segunda-feira, 5 de julho de 2021

O CERCADO, de Ana Paula Ribeiro Tavares






De que cor era o meu cinto de missangas, mãe

feito pelas tuas mãos

e fios do teu cabelo

cortado na lua cheia

guardado do cacimbo

no cesto trançado das coisas da avó



Onde está a panela do provérbio, mãe

a das três pernas

e asa partida

que me deste antes das chuvas grandes

no dia do noivado



De que cor era a minha voz, mãe

quando anunciava a manhã junto à cascata

e descia devagarinho pelos dias



Onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe

se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera

p'ra lá do cercado



(Dizes-me coisas amargas como os frutos)



(Ilustração: Àsìkò - Duality of Purpose - 2017 - Metallic print)

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