguais aos manequins, grotescos, singulares,
Sonâmbulos, talvez, terríveis se os olhares,
Lançando não sei de onde os globos tenebrosos.
Suas pupilas, onde ardeu a luz divina,
Como se olhassem à distância, estão fincadas
No céu; e não se vê jamais sobre as calçadas
Se um deles a sonhar sua cabeça inclina.
Cruzam assim o eterno escuro que os invade,
Esse irmão do silêncio infinito. Ó cidade!
Enquanto em torno cantas, ris e uivas ao léu!
Nos braços de um prazer que tangencia o espasmo,
Olha! também me arrasto! e, mais do que eles pasmo,
Digo: que buscam estes cegos ver no Céu?
(Ilustração: Bruegel - os cegos)
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domingo, 21 de julho de 2013
PHILIMOR, ALMA DE CRIANÇA, de Witold Gombrowicz
Em fins do século XVIII, um camponês parisiense teve uma criança; a criança por sua vez, teve uma criança, que teve uma criança por sua vez. Depois, houve outra criança... e a última criança, que se tornara campeã mundial, disputava, certo dia, nas quadras do Racing Club de Paris, em ambiente tenso e sob torrentes de aplausos, uma partida de tênis.
No entanto, (oh, que traições horríveis nos reserva a vida!) um certo coronel dos zuavos, que estava sentado na tribuna lateral, tomou-se de inveja pelo jogo assombroso e impecável dos dois campeões. E, subitamente, querendo mostrar sua capacidade aos seis mil espectadores presentes, - e também à amiguinha que o acompanhava - sacou do revólver e deu um tiro na bola, no momento em que ela voava entre as duas raquetas. A bola estourou e caiu. Privados da bola, os campeões continuaram, par algum tempo, a dar raquetadas no ar, mas, exasperados pelo absurdo daquele momento sem sentido, caíram nos braços um do outro. Uma torrente de aplausos sacudiu a assistência.
O caso poderia ter-se resumido nisso, é claro. Mas, circunstância imprevista, o coronel, em sua excitação, não prestou atenção suficiente (oh, como é preciso ser atento!) aos espectadores que estavam sentados na tribuna em frente. Imaginara, não se sabe por que, que o projétil, depois de ter atravessado a bola de tênis, terminaria sua trajetória; mas infelizmente isso não aconteceu... e, prosseguindo adiante, a bala atingiu o pescoço de um espectador. O sangue jorrou da artéria seccionada.
A mulher do ferido quis atirar-se sobre o coronel e arrancar-lhe o revólver, mas, vendo que isso seria impossível, pois estava cercada pela multidão, contentou-se em esbofetear seu vizinho da direita. Isso porque não havia outro meio de expandir sua indignação e porque, segundo uma lógica muito feminina, achava (no mais íntimo recanto de seu subconsciente) que, sendo mulher, podia permitir-se qualquer coisa.
Mas, evidentemente, as coisas não se desenrolaram como ela imaginara. Pois o esbofeteado (ah, como nossos cálculos são incertos, e imprevisíveis nossos destinos!) era nada mais nada menos que um epilético em estado de latência. Com o choque do bofetão, o infeliz jorrou de si mesmo um gêiser. A pobre mulher viu-se entre dois homens, um dos quais cuspia sangue e o outro espuma. A multidão explodiu numa torrente de aplausos.
Foi então que, num acesso de pânico, um senhor que estava sentado ali perto atirou-se em cima da cabeça de uma senhora, sentada mais embaixo. Esta se levantou, tomou impulso e pulou para a quadra, carregando-o nas costas, em doida corrida. A multidão explodiu numa torrente de aplausos. E tudo poderia ter-se resumido nisso. Mas aconteceu ainda (tudo! seria preciso prever tudo, pensar em tudo!) que a alguns passos dali estava sentado um pobre-diabo, um obscuro sonhador aposentado que, havia anos, a cada vez que assistia a um espetáculo público, ardia de vontade de pular em cima da cabeça das pessoas sentadas mais embaixo, e só a muito custo conseguia controlar-se. Estimulado pelo exemplo, atirou-se sem mais tardar sobre seu vizinho de baixo que (era uma funcionariazinha chegada havia pouco tempo de Tanger) pensou que era assim mesmo, que era moda, e que essa era a maneira certa de comportar-se nos meios elegantes... Assim sendo, atirou-se também para a quadra, atenta a que seus movimentos não a traíssem, denotando alguma timidez.
O setor mais culto do público pôs-se a aplaudir diplomaticamente, para dissimular o escândalo aos olhos dos representantes das embaixadas e delegações estrangeiras.
Mas deu-se um mal-entendido, pois outros espectadores menos cultos tomaram esses aplausos como sinal de aprovação... e cada um pôs-se a cavalgar sua dama. Os estrangeiros demonstravam espanto crescente. Que saída restava, portanto, a gente tão fina, diante de tais circunstâncias? Para dissimular o escândalo, puseram-se também eles a cavalgar suas damas.
E tudo poderia ter-se resumido nisso, quase que certamente. Mas então, um certo Marquês de Philimor, sentado na tribuna de honra ao lado de sua esposa e da família desta, achou-se na obrigação de portar-se como um cavalheiro.E, vestido num terno claro de verão, surgiu no centro da quadra, pálido porém decidido, perguntando em tom glacial se alguém, e quem era esse alguém, desejava ofender sua mulher, a Marquesa de Philimor. E atirou à multidão um punhado de cartões de visita, nos quais estava gravado: "Philippe de Philimor" (Ah! Como é preciso prestar atenção, como a vida é difícil e perigosa!) Fez-se um silêncio mortal.
Subitamente, pelo menos trinta e seis senhores, montados em mulheres de raça, de finos jarretes, aproximaram-se da Marquesa, a passo, com a intenção de ofendê-la, para poderem sentir-se tão cavalheiros quanto o Marquês, seu esposo. Mas a Marquesa (oh, quão louca é a existência!), apavorada, deu à luz - ouviu-se, aos pés do Marquês, sob os cascos das mulheres que relinchavam, um vagido de criança!
O Marquês, subitamente apanhado em flagrante criancice, em terrível, completa infantilidade, quando até o presente momento agira de modo muito amadurecido, como um cavalheiro que era, partiu, envergonhado, enquanto os espectadores explodiam numa torrente de aplausos.
(Tradução de Vera Pedroso)
(Ilustração: Jean Bailly)
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