domingo, 17 de abril de 2011

O AMOR ACABA, de Paulo Mendes Campos







O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; no álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. 



(Textos clássicos do português contemporâneo) 




(Ilustração: Jeffrey Mims – nurture of Jupter)





sexta-feira, 15 de abril de 2011

DUAS FESTAS NO MAR, de Sosígenes Costa






Uma sereia encontrou
um livro de Freud no mar.
Ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava.


Quando a sereia leu Freud
sobre uma estrela do mar,
tirou o pano de prata
que usava para esconder
a sua cauda de peixe.
E o mar então deu uma festa.


E no outro dia a sereia
achou um livro de Marx
dentro de um búzio do mar.
Quando a sereia leu Marx
ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava
nem a rainha do mar.


Tirou então a coroa
que usava para dizer
que não era igual aos peixinhos.
Quebrou na pedra a coroa.


E houve outra festa no mar.



(Poesia completa - 2001)


(Ilustração: John William Waterhouse – Mermaid)




quarta-feira, 13 de abril de 2011

ONDE ESTÁS, LOLITA?, de Vladimir Nabokov






Sábado. Há já alguns dias que deixo entreaberta a porta do meu quarto, enquanto escrevo, mas só hoje a armadilha funcionou. Com muito mais nervosismo, evasivas e rapapés do que é habitual - para disfarçar o embaraço que lhe causava visitar-me sem ser convidada -, Lo entrou e, depois de meter o nariz aqui e ali, interessou-se pelos rabiscos de pesadelo que eu acabara de traçar numa folha de papel. Oh, não, não eram obra de um inspirado beleletrista, numa pausa entre dois parágrafos! Eram os horrendos hieróglifos (que ela não podia decifrar) da minha fatal concupiscência. Quando a Lo inclinou os caracóis castanhos para a secretária à qual estava sentado, Humbert, o Rouco, enlaçou-a, numa triste imitação de parentesco consanguíneo. Ainda a observar, com olhos um pouco míopes, a folha de papel que segurava, a minha inocente visitinha deixou-se escorregar para uma posição de meio sentada, no meu joelho.


O seu adorável perfil, os seus lábios entreabertos e o seu cálido cabelo estavam a uns oito centímetros dos meus arreganhados caninos, e eu sentia o calor das suas pernas, através do tecido áspero das roupas de maria-rapaz.



Compreendi, de repente, que lhe podia beijar, com absoluta impunidade, o pescoço ou o canto dos lábios. Sabia que ela consentiria e até fecharia os olhos, como Hollywood ensina. Um sorvete duplo de baunilha com creme quente de chocolate - seria algo pouco mais invulgar do que isso. Não sei dizer ao meu erudito leitor (cujas sobrancelhas desconfio que, nesta altura, já se devem ter arqueado até à nuca da sua cabeça calva), não lhe sei dizer como adquiri tal conhecimento; talvez o meu ouvido de macaco tivesse captado inconscientemente qualquer ligeira modificação no seu ritmo respiratório - pois, entretanto, ela deixara de examinar os meus gatafunhos e aguardava, com curiosidade e compostura - oh, minha transparente ninfita! -, que o seu fascinante hóspede fizesse o que estava mortinho por fazer. Calculei que uma garota moderna, ávida leitora de revistas cinematográficas e perita em close-ups lentos como um sonho, talvez não achasse muito estranho que um amigo adulto, interessante e intensamente viril... Tarde de mais. A casa vibrou subitamente com a voz da gárrula Louise, a comunicar a Mrs. Haze que ela e Leslie Tomson tinham encontrado não sei o quê de morto na cave, e a pequenina Lolita não era pessoa para perder semelhante história.


Domingo. Mutável, mal-humorada, alegre, desajeitada, graciosa com a graciosidade picante da sua subadolescência inexperiente -, dolorosamente apetecível da cabeça aos pés (toda a Nova Inglaterra pela pena de uma escritora!), do laço preto, já feito, e dos ganchos que lhe prendiam os cabelos à pequena cicatriz da parte inferior da barriga da perna perfeita (onde um patinador a atingira em Pisky), uns cinco centímetros acima do grosso soquete branco. Foi com a mãe a casa dos Hamiltons - uma festa de anos ou coisa parecida.

Vestido de saia rodada, de tecido de algodão às riscas. As pombinhas dos seus seios parecem já bem formadas. Precoce armadilha!

Segunda feira. Manhã chuvosa. «Ces matins gris si doux...» O meu pijama branco tem um desenho lilás nas costas. Sou como uma dessas pálidas e inchadas aranhas que se costumam ver nos velhos jardins. Instalada no meio de uma teia luminosa e dando puxõezinhos a este ou àquele fio. A minha teia está estendida por toda a casa, enquanto eu escuto na minha cadeira, na qual estou sentado como um manhoso feiticeiro. A Lo estará no seu quarto? Suavemente, puxo a seda da teia. Não está. Ouvi há pouco o porta-papel higiênico emitir o staccato habitual, ao girar; e o meu filamento esticado não captou passos alguns, da casa de banho para o seu quarto.

Ainda estará a lavar os dentes (o único ato de higiene que Lo pratica com verdadeiro interesse)? Não. A porta da casa de banho acaba de bater; portanto, há que auscultar em qualquer outro ponto da casa a presença da bonita presa de cores cálidas. Deixemos um fio de seda descer a escada...


Certifico-me assim de que não está na cozinha - nem a bater com a porta do frigorífico, nem a gritar à sua detestada mamã (que, suponho, saboreia a sua terceira, arrulhadora e reprimidamente jovial conversa telefônica da manhã). Bem, tateemos e esperemos. Como uma aranha, deslizo em pensamento até à sala e encontro o rádio silencioso (e a mamã ainda a conversar com Mrs. Chatfield ou Mrs. Hamilton, em voz muito suave, toda ela corada e sorridente, protegendo o bocal do telefone com a mão livre, negando implicitamente que nega esses boatos divertidos acerca do hóspede, sussurrando em tom muito íntimo, coisa que a bem delineada dama nunca faz numa conversa cara a cara): consequentemente, a minha ninfita não está em casa! Saiu! O que eu supusera uma urdidura prismática mais não é, afinal, do que uma velha teia de aranha cinzenta, a casa está vazia, morta. E, de súbito, ouço o riso suave e doce de Lolita através da minha porta meio aberta: "Não diga nada à minha mãe, mas comi o seu bacon todo!" Já desapareceu de novo, porém, quando saio apressado do meu quarto. Onde estás, Lolita? O tabuleiro do meu pequeno-almoço, preparado com carinho pela minha senhoria, ri-se desdentado e sardonicamente, à espera de ser levado para dentro. Lola, Lolita!



(Lolita)



(Ilustração: Dino Valls)




segunda-feira, 11 de abril de 2011

A UMA MULHER AMADA , de Safo





Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto um fogo sutil correr de veia em veia

por minha carne, ó suave bem querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.

Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.

Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro... eu tremo.



(Tradução de Décio Pignatari)


(Ilustração: Clovis Trouille)


sábado, 9 de abril de 2011

OS NOIVOS, de José J. Veiga







Todo dia depois da escola ela passa na loja para ver o noivo. Chega cansada, os braços marcados dos cadernos da classe e da bolsa de costura. Ela está sempre costurando, bordando, consertando, não ainda para o enxoval, mas por hábito, para ter sua roupa em ordem; escola come roupa, diz ela.


Um irmão dela ajuda na loja e já está entendendo tudo, o que é um bom descanso para o dono. Na lojinha acanhada mas bem sortida, principalmente de artigos que podem ser levados no bolso — pentes, botões, fitas, linhas, grampos de cabelo — tudo tem seu lugar certo em gavetas, vitrines, prateleiras com divisões, caixas de tamanho uniforme, com um exemplar do artigo pregado na parte de fora que fica à vista, e o rapaz sabe encontrar o que o freguês procura, a bem dizer de olhos fechados.



O dono mora nos fundos da loja, aí faz café numa cafeteira a álcool, come um almoço de marmita e raramente sai à rua. Para ter um lugar onde receber a noiva sem causar escândalo, ele mandou fazer uma salinha numa extremidade da loja, sacrificando um pedaço do balcão. Eles passam boa parte da tarde na sala, sentados em poltronas de vime separadas por uma mesinha de centro, idéia da noiva, e muito bem pensada: a mesinha serve para ela descansar a costura, para ele apoiar os braços e serve também de barreira entre eles, para evitar comentários.



De calça caseira, paletó de pijama e chinelos, os braços apoiados na mesa ou na poltrona, ele fica olhando para um ponto vago no chão, ou para os pés cruzados sobre os chinelos, uma ameaça de sorriso nos cantos da boca; outras vezes se distrai com um cordão apanhado na loja, enrola-o num dedo para sentir o latejar do sangue represado, desenrola-o, dá-lhe nós pelo prazer de desatá-los, quanto mais apertados melhor; mas nunca esquece o sorriso. Ninguém saberia se o sorriso é indício de algum pensamento maroto ou defesa permanente contra possíveis interpelações da noiva, caso ela o julgasse preocupado, ou aborrecido.



Ela já está habituada com o temperamento calado do noivo, mas de vez em quando ainda reclama.



— Muda de assunto, Vicente.



Ele olha para ela, acentua um pouco mais o sorriso, e para mostrar que não está ausente, nem morto, muda a posição dos pés nos chinelos, o que estava embaixo passa para cima; mas não diz nada, apenas solta um "huuum?" esticado.



— Muda de assunto. Esse já está batido.



— Você também não diz nada...



— Dizer o quê, se você não fala.



Como ela fala sem tirar os olhos da costura, ele não se julga obrigado a replicar; e mesmo que encontrasse o que dizer, talvez não fosse oportuno mais, ela já está mordendo os lábios para o pano estendido diante dos olhos, com certeza se repreendendo por algum ponto mal dado. Para não atrapalhá-la, ele fica calado. Pode ser que, sendo o noivado já antigo, eles tenham esgotado os assuntos correspondentes a essa fase; se é isso, só o casamento os poderá salvar, abrindo novas perspectivas.



Frequentemente entram fregueses indiscretos na loja, e esses sempre vão para o canto perto da sala; e enquanto fingem examinar o artigo pedido, ficam de ouvido atento para a porta, os de ouvido fraco chegam a pender a cabeça, mas em pura perda. Imaginando que o silêncio pode ter significado mais forte do que qualquer conversa, os mais afoitos põem o escrúpulo de lado e chegam-se de supetão na frente da porta — e dão com os noivos separados pela mesa, ele encolhido em seu silêncio, ela distraída com a costura. Desapontados, os curiosos se vingam na primeira oportunidade. É só ouvirem alguém comentar a eternidade do noivado e lá vem um sorriso torto, um ar de quem conhece segredos que a discrição não deixa revelar, e a insinuação calhorda:



— Casar pra quê? Como está, está tão bom...



Quando a claridade vai fugindo da salinha, a noiva para a costura, dobra os panos direitinho, junta-os, estica o corpo para trás, discretamente para não destacar o volume dos seios.



— Está na hora, Vicente.



Ele tateia o chão com os pés à procura dos chinelos, levanta-se e vai se vestir para o jantar na casa da noiva. A família já está esperando, menos o irmão mais novo, que janta na loja de um prato que lhe mandam.



Ao jantar cada um fala do que viu ou fez durante o dia, o noivo só escuta. Ninguém se preocupa mais com ele, ninguém lhe pede opinião nem espera que ele abra a boca a não ser para comer, só a noiva o observa disfarçadamente, há nele certos hábitos que ela desaprova e que pretende corrigir — quando chegar a ocasião. Onde teria ele aprendido esse sistema de cortar a carne prendendo-a com o garfo verticalmente, polegar para cima, como se estivesse briquitando com o boi vivo?



Depois do jantar a família novamente se espalha, uns vão sentar-se à porta, outros saem a passeio. A empregada retira a mesa, mas os noivos continuam em seus lugares, ela corrigindo exercícios, ele olhando as mãos pousadas na toalha, ou traçando figuras imaginárias no tecido ou brincando com uma tesoura, um lápis, um objeto qualquer. Ela se contém ao máximo, por fim ordena:



— Sossega com isso, Vicente.



Ele sorri, empurra o objeto tentador para longe e volta a concentrar-se nas mãos, sempre novas para ele, sempre merecedoras de minuciosa atenção.



No verão, quando rolos de mariposas vêm rodar em volta da lâmpada e caem sobre a mesa, os cadernos, os cabelos dos noivos, ela põe uma vasilha d’água na mesa embaixo da lâmpada. Isso é bom para o noivo, assim ele pode passar o tempo entretido, acompanhando o esforço que as mariposas fazem para sair da água, torcendo por elas ou mesmo ajudando-as com o dedo ou com um lápis.



Antes de se recolher a empregada vem saber se precisam de alguma coisa. Se há sobra de café os noivos aceitam, Vicente recebe a sua xícara e vai mexendo o açúcar sem pressa, aparentemente esquecido da vida, mas na verdade muito atento ao que faz; quer dissolver o açúcar até o último vestígio.



— Quer derreter a colher, Vicente? Que coisa!



Ele encerra a operação açúcar e começa a operação espuma. É preciso catar toda a espuma, sem deixar uma bolha que seja.



— Quando você beber já está frio, Vicente.



Vicente descansa a colher no pires, não de qualquer jeito, mas estudadamente: não convém que ela resvale para o centro do pires quando a xícara for levantada. Agora já se pode beber, e ele bebe a sério, sem atropelo, como se estivesse provando pela primeira vez uma bebida desconhecida chamada café.



Corrigido o último caderno a professora os empilha pela ordem de colocação dos alunos na classe para facilitar a distribuição, não se deve dar pretexto para desordem na aula. E por hoje é só.



— Vamos dormir, não é, Vicente?



Vicente ainda se acanha de ouvir isso, a frase tem para ele uma ressonância que não parece muito correta. Será que ela diz isso de propósito? Não pode ser. Um dia ele cria coragem e mostra a impropriedade do convite. O assunto é delicado, exige tato.



Levantam-se ao mesmo tempo. Ele arruma a cadeira direitinho no alinhamento com as outras, ela alisa o vestido atrás e acompanha o noivo até a porta. A essa hora as cadeiras já foram recolhidas e não há mais ninguém na calçada, por isso não convém que eles se demorem sozinhos, é preciso cuidado com as más línguas.



— Até amanhã, não é?



— Até amanhã, Vicente.



Ele desce a rua em passos miúdos, e só depois que passa a área de luz do primeiro poste é que se autoriza a olhar para trás e acenar timidamente com a mão, isso se não está passando ninguém.



Ela entra, escora a porta com o peso do ferro, pensando no irmão que chega mais tarde, escova os dentes e vai dormir. Pode haver estrelas, vento, risos e ruídos na noite, mas tudo isso pertence a outro mundo. Cada um em sua cama, é possível até que os noivos sonhem, mas isso ainda não foi comprovado.





(Ilustração:Deborah Pointon)



quarta-feira, 6 de abril de 2011

A VERDADE, de Sade








Mas que quimera é esta, estéril e impotente,
Que divindade é esta imposta à néscia gente
Por sacerdotes vis, cambada de impostores?
Quererão eles contar-me entre os seus seguidores?
Ah, jamais, juro-o, e não faltarei ao já dito,
Jamais ídolo tão repelente e esquisito
Esse que do delírio é filho e da irrisão
A mim me causará a mais leve impressão.
Eu, glorioso e feliz com o meu epicurismo,
Só pretendo expirar no seio do ateísmo
E que o infame Deus feito para me alarmar
Seja ideado por mim tão só para o blasfemar.
Minha alma te detesta, oh sim, vã ilusão,
E protesto-o aqui, pra tua convicção.
Quisera que existir pudesses por um momento
Pra gozar o prazer de insultar-te a contento.
De facto ele quem é, esse fantasma odioso,
Esse poltrão de Deus, esse ser horroroso
Que nada oferece ou mostra ao espírito e ao olhar,
Que faz tremer o parvo e o que é sábio zombar,
Que aos sentidos não fala e nem o entende alguém,
Cujo culto cruel mais sangue sempre tem
Feito correr que a guerra ou que Témis feroz
Em mil anos verter fizeram entre nós [1]?
Deífico tratante, em vão eu o analiso
Com filósofo olhar, em vão o estudo e viso:
Não vejo no motor de tais religiões
Mais que um impuro nó de mil contradições,
Que cede e se desfaz mal a gente o encara,
O insulta à vontade, o ultraja, o declara
Gerado pelo temor e da esperança nascido [2],
Que o meu esp’rito jamais teria concebido;
Em alternância ele é, nas mãos dos que o erigem,
Objecto de terror, de alegria ou vertigem,
Que o astuto impostor que no-lo vem pregar
Faz sobre a vida humana a seu prazer reinar,
Que ora ruim o pinta, ora em bondade infindo,
Ora nos massacrando, ora de pai servindo,
Sempre lhe atribuindo, a mando das paixões,
Costumes como os seus, suas opiniões;
Ou a mão que perdoa ou a que nos entala,
Com este Deus idiota o padre nos embala.
Com que direito aquele que a mentira adstringe
Pretende submeter-me ao erro que o atinge?
Careço eu do Deus que a sábia mente abjura
Pra a mim mesmo explicar as leis da mãe natura?
Nela tudo se move, e o seu seio criador
Age sem precisar da ajuda dum motor [3].
Este duplo embaraço algo me dá a ganhar?
A causa do universo esse Deus vem mostrar?
Se cria, também é criado, e assim fico,
Em recorrer a ele como antes interdito.
Sai do meu seio, sai, infernal impostura,
Desaparecendo cede às leis da mãe natura:
Ela só tudo fez, tu és o nada hiante
Do qual, ao nos criar, sua mão nos pôs distante.
Desvanece-te, pois, execrável quimera!
Pra longes climas foge, abandona esta terra
Onde mais não verás que corações fechados
Ao patoá intrujão dos teus apaniguados!
Quanto a mim, reconheço, é tal e é tamanho,
Tão justo, grande e forte este horror que te tenho,
Que com prazer, Deus vil, e com tranquilidade
Que digo eu? com enlevo e voluptuosidade,
Teu carrasco era eu se tua fraca existência
Oferecesse algum ponto à vingança, à violência,
E feliz o meu braço ia ao teu coração
Comprovar o rigor desta minha aversão. [*]
Mas é trabalho vão pretender-te atingir,
A tua essência escapa ao que a quer coagir.
Não podendo esmagar-te, ao menos, entre os vivos,
Queria eu derrubar os teus altares nocivos
E mostrar aos que um Deus cativa inda por ora
Que esse aborto tão vil que sua fraqueza adora
Não é feito pra pôr algum termo às paixões.
Ó ímpeto sagrado, altivas impressões,
Sempre, sempre por nós sede homenageados:
Vós só podeis auferir o culto dos mais sábios,
Vós só seu coração constantes deleitar,
Dados pela natureza, vós só nos alegrar!
Ceda-se ao seu poder e que a sua violência,
Subjugando nossa alma alheia à resistência,
Nossos prazeres transforme em leis impunemente:
Basta ao nosso desejo o que a sua voz expende [4].
Por mais que à agitação seu órgão nos arraste
Há que ceder-lhes sem remorso e sem desgaste;
E, não escrutando leis nem costumes lembrando,
Ardentemente ao erro irmo-nos entregando,
Que sempre por suas mãos no-lo ditou natura.
Respeitemos tão só o que ela nos murmura;
O que a nossa lei vã fustiga em toda a terra
É, pra o que ela planeia, o que mais preço encerra.
O que ao homem parece uma injustiça atroz
Efeito da sua mão corruptora é em nós,
E quando – hábito nosso – ir errar receamos,
Acolhê-la melhor é o que enfim lucramos [5].
Essas doces acções a que vós chamais crime
Esses excessos que só o parvo ilegitima
São os desvios que mais lhe agradam ao olhar
Vícios, inclinações que a fazem deleitar;
O que ela grava em nós não é senão sublime;
Aconselhando o horror, oferece quem vitima.
É feri-la então sem medo e sem temor talvez
De ter, em lhe cedendo, obrado malvadez.
Vejamos como o raio em suas mãos fatais
Fulmina ao acaso e como os filhos e os pais,
Os templos, os bordéis, os crentes, os bandidos,
Tudo à natura apraz, carente de delitos.
Servimo-la nós também ao cometer o crime:
Mais nossa mão o espalha e mais aquela o estima [6].
Usemos do seu grande império sobre nós,
Entregando-nos sempre ao prazer mais atroz [7]:
Defesas nunca são suas leis homicidas
E a violação, o incesto, o roubo, os parricídios,
Os gostos de Sodoma e o que Safo aprova,
O que ao homem faz mal ou o que o leva à cova
Tudo por certo é meio de lhe agradar.
Por terra os deuses pôr, o seu raio roubar
E destruir com ele, o dardo faiscante,
Tudo o que nos despraz num mundo horripilante.
Nada se poupe então: que as suas malvadezas
Sirvam de exemplo em tudo às nossas más proezas.
Sagrado, nada há: tudo neste universo
Deve ao jugo vergar do nosso vivo acesso [8].
Quanto mais aumentar, variar a perfídia,
Melhor a sentirá nossa alma decidida:
Dobrando, encorajando as nossas tentativas,
Leva-nos passo a passo às acções mais nocivas.
Os belos anos vão-se, ela chama por nós;
Dos deuses escarnecendo, ouçamos sua voz:
Pra nos recompensar, seu crisol espera já;
O que o poder tomou, necessidade dá.
Tudo ali se restaura e reproduz também.
Do grande e do pequeno a puta será mãe,
E todos vê iguais seu olhar amoroso,
O monstro e o celerado, o bom e o virtuoso.


NOTAS DE SADE



[1] Avaliam-se em mais de cinquenta milhões de indivíduos as perdas ocasionadas pelas guerras ou massacres de religião. Acaso valerá uma só de entre elas o sangue de uma ave? E não deverá a filosofia deitar mão a todas as armas para exterminar um Deus em prol do qual se imolam tantos seres que valem mais do que ele, pois não há seguramente nenhuma ideia mais estúpida, mais perigosa, mais extravagante, nada mais detestável do que um Deus?



[2] A ideia de um Deus só adveio aos homens quando eles temeram, ou tiveram esperança. A isto apenas devemos atribuir a quase unanimidade dos homens sobre tal quimera. Universalmente infeliz, o homem teve, em todos os lugares e em todos os tempos, motivos de esperança e de temor, e em toda a parte invocou a causa que o atormentava, como em toda a parte esperou pelo fim dos seus males. Demasiado ignorante ou demasiado crédulo para saber que a desdita inevitavelmente anexada à sua existência outra causa não tinha do que a própria natureza dessa existência, ao invocar o ser a quem atribuía essa causa criou quimeras a que renunciou, logo que o estudo e a experiência lhe fizeram sentir a sua inutilidade.

O temor fez os deuses e a esperança manteve-os.


[3] O mais ligeiro estudo da natureza convence-nos da eternidade do movimento no seu seio e esse exame atento das suas leis mostra-nos que nada nela perece, que ela continuamente se regenera sob o efeito daquilo que nós julgamos que a ofende ou que parece destruir as suas obras. Ora, se as destruições lhe são necessárias, a morte torna-se uma palavra vazia de sentido: o que há são transmutações e não extinção. Ora a perpetuidade do movimento que existe nela deita abaixo toda a ideia de um motor.



(*) À margem, uma variante que não foi riscada:

Masturbar-me-ia sobre a tua divindade,
Enrabar-te-ia se a tua fraca existência
Oferecesse um cu à minha incontinência;
Meu braço o coração te viria a arrancar
Pra com o meu fundo horror melhor te penetrar.
(Nota de G. Lely)


[4] Entreguemo-nos indistintamente a tudo quanto as paixões nos inspiram e seremos sempre felizes. Desprezemos a opinião dos homens: ela é apenas o fruto dos seus preconceitos. E quanto à nossa consciência, nunca receemos a sua voz quando conseguimos entorpecê-la: o hábito facilmente a reduzirá ao silêncio e não tardará a metamorfosear em prazer as mais desagradáveis recordações. A consciência não é o órgão da natureza; apenas é, não nos ludibriemos, o órgão dos preconceitos; vençamo-los e a consciência ficará às nossas ordens. Interroguemos a consciência do selvagem, perguntemos-lhe se ela lhe censura o que quer que seja. Quando ele mata o seu semelhante e o devora, a natureza parece falar nele; a consciência está muda. Ele concebe o que os parvos chamam crime e executa-o; tudo se cala, tudo está em sossego, ele serviu a natureza mediante a acção que mais agrada a essa natureza sanguinária cujo crime mantém a energia e que só de crimes se alimenta.



[5] E como poderíamos nós ser culpados quando mais não fazemos do que obedecer às impressões da natureza? Os homens e as leis que são obra dos homens podem considerar-nos como tal, mas jamais a natureza. Só se lhe resistíssemos é que poderíamos a seus olhos ser culpados. É esse o único crime possível, o único de que devemos abster-nos.



[6] Demonstrado como está que o crime lhe agrada, o homem que melhor a servirá será necessariamente aquele que der maior extensão ou gravidade aos seus crimes, devendo notar-se que a extensão lhe agrada ainda mais do que a gravidade, pois, apesar da diferença que os homens estabelecem, o assassínio e o parricidio são exactamente a mesma coisa a seus olhos. Mas o que tiver provocado mais desordens no universo agradar-lhe-á muito mais do que aquele que se tiver detido ao primeiro passo. Que esta verdade ponha à vontade os que dão rédea solta às suas paixões e que eles se convençam de que a melhor maneira de servir a natureza é multiplicar as suas perfídias.



[7] Estes gostos só são verdadeiramente úteis e prezados pela natureza enquanto propagarem, enquanto espalharem aquilo a que os homens chamam a desordem. Quanto mais eles cortam, sapam, deterioram, destroem, mais preciosos lhe são. A eterna necessidade que ela tem de destruição serve de prova a esta asserção. Tratemos de destruir, pois, ou de impedir de nascer, se queremos ser úteis aos seus planos. Assim, o masturbador, o assassino, o infanticida, o incendiário, o sodomita, são homens conformes com os desejos dela, aqueles que, por conseguinte, devemos imitar.



[8] Impormo-nos freios ou barreiras na via do crime seria visivelmente ultrapassar as leis da natureza que nos entrega indistintamente todos os seres de que nos rodeia, sem jamais abrir excepções, pois desconhece os nossos laços e cadeias, de modo que as pretensas destruições são nulas a seus olhos, que o irmão que dorme com a irmã não faz pior do que aquele que dorme com a amante e que o pai que imola o filho não ultraja mais a natureza do que o particular que assassina um desconhecido por esses caminhos. A seus olhos não há qualquer diferença dessas; o que ela quer é o crime; não interessa a mão que o comete ou o seio em que é cometido.



(A Verdade e outros textos, tradução de Luiza Neto Jorge)


(Ilustração: Edouard Debat – La Vérité sortant du puits)




domingo, 3 de abril de 2011

CONFERÊNCIA SOBRE ÉTICA, de Ludwig Wittgenstein [*]





Meu tema, como sabem, é a Ética e adotarei a explicação que deste termo deu o professor Moore em seu livro Principia Ethica. Ele diz: "A Ética é a investigação geral sobre o que é bom." Agora, vou usar a palavra Ética num sentido um pouco mais amplo, um sentido, na verdade, que inclui a parte mais genuína, em meu entender, do que geralmente se denomina Estética. E para que vejam da forma mais clara possível o que considero o objeto da Ética vou apresentar antes várias expressões mais ou menos sinônimas, cada uma das quais poderia substituir a definição anterior e ao enumerá-las pretendo obter o mesmo tipo de efeito que Galton obteve quando colocou na mesma placa várias fotografias de diferentes rostos com o fim de obter a imagem dos traços típicos que todos eles compartilhavam. Mostrando esta fotografia coletiva, poderei fazer ver qual é o típico - digamos - rosto chinês. Deste modo, se vocês olharem através da série de sinônimos que vou apresentar, serão capazes de, espero, ver os traços característicos que todos têm em comum e que são característicos da Ética. Ao invés de dizer que "a Ética é a investigação sobre o que é bom", poderia ter dito que a Ética é a investigação sobre o valioso, ou sobre o que realmente importa, ou ainda, poderia ter dito que a Ética é a investigação sobre o significado da vida, ou daquilo que faz com que a vida mereça ser vivida, ou sobre a maneira correta de viver. Creio que se observarem todas estas frases, então terão uma idéia aproximada do que se ocupa a Ética. A primeira coisa que nos chama a atenção nestas expressões é que cada uma delas é usada, realmente, em dois sentidos muito distintos. Vou denominá-los, por um lado, o sentido trivial ou relativo, e por outro, o sentido ético ou absoluto. Por exemplo, se digo que esta é uma boa poltrona, isto significa que esta poltrona serve para um propósito predeterminado e a palavra bom aqui tem somente significado na medida em que tal propósito tenha sido previamente fixado. De fato, a palavra bom no sentido relativo significa simplesmente que satisfaz um certo padrão predeterminado. Assim, quando afirmamos que este homem é um bom pianista, queremos dizer que pode tocar peças de um certo grau de dificuldade com um certo grau de habilidade. Igualmente, se afirmo que para mim é importante não resfriar-me quero dizer que apanhar um resfriado produz em minha vida certos transtornos descritíveis e se digo que esta é a estrada correta significa que é a estrada correta em relação a uma certa meta. Usadas desta forma, tais expressões não apresentam problemas difíceis ou profundos. Mas isto não é o uso que delas faz a Ética. Suponhamos que eu soubesse jogar tênis e alguém de vocês, ao ver-me, tivesse dito "Você joga bastante mal" e eu tivesse contestado "Sei que estou jogando mal, mas não quero fazê-lo melhor", tudo o que poderia dizer meu interlocutor seria "Ah, então tudo bem.". Mas suponhamos que eu tivesse contado a um de vocês uma mentira escandalosa e ele viesse e me dissesse "Você se comporta como um animal" e eu tivesse contestado "Sei que minha conduta é má, mas não quero comportar-me melhor", poderia ele dizer "Ah, então, tudo bem"? Certamente, não. Ele afirmaria "Bem, você deve desejar comportar-se melhor". Aqui temos um juízo de valor absoluto, enquanto que no primeiro caso era um juízo relativo. A essência desta diferença parece obviamente esta: cada juízo de valor relativo é um mero enunciado de fatos e, portanto, pode ser expresso de tal forma que perca toda a aparência de juízo de valor. Ao invés de dizer "Esta é a estrada correta para Granchester", eu poderia perfeitamente dizer "Esta é a estrada correta que deves tomar se queres chegar a Granchester no menor tempo possível". "Este homem é um bom corredor" significa simplesmente que corre um certo número de quilômetros num certo número de minutos, etc.. O que agora desejo sustentar é que, apesar de que se possa mostrar que todos os juízos de valor relativos são meros enunciados de fatos, nenhum enunciado de fato pode ser nem implicar um juízo de valor absoluto. Permitam-me explicar: suponham que alguém de vocês fosse uma pessoa onisciente e, por conseguinte, conhecesse todos os movimentos de todos os corpos animados ou inanimados do mundo e conhecesse também os estados mentais de todos os seres que tenham vivido. Suponham, além disso, que este homem escrevesse tudo o que sabe num grande livro. Então tal livro conteria a descrição total do mundo. O que quero dizer é que este livro não incluiria nada do que pudéssemos chamar juízo ético nem nada que pudesse implicar logicamente tal juízo. Conteria, certamente, todos os juízos de valor relativo e todas as proposições científicas verdadeiras que se pode formar. Mas, tanto todos os fatos descritos como todas as proposições estariam, digamos, no mesmo nível. Não há proposições que, em qualquer sentido absoluto, sejam sublimes, importantes ou triviais. Talvez agora alguém de vocês esteja de acordo e invoque as palavras de Hamlet: "Nada é bom ou mau, mas é o pensamento que o faz assim." Mas isto poderia levar novamente a um mal-entendido. O que Hamlet diz parece implicar que o bom ou o mau, embora não sejam qualidades do mundo externo a nós, são atributos de nossos estados mentais. Mas o que quero dizer é que um estado mental entendido como um fato descritível não é bom ou mau no sentido ético. Por exemplo, em nosso livro do mundo lemos a descrição de um assassinato com todos os detalhes físicos e psicológicos e a mera descrição nada conterá que possamos chamar uma proposição ética. O assassinato estará exatamente no mesmo nível que qualquer outro acontecimento como, por exemplo, a queda de uma pedra. Certamente, a leitura desta descrição pode causar-nos dor ou raiva ou qualquer outra emoção ou poderíamos ler acerca da dor ou da raiva que este assassinato suscitou em outras pessoas que tiveram conhecimento dele, mas seriam simplesmente fatos, fatos e fatos e não Ética. Devo dizer agora que, se considerasse o que a Ética deveria ser realmente - se existisse uma tal ciência -, este resultado parece-me bastante óbvio. Parece-me evidente que nada do que somos capazes de pensar ou de dizer pode constituir-se o objeto. Que não podemos escrever um livro científico cujo tema venha a ser intrinsecamente sublime e superior a todos os demais. Somente posso descrever meu sentimento a este respeito mediante a seguinte metáfora: se um homem pudesse escrever um livro de Ética que realmente fosse um livro de Ética, este livro destruiria, com uma explosão, todos os demais livros do mundo. Nossas palavras, usadas tal como o fazemos na ciência, são recipientes capazes somente de conter e transmitir significado e sentido naturais. A Ética, se ela é algo, é sobrenatural e nossas palavras somente expressam fatos, do mesmo modo que uma taça de chá somente pode conter um volume determinado de água, por mais que se despeje um litro nela. Disse que com relação a fatos e proposições há somente valor relativo e acerto e bem relativos. Permitam-me, antes de prosseguir, ilustrar isto com um exemplo ainda mais óbvio. A estrada correta é aquela que conduz a um fim predeterminado arbitrariamente e a todos nós parece totalmente claro que não há sentido em falar da estrada correta independentemente de tal alvo predeterminado. Vejamos agora o que possivelmente queremos dizer com a expressão "a estrada absolutamente correta". Creio que seria aquela que, ao vê-la, todo o mundo deveria tomar com necessidade lógica ou envergonhar-se de não fazê-lo. Do mesmo modo, o bom absoluto, se é um estado de coisas descritível, seria aquele que todo o mundo, independentemente de seus gostos e inclinações, realizaria necessariamente ou se sentiria culpado de não fazê-lo. Quero dizer que tal estado de coisas é uma quimera. Nenhum estado de coisas tem, em si, o que gostaria de denominar o poder coercitivo de um juiz absoluto. Então, o que temos em mente e o que tentamos expressar quando sentimos a tentação de usar expressões como "bom absoluto", "valor absoluto", etc.? Sempre que tento esclarecer isto para mim é natural que recorra a casos nos quais, sem dúvida, usaria tais expressões, de modo que me encontro na mesma situação que vocês estariam se, por exemplo, eu desse uma conferência sobre a psicologia do prazer. Neste caso, o que vocês fariam seria tentar invocar algumas situações típicas nas quais sempre sentiram prazer, pois com esta situação na mente, chegaria a se tornar concreto e, por assim dizer, controlável, tudo o que eu pudesse dizer a vocês. Alguém poderia escolher como um exemplo típico a sensação de passear num dia ensolarado de verão. Quando trato de concentrar-me no que entendo por valor absoluto ou ético, encontro-me numa situação semelhante. Em meu caso, ocorre-me sempre que a idéia de uma particular experiência se apresenta como se fosse, em certo sentido, e de fato é, minha experiência par excellence e por esta razão, ao dirigir-me agora a vocês, usarei esta experiência como meu primeiro e principal exemplo (como já disse, isto é uma questão totalmente pessoal e outros poderiam dar outros exemplos mais chamativos). Na medida do possível, vou descrever esta experiência de maneira que faça vocês invocarem experiências idênticas ou similares a fim de poder dispor de uma base comum para nossa investigação. Creio que a melhor forma de descrevê-la é dizer que, quando eu a tenho, assombro-me ante a existência do mundo. Sinto-me então inclinado a usar frases tais como "Que extraordinário que as coisas existam" ou "Que extraordinário que o mundo exista". Mencionarei, em continuação, outra experiência que conheço e que a alguns de vocês parecerá familiar: trata-se do que poderíamos chamar a experiência de sentir-se absolutamente seguro. Refiro-me àquele estado anímico em que nos sentimos inclinados a dizer: "Aconteça o que acontecer, estou seguro, nada pode prejudicar-me". Permitam-me agora considerar estas experiências visto que, segundo creio, mostram as verdadeiras características que tentamos esclarecer. E aqui está o que primeiro tenho a dizer: a expressão verbal que damos a estas experiências carece de sentido. Se afirmo "Assombro-me ante a existência do mundo", estou usando mal a linguagem. Deixem-me explicar isso. Tem perfeito e claro sentido dizer que me assombra que algo seja como é. Todos entendemos o que significa que me assombre o tamanho de um cachorro que é maior do que qualquer outro visto antes ou de qualquer coisa que, no sentido ordinário do termo, seja extraordinária. Em todos os casos deste tipo, assombro-me de que algo seja como é, quando eu poderia conceber que não fosse assim. Assombro-me do tamanho deste cachorro porque poderia conceber um cachorro de outro tamanho, isto é, de tamanho normal, do qual não me assombraria. Dizer "Assombro-me de que tal ou tal coisa seja como é" somente tem sentido se posso imaginá-la não sendo como é. Assim, alguém pode assombrar-se, por exemplo, da existência de uma casa quando a vê depois de muito tempo que não a via e tinha imaginado que ela tinha sido demolida neste intervalo. Mas carece de sentido dizer que me assombro da existência do mundo porque não posso imaginá-lo como não existindo. Certamente, poderia assombrar-me de que o mundo que me rodeia seja como é. Se, por exemplo, enquanto olho o céu azul eu tivesse esta experiência, poderia assombrar-me de que o céu seja azul em oposição ao caso de estar nublado. Mas não é isto que quero dizer. Assombro-me do céu seja lá o que ele for. Poderíamos nos sentir inclinados a dizer que estou me assombrando de uma tautologia, isto é, de que o céu seja ou não azul. Mas precisamente não tem sentido afirmar que alguém está se assombrando de uma tautologia. Isto pode aplicar-se à outra experiência mencionada: a experiência da segurança absoluta. Todos sabemos o que significa na vida cotidiana estar seguro. Sinto-me seguro em minha sala, já que não pode atropelar-me um ônibus. Sinto-me seguro se já tive a coqueluche e, portanto, já não poderei tê-la novamente. Sentir-se seguro significa, essencialmente, que é fisicamente impossível que certas coisas possam ocorrer-me e, por conseguinte, carece de sentido dizer que me sinto seguro aconteça o que acontecer. Mais uma vez, trata-se de um mau uso da palavra "seguro", do mesmo modo que o outro exemplo era um mau uso da palavra "existência" ou "assombrar-se". Quero agora convencer vocês que um característico mau uso de nossa linguagem subjaz a todas as expressões éticas e religiosas. Todas elas parecem, prima facie, ser somente símiles. Assim, parece que quando usamos, em sentido ético, a palavra correto, embora o que queremos dizer não seja correto no seu sentido trivial, é algo similar. Quando dizemos: "É uma boa pessoa", embora a palavra boa aqui não signifique o mesmo que na frase "Este é um bom jogador de futebol" parece haver alguma similaridade. E quando dizemos "A vida deste homem era valiosa", não o entendemos no mesmo sentido que se falássemos de alguma joia valiosa, mas parece haver algum tipo de analogia. Deste modo, todos os termos religiosos parecem ser usados como símiles ou alegorias. Quando falamos de Deus e de que ele tudo vê e quando nos ajoelhamos e oramos, todos os nossos termos e ações parecem ser partes de uma grande e completa alegoria que o representa como um ser humano de enorme poder cuja graça tentamos cativar, etc., etc.. Mas esta alegoria descreve também a experiência que acabo de aludir. Porque a primeira delas é, segundo creio, exatamente aquilo a que as pessoas se referem quando dizem que Deus criou o mundo; e a experiência da segurança absoluta tem sido descrita dizendo que nos sentimos seguros nas mãos de Deus. Uma terceira vivência deste tipo é a de sentir-se culpado e pode ser descrita também pela frase: Deus condena nossa conduta. Desta forma parece que, na linguagem ética e religiosa, constantemente usamos símiles. Mas um símile deve ser símile de algo. E se posso descrever um fato mediante um símile, devo também ser capaz de abandoná-lo e descrever os fatos sem sua ajuda. Em nosso caso, logo que tentamos deixar de lado o símile e enunciar diretamente os fatos que estão atrás dele, deparamo-nos com a ausência de tais fatos. Assim, aquilo que, num primeiro momento, pareceu ser um símile, manifesta-se agora como um mero sem sentido. Talvez para aquele que - como eu, por exemplo - viveu as três experiências que mencionei (e podia acrescentar outras) elas parecem ter, em algum sentido, valor intrínseco e absoluto. Mas, desde o momento em que digo que são experiências, certamente, são também fatos: aconteceram num lugar e duraram certo tempo e, por conseguinte, são descritíveis. Em continuação ao que disse há poucos minutos, devo admitir que carece de sentido afirmar que têm valor absoluto. Precisarei minha argumentação dizendo: "é um paradoxo que uma experiência, um fato, pareça ter valor sobrenatural." Há uma via pela qual sinto-me tentado a solucionar este paradoxo. Permitam-me considerar, novamente, nossa primeira experiência de assombro diante da existência do mundo descrevendo-a de forma ligeiramente diferente. Todos sabemos o que na vida cotidiana poderia denominar-se um milagre. Obviamente é, simplesmente, um acontecimento de tal natureza que nunca tínhamos visto nada parecido com ele. Suponham que este acontecimento ocorreu. Pensem no caso de que em alguém de vocês cresça uma cabeça de leão e comece a rugir. Certamente isto seria uma das coisas mais extraordinárias que sou capaz de imaginar. Tão logo nos tivéssemos recomposto da surpresa, o que eu sugeriria seria buscar um médico e investigar cientificamente o caso e, se não pelo fato de que isto causaria sofrimento, mandaria fazer uma dissecação. Aonde estaria então o milagre? Está claro que, no momento em que olhamos as coisas assim, todo o milagroso haveria desaparecido; a menos que entendamos por este termo simplesmente um fato que ainda não tenha sido explicado pela ciência, coisa que significa por sua vez que não temos conseguido agrupar este fato junto com outros num sistema científico. Isto mostra que é absurdo dizer que "a ciência provou que não há milagres". A verdade é que o modo científico de ver um fato não é vê-lo como um milagre. Vocês podem imaginar o fato que puderem e isto não será em si milagroso no sentido absoluto do termo. Agora nos damos conta de que temos utilizado a palavra "milagre" tanto num sentido absoluto como num relativo. Agora, vou descrever a experiência de assombro diante da existência do mundo dizendo: é a experiência de ver o mundo como um milagre. Sinto-me inclinado a dizer que a expressão linguística correta do milagre da existência do mundo - apesar de não ser uma proposição na linguagem - é a existência da própria linguagem. Mas, então, o que significa ter consciência deste milagre em certos momentos e não em outros? Tudo o que disse ao transladar a expressão do milagroso de uma expressão por meio da linguagem à expressão pela existência da linguagem é, mais uma vez, que não podemos expressar o que queremos expressar e que tudo o que dizemos sobre o absolutamente milagroso continua carecendo de sentido. Para muitos de vocês a resposta parecerá clara: bom, se certas experiências nos levam constantemente a atribuir-lhes uma qualidade que chamamos valor absoluto ou ético e importante, isto somente mostra que ao que nos referimos com tais palavras não é um sem sentido, que depois de tudo, o que significamos ao dizer que uma experiência tem valor absoluto é simplesmente um fato como qualquer outro e tudo se reduz a isto e que ainda não encontramos a análise lógica correta daquilo que queremos dizer com nossas expressões éticas e religiosas. Sempre que me salta isto aos olhos, de repente vejo com clareza, como se se tratasse de um lampejo, não somente que nenhuma descrição que possa imaginar seria apta para descrever o que entendo por valor absoluto, mas que rechaçaria ab initio qualquer descrição significativa que alguém pudesse possivelmente sugerir em razão de sua significação. Em outras palavras, vejo agora que estas expressões carentes de sentido não careciam de sentido por não ter ainda encontrado as expressões corretas, mas sua falta de sentido constituía sua própria essência. Isto porque a única coisa que eu pretendia com elas era, precisamente, ir além do mundo, o que é o mesmo que ir além da linguagem significativa. Toda minha tendência - e creio que a de todos aqueles que tentaram alguma vez escrever ou falar de Ética ou Religião - é correr contra os limites da linguagem. Esta corrida contra as paredes de nossa jaula é perfeita e absolutamente desesperançada. A Ética, na medida em que brota do desejo de dizer algo sobre o sentido último da vida, sobre o absolutamente bom, o absolutamente valioso, não pode ser uma ciência. O que ela diz nada acrescenta, em nenhum sentido, ao nosso conhecimento, mas é um testemunho de uma tendência do espírito humano que eu pessoalmente não posso senão respeitar profundamente e que por nada neste mundo ridicularizaria.





(Tradução de Darlei Dall'Agnol)



[*] Nota do blog: A "Conferência sobre a Ética" proferida por Ludwig Wittgenstein em 1929 em Viena, Áustria, não foi uma palestra acadêmica convencional ministrada em uma universidade. Em vez disso, foi uma conferência proferida em um contexto mais informal e em um ambiente menos estruturado. Wittgenstein não costumava dar palestras acadêmicas tradicionais, e suas apresentações muitas vezes aconteciam em locais menos formais, como em reuniões com amigos, estudiosos e intelectuais interessados em suas ideias.
 


(Ilustrução: Hélio Oiticica – metaesquema)



sexta-feira, 1 de abril de 2011

EL BELLO NIÑO / O MENINO BONITO, de Fina Garcia Marruz






Tú sólo, bello niño, puedes entrar a un parque.
Yo entro a ciertos verdes, ciertas hojas o aves.

Tú sólo, bello niño, puedes llevar la ropa
ausente del difunto, distraída y remota.

La rapa dibujada, el sombrero del ave.
Tú sólo en ese reino indisoluble y grave

has tocado la magia de lo exterior, las cosas
indecibles. Yo llevo la rapa maliciosa

del que de muerte sabe y de amarga inocencia.
Tú no sabes que tienes toda posible ciencia.

Mas ay, cuando lo sepas, el parque se habrá ido,
conocerás la extraña lucidez del dormido,

y por qué el sol que alumbra tus álamos de oro
los dora hoy con palabras y días melancólicos.




Tradução de Alai Garcia Diniz e Luizete Guimarães Barros:



Só você, menino bonito, pode entrar num parque.
Eu entro em certos campos, em certas folhas ou em aves.

Só você, menino bonito, pode levar a roupa
ausente do defunto, distraída e remota.

A roupa desenhada, o chapéu da ave.
Só você nesse reino indissolúvel e grave

tocou a magia do exterior, as coisas
indizíveis. Eu levo a roupa maliciosa

de quem sabe da morte e da amarga inocência.
Você não sabe que tem toda a ciência possível.

Mas ai! quando o saiba, o parque estará destruído,
você conhecerá a estranha lucidez do adormecido,

e por que o sol que ilumina seus álamos dourados
hoje os tinge de ouro com palavras e dias melancólicos.



(Las miradas perdidas, 1951)





(Ilustração: Emil Nolde – child in large bird)