segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

NAUS SEM RUMO, de Amílcar Cabral






Dispersas,

emersas,

sozinhas sobre o Oceano …

Sequiosas,

rochosas,

pedaços do Africano,

do negro continente,

as enjeitadas filhas,

nossas ilhas,

navegam tristemente …



Qual naus da antiguidade,

qual naus

do velho Portugal,

aquelas que as entradas

do imenso mar abriram …

As naus

que as nossas descobriram.



Ao vento, à tempestade,

navegam

de Cabo Verde as ilhas,

as filhas

do ingente

e negro continente …



São dez as caravelas

em busca do Infinito …

São dez as caravelas,

sem velas,

em busca do Infinito …

À tempestade e ao vento,

caminham …

navegam mansamente

as ilhas,

as filhas

do negro continente …



- Onde ides naus da Fome,

da Morna,

do Sonho,

e da Desgraça? …



- Onde ides? …



Sem rumo e sem ter fito,

Sozinhas,

dispersas,

emersas,

nós vamos,

sonhando,

sofrendo,

em busca do Infinito! …



(Emergência da poesia em Amílcar Cabral)




(Ilustração: Joannes van Keulen, ca. 1635. The first known painting of the island of Santiago Cape Verde Islands)

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