sábado, 10 de novembro de 2012

O MAIOR MISTÉRIO DA BOSSA NOVA, de Ruy Castro







O maior mistério da Bossa Nova iria chamar-se Newton Mendonça. Quando ele morreu, no dia 11 de novembro de 1960, aos 33 anos, muitos dos próprios integrantes do movimento se deram conta de que mal haviam chegado a conhecê-lo; poucos o tinham sequer visto; quase ninguém fora seu íntimo. Para o público, era apenas um nome que vinha entre parênteses, junto ao de Jobim, em várias canções nos discos de João Gilberto e Sylvinha Telles. (E, mesmo assim, no selo de "Desafinado", seu nome saíra como Milton Mendonça.) Seus admiradores não saberiam dizer se tinha cabelos e olhos castanhos, se era meio gordinho, nãomuito alto, se usava óvulos ou se preferia peteca a futebol. (Era tudo isso.) Ninguém o via nos shows universitários e ele não fazia a vida social da Bossa Nova. (Carlinhos Lyra falou com ele uma única vez, na casa de Bené Nunes.) Sua foto nunca aparecia nas dezenas de reportagens sobre a Bossa Nova em 1959 e 1960. Repórteres pareciam não procurá-lo para entrevistas. Quando morreu, a notícia coube em uma coluna nas páginas internas. Seu enterro, no cemitério do Caju, não provocou comoções.

Anos se passaram. "Desafinado" e "Samba de uma nota só" tornaram-se clássicos, que resistiram ao tempo e até à "morte" da Bossa Nova. Para muitos, são canções apenas de Tom. Ninguém jamais se empenhou muito para que o nome de Newton Mendonça saísse das sombras.

Até agora.

Com o renascimento nos últimos anos do interesse pela Bossa Nova, as pessoas quiseram saber quem foi Newton Mendonça - quem ele era, por que produziu tão pouco, por que morreu tão jovem. Como poucos de seus contemporâneos podem responder a essas perguntas - e nem todos têm paciência para prestar informações -, fantasiou-se até sobre a possível existência de uma cortina de silêncio ao seu redor. "Por que as pessoas desconversam quando se fala de Newton Mendonça?" - eis uma pergunta que é frequentemente respondida com outra: "É mesmo. Por quê?". Nesse terreno fértil para miragens, até as circunstâncias de sua morte passaram a parecer suspeitas.

Para piorar as coisas, teóricos consagrados, mas preguiçosos como investigadores, radiografaram as ousadias formais de "Desafinado" e "Samba de uma nota só", e pensaram estar fazendo um grande favor a Newton Mendonça ao reabilitá-lo como o "primeiro grande letrista da Bossa Nova". Deram de barato que, se Tom fazia as músicas, Mendonça fazia as letras e, com isso, pincelaram com um verniz acadêmico a curiosa campanha que, não é de hoje, tenta isolar Mendonça como letrista. Nunca ocorreu a esses teóricos que, por mais improvável, poderia até ter sido o contrário - ou seja, que Mendonça tivesse feito as músicas e Jobim as letras. Ou que poderia ter sido de outro jeito: música e letra, em partes iguais, de Jobim e Mendonça. E que, ao canonizar Mendonça como letrista, poderiam estar sendo injustos para com ele e para com o próprio Tom.

No fim daqueles anos 1950, Newton Mendonça não estava fazendo nenhum progresso como pianista da madrugada. Segundo sua carteira profissional, a boate Mocambo lhe pagava seis mil cruzeiros por mês em 1953. Nenhuma fortuna. Pelo último registro na carteira, o da boate Carrousel, em 1958, Newton punha no bolso duzentos cruzeiros por noite - que, teoricamente, resultariam nos mesmos seis mil por mês, se eles valessem tanto quanto os de cinco anos antes. E, claro, se nem uma vez ele faltasse ao serviço. A outra diferença é que, em 1953, Mendonça era um compositor inédito e, em 1958, pelo menos, sua obra começava a respirar fora da boate. Já tinha sido gravado por vários cantores; sua parceria com Tom em "Foi a noite" fora um sucesso com Sylvinha Telles; e, antes de morrer em 1960, ele presenciaria - presenciaria é bem o termo - o furor provocado por João Gilberto com "Desafinado" e "Samba de uma nota só".

Mas Mendonça não participou desse furor, nem perifericamente. Por diversos motivos, entre os quais o seu jeito arredio e um piramidal orgulho, não soube capitalizar a sensação da Bossa Nova para melhorar a sua cotação na bolsa da noite e fazer com que lhe pagassem decentemente nas boates - já que insistia em trabalhar nelas. E os direitos autorais, ainda mais naquele tempo, não passavam de um boato. A verdade é que, para Newton Mendonça, nenhuma das suas grandes criações rendeu-lhe dinheiro vivo enquanto ele esteve vivo.

Era um homem travado e introvertido, que guardava seus diplomas debaixo do colchão e cuja única diversão durante o dia era jogar peteca na praia - um curioso esporte daquele tempo. Era, principalmente, de um atroz ciúme dos amigos e não gostava de estranhos em sua roda. A Bossa Nova, em 1959, agrediu-o em todas essas frentes. Seu melhor e mais velho amigo, Tom, sobre quem até então ele exercia uma considerável ascendência, tornara-se uma minicelebridade. A partir daí, ficou difícil para Newton, ao terminar o serviço na boate às quatro da manhã, conseguir que Tom desafiasse sua mulher Teresa e saísse da cama para encontrá-lo num botequim na rua Teixeira de Melo, em Ipanema, como acontecera outras vezes. Newton já se conformara em dividi-lo com Vinícius, de quem também ficara amigo, mas, depois de "Desafinado", Tom passara a ser propriedade de todo mundo no competitivo mundinho da Bossa Nova. Além do mais, tinha sido Tom, e não ele, que se tornara o querido da imprensa - como se pudesse ser de outra forma. Mas Newton se ressentia, acusando os jornalistas. "Eles só querem saber do Tom", queixava-se para sua mulher Cyrene. Esta depois teria outra explicação: "Newton assustava os repórteres".

Se chegasse a ser entrevistado por um deles, Newton Mendonça provavelmente teria coisas a dizer. Como as que dizia para Cyrene, quando era cobrado por ela a respeito do aperto financeiro em que viviam:

"Não faço música para faxineira cantar varrendo a sala".

Só podia ser uma alusão maldosa à história da empregada que teria levado Tom a compor a deslumbrante "Chega de saudade". Mas diria também que isso não diminuía a sua ambição de se ver reconhecido, e  que o fazia irritar-se com as brincadeiras de Tom - como uma que este aprontou, em 1956, na boate Posto 5, onde Newton trabalhava. Tom chegou com o jovem repórter José Carlos de Oliveira, tomou o lugar de Newton ao piano e disse, com grande seriedade:

"Carlinhos, escute este samba-canção que eu acabei de fazer."

E tocou "Foi a noite" - dele e de Mendonça, claro. Ronaldo Bôscoli, que estava presente e conhecia a música, fez força para não rir, mas Newton não achou graça. Isso pode ter-se tornado uma prática perversa entre os dois parceiros. Poucos anos depois, em 1959, Mendonça cruzou com Tito Madi no Beco das garrafas e o fez entrar no Ma Griffe, onde estava agora trabalhando.

"Tito, olha só o que eu acabei de compor", disse Newton.

Sentou-se ao piano e tocou-lhe um samba revolucionário. Tito Madi ficou quase estatelado. Não podia adivinhar, mas acabar de ouvir, em primeira mão, "Samba de uma nota só" - melodia, harmonia e ritmo. Ainda sem letra.

Jobim e Mendonça fizeram "Samba de uma nota só" em fins de 1959 e também no apartamento de Newton. Só que, dessa vez, a sério, sem o espírito de fuzarca que presidiu a confecção de "Desafinado". Mesmo assim, não resistiram a uma pequena provocação a Ary Barroso, ao começar a letra com o verso "Eis aqui este sambinha/ Feito numa nota só". Barroso, que acreditava nos ufanismos nacionalistas que escrevia, foi talvez o único grande compositor brasileiro da velha guarda que nunca flertou com ritmos estrangeiros. Em seus programas de calouros, defendia com unhas e alguns dentes a sacralidade do samba e ficava um tigre quando algum desavisado anunciava que iria cantar "um sambinha" - às vezes dele próprio, Ary. Tanto Jobim quanto Mendonça o admiravam, mas ressentiam-se das espetadas que o homem de "Risque" e "Aquarela do Brasil" distribuía contra a Bossa Nova nas mesas da Fiorentina. Não que quisessem desafiá-lo. Ao contrário: ao minimizar o que tinham feito, classificando o seu próprio samba de "um sambinha", pensavam até em cativá-lo - e neutralizá-lo. (Conseguiram.)

Quando "Samba de uma nota só" foi gravado por João Gilberto em abril do ano seguinte, a Bossa Nova já tinha se tornado a mania nacional, mas isso não alterara o estilo de vida de Newton Mendonça. Seu nome ficara relativamente conhecido no selo dos discos - apesar de ter virado Milton em "Desafinado" -, mas sua figura continuava tão na sombra quanto nos tempos de "Foi a noite". "Desafinado" tocava agora em todas as rádio, mas Mendonça não estava vivendo à altura dessa glória. O Ma Griffe era um puteiro e ainda lhe pagava mal. Tudo poderia ter sido diferente se ele não tivesse sofrido o seu primeiro enfarte, em maio de 1959. Na véspera daquele dia, ao voltar de manhã para casa, queixou-se de dores no braço e de dormência nas mãos.

"Ontem toquei por honra da firma", disse para Cyrene.

Não fora o primeiro aviso e ele sabia que vinha de uma família de cardíacos, como seu pai e sua irmã. Mas esses pequenos sustos não impediram que Newton continuasse disputando bárbaras maratonas alcoólicas com sua turma em Ipanema. Certa tarde, depois de drenar o estoque de conhaque Georges Aubert que tinha em casa, mandou sua empregada comprar mais uma garrafa no mercadinho. A moça voltou com a informação:

"Eles disseram que não têm nenhum João Gilberto para vender".

Era natural que ela se atrapalhasse: João Gilberto era no nome que mais se ouvia naquela casa. Depois do serviço na boate, Newton ia para a casa de alguém, bebia o resto, fumava o penúltimo cigarro dos seus quatro maços diários de Lincoln e desabava num sofá. Estava tratando seu coração como se este fosse uma punching-ball.

Newton não desapontou os evidentes sintomas e teve o enfarte, à saída do trabalho no Ma Griffe. Foi atendido no pronto-socorro que existia na praça do Lido e, no dia seguinte, internado no próprio Hospital dos Servidores. Ficou 21 dias no hospital. Ao sair, os médicos passaram-lhe uma receita que ele achou excessiva: tinha de cortar de vez o cigarro, a bebida e a peteca na praia, moderar o sexo e ficar seis meses sem trabalhar. Newton cumpriu aproximadamente a primeira exigência - e transgrediu com fervor religioso as demais. Menos de dois meses pós-enfarte, voltou a tocar na noite, novamente na boate Carrousel; elegeu o Veloso, na rua Montenegro, como seu bar de parada obrigatória a caminho do serviço ou de qualquer lugar; e continuou a jogar peteca, agora clandestinamente, no Posto 6. A ideia de ver o maduro compositor de "Meditação" sendo obrigado a jogar peteca às escondidas é tristíssima, mas foi o que aconteceu.

Quanto ao sexo, Newton foi tudo menos salomônico. Aceitou o conselho médico de que ele e Cyrene dormissem em quartos separados, para poupar o coração de sobressaltos. Mas não o poupou de palpitações intensas nos casos avulsos - reais ou imaginários - que passou a ter fora de casa. Suas colegas de trabalho eram as profissionais da noite, o que lhe abria o chamado leque de opções para quando queria se distrair. Mas o que provavelmente o sobrecarregou de emoções foi sua capacidade de fantasiar paixões, como a que alimentou pela sambista Francineth e principalmente pela cantorinha de rock Sônia Delfino, que comandava o programa Alô, brotos! na TV Tupi. Aos dezessete anos, rival de Celly Campello e, segundo ela própria, virgem, Sônia era a boneca mais cobiçada do meio musical - e sabia disso. Cyrene suspeitava de que os dois tivesse um caso, o que Newton nem cofirmava nem desmentia. (Sônia diria depois que admirava muito Newton Mendonça, "à distância", mas sempre negou que os dois tivessem um caso.)

Por via das dúvidas, Cyrene achou melhor levar Newton para longe de Ipanema. Foram morar num sobrado na rua Torres Homem, em Vila Isabel, onde ela pensava mantê-lo relativamente a salvo das tentações. O que aconteceu é que eles se isolaram e isso não fez bem a Newton. Os únicos amigos que se animavam a ir vê-lo na distante Zona Norte eram Tom e um jovem chamado Cariê (Carlos Alberto Lindenbergh, depois homem de televisão no Espírito Santo). Mas, como continuava trabalhando no Beco do Joga-a-Chave-Meu-Amor, Newton fazia regularmente a sua vida social em Copacabana e voltava cada vez mais tarde para casa - tomando antes o cuidado de comprar alguns bombons, para adoçar Cyrene.

Numa terça-feira, 11 de novembro de 1960, Newton saiu numa tarde chuvosa para encontrar amigos no Ponto dos Músicos, no centro da cidade. Não iria trabalhar aquela noite. Quando voltou, de madrugada, Cyrene já tinha se deitado. Ela o ouviu acertar a custo a chave na fechadura e imaginou que estivesse bêbado. Levantou-se e foi encontrá-lo na sala. Os vapores em Newton podiam realmente ser sentidos à distância, mas ele estava também branco como gesso e com a mão no peito. tinha conseguido colocar os bombons sobre o piano e tentava pendurar nele o guarda-chuva, que caiu. Havia uma poltrona por perto e ele se jogou nela, com um gemido profundo. Cyrene viu ali um novo enfarte e saiu correndo para chamar um médico que morava no andar de cima. Quando este chegou, Newton Mendonça estava morto.



(Chega de saudade - a história e as histórias da Bossa Nova)


(Ilustração: Newton Mendonça - foto da internet, sem crédito)


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