domingo, 26 de dezembro de 2010

LIBERDADE EM SEGURANÇA, de Mário Henrique Leiria







Os réus entraram. Três. Fardados de azul. De escudo a tiracolo e viseira erguida.

O juiz pôs a touca com um pequeno jeito de mão direita. Afirmou:

- Levante-se o queixoso.

O queixoso estava deitado. Não se levantou.

- Tem alguma coisa a acrescentar quanto à sua arguição contra os réus? - insistiu o juiz, dando outro pequeno jeito na touca.

O queixoso nada disse. Continuava deitado.

- Dadas as circunstancias atenuantes e outras, declaro os três réus inocentes. O queixoso demonstra à sociedade ser provocador. E silencioso. Revolucionário alterante de ordem estabelecida. Destabilizador da liberdade em segurança. Que os réus, absolvidos, se retirem. Em segurança e liberdade.

Os três réus perfilaram-se. Fizeram a continencia com a mão direita. E sairam. Pela porta da direita.

Sairam os meirinhos. Pela porta do fundo.

E também o juiz. Já sem touca. Pela porta da frente.

Saíram todos.

O queixoso não. Estava deitado, como já tive oportunidade de informar. Com cinco tiros no baixo-ventre. E morto.


(Ilustração: Pierre-Paul Prud'hon -Justice and Divine Vengeance Pursuing Crime)


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