quinta-feira, 18 de abril de 2013

ESTRANHO JOGO EM CAMPO DE NUDISMO, de David Sedaris








Tentei começar o meu dia pelado, mas não consegui ir além da mesa de piquenique. Tive de voltar ao trailer para colocar uma camiseta que me cobriu até a metade das coxas. A passar pelo pavilhão, encontrei um grupo de homens e mulheres idosos, reunidos em uma quadra coberta de cascalho. Estávamos no meio da manhã, e tive a sensação de que algo importante estava por acontecer. Uma mulher inclinou-se para ajuntar pedrinhas. Usava apenas uma blusa de mangas curtas, sem saias ou calças, e o seu traseiro era uma paisagem de buracos, rugas e veias azuis que cruzavam as coxas como um mapa topográfico de córregos e rios. Havia duas outras mulheres sentadas em um banco nas proximidades, ambas de camiseta. Uma delas usava viseira e a outra, o tipo de touca que associo a ordenhadoras do passado. Era uma geringonça franzida, abas largas, amarrada em forma de laço sob o último de seus vários queixos. "Tudo bem?", ela cumprimentou. "Ei, olhem todos, temos sangue novo."

"Aah, um novo rosto, é exatamente disso que precisávamos para manter o jogo interessante." O autor do comentário era um cavalheiro extremamente bronzeado, pelado exceto por um boné de golfe onde prendera com alfinete uma chave de armário. "Você já jogou pétanque?" É o primo francês da bocha italiana. Stan Friendly e a mulher costumavam jogá-lo na Flórida e, quando o trouxeram aqui para o norte, todos nós comentamos, 'Que diabo de jogo é esse?' Todos nós jogávamos voleibol e pensávamos que aqueles jogadores de pétanque fossem uns birutas, não é, Rank?"

"Achávamos que eram uma dupla de lunáticos, observou Frank. Coçando as nádegas mordidas por mosquito, ele se juntou a nós na quadra. "Agora dizemos 'Para o inferno com o voleibol' e jogamos pétanque três vezes ao dia. Um ótimo jogo, você vai ver" "Ei!", gritou, "Alguém dê a nosso amigo aqui algumas bolas. Temos um novo jogador."

Era curioso observar diferentes estágios de nudez e a forma pela qual as roupas eram tiradas ao longo do jogo. Assim como eu, Jack e Carol chegaram usando camisetas, enquanto Bill, Frank e Celeste não usavam nada além de chapéus. Phil e Millie vierem de moletom, que imediatamente descartaram e colocaram em uma pilha, na mesa de piquenique. Um homem chamado Carl usava camisa e colete, e os dois combinados com as meias pretas e sapatos confortáveis, davam a ideia de que estava apenas fazendo uma horinha, enquanto as calças e cueca giravam na secadora de roupas.

Bill, o homem com o boné de golfe, tinha uma longa cicatriz que ia do meio das costas a até a axila direita. O ferimento já fora nivelado com a pela, mas agora o tecido cicatricial, apertado e lustroso. lembrava uma estrada estreita, cercada em ambos os lados por montanhas ambáricas e improdutivas. Por outro lado, o corpo de Frank era igualzinho a um caixa automático, com cirurgiões fazendo retiradas regulares nas costas, peito e barriga. Ele jogou uma bolinha de madeira na quadra, explicando que aquele seria o nosso alvo e me entregou algo semelhante a uma bola metálica de corquet, muito parecida com aquelas que se disparam de canhões. Pegando outra, subiu em uma laje lisa de concreto à beira da quadra, fechou um dos olhos e segurou a coisa, parecendo Hamlet meditando sobre a caveira de seu falecido bobo da corte. Como estava nu, sua posição parecia estranhamente heroica, como se posasse para uma estátua a ser usada na inauguração da ala geriátrica de um hospital dedicado à medicina esportiva. De repente, recuou, balançou os braços para treinar e soltou a bola que voou pelo ar, pousando com um estrondo surdo a cinco centímetros do alvo.

"Agora tente você, Dave." Minha bola ficou longe do alvo pelo menos dois metros.

"Bela jogada!", disse Frank. "Bill, você viu? Parece que temos um talento natural conosco. Tente novamente, meu jovem.

A segunda bola que arremessei saiu bem fora da quadra e aterrissou na grama molhada. Evidentemente foi muito ruim, bem como minhas jogadas seguintes. Mesmo assim, toda tentativa provocava a mesma resposta: "Bela jogada!" Ou os olhos deles estavam opacos pela catarata ou realmente eram as melhores boas-praças que conhecera.

O jogo se arrastou por uma eternidade e os detalhes eram discutidos com paixão. Frequentemente havia uma discussão sobre qual bola estava mais próxima do alvo. "Acho que é a de Carl, mas por que não checamos? A bola de Phil está pau a pau." Trouxeram uma fita métrica, manuseada com grande cuidado e reverência, como se pudesse provar, de vez e de fato, a existência de Deus. Os capitães dos times agacharam-se, os testículos balançando como pêndulos sobre a quadra de cascalho. "Carl está a 20 centímetros e 3/4 e Phil está... quem diria, a 20 centímetros e 9/16! Parece que o time de Phil leva o ponto!"

O tédio do jogo me permitia esquecer de que não estava usando nada além de camiseta e tênis. No início, eu ficava nos lados mais distantes da quadra e buscava minhas bolas como uma condessa de peruca branca, curvado em mesuras como se a rainha estivesse passeando pelos jardins. Agora mal pensava duas vezes. Ninguém se importava com o aspecto de minha bunda. Estavam pensando no jogo e nada mais, até que acendi um cigarro e meus companheiros pediram-me para apagá-lo. Tudo bem ficar pelado ao ar livre, mas aparentemente não podia fumar em espaço aberto. Faz sentido?



(Pelado, tradução de Sarita Lopes)


(Ilustração: Henri Tuke - sous le soleil)



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