sábado, 21 de março de 2026

O EROTISMO NA LITERATURA FEMININA DO INÍCIO DO SÉCULO XX - DA SUBMISSÃO AO DESAFIO AO CÂNONE, de Nelly Novaes Coelho




“As transformações, universalmente conhecidas do comportamento erótico dos jovens, indicam a decomposição do indivíduo, que não tem mais a força necessária para a paixão – a força interior da libido – e muito menos precisa dela, de um lado porque a organização social que a integra encarrega-se de afastar os interditos, que antigamente inflamavam as paixões; e de outro, porque transfere o controle (de suas pulsões) para o próprio indivíduo, que deve adaptar-se (à nova ordem/desordem) a qualquer preço.” (Adorno, A Dialética Negativa)

Essa constatação de Adorno acerca da sexofilia (fruição desordenada, promíscua e aleatória do sexo) que é uma das marcas de nosso tempo, em reação contra a sexofobia (interdito ao sexo) dos tempos de ontem, toca num dos principais nervos (se não o principal) dos movimentos feministas e da literatura feminina contemporânea: o desafio à interdição ao sexo.

Em um momento de fundas crises mundiais (ou planetárias?), como este que atravessamos, que interesse poderia haver em questões aparentemente secundárias, como literatura feminina, sexo interdito ou livre e poesia? Nenhum, se tais fenômenos forem encarados como puro entretenimento ou isoladamente, cada qual como coisa-em-si, desligados do contexto em que surgiram. Mas, se vistos pelo prisma de acontecimentos visceralmente ligados ao evoluir da história, da cultura ou da nossa consciência-de-mundo em contínua transformação, eles se revelam como essenciais.

É nessa ordem de ideias que propomos aqui a leitura de certas vozes poéticas femininas que, no início de século XX, pioneiramente, se assumiram como transgressoras do cânone fundante da civilização cristã-burguesa: o interdito ao sexo. Ao rastrearmos os motivos dessa transgressão e as formas poéticas pelas quais ela se deu, possivelmente compreenderemos melhor o porquê dessa onda de sexofilia que hoje avassala o mundo ocidental.

Referimo-nos às vozes de: Colombina (S. Paulo); Gabriela Mistral (Chile); GiLka Machado (Rio de Janeiro); Juana de Ibarbourou (Uruguay); e Florbela Espanca (Portugal). Todas elas contemporâneas e que estrearam em livro nos anos 10. Como se vê, são vozes de diferentes continentes e diferentes estágios de cultura, mas identificadas entre si (mesmo sem se conhecerem umas às outras) por um denominador comum: a imagem ideal de mulher (pura, submissa ao poder do homem) que está na base da civilização herdada e cujo modelo foi criado na Idade Média, durante o grande movimento espiritualizador realizado pela Igreja. “Modelo” que no Renascimento se transformou na imagem da “amada pura e inacessível” e do Amor visto como valor absoluto, tal como vivido na poesia (Dante, Petrarca, Camões…). Modelo que se impôs até meados da Era Romântica, quando o avanço da Ciência veio pôr em questão a própria existência de Deus e roubou do homem a sua origem divina, como “filho de Deus” … É o momento (meados do século XIX) em que o homem de “alma” vira “lama”. Amputado de sua transcendência, que sentido tinham os interditos aos “apetites baixos”? que significado teria o “pecado” se já não havia Céu para os bons e Inferno para os maus? Se o homem era pura matéria, que sentido tinha abster-se dos “gozos carnais”, para preservação da pureza da alma?

Claro está que tais perguntas não foram feitas de imediato com tal objetividade. As novas ideias sempre se propagam devagar, como uma espécie de fumaça ou atmosfera que se vai imiscuindo pelos interstícios das certezas já consagradas. Assim aconteceu com as poetas aqui em causa: o desafio primeiro que todas elas lançaram ao “interdito ao pecado da carne” foi o de assumir o pecado, como um mal ao qual era impossível resistir. Para avaliarmos melhor o grau de coragem e ousadia da transgressão assumida pelas poetas aqui em causa, comecemos pelo contexto social e cultural a que elas pertenciam.

Nascidas no apagar das luzes do século XIX, Colombina, Gabriela, Gilka, Juana e Florbela surgiram num momento em que a poesia feminina era vista como o “sorriso da sociedade”, - rótulo dado pela crítica à poesia lírico-pueril então em moda nos salões e revistas culturais. Poesia que cantava a convencional graça feminina, ingênua e casta, lamentos de amor não correspondidos etc. Criticando a mesmice dessa poesia, o crítico argentino, José Bariel, escreve, em 1921: “(Essa poesia) não conhece outro mundo senão o dos amores, […] e está constituída por um íntimo horror contra a expressão da vida real e comum, ou chamar as coisas por seus nomes. Obedientes unicamente a sua infantil imaginação e a essa atitude espiritual do subjetivismo puro, no qual a complexidade da vida real cede ao simplismo da ficção, todas elas imaginam a mesma coisa, todas expressam os mesmos sentimentos e convergem para os mesmos motivos, formas, frases, locuções e termos.” (El Hogar n° 588)

É contra o panorama dessa “mesmice” (resultante da pacífica submissão da mulher aos cânones que a sociedade lhe impunha), que vão se fazer ouvir as primeiras vozes transgressoras, - as que expressam um eu que se busca como dono de sua própria verdade. Afinal, o que disseram elas? Comecemos com Colombina, seguindo a ordem cronológica de publicação dos livros de cada uma delas.

COLOMBINA (pseud. de Yde S. Blumenschein. São Paulo, 1882-1963) - Vislumbres. 1908.

Personalidade de grande agudez intelectual e sólida formação cultural (estudou na Alemanha e dominava várias línguas, - algo insólito para as mulheres da época), Colombina desde a adolescência revelou-se poeta e teve seus poemas divulgados pela imprensa. Em sua palavra poética, se fundia a preocupação formal parnasiana com o decadentismo finissecular e a paixão dos sentidos ultrarromântica. Sua principal temática é o erotismo, - o tema tabu da sociedade tradicional. Foi duramente discriminada pela crítica que, de modo geral, confundia obra e vida do autor e, nesse caso, não podia admitir que uma mulher “séria” assumisse tais paixões. Tal combate não a intimidou e a levou a fazer da poesia sua “bandeira de resistência” à opressão do meio. Teve grandes amigos e inimigos. Admirada por companheiros de geração (Martins Fontes, Vicente de Carvalho, Olavo Bilac…), recebeu o apelido de “Cigarra do Planalto”. O seu talento venceu. Em seu livro de estreia, a paixão explode em sangue, fogo, veneno, febre e morte. Explosão absolutamente insólita na poesia da época.

No sanguíneo cristal dos teus lábios ardentes

a paixão esbraveja em rubra labareda:

é a taça que contém um filtro que embebeda

e oculta no seu mel venenos inclementes.

[…]

Meus lábios quero unir aos teus lábios em febre,

mas, cuidado, por Deus! que a taça não se quebre,

e possas me beijar mesmo depois de morta! (Vislumbres.1908)

O texto fala por si. Quanto à relação Amor e Morte (de fundas raízes míticas: Eros/Tanatos) é um dos grandes temas da poesia amorosa. Nos anos subsequentes, coincidindo com os tempos de guerra, Colombina silenciará em livro. Só em 1930, volta a aparecer com Versos em lá menor, e até sua morte, prossegue escrevendo e publicando uma dezena de livros, sempre dando voz ao amor e à paixão dos sentidos.

GABRIELA MISTRAL (pseud.de Lucila Godoy y Alcayaga. Chile, 1889-1957) - Sonetos de la muerte. 1915.

Figura que se tornou quase lendária na América do Sul, Gabriela Mistral levou uma vida praticamente errante, imposta pela carreira diplomática e sua obstinada luta em defesa da Educação e dos direitos humanos. Foi a primeira mulher sul-americana a receber o Prêmio Nobel (1945), ocasião em que foi consagrada como o “mais alto nome da poesia feminina em língua espanhola”.

Desde adolescente entregou-se a uma vida de ação, notabilizando-se por sua preocupação com a americanidade; por seu trabalho revolucionário no âmbito da educação feminina. Seu universo poético é dinamizado por duas interrogações básicas: qual o verdadeiro lugar da mulher em um mundo que afundava, por ter perdido sua ordem, seu centro? E qual a verdadeira identidade dos povos sul-americanos, solapados pela cultura europeia? Coerente com seus ideais, sua poesia exalta duas faces da mulher: a mater familiae, procriadora, protetora, responsável pela continuidade da humanidade e pela harmonia e equilíbrio da família; e a mulher apaixonada, entregue ao amor como um destino superior, luminoso, avassalante, mas trágico porque irremediavelmente condenado à morte.

Amo Amor

Anda libre en el surco, bate el ala en el viento

Late vivo en el sol y se prende al pinar.

No te vale olvidarlo como al mal pensamiento:

¡lo tendrás que escuchar!

Habla lengua de bronce y habla lengua de ave;

ruegos tímidos, imperativos de mar.

No te vale ponerle gesto audaz, ceño grave:

¡lo tendrás que hospedar!

[…]

Te ofrece el brazo cálido, no le saves huir.

Echa a andar, tú le sigues hechizada aunque vieras

¡que eso es para morir!

Em Gabriela Mistral, o Amor essencial, autêntico, amor-paixão que arraiga nas profundezas do ser erótico, está indissoluvelmente ligado à Morte.

GILKA MACHADO (Rio de Janeiro, 1893-1980) - Cristais partidos. 1915.

Voz feminina de alta categoria poética, Gilka Machado está entre as mulheres que, durante o tempo em que construíram suas obras, não tiveram o justo reconhecimento de seu valor. Felizmente, o fato de ter alcançado a idade de 87 anos, permitiu-lhe conhecer em vida a consagração dos meios oficiais. De família de poetas, músicos e artistas, Gilka Machado revelou muito cedo sua atração pela poesia. Estreia em livro, com Cristais partidos, poesia que expressa o sincretismo finissecular (fusão de parnasianismo, decadentismo e esteticismo d’annunziano), e a ousada temática do desejo erótico ou de desafio ao “interdito ao sexo”, mas sempre em conflito com uma funda ânsia de pureza. É em Gilka Machado que se expressa com mais evidência o conflito entre o “pecado” e o desejo de “pureza”, - impulsos que a tradição estigmatizara como contraditórios e excludentes.

Que gozo sentir-me em plena liberdade

longe do jugo atroz dos homens e da ronda

da velha Sociedade.

- a messalina hedionda

que, da vida no eterno carnaval,

se exibe fantasiada de vestal!

[…]

Esta alma que carrego amarrada, tolhida

num corpo exausto e abjeto,

há tanto acostumado a pertencer à vida

como um traste qualquer, como um simples objeto,

sem gozo, sem conforto,

indiferente como um corpo morto,

[…]

Quando longe de ti, solitária, medito

neste afeto pagão que envergonhada oculto

vêm-me às narinas, logo, o perfume esquisito

que teu corpo desprende e há no teu próprio vulto.

A febril confissão deste afeto infinito

há muito que, medrosa, em meus lábios sepulto,

pois teu lascivo olhar, em mim pregado, fito,

à minha castidade é como que um insulto.

O texto fala por si, revelando Gilka Machado como das mais importantes pioneiras que se insurgiram contra o interdito ao corpo, que era a base da moral social (e hoje, transgredido, é um dos mais fortes fatores da desagregação social… todo radicalismo é nefasto, embora inevitável em certo momentos).

JUANA DE IBARBOUROU (Uruguai, 1895-1979) - Lenguas de diamante. 1919.

Tocada pelas mesmas forças conflitantes (dentre as quais avultam as novas ideias naturalistas-positivistas, com sua ênfase na materialidade), a uruguaia Juana de Ibarbourou foi uma das grandes vozes da poesia latino-americana da primeira metade do século XX. Quando ela surgiu, a literatura uruguaia vivia um momento de estagnação: o romantismo se esgotara e o decadentismo expirara. Nesse contexto decadente, a poesia dionisíaca de Juana explode como uma nova força da natureza e é, de imediato, acolhida como a voz inovadora que se fazia necessária.

Movida pelos ventos “mundonovistas” que começavam a soprar na América, Juana se entrega à sedução cósmica da natureza, ou melhor, da terra americana, e com ela se identifica.

Mi cuerpo está impregnado del aroma / de lo pastos

maduros. Mi cabello sombroso / Esparce, al destrenzarlo,

olor a sol y a heno. […] Cierva y can, astro y flor /

Agua viva que glisa a tus pies. / Fluí / para ti. Bêbeme.

El cristal / Envidia lo claro de mi manantial.

Em seu universo predomina a sensual euforia de ser a mulher amada, - refúgio, emoção, âncora -, tal qual a terra-mãe. Mas, como sombra que pesa sobre essa mulher luminosa, aflora em sua poesia o pessimismo bíblico: “Lembra-te, ó homem, de que és pó e ao pó hás de voltar.” Daí ela dizer ao amado: “No codicies mi boca. Mi boca es de ceniza. […] No me oprimas las manos. Son de polvo. Y al estrecharlas tocas comida de gusanos.”

Fusão eu-natureza, sentimento de plenitude cósmica ensombrada pela ideia da morte… são alguns dos motivos maiores da poesia de Juana de Ibarbourou, que ficaram na memória latino-americana, como alta expressão da busca de um novo sentido para a vida humana…

FLORBELA ESPANCA (Portugal, 1894-1930) - Livro de mágoas. 1919.

Poeta de desmesurada sensibilidade e sensualidade narcisista, Florbela Espanca está entre aquelas (e aqueles) que não chegaram a ter em vida o reconhecimento público de seu valor. Por acaso, posta aqui em seguida a Juana de Ibarbourou, a poesia de Florbela chama a atenção para inúmeros pontos de contato com a da uruguaia. A começar pelo ano de estreia (1919) e também pela mesma atração pela natureza e o mesmo impulso narcísico que as singulariza. Entretanto, enquanto em Juana vai predominar a plenitude solar, em Florbela predomina o sentimento finissecular da dor, do sofrimento e da frustração existencial. Em seu livro de estreia, já se expressa a visão-de-mundo que a alimentava:

Este livro é de mágoas. Desgraçados / Que no mundo passais,

chorai ao lê-lo! / Somente a vossa dor de Torturados / Pode

talvez senti-lo e… compreendê-lo.

Nos rastros do narcisismo magoado de Antônio Nobre e do decadentismo crepuscular, a criação poética florbeliana vai transformando a mágoa, a dor, o sofrimento de viver, numa verdadeira liturgia da paixão, na qual o eu é o centro, que se quer ponto de convergência do mundo, mas continuamente frustrado, em seu desejo ou necessidade.

Sonho que sou a Poetisa eleita, / Aquela que diz tudo e tudo

sabe, […] Sonho que sou Alguém cá neste mundo… / Aquela

de saber vasto e profundo, / Aos pés de quem a terra anda

curvada! […] Eu sou a que no mundo anda perdida / Eu

sou a que na vida não tem norte […] Sou aquela que passa

e ninguém vê […] Sou talvez a visão que Alguém sonhou,/

Alguém que veio ao mundo p’ra me ver / E que nunca na vida

me encontrou.

“Narcisismo, donjuanismo, hermafroditismo” (José Régio) são os rótulos que têm definido a poética de Florbela. Na verdade, nela podemos ver a mais clara expressão da “mulher fatal”: a que se ama no amor que o amante tem por ela, - a do eu que seduz o outro, para neste encontrar a sua própria imagem sendo amada. A poesia de Florbela expressa, em essência, a paixão que ela nutria por si mesma e a dor de não ser reconhecida em sua grandeza. E a tal ponto foi essa paixão que, vendo frustrados os caminhos de realização dessa ânsia, desiste de viver e se suicida. Sua poesia é daquelas em que a psique do poeta é a própria matéria poética.

Este breve percurso pela poesia das primeiras transgressoras do cânone-base da sociedade tradicional pretendeu chamar a atenção para a natureza existencial dessa transgressão. E, por decorrência, levar a descobrir que a revolução sexual, hoje em curso no mundo, tem raízes bem mais profundas do que pode parecer, quando vista apenas pela ótica espetacular dos multimídias. Há uma “mística do corpo” que é preciso redescobrir, e que vai além da performance.

O “Interdito ao sexo” decretado pela Igreja, desde a Idade Média, e que regulamentou durante séculos as relações homem-mulher, acabou por criar uma nova ordem político-econômico-social que tinha na “família” um dos seus motores ou sustentáculos principais. Claro está que a civilização progressista e brilhante que, ao longo do séculos, se construiu sobre esse “sustentáculo”, ao entrar no século XX já começara a se deteriorar, pois o “homem”, que ela havia engendrado, deu tão certo que já não cabia (e não cabe) nos seus naturais limites. Daí o caos. Um novo homem e uma nova cultura entram em gestação.

A liberação das forças eróticas – poderosa força criadora - provoca a revolução sexual, hoje em processo. E assim como a grande poesia amorosa de um Dante, um Petrarca, um Camões… no passado difundiu o interdito ao sexo, ou melhor, o ideal da Amada pura e inacessível e o Amor como valor existencial absoluto (o único que levaria à plena realização do ser), também a poesia do nosso tempo, em suas mil diferentes faces, ajudará a compor amanhã o mosaico de vivências (eróticas ou não), fruídas hoje, e que um dia revelarão a nova ordem que se imporá às relações homem-mulher, no sentido não só de alcançarem a plenitude existencial, mas também darem continuidade a uma humanidade feliz… Uma felicidade fecunda e duradoura que a sexofilia atual, descartável, não está dando…



(Ilustração: escultura de Hans Bellmer: the doll; 1934)

quarta-feira, 18 de março de 2026

POEMA, de Noémia de Sousa

 




Bates-me e ameaças-me

Agora que levantei minha cabeça esclarecida

E gritei: “Basta!” (…) Condenas-me à escuridão eterna

Agora que minha alma de África se iluminou

E descobriu o ludíbrio e gritei, mil vezes gritei: “Basta!”.

Armas-me grades e queres crucificar-me

Agora que rasguei a venda cor-de-rosa

E gritei: “Basta!”



Condenas-me à escuridão eterna agora que minha

alma de África se iluminou e descobriu o ludíbrio...

E gritei, mil vezes gritei: ”Basta!”



Ó carrasco de olhos tortos,

De dentes afiados de antropófago

E brutas mãos de orango:



Vem com o teu cassetete e tuas ameaças,

Fecha-me em tuas grades e crucifixa-me,

Traz teus instrumentos de tortura

E amputa-me os membros, um a um…



Esvazia-me os olhos e condena-me à escuridão eterna… –

que eu, mais do que nunca,

Dos limos da alma,

Me erguerei lúcida, bramindo contra tudo:

Basta! Basta! Basta!





(Sangue negro. Moçambique: Associação de Escritores Moçambicanos, 2001)

(Ilustração: João Timane, artista plástico Moçambicano – rosto)

domingo, 15 de março de 2026

O VELHO ENCASTOADO, de Carlos Alberto Dória

 


Dentre os mortos conhecidos, era o que melhor se comportava. Não dava trabalho algum. Não exigia flores, nem visitas

A julgar pela aparência de velho, o que as roupas confirmavam, estava lá fazia bem uns vinte anos. Como o corpo não se deteriorou, ficou sobre a mesa de jantar.

Com o tempo, o incômodo que era colocá-lo sobre o étagère no momento das refeições foi contornado por um engenhoso marceneiro, que o prendeu ao tampo da mesa que girava num eixo horizontal, de modo a voltar o corpo para baixo enquanto se comia o almoço ou jantar. Seu peso ajudava mesmo a firmar o tampo. Depois, mesa limpa, girando sobre o mesmo eixo, voltava o corpo para cima, firmando-o com pequena trava, sem sequer amassar o terno com o qual jazia. Estabeleceu-se que de duas a três vezes por semana seria espanado e, nos dois dias úteis sobrantes, um aspirador limpava sua roupa. Nos sábados e domingos, em geral ficava diretamente voltado para baixo da mesa, pois era maior a atividade na casa, incluindo um lanche entre o almoço e a ceia.

Dentre os mortos conhecidos, era o que melhor se comportava. Não dava trabalho algum. Não exigia flores, nem visitas. Contentava-se com o movimento da casa e tomava como suas as flores eventuais nos vasos.

Como estava à mão, era comum ouvir-se: “Jura pelo morto?”, o que emprestava maior veracidade ao que se falava e se fazia à sua volta.

Mas nem sempre fora assim. No início, quando saía, a viúva o levava consigo. Sempre falava por ele. Narrava a vida comum, tendo-o como personagem principal. Tudo parecia normal, exceto as conjugações no pretérito mais que perfeito. Mas, quando começou a ir mais longe, a realizar os seus cruzeiros marítimos, teve que deixá-lo em casa. Foi quando ele mais se aderiu à mesa, frequentando apenas as refeições. Depois, quando as crianças cresceram e se mudaram, a casa ficou muito grande para ela e teve que abandoná-la. Foi quando o morto não quis ir. Ela se sentia só no novo e pequeno apartamento.

Os novos inquilinos da casa impuseram uma condição: que com ele ficasse a mesa engenhosa que permitia virá-lo para baixo. Rapidamente se enfronharam em sua história, e ele passou a ser familiar, pois não tinham mortos daquele tipo na ascendência. Depois, nas sucessivas locações da casa, o morto passou à condição de cláusula contratual. Era a forma de a viúva cuidar tanto do seu passado quanto do presente do morto e do seu próprio futuro.

A consequência foi converter-se em um morto sábio – coisa muito comum, quando se ouve sem poder falar. Todos os que se aproximavam dele sentiam isso: tinha expressão inteligente, e o seu silêncio oracular era denunciador. Mas bastava olhar sua serenidade para ver que o tempo não vale nada.

Depois, a sala contígua à de jantar deixou de ser ocupada. Parecia que o morto a preferia fechada, porque quando estava fechada tudo estava bem e, quando era utilizada, certo mal-estar abreviava as conversas, as visitas logo encontravam o pretexto para partir, e a sensação de normalidade em seguida se restaurava. Por dedução, os moradores chegaram à conclusão de que o morto reivindicava para si a sala de visitas. E foram ter à viúva para pleitear uma redução no aluguel, o que ela achou justo e natural. E ficou claro que o morto estava usando as pessoas da casa.

Mas a empregada, Maria dos Prazeres, que não sabia de nada, adorava ocupá-la quando a família saía aos domingos. Ficava nua à cavaleira num braço de poltrona, enquanto Jonas, o jardineiro, vinha conhecê-la por trás. Até que, um dia, sentiu um olhar frio em suas partes.

— Alguém está olhando pelo buraco da fechadura!

Mas não havia qualquer pessoa do outro lado da porta, conforme Jonas se certificou. Apenas a mesa da sala de jantar e seu encastoado habitante.

— Não dou mais procê na casa! De jeito nenhum! Credo...

Jonas, até então indiferente, ficou com raiva do morto, a quem atribuía o infortúnio sexual. Até que, um dia, deixou cair água sobre a roupa do falecido. De propósito. Queria vê-lo desandar, feder, ser enterrado, livrar-se dele.

Mas a inquilina descobriu a tempo de enxugar a tragédia. E descobriu que as formigas haviam liquidado a roseira, o pessegueiro. Jonas foi embora.

O morto, mais sólido do que nunca, parecia sorrir satisfeito. Finalmente conquistara o jardim.



(Ilustração: Edvard Munch - the death bed)

quinta-feira, 12 de março de 2026

ALEGRIA, de Arnaldo Antunes




eu vou te dar alegria

eu vou parar de chorar

eu vou raiar um novo dia

eu vou sair do fundo do mar

eu vou sair da beira do abismo

e dançar e dançar e dançar

a tristeza é uma forma de egoísmo

eu vou te dar eu vou te dar eu vou



hoje tem goiabada

hoje tem marmelada

hoje tem palhaçada

o circo chegou



hoje tem batucada

hoje tem gargalhada

riso e risada

do meu amor


(Ilustração: Cândido Portinari: circo, 1932)



segunda-feira, 9 de março de 2026

O NATURAL E O SOBRENATURAL, de Michael Shermer



A ciência funciona no mundo natural, não no sobrenatural. Na verdade, não existe “sobrenatural” ou “paranormal”. Só existe o natural, o normal e os mistérios que ainda não foram explicados por causas naturais. Invocar palavras como “sobrenatural” e “paranormal” apenas oferece um substituto linguístico até encontrarmos causas normais e naturais — ou elas não são encontradas e a busca é descontinuada por falta de interesse. É isso que geralmente acontece na ciência. Mistérios que antes eram considerados acontecimentos sobrenaturais ou paranormais — como eventos astronômicos ou meteorológicos — são incorporados pela ciência assim que suas causas são entendidas.

Por exemplo, quando se referem a “energia escura” ou “matéria escura” em relação à chamada “massa faltante”, necessária para explicar a estrutura e o movimento das galáxias, os cosmólogos não pretendem que esses descritores sejam explicações causais. “Energia escura” e “matéria escura” são meras conveniências cognitivas até que as verdadeiras fontes de energia e matéria sejam descobertas. Quando teístas e criacionistas invocam milagres e atos de criação espontâneos, é o fim da busca para eles; enquanto, para os cientistas, a identificação desses mistérios é apenas o começo. A ciência começa do ponto onde a teologia parou. Quando um teísta diz “e então um milagre acontece”, lembro-me de um de meus quadrinhos preferidos de Sydney Harris, em que dois matemáticos estão diante de um quadro-negro, absortos na solução de uma série de equações, e um diz ao outro: “Acho que você precisa ser mais explícito aqui no passo 2”.

Para nossos ancestrais da Idade do Bronze, que criaram as grandes religiões monoteístas, a capacidade de criar o mundo e a vida era divina. Mas, depois que conhecemos a tecnologia da criação, o sobrenatural se torna natural. Eis minha aposta: o único Deus que a ciência poderia descobrir seria um ser natural, uma entidade que existe no espaço e no tempo e é limitada pelas leis da natureza. Um Deus sobrenatural, existente fora do espaço e do tempo, não é cognoscível para a ciência, porque não faz parte do mundo natural e, portanto, a ciência não pode conhecê-lo.

Esse foi o argumento que apresentei em um debate patrocinado pela Templeton Foundation com Jerome Groopman, teísta e professor de medicina de Harvard, que em seus comentários argumentou que Deus “não tem forma e é incomensurável”, que existe “em uma dimensão que não pode ser quantificada ou descrita pela ciência”, que “não somos capazes de entender totalmente a natureza e as dimensões de Deus” e que “Deus existe fora do tempo e não pode ser limitado no espaço”. Então perguntei: como saber que esse Deus existe? Como seres corpóreos, que formam suas crenças sobre o mundo com base em perceptos (com nossos sentidos) e conceitos (com nossa mente), como podemos conhecer um ser que, por definição, está fora de nossos perceptos e conceitos? A certa altura, Deus não precisaria entrar no nosso espaço-tempo para se dar a conhecer? Digamos, por meio da oração, da providência ou de milagres? E se assim for, por que a ciência não pode medir essa ação divina? Se existe outra maneira de conhecer, como fazem os místicos e fiéis pela meditação profunda e pela oração, por que a neurociência não consegue dizer algo significativo sobre esse processo de conhecimento? Se viermos a descobrir — como estudos com monges em meditação e padres em oração demonstraram — que uma parte do lobo parietal do cérebro, ligada à orientação do corpo no espaço, cai inativa durante esses estados meditativos (rompendo a distinção normal que a pessoa sente entre ser e não ser e, portanto, fazendo-a sentir-se “em unidade” com o ambiente), isso não implicaria que, em vez de estar em contato com um ser fora do espaço e do tempo, o que ocorre na verdade é apenas uma mudança neuroquímica?

Num dos pronunciamentos mais honestos de crença que já vi, Groopman admitiu: “Por que acreditar? Não tenho uma resposta racional. A questão parece estar no mesmo campo da pergunta ‘por que amamos alguém?’. Poderíamos reduzi-la a certos componentes, talvez fazer referência a neurotransmissores, mas a resposta parece transcender o cognoscível. Essa é a dissonância cognitiva com que vivem pessoas como eu e que quase sempre combatemos”.

Em certo nível, não tive como refutar essa afirmação, porque não era necessário. Se nenhuma afirmação empírica é feita, pouca coisa a ciência pode dizer sobre o assunto. A vida pode ser uma luta dolorosa e cheia de mistérios; de modo que o que precisamos fazer é viver dia a dia em busca da felicidade e encontrar alguma solução para esses mistérios perturbadores... Bem, quem sou eu para discutir? Como diz o Salmo 46:1: “Deus é nosso refúgio e nossa fortaleza, socorro bem presente na angústia”. Em outro nível, porém, não posso deixar de pensar que, se Groopman tivesse nascido de pais hindus na Índia, e não de pais judeus no Ocidente, acreditaria em algo muito diferente sobre a natureza do universo, que estaria igualmente sujeito a justificações por meio de argumentos racionais.

O que a ciência oferece para explicar o que sentimos quando acreditamos em Deus ou nos apaixonamos é complementar e não conflitante. Acho profundamente interessante saber que, quando me apaixono por alguém, meu desejo é intensificado pela dopamina, um neuro-hormônio produzido pelo hipotálamo que provoca a liberação de testosterona, o hormônio que rege o desejo sexual, e que meu profundo apego é reforçado pela ocitocina, um hormônio sintetizado pelo hipotálamo e secretado no sangue pela glândula pituitária. Além disso, é instrutivo saber que os caminhos neurais induzidos por esse hormônio são exclusivos da espécie monogâmica devido a uma adaptação evolutiva necessária à proteção de crianças indefesas. Nós nos apaixonamos porque nossos filhos precisam de nós! Isso diminui de alguma forma a qualidade da paixão e do amor por nossos filhos? Claro que não. Desmanchar o arco-íris em suas partes constituintes não diminui sua apreciação estética.

A fé religiosa e a crença em Deus também têm explicações evolutivas. A religião é uma instituição social que se desenvolveu para reforçar a coesão do grupo e o comportamento moral. É um mecanismo da cultura humana para estimular o altruísmo, o altruísmo recíproco e o altruísmo indireto, e para revelar o compromisso de cooperação entre os membros de uma comunidade social. A crença em Deus oferece uma explicação para o nosso universo, nosso mundo e para nós mesmos; explica de onde viemos, por que estamos aqui e para onde vamos. Deus é também o árbitro dos dilemas morais e o objeto do compromisso. É tempo de nos afastarmos de nossa herança evolutiva e nossas tradições históricas e aceitarmos a ciência como o melhor instrumento já concebido para explicar como o mundo funciona. É tempo de trabalharmos juntos para criar um mundo social e político que adote princípios morais, mas permita que a diversidade humana natural floresça. A religião não pode nos levar a isso, porque não possui métodos sistemáticos capazes de explicar o mundo natural, nem meios de resolver conflitos sobre questões morais quando membros de seitas divergentes possuem crenças absolutas mutuamente exclusivas. Por mais falhas que possam ter, a ciência e os valores seculares do Iluminismo, expressos nas democracias ocidentais, são nossa maior esperança de sobrevivência.



(Cérebro e crença; tradução de Eliana Rocha)



(Ilustração: escultura de Michael Alfano - soleil liquide)

sábado, 7 de março de 2026

UMA CANÇÃO POPULAR (SÉC. XIX-XX), de Angélica Freitas

 




uma mulher incomoda é

interditada levada para o

depósito das mulheres que

incomodam



loucas louquinhas tantãs

da cabeça ataduras

banhos frios descargas

elétricas



são porcas permanentes mas como

descobrem os maridos

enriquecidos subitamente as

porcas loucas trancafiadas são

muito convenientes interna,

enterra



uma mulher gorda incomoda

muita gente uma mulher

gorda e bêbada incomoda

muito mais



uma mulher gorda é

uma mulher suja uma

mulher suja

incomoda incomoda

muito mais



uma mulher limpa

rápido uma mulher

limpa



(Um útero é do tamanho de um punho)



(Ilustração: Paula Rego)

terça-feira, 3 de março de 2026

GERTRUDES, de Raphael Montes


Gertrudes era a única pessoa de quem Téo gostava. Desde o primeiro momento, ele soube que os encontros com ela seriam inesquecíveis. Os outros alunos não ficavam tão à vontade. Mal entravam na sala, as meninas tapavam o nariz; os rapazes buscavam manter alguma postura, mas o olhar revelava o incômodo. Téo não queria que notassem como se sentia bem ali. Andava de cabeça baixa, passos rápidos até a mesa metálica.

Serenamente à sua espera, estava ela. Gertrudes.

Sob a luz pálida, o cadáver ganhava um tom amarronzado muito peculiar, feito couro. A bandejinha ao lado trazia instrumentos para investigações mais profundas: tesoura com ponta curva, pinça anatômica, pinça dente-de-rato e bisturi.

“A veia safena magna pode ser observada nas proximidades da face medial do joelho. À medida que ascende à coxa, ela passa para a face anterior, no terço proximal”, Téo disse. Esticou o epitélio de Gertrudes para mostrar os músculos ressecados.

O professor baixou os olhos, encastelado na prancheta de anotações. Mantinha o ar sério, mas Téo não se intimidava: a sala de anatomia era seu espaço. As macas pelos cantos, os cadáveres dissecados, os membros e os órgãos em potes davam a ele uma sensação de liberdade que não encontrava em nenhum outro lugar. Gostava do cheiro de formol, das ferramentas nas mãos enluvadas, de ter Gertrudes sobre a mesa.

Em sua companhia, a imaginação não tinha limites. O mundo desaparecia e só restava ele. Ele e ela. Gertrudes. Havia escolhido o nome no primeiro encontro, ela com as carnes ainda no lugar. A relação se estreitara durante o semestre. A cada aula, Téo fazia descobertas: Gertrudes adorava surpreendê-lo. Aproximava-se da cabeça — a parte mais interessante — e extraía conclusões. A quem pertencia aquele corpo? Seria mesmo Gertrudes? Ou teria um nome mais simples?

Era Gertrudes. Ao olhar a pele ressecada, o nariz fino, a boca seca cor de palha, não concebia outro nome. Ainda que a degeneração tivesse retirado o aspecto humano, Téo via algo mais naqueles glóbulos disformes: via os olhos da mulher arrebatadora que, sem dúvida, ela havia sido. Podia dialogar com eles quando os outros não estavam olhando.

Provavelmente ela havia morrido velha, sessenta ou setenta anos. Os poucos fios na cabeça e no púbis confirmavam a hipótese. Numa investigação minuciosa, Téo havia encontrado uma fratura no crânio.

Respeitava Gertrudes acima de tudo. Apenas uma intelectual seria capaz de se desprender da bajulação de um enterro para pensar adiante, na formação de jovens médicos. Antes servir de luz à ciência do que ser devorada na escuridão, ela pensava, sem dúvida. Tinha uma estante repleta de boa literatura. E uma coleção de vinis da juventude. Havia dançado muito com aquelas pernas. Bailes e mais bailes.

É bem verdade que muitos daqueles corpos nas cubas malcheirosas eram de indigentes, mendigos que encontravam seu propósito de vida na morte. Não tinham dinheiro, não tinham educação, mas tinham ossos, músculos e órgãos. E isso os tornava úteis.

Gertrudes era diferente. Difícil acreditar que aqueles pés tinham suportado as ruas, que as mãos tinham recebido trocados por toda uma vida medíocre. Téo também não aceitava a ideia de assassinato: uma coronhada na cabeça depois de um assalto ou pauladas de um marido traído. Gertrudes havia morrido de causas extraordinárias, um incidente na ordem das coisas. Ninguém teria coragem de matá-la. A não ser um idiota…

O mundo estava repleto de idiotas. Bastava olhar ao redor: idiota de jaleco, idiota de prancheta, idiota com voz aguda que agora falava de Gertrudes como se a conhecesse tanto quanto ele.

“A cápsula articular foi aberta, rebatendo-se a camada fibrosa externa, até a visualização das extremidades distal e proximal dos ossos fêmur e tíbia.”

Téo quis rir da garota. Rir não, gargalhar. E se Gertrudes pudesse ouvir aquelas baboseiras a seu respeito, gargalharia também. Juntos, degustariam vinhos caros, conversariam sobre amenidades, assistiriam a filmes para depois discutir a fotografia, o cenário e o figurino como críticos de cinema. Gertrudes o ensinaria a viver.

Era irritante o despeito com que os outros alunos tratavam Gertrudes. Certo dia, aquela menina — a mesma que agora gastava sua estridência com termos médicos rebuscados —, na ausência do professor, tinha sacado do bolso um esmalte vermelho e, entre risadinhas, pintado as unhas do cadáver. Os alunos logo se aglomeraram; divertiam-se.

Téo não gostava de vinganças, mas teve vontade de se vingar da garota. Poderia conseguir uma punição institucional, burocrática e ineficaz. Poderia providenciar um banho de formol — ver nos olhos da maldita o desespero ao sentir a pele ressecar. Mas o que ele queria realmente era matá-la. E, então, pintar seus dedinhos pálidos com esmalte vermelho.

Lógico, ele não faria nada daquilo. Não era um assassino. Não era um monstro. Quando criança, passava noites sem dormir, as mãos trêmulas diante dos olhos, tentando desvendar os próprios pensamentos. Sentia-se um monstro. Não gostava de ninguém, não nutria nenhum afeto para sentir saudades: simplesmente vivia. Pessoas apareciam e ele era obrigado a conviver com elas. Pior: era obrigado a gostar delas, mostrar afeto. Não importava sua indiferença desde que a encenação parecesse legítima, o que tornava tudo mais fácil.

O sinal tocou, liberando a turma. Era a última aula do ano. Téo saiu sem se despedir de ninguém. O edifício cinza ficava para trás e, ao olhar sobre o ombro, ele se deu conta de que nunca mais veria Gertrudes. Sua amiga seria enterrada junto aos outros corpos, jogada em uma vala. Nunca mais teriam aqueles momentos.

Ele estava sozinho outra vez.



(Dias perfeitos)



(Ilustração: Rembrandt - De Anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp)