sexta-feira, 13 de novembro de 2015

ONTEM MORREU CLARICE LISPECTOR , de Heitor Saldanha







Hoje talvez anoiteça

mais cedo ou

amanheça

maiscedo ou

anoitemanheça.

Hoje não é aqui

nem nunca.

Hoje só não pode ser ontem.

Hoje estou no Treviso

com o Edgar Koetz.

Hoje estou na Volunta

com Zina Loreto.

Hoje estou com o Paulo

na cidade-baixa.

Hoje no 111

estou lendo um romance

de uma bela menina.

Hoje a grande amizade

nasceu de um abraço

na Senhor dos Passos.

Hoje estou com o Grupo

num canto do Huberthus.

Hoje estou com o Mário

no Guaraxaim.

Hoje estou de volta

de onde nunca estive.

Hoje estou sarrafo,

muafo, afo.

Hoje cada instante

tem cara de inseto.

Hoje estou numa serra

entre roças e rios,

hoje sou acidente

e morri de repente.

Hoje cruzei o fundo

das águas extremas,

levaram Vicente.

Hoje sou um instante

vivendo no Leme.

Hoje tenho a cabeça

e os pés numa síntese.

Hoje sou o cavalo

dos meus desajustes.

Hoje sou o estrabismo

que encurva as distâncias.

Hoje estou neste bar

entre gente festiva.

Hoje estou nesta mesa

bebendo sozinho.

Hoje é quando não sei

mais notícias de mim.

Hoje tudo é possível.

Ontem, não.

Ontem, não.

Ontem não é possível.

Ontem não é possível.

Clarice morreu.

(Folha da Tarde,  POA, 7 de janeiro de 1978)

(Ilustração: De Chirico Clarice Lispector)


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