sábado, 17 de janeiro de 2026

CANÇÃO DO AMOR LIVRE, de Jacinta Passos

 


Se me quiseres amar

não despe somente a roupa.

 

Eu digo: também a crosta

feita de escamas de pedra

e limo dentro de ti,

pelo sangue recebida

tecida

de medo e ganância má.

Ar de pântano diário

nos pulmões.

Raiz de gestos legais

e limbo do homem só

numa ilha.

 

Eu digo: também a crosta

essa que a classe gerou

vil, tirânica, escamenta.

 

Se me quiseres amar.

 

Agora teu corpo é fruto.

Peixe e pássaro, cabelos

de fogo e cobre. Madeira

e água deslizante, fuga

ai rija

cintura de potro bravo.

Teu corpo.

 

Relâmpago depois repouso

sem memória, noturno.

 

(Ilustração: Gerda Wegener: 1886-1940 - Lili Elbe)

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