quinta-feira, 19 de maio de 2022

MODESTA PROPOSTA PARA EVITAR QUE AS CRIANÇAS DA IRLANDA SEJAM UM FARDO PARA OS SEUS PAIS OU PARA O SEU PAÍS, de Jonathan Swift


É um Foco de ira* para aqueles que andam por esta grande Cidade ou viajam para o Interior, quando veem as Ruas, as Estradas e as Soleiras das Casas abarrotadas de Mendigas seguidas por três, quatro ou seis Crianças, todas em trapos e importunando cada um dos Passantes por uma Esmola. Essas Mães, em vez de poderem trabalhar para seu sustento honesto, são obrigadas a empregar todo seu tempo em Perambulações para implorar sustento a suas Crianças desamparadas, que, à medida que crescerem, ou viram Ladrões por falta de trabalho, ou deixam sua Terra Mãe querida para lutar pelo pretendente na Espanha ou se vender aos Barbados.

Acho que é um consenso de todas as Partes que esse prodigioso número de Crianças nos Braços, nas Costas ou nos Calcanhares de suas Mães, e frequentemente de seus Pais é, do deplorável presente estado do Reino, um considerável malefício adicional; e, portanto, quem quer que pudesse encontrar um método justo, barato e fácil de tornar essas Crianças úteis e saudáveis Membros dos Bens-comuns, mereceria ter por parte do público a sua Estátua como preservador da Nação.

Mas minha intenção está muito longe de se limitar a prover apenas Filhos dos proferidos Mendigos. É de uma Extensão muito maior e deve englobar o Total de Crianças em determinada Idade, tanto nascidas de Pais efetivamente pouco capazes de sustentá-las, quanto aquelas que demandam a nossa Caridade nas Ruas.

Da minha parte, tendo debruçado meus pensamentos por muitos Anos sobre este Importante assunto, e tendo pesado maduramente as Propostas de outros Planejadores, Eu sempre os achei grosseiramente enganados em seus cálculos.

É claro que uma criança recém-saída de sua Mãe pode ser sustentada por seu Leite por um Ano Solar com um pouco mais de alimento, provavelmente com não mais do que a Quantia de dois Shillings, que a Mãe pode certamente conseguir, ou o valor em migalhas, por sua legal Ocupação de Mendigar. E é exatamente com um Ano de Idade que eu proponho olhar por elas de tal maneira que, em vez de serem um Fardo para seus pais, ou para a Paróquia, ou querendo Comida e Roupa para o resto de suas Vidas, elas deverão, pelo Contrário, contribuir para a Alimentação e em parte pelo Vestuário de muitos Milhares.

Há igualmente outra grande Vantagem em meu Projeto, que prevenirá aqueles Abortos Voluntários e aquela horrenda prática de Mulheres assassinando seus Filhos Bastardos infelizmente frequente demais entre nós, Sacrificando os pobres inocentes Bebês, desconfio que mais para evitar as Despesas do que a Vergonha, o que traz Lágrimas e Pena até ao mais Selvagem e desumano peito.

Sendo o número de Viventes neste Reino geralmente estimado em um Milhão e meio, desses calculo que deva haver mais ou menos duzentos mil Casais cujas Mulheres sejam Parideiras, número do qual subtraio trinta Mil Casais capazes de manter seus próprios Filhos, embora tema que possam não ser tantos, com as atuais Aflições do Reino. Mas, assim sendo, sobrarão cento e setenta Mil Reprodutoras. Novamente Subtraio cinquenta Mil, para aquelas Mulheres que abortam naturalmente ou cujas Crianças morrem por acidente ou doença durante o primeiro Ano de Vida.

Sobram apenas cento e vinte Mil Filhos de Pais Pobres nascidos anualmente.

Logo, a pergunta é: como serão criados e sustentados? Como já disse, nas atuais Circunstâncias, é terminantemente impossível pelos Métodos propostos até agora, pois não podemos empregá-los na Indústria ou na Agricultura; nem construímos casas (digo, no Campo) ou cultivamos Terra: eles raramente podem ganhar a Vida Roubando, antes de chegar aos seis Anos, a não ser que sejam muito Precoces, embora, confesso, eles aprendam os Fundamentos bem mais cedo. Durante este período, entretanto, podem ser considerados apenas Aprendizes, como fui informado por um cavalheiro dirigente no Condado de Cavan que me assegurou que nunca soube de mais de um ou dois Casos abaixo dos seis Anos, mesmo em uma parte do Reino tão conhecida pela mais ágil competência nesta Arte.

Foi-me assegurado por nossos Mercadores que um Garoto ou uma Garota antes dos doze anos não é uma Mercadoria vendável; mesmo quando atingem essa idade não rendem, na troca, mais do que três Pounds, ou três Pounds e meia Coroa, no máximo, o que não pode reverter em Lucro nem para os Pais ou para o Reino, pois O Custo em Alimentação e Trapos é de pelo menos quatro vezes este Valor.

Devo agora, portanto, humildemente expor meus próprios Pensamentos, que espero não sejam passíveis da menor Objeção.

Foi-me assegurado por um americano muito entendido, amigo meu em Londres, que uma Criancinha saudável bem tratada é, com um Ano, um Alimento delicioso e nutritivo, seja Cozida, Grelhada, Assada ou Fervida; e eu não tenho dúvidas de que serviria também em um Guisado ou um Ensopado.

Eu, então, humildemente ofereço à apreciação do público que das cento e vinte Mil crianças já calculadas, vinte Mil sejam reservadas para Reprodução, das quais um quarto seriam Machos, mais do que admitimos para Ovelhas, Bovinos ou Suínos. Meu Argumento é que essas Crianças raramente são Frutos do Matrimônio, uma Circunstância não muito levada em conta por nossos

Selvagens, sendo portanto um Macho suficiente para servir quatro Fêmeas. Que as cem Mil restantes, com a Idade de um ano sejam postas à Venda para pessoas de Boa Posição Social e Fortuna em todo o Reino, sempre aconselhando a mãe que as deixem Sugar abundantemente durante o último Mês, de modo que as entreguem Gordas e Rechonchudas para uma boa Mesa. Uma Criança daria dois Pratos em uma Recepção para os Amigos, e quando a família jantar sozinha, o Quarto dianteiro ou traseiro daria um Prato razoável. Temperado com um pouco de Pimenta ou Sal ficaria muito bom fervido no quarto Dia, especialmente no Inverno.

Calculei que uma criança recém-nascida pesa, em média, umas doze libras e que, em um Ano solar, se razoavelmente bem cuidada, aumentaria para vinte e oito libras.

Admito que esta comida será um tanto cara e, sendo assim, muito apropriada para Senhores de terra que, tendo já devorado a maioria dos pais, parecem ter maiores Direitos sobre os filhos.

A Carne de Bebê seria de Estação durante o Ano inteiro, porém mais abundante em março e um pouco antes e um pouco depois; porque foi dito por um sério Autor, proeminente Médico Francês, que sendo o Peixe um alimento prolífico, existem nos países Católico-Romanos mais crianças nascidas nove meses após a Quaresma do que em qualquer outra época; então, contando um ano após a Quaresma os Mercadores estariam mais cheios do que de costume, pois o número de Bebês Papistas** é pelo menos três para um neste Reino, tendo assim outra Vantagem, que seria a de diminuir o Número de Papistas entre nós.

Já avaliei o Custo para sustentar um Filho de Mendigo (onde incluo todos os Camponeses, Trabalhadores e quatro quintos dos Agricultores), que deve girar em torno de dois Shillings por Ano, Trapos incluídos. Acredito que nenhum Cavalheiro negaria Dez Shillings pela carcaça de uma Criança bem gorda, que, como eu já disse, dará quatro pratos de excelente Carne Nutritiva, quando ele só tivesse um Amigo íntimo ou sua própria Família para o jantar. Assim, o Dono das Terras aprenderá a ser um bom Senhor e se tornará popular entre seus Inquilinos, a Mãe terá Oito Shillings de Lucro líquido e estará apta para trabalhar até que produza outra Criança. Aqueles mais econômicos (e devo admitir que os Tempos pedem isso) poderiam esfolar a Carcaça; a Pele, Artificialmente tratada, daria admiráveis Luvas para as Damas e Botas de Verão para os finos Cavalheiros.

Nota

* Acreditava-se em quatro humores, sendo a Bile Negra um deles, que tornava a pessoa passível a ataque de ódio e ira, descritos como Melancholly.

 

(Manual para fazer das crianças pobres churrasco ou Modesta proposta para evitar que as crianças da Irlanda sejam um fardo para os seus pais ou para o seu país; tradução de Clarah Averbuck)



(Ilustração: John Kenn Mortensen)


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