quarta-feira, 24 de abril de 2013
ANTES DO BAILE VERDE, de Lygia Fagundes Telles
O rancho azul e branco desfilava com
seus passistas vestidos à Luís XV e sua porta-estandarte de peruca prateada em
forma de pirâmide, os cachos desabados na testa, a cauda do vestido de cetim
arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. O negro do bumbo fez uma profunda
reverência diante das duas mulheres debruçadas na janela e prosseguiu com seu
chapéu de três bicos, fazendo rodar a capa encharcada de suor.
- Ele gostou de você- disse a jovem voltando-se para a mulher que ainda
aplaudia. - O cumprimento foi na sua direção, viu que chique?
A preta deu uma risadinha.
-Meu homem é mil vezes mais bonito, pelo menso na minha opinião. E já deve
estar chegando, ficou de me pegar às dez na esquina. Se me atraso, ele começa a
encher a caveira e pronto, não sai mais nada.
A jovem tomou-a pelo braço e arrastou-a até a mesa -de-cabeceira. O quarto
estava resolvido como se um ladrão tivesse passado por ali e despejado caixas e
gavetas.
- Estou atrasadíssima, Lu! Essa fantasia é fogo...Tenha paciência, mas você vai
me ajudar um pouquinho.
- Mas você ainda não acabou?
Sentando-se na cama, a jovem abriu sobre os joelhos o saiote verde.Usava
biquíni e meias rendadas também verdes.
- Acabei o quê, falta pregar tudo isso ainda, olha aí... Fui inventar um raio
de pierrete dificílima!
A preta aproximou-se, alisando com as mãos o quimono de seda brilhante.
Espetado na carapinha trazia um crisântemo de papel-crepom vermelho. Sentou-se
ao lado da moça.
- O Raimundo já deve estar chegando, ele fica uma onça se me atraso. A gente
vai ver os ranchos, hoje quero ver todos.
- Tem tempo, sossega - atalhou a jovem. Afastou os cabelos que lhe caíam nos
olhos. Levantou o abajur que tombou na mesinha. - Não sei como fui me atrasar
desse jeito.
- Mas não posso perder o desfile, viu, Tatisa? Tudo, menos perder o desfile!
- E quem está dizendo que você vai perder?
A mulher enfiou o dedo no pote de
cola e baixou-o de leve nas lantejoulas do pires. Em seguida, levou o dedo até
o saiote e ali deixou as lantejoulas formando uma constelação desordenada.
Colheu uma lantejoula que escapara e delicadamente tocou com ela cola.
Depositou-a no saiote, fixando-a com pequenos movimentos circulares.
- Mas se tiver que pregar as lantejoulas em todo o saiote...
- Já começou a queixação? Achei que dava tempo e agora não posso largar a coisa
pela metade, vê se entende! Você ajudando vai num instante, já me pintei, olha
aí, que tal minha cara? Você nem disse nada, sua bruxa! Hein?... Que tal?
- Ficou bonito, Tatisa. Com o cabelo assim verde você está parecendo uma
alcachofra, tão gozado. Não gosto é desse verde na unha, fica esquisito.
Num movimento brusco, a jovem levantou a cabeça para respirar melhor. Passou o
dorso da mãona face afogueada.
- Mas as unhas é que dão a nota, sua tonta. É um baile verde, as fantasias têm
que ser verdes, tudo verde. Mas não precisa ficar me olhando, vamos, não pare,
pode falar, mas vá trabalhando. Falta mais da metade, Lu!
-Estou sem óculos, não enxergo direito sem os óculos.
- Não faz mal - disse a jovem, limpando no lençol o excesso de cola que lhe
escorreu pelo dedo. Vá grudando de qualquer jeito que lá dentro ninguém vai
reparar, vai ter gente à beça. O que está me endoidando é este calor, não
aguento mais, tenho a impressão de que estou me derretendo, você não sente?
Calor bárbaro!
A mulher tentou prender o crisântemo que resvalara para o pescoço. Franziu a
testa e baixou o tom de voz.
- Estive lá.
- E daí?
- Ele está morrendo.
Um carro passou na rua, buzinando freneticamente. Alguns meninos puseram-se a
cantar aos gritos, o compasso marcado pelas batidas numa panela: a coroa do rei
não é de ouro nem de prata...
- Parece que estou num forno - gemeu a jovem dilatando as narinas porejadas de
suor. - Se soubesse, teria inventado uma fantasia mais leve.
- Mais leve do que isso? Você está quase nua, Tatisa. Eu ia com a minha
havaiana , mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica. Imagine
você então...
Com a ponta da unha, Tatisa colheu uma lantejoula que se enredara na renda da
meia. Deixou-a cair na pequena constelação que ia armando na barra do saiote e
ficou raspando pensativamente um pingo ressequido de cola que lhe caíra no
joelho. Vagava o olhar pelos objetos, sem fixar-se em nenhum . Falou num tom
sombrio:
-Você acha, Lu?
-Acha o quê?
-Que ele está morrendo?
- Ah, está sim. Conheço bem isso, já vi um monte de gente morrer, agora já sei
como é. Ele não passa desta noite.
- Mas você já se enganou uma vez, lembra? Disse que ele ia morrer, que estava
nas últimas... E no dia seguinte ele já pedia leite, radiante.
- Radiante? - espantou-se a empregada. Fechou num muxoxo os lábios pintados de
vermelho-violeta. - E depois, eu não disse não senhora que ele ia morrer, eu
disse que ele estava ruim, foi o que eu disse. Mas hoje é diferente, Tatisa.
Espiei da porta, nem precisei entrar para ver que ele está morrendo.
- Mas quando fui lá ele estava dormindo tão calmo, Lu.
- Aquilo não é sono. É outra coisa.
Afastando bruscamente o saiote aberto nos joelhos, a jovem levantou-se. Foi até
a mesa, pegou a garrafa de uísque e procurou um copo em meio à desordem dos
frascos e caixas. Achou-o debaixo da esponja de arminho. Soprou o fundo cheio
de pó-de-arroz e bebeu em largos goles, apertando os maxilares. Respirou de
boca aberta. Dirigiu-se à preta.
-Quer?
- Tomei muita cerveja, se misturo dá ânsia.
A jovem despejou mais uísque no copo.
- Minha pintura não está derretendo? Veja se o verde dos olhosnão borrou...
Nunca transpirei tanto, sinto o sangue ferver.
- Você está bebendo demais. E nessa correria... Também não sei por que essa
invenção de saiote bordado, as lantejoulas vão se desgrudar todas no aperto. E
o pior é que não posso caprichar, com o pensamento no Raimundo lá na esquina...
- Você é chata, não Lu? Mil vezes fica repetindo a mesma coisa ,
taque-taque-taque-taque! esse cara não pode esperar um pouco?
A mulher não respondeu. Ouvia com expressão deliciada a música de um bloco que
passava já longíquo . Cantarolou em falsete: acabou chorando... acabou
chorando...
- No outro carnaval entrei num bloco de sujos e me diverti à grande. Meu sapato
até desmanchou de tanto que dancei.
- E eu na cama, podre de gripe, lembra? Neste quero me esbaldar.
- E seu pai?
Lentamente a jovem foi limpando no lençol as pontas dos dedos esbranquiçados de
cola. Tomou um gole de uísque. Voltou a afundar o dedo no pote.
- Você quer que eu fique aqui chorando, não é isso que você quer? Quer que eu
cubra a cabeça com cinza e fique de joelhos rezando, não é isso que você está
querendo? - Ficou olhando para a ponta do dedo coberto de lantejoulas. Foi
deixando no saiote o dedal cintilante. - Que é que eu posso fazer? Não sou
Deus, sou? Então? Se ele está pior, que culpa tenho eu?
- Não estou dizendo que você é culpada, Tatisa. Não tenho nada com isso, ele é
seu pai, não meu. Faça o que bem entender.
- Mas você começa a dizer que ele está morrendo!
- Pois está mesmo.
- Está nada! Também espiei, ele está dormindo, ninguém morre dormindo daquele
jeito.
- Então não está.
A jovem foi até a janela e ofereceu a face ao céu roxo. Na calçada, um bando de
meninos brincava com bisnagas de plástico em formato de banana, esguichando
água um na cara do outro.
Interromperam a brincadeira para vaiar um homem que passou vestido de mulher,
pisando para fora nos sapatos de saltos altíssimos. "Minha lindura, vem
comigo, minha lindura!" - gritou o moleque maior, correndo atrás do homem.
Ela assistia à cena com indiferença. Puxou com força as meias presas aos
elásticos do biquini.
- Estou transpirando feito um cavalo. Juro que se não tivesse me pintando, me
metia agora num chuveiro, besteira a gente se pintar antes.
- E eu não aguento mais de sede - resmungou a empregada, arregaçando as mangas
do quimono. - Ai! uma cerveja bem geladinha . Gosto mesmo é de cerveja, mas o
Raimundo prefere cachaça. No ano passado, ele ficou de porre os três dias, fui
sozinha no desfile. Tinha um carro que foi o mais bonito de todos, representava
um mar. Você precisa ver aquele monte de sereias enroladas em pérolas. Tinha
pescador, tinha pirata, tinha polvo, tinha tudo! Bem lá em cima , dentro de uma
concha abrindo e fechando, a rainha do mar coberta jóias...
- Você já se enganou uma vez - atalhou a jovem. - Ele não pode estar morrendo,
não pode. Também estive lá antes de você, ele estava dormindo tão sossegado. E
hoje cedo até me reconheceu, ficou me olhando, me olhando e depois sorriu. Você
está bem papai?, perguntei e ele não respondeu mas vi que entendeu
perfeitamente o que eu disse.
- Ele se fez de forte, coitado.
- De forte, como?
- Sabe que você tem o seu baile, não quer atrapalhar.
- Ih, como é difícil conversar com gente ignorante - explodiu a jovem, atirando
no chão as roupas amontoadas na cama. Revistou os bolsos de uma calça comprida.
- Você pegou meu cigarro?
- Tenho minha marca, não preciso dos seus.
- Escuta, Luzinha, escuta - começou ela, ajeitando a flor na carapinha da
mulher. - Eu não estou inventando, tenho certeza de que ainda hoje cedo ele me
reconheceu. Acho que nessa hora sentiu alguma dor porque uma lágrima foi
escorrendo daquele lado paralisado. Nunca vi ele chorar daquele lado, nunca.
Chorou só daquele lado, uma lágrima tão escura...
- Ele estava se despedindo.
- Lá vem você de novo, merda! Pare de bancar o corvo, até parece que você quer
que seja hoje. Por que tem que repetir isso, por quê?
- Você mesmo pergunta e não quer que eu responda. Não vou mentir, Tatisa.
A jovem espiou debaixo da cama. Puxou um pé de sapato. Agachou-se mais, roçando
os cabelos verdes no chão . Levantou-se, olhou em redor. E ajoelhou-se
devagarinho diante da preta. Apanhou o pote de cola.
- E se você desse um pulo lá só para ver?
- Mas você quer ou não que eu acabe isto? - a mulher gemeu exasperada, abrindo
e fechando os dedos ressequidos de cola.
- O Raimundo tem ódio de esperar, hoje ainda apanho!
A jovem levantou-se. Fungou, andando rápido num andar de bicho na jaula. Chutou
o sapato que encontrou no caminho.
- Aquele médico miserável. Tudo culpa daquela bicha. Eu bem disse que não podia
ficar com ele aqui em casa, eu disse que não sei tratar de doente, não tenho
jeito, não posso! Se você fosse boazinha, você me ajudava, mas você não passa
de uma egoísta, uma chata que não quer saber de nada. Sua egoísta!
- Mas Tatisa, ele não é o meu pai, não tenho nada com isso, até que ajudo muito
sim senhora, como não? Todos esses meses quem é que tem aguentado o tranco? Não
me queixo porque ele é muito bom, coitado. Mas tenha a santa paciência, hoje
não! Já estou fazendo demais aqui plantada quando devia estar na rua.
Com um gesto fatigado, a jovem abriu a porta do armário. Olhou-se no espelho.
Beliscou a cintura.
- Engordei, Lu.
- Você, gorda? Mas você é só osso, menina. Seu namorado não tem onde pegar. Ou
tem?
Ela ensaiou com os quadris um movimento lascivo. Riu. Os olhos animaram-se:
- Lu, Lu, pelo amor de Deus, acabe logo que à meia-noite ele vem me buscar.
Mandou fazer um pierrô verde.
-Também já me fantasiei de pierrô. Mas faz tempo.
- Vem num tufão, viu que chique?
- Que é isso?
- É um carro muito bacana, vermelho. Mas não fique aí me olhando, depressa, Lu,
você não vê que... -Passou ansiosamente a mão no pescoço. - Lu, Lu por que ele
não ficou no hospital?! Estava tão bem no hospital...
- Hospital de graça é assim mesmo, Tatisa. Eles não podem ficar a vida inteira
com um doente que não resolve, tem doente esperando até a calçada.
- Há meses que venho pensando nesse baile. Ele viveu sessenta e seis anos. Não
podia viver mais um dia?
A preta sacudiu o saiote e examinou-o a uma certa distância. Abriu-o de novo no
colo e inclinou-se para o pires de lantejoulas.
- Falta só um pedaço.
- Um dia mais...
- Vem me ajudar, Tatisa, nós duas pregando vai num instante.
Agora ambas trabalhavam num ritmo acelerado, as mãos indo e vindo do pote de
cola ao pires e do pires ao saiote, curvo como uma asa verde, pesada de
lantejoulas.
-Hoje o Raimundo me mata - recomeçou a mulher, grudando as lantejoulas meio ao
acaso. Passou o dorso da mão na testa molhada. Ficou com a mão parada no ar.
Você não ouviu?
A jovem demorou para responder.
- O quê?
- Parece que ouvi um gemido.
Ela baixou o olhar.
- Foi na rua.
Inclinaram as cabeças irmanadas sob a luz amarela do abajur.
- Escuta, Lu, se você pudesse ficar hoje, só hoje - começou ela num tom manso.
Apressou-se: - Eu te daria meu vestido branco, aquele meu branco, sabe qual é?
E também os sapatos, estão novos ainda, você sabe que eles estão novos. Você
pode sair amanhã, você pode sair todos os dias, fica hoje!
A empregada empertigou-se, triunfante.
- Custou, Tatisa, custou. Desde o começo eu já estava esperando. Ah, mas hoje
nem que me matasse eu ficava, hoje não. - O crisântemo caiu enquanto ela
sacudiu a cabeça. Prendeu-o com um grampo que abriu entre os dentes. - Perder
esse desfile? Nunca! Já fiz muito - acrescentou sacudindo o saiote. - Pronto,
pode vestir. Está um serviço porco mas ninguém vai raparar.
- Eu podia te dar o casaco azul - murmurou a jovem, limpando os dedos no
lençol.
- Nem que fosse para ficar com meu pai eu ficava, ouviu isso, Tatisa? Nem com
meu pai, hoje não.
Levantando-se de um salto, a moça foi até a garrafa e bebeu de olhos fechados
mais alguns goles. Vestiu o saiote.
- Brrrr! Esse uísque é uma bomba - resmungou, aproximando-se do espelho. -Anda,
venha aqui me abotoar, não precisa fica aí com essa cara. Sua chata.
A mulher tateou os dedos por entre o tule.
- Não acho os colchetes.
A jovem ficou diante do espelho, as pernas abertas, a cabeça levantada. Olhou
para a mulher através do espelho:
- Morrendo coisa nenhuma, Lu. Você estava sem os óculos quando entrou no
quarto, não estava? Então não viu direito, ele estava dormindo.
- Pode ser que me enganasse mesmo.
- Claro que se enganou. Ele estava dormindo.
A mulher franziu a testa, enxugando na manga do quimono o suor do queixo.
Repetiu como um eco:
- Estava dormindo, sim.
- Depressa, Lu, faz uma hora que está com esses colchetes!
- Pronto - disse a outra, baixinho, enquanto recuava até a porta.
- Não precisa mais de mim, não é?
- Espera! - ordenou a moça perfumando-se rapidamente. Retocou os lábios, atirou
o pincel ao lado do vidro destapado.- Já estou pronta, vamos descer juntas.
- Tenho que ir, Tatisa!
- Espera, já disse que estou pronta - repetiu, baixando a voz.- Só vou pegar a
bolsa...
- Você vai deixar a luz acesa?
- Melhor, não? A casa fica mais alegre assim.
No topo da escada ficaram mais juntas. olharam na mesma direção: a porta estava
fechada. Imóveis como se tivessem sido petrificadas na fuga, as duas mulheres
ficaram ouvindo o relógio da sala. Foi a preta quem primeiro se moveu. A voz era
um sopro:
- Quer ir dar uma espiada, Tatisa?
- Vá você, Lu...
Trocaram um rápido olhar. Bagas de suor escorriam pelas têmporas verdes da
jovem, um suor turvo como o sumo de uma casca de limão. O som prolongado de uma
buzina se fragmentou lá fora. Subiu poderoso o som do relógio. Brandamente a
empregada desprendeu-se da mão da jovem. Foi descendo a escada na ponta dos
pés. Abriu a porta da rua.
- Lu! Lu! - a jovem chamou num sobressalto. Continha-se para não gritar.
- Espera aí, já vou indo!
E apoiando-se ao corrimão, colada a ele, desceu precipitamente. Quando bateu a
porta atrás de si, rolaram pela escada algumas lantejoulas verdes na mesma
direção, como se quisessem alcançá-la.
(Ilustração: Franz von Stuck)
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Lygia Fagundes Telles - Antes do baile verde
domingo, 21 de abril de 2013
ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO, de João Cabral de Mello Neto
- Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
- É de bom tamanho,nem largo nem fundo,
é parte que te cabe
deste latifúndio.
- Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que queria
ver dividida.
- É uma cova grande
para o teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
- É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
- É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.
- Viverás, e para sempre,
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
- Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
- Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
- Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
- Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
- Trabalharás numa terra
que também te abriga e veste:
embora com o brim do Nordeste.
- Será de terra
tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
- Será de terra
e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
- Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
- Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
- Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
- Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.
- Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
- Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo).
- Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
- Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigo).
- Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos).
- Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).
- Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
- Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
- Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não a caiana.
- Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
- Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
- Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.
- Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
- Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
- Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
- Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.
- Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
- Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
- Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha.
- Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.
- Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
- De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito a viração.
- Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
- E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
- Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
- Se abre o chão e te envolve,
como mulher com quem se dorme.
(Morte e Vida Severina)
(Ilustração: Abelardo da Hora - enterro de camponês, 1967)
quinta-feira, 18 de abril de 2013
ESTRANHO JOGO EM CAMPO DE NUDISMO, de David Sedaris
Tentei começar o meu dia pelado, mas não consegui ir além da mesa de piquenique. Tive de voltar ao trailer para colocar uma camiseta que me cobriu até a metade das coxas. A passar pelo pavilhão, encontrei um grupo de homens e mulheres idosos, reunidos em uma quadra coberta de cascalho. Estávamos no meio da manhã, e tive a sensação de que algo importante estava por acontecer. Uma mulher inclinou-se para ajuntar pedrinhas. Usava apenas uma blusa de mangas curtas, sem saias ou calças, e o seu traseiro era uma paisagem de buracos, rugas e veias azuis que cruzavam as coxas como um mapa topográfico de córregos e rios. Havia duas outras mulheres sentadas em um banco nas proximidades, ambas de camiseta. Uma delas usava viseira e a outra, o tipo de touca que associo a ordenhadoras do passado. Era uma geringonça franzida, abas largas, amarrada em forma de laço sob o último de seus vários queixos. "Tudo bem?", ela cumprimentou. "Ei, olhem todos, temos sangue novo."
"Aah, um novo rosto, é exatamente disso que precisávamos para manter o jogo interessante." O autor do comentário era um cavalheiro extremamente bronzeado, pelado exceto por um boné de golfe onde prendera com alfinete uma chave de armário. "Você já jogou pétanque?" É o primo francês da bocha italiana. Stan Friendly e a mulher costumavam jogá-lo na Flórida e, quando o trouxeram aqui para o norte, todos nós comentamos, 'Que diabo de jogo é esse?' Todos nós jogávamos voleibol e pensávamos que aqueles jogadores de pétanque fossem uns birutas, não é, Rank?"
"Achávamos que eram uma dupla de lunáticos, observou Frank. Coçando as nádegas mordidas por mosquito, ele se juntou a nós na quadra. "Agora dizemos 'Para o inferno com o voleibol' e jogamos pétanque três vezes ao dia. Um ótimo jogo, você vai ver" "Ei!", gritou, "Alguém dê a nosso amigo aqui algumas bolas. Temos um novo jogador."
Era curioso observar diferentes estágios de nudez e a forma pela qual as roupas eram tiradas ao longo do jogo. Assim como eu, Jack e Carol chegaram usando camisetas, enquanto Bill, Frank e Celeste não usavam nada além de chapéus. Phil e Millie vieram de moletom, que imediatamente descartaram e colocaram em uma pilha, na mesa de piquenique. Um homem chamado Carl usava camisa e colete, e os dois combinados com as meias pretas e sapatos confortáveis, davam a ideia de que estava apenas fazendo uma horinha, enquanto as calças e cueca giravam na secadora de roupas.
Bill, o homem com o boné de golfe, tinha uma longa cicatriz que ia do meio das costas até a axila direita. O ferimento já fora nivelado com a pele, mas agora o tecido cicatricial, apertado e lustroso. lembrava uma estrada estreita, cercada em ambos os lados por montanhas ambáricas e improdutivas. Por outro lado, o corpo de Frank era igualzinho a um caixa automático, com cirurgiões fazendo retiradas regulares nas costas, peito e barriga. Ele jogou uma bolinha de madeira na quadra, explicando que aquele seria o nosso alvo e me entregou algo semelhante a uma bola metálica de corquet, muito parecida com aquelas que se disparam de canhões. Pegando outra, subiu em uma laje lisa de concreto à beira da quadra, fechou um dos olhos e segurou a coisa, parecendo Hamlet meditando sobre a caveira de seu falecido bobo da corte. Como estava nu, sua posição parecia estranhamente heroica, como se posasse para uma estátua a ser usada na inauguração da ala geriátrica de um hospital dedicado à medicina esportiva. De repente, recuou, balançou os braços para treinar e soltou a bola que voou pelo ar, pousando com um estrondo surdo a cinco centímetros do alvo.
"Agora tente você, Dave." Minha bola ficou longe do alvo pelo menos dois metros.
"Bela jogada!", disse Frank. "Bill, você viu? Parece que temos um talento natural conosco. Tente novamente, meu jovem.
A segunda bola que arremessei saiu bem fora da quadra e aterrissou na grama molhada. Evidentemente foi muito ruim, bem como minhas jogadas seguintes. Mesmo assim, toda tentativa provocava a mesma resposta: "Bela jogada!" Ou os olhos deles estavam opacos pela catarata ou realmente eram as melhores boas-praças que conhecera.
O jogo se arrastou por uma eternidade e os detalhes eram discutidos com paixão. Frequentemente havia uma discussão sobre qual bola estava mais próxima do alvo. "Acho que é a de Carl, mas por que não checamos? A bola de Phil está pau a pau." Trouxeram uma fita métrica, manuseada com grande cuidado e reverência, como se pudesse provar, de vez e de fato, a existência de Deus. Os capitães dos times agacharam-se, os testículos balançando como pêndulos sobre a quadra de cascalho. "Carl está a 20 centímetros e 3/4 e Phil está... quem diria, a 20 centímetros e 9/16! Parece que o time de Phil leva o ponto!"
O tédio do jogo me permitia esquecer de que não estava usando nada além de camiseta e tênis. No início, eu ficava nos lados mais distantes da quadra e buscava minhas bolas como uma condessa de peruca branca, curvado em mesuras como se a rainha estivesse passeando pelos jardins. Agora mal pensava duas vezes. Ninguém se importava com o aspecto de minha bunda. Estavam pensando no jogo e nada mais, até que acendi um cigarro e meus companheiros pediram-me para apagá-lo. Tudo bem ficar pelado ao ar livre, mas aparentemente não podia fumar em espaço aberto. Faz sentido?
(Pelado, tradução de Sarita Lopes)
(Ilustração: Henri Tuke - sous le soleil)
segunda-feira, 15 de abril de 2013
CANÇÃO DO EXÍLIO/ THE SONG OF EXILE, de Gonçalves Dias
Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühen?
Kennst du es wohl? — Dahin, dahin!
Möchtl ich... ziehn. *
Goethe
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
(Coimbra - julho 1843)
Traslate Nelson Ascher:
Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühen?
Kennst du es wohl? — Dahin, dahin!
Möchtl ich... ziehn. *
Goethe
|
My homeland has many palm-trees
and the thrush-song fills its air;
no bird here can sing as well
as the birds sing over there.
We have fields more full of flowers
and a starrier sky above,
we have woods more full of life
and a life more full of love.
Lonely night-time meditations
please me more when I am there;
my homeland has many palm-trees
and the thrush-song fills its air.
Such delights as my land offers
Are not found here nor elsewhere;
lonely night-time meditations
please me more when I am there;
My homeland has many palm-trees
and the thrush-song fills its air.
Don't allow me, God, to die
without getting back to where
I belong, without enjoying
the delights found only there,
without seeing all those palm-trees,
hearing thrush-songs fill the air.
* - "Conheces
a região onde florescem os limoeiros ?
laranjas de ouro ardem no verde escuro da folhagem;
conheces bem ? Nesse lugar,
eu desejava estar"
(Mignon, de Goethe)
(Ilustração: Aldemir Martins -
marinha com sol e palmeiras)
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