segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A GENTE FAZ O QUE TEM DE FAZER, de Philip Roth






Cerca de dois meses e meio depois que as bem treinadas divisões da Coreia do Norte, armadas pelos comunistas soviéticos e chineses, atravessaram o paralelo 38 e penetraram na Coreia do Sul em 25 de maio de 1950, dando início às agonias da Guerra da Coreia, eu entrei para a Robert Treat, uma pequena universidade no centro de Newark que devia seu nome ao homem que fundou a cidade no século XVII. Fui a primeira pessoa de nossa família a entrar para universidade. Nenhum de meus primos tinha ido além do ginásio, nem meu pai ou seus três irmãos haviam completado o primário. “Trabalhei para ganhar a vida”, disse-me meu pai, “desde os dez anos.” Ele era açougueiro e eu fazia as entregas de bicicleta no bairro durante todo o tempo em que cursei o ginásio, exceto quando jogava beisebol e nas tarde em que participava das disputas com outros colégios como membro da equipe de debatedores. Praticamente desde o dia em que deixei o açougue – onde vinha trabalhando para ele sessenta horas por semana desde a formatura no ginásio, em janeiro, até o início das aulas na universidade, em setembro –, quase a partir do dia em que comecei a frequentar a Robert Treat, meu passou a ter medo de que eu morresse. Talvez seu medo tivesse algo a ver com a guerra, na qual as Forças Armadas dos Estados Unidos haviam entrado imediatamente, sob os auspícios da ONU, para auxiliar o exército sul-coreano, mal treinado e mal equipado; talvez tivesse a ver com as pesadas perdas sofridas por nossas tropas diante do poder de fogo dos comunistas, e seu receio de que, se o conflito durasse tanto quanto a Segunda Guerra Mundial, eu seria recrutado pelo Exército para lutar e morrer nos campos de batalha da Coreia como meus primos Abe e Dave haviam morrido durante a Segunda Grande Guerra. Ou talvez o medo se devesse a suas preocupações financeiras: no ano anterior, com a abertura do primeiro supermercado do bairro a poucas quadras do açougue kosher de nossa família, as vendas começaram a cair sem parar. Isso se deveu ao fato de que a seção de carnes e de aves do supermercado oferecia preços inferiores aos de meu pai, mas também ao declínio geral no número de famílias que, após a guerra, se davam ao trabalho de obedecer às normas alimentares judaicas, comprando carne e galinhas numa loja certificada por rabinos e cujo proprietário era membro da Federação dos Açougueiros Kosher de New Jersey. Ou, quem sabe, seu medo por mim começou como um medo por ele próprio, porque, aos cinquenta anos, tendo gozado de excelente saúde a vida toda, aquele robusto homenzinho passou a exibir uma tosse sufocante e persistente que, apesar das preocupações que causava em minha mãe, não o impedia de manter um cigarro aceso no canto da boca o dia inteiro. Seja qual for a causa ou combinação de causas que alimentaram a mudança abrupta num comportamento paterno até então benevolente, ele manifestava seu medo me perseguindo noite e dia para saber do meu paradeiro. Onde é que você foi? Por que não estava em casa? Como posso saber onde você está quando vai para a rua? Você é um rapaz com um futuro magnífico à sua frente, como posso saber se não está se metendo em lugares onde pode acabar sendo morto?


As perguntas eram ridículas porque, desde os tempos do ginásio, eu era um estudante prudente, responsável, diligente, cioso, com notas excepcionais, que só saía com as moças mais bem-comportadas; além disso, era um debatedor dedicado e um jogador de beisebol capaz de ocupar várias posições em torno das bases, aceitando de bom grado as normas de conduta aplicadas aos adolescente da vizinhança e do colégio. As perguntas eram também irritantes – como se o pai com quem eu tinha convivido tão de perto durante todos aqueles anos, praticamente crescendo ao lado dele no açougue, não tivesse a mínima ideia de quem era seu filho e de como ele era. Na loja, os fregueses faziam a alegria dele e de minha mãe ao falar do prazer que sentiam em ver como garotinho para quem costumavam trazer doces – naqueles tempos em que seu pai o deixava brincar com um pedaço de gordura para cortá-lo como se fosse um “grande açougueiro” embora usando uma faca sem corte – se transformara diante de seus olhos num jovem educado e bem-falante que moía a carne para eles, que espalhava e varria a serragem no chão, que arrancava zelosamente as penas que ainda restavam no pescoço das galinhas penduradas por ganchos à parede quando seu pai lhe dizia: “Markie, capricha aí em duas galinhas para a senhora fulana de tal”. Nos sete meses anteriores à minha entrada na universidade, ele me deu mais do que carne para moer e algumas galinhas para aprontar. Ensinou-me a pegar uma costela de cordeiro e separar as costeletas, talhando cada uma e, ao atingir o fundo, usar o cutelo para afastá-la do resto. E me ensinava sempre da forma mais tranquila. “É só não acertar sua mão com o cutelo e tudo bem”, dizia. Ensinou-me a ser paciente com os fregueses mais exigentes, em especial com aqueles que precisavam ver a carne de todos os ângulos antes de comprá-la, com aqueles para os quais eu tinha de erguer a galinha para que literalmente olhassem o cu da ave a fim de se certificarem de que estava. “Você não acreditava o que algumas dessas mulheres te obrigam a fazer antes de comprar uma galinha”, ele explicava. E aí as imitava: “Vira ela. Não , pro outro lado. Deixa eu ver a parte de trás”. Cabia-me não apenas depenar as galinhas mas também eviscerá-las. Faz-se um corte para abrir um pouco a cloaca, enfia-se a mão e agarram-se as vísceras puxando-as para fora. Eu odiava essa parte. Nauseabunda e repugnante, mas tinha de ser feita. Foi isto que aprendi com meu pai e o que adorei aprender com ele: que a gente faz o que tem de fazer.





(Indignação; tradução de Jorio Dauster)





(Ilustração: Deborah Poynton – casal)






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