segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

LÚCIA, de Castro Alves

   






Na formosa estação da primavera

Quando o mato se arreia mais festivo,

E o vento campesino bebe ardente

O agreste aroma da floresta virgem...

Eu e Lúcia, corríamos — crianças —

Na veiga, no pomar, na cachoeira,

Como um casal de colibris travessos

Nas laranjeiras que o Natal enflora.




Ela era a cria mais formosa e meiga

Que jamais, na Fazenda, vira o dia ...

Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava

Sempre da corça arisca dos silvados

Quando via-lhe os olhos negros, negros

Como as plumas noturnas da graúna,

Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...

Sua boca era um pássaro escarlate

Onde cantava festival sorriso.

Os cabelos caíam-lhe anelados

Como doudos festões de parasitas...

E a graça... o modo... o coração tão meigo?!...




Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,

Festiva, encher de afagos a família,

Que te queria tanto e que te amava

Como se fosses filha e não cativa...

Tu eras a alegria da fazenda;

Tua senhora ria-se, contente

Quando enlaçavas seus cabelos brancos

Co'as roxas maravilhas da campina.

E quando à noite todos se juntavam,

Aos reflexos doirados da candeia,

Na grande sala em torno da fogueira,

Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:

"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...

Uma criança fez-se mariposa!"




Mas um dia a miséria, a fome, o frio,

Foram pedir um pouso nos teus lares...

A mesa era pequena... Pobre Lúcia!

Foi preciso te ergueres do banquete

Deixares teu lugar aos mais convivas...




....................................................




Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.

Tudo era festa em volta da pousada...

Cantava o galo alegre no terreiro,

O mugido das vacas misturava-se

Ao relincho das éguas que corriam

De crinas soltas pelo campo aberto

Aspirando o frescor da madrugada.




Pela última vez ela chorando

Veio sentar-se ao banco do terreiro...

Pobre criança! que conversas tristes

Tu conversaste então co'a natureza.




"Adeus! pra sempre, adeus, ó meus amigos,

Passarinhos do céu, brisas da mata,

Patativas saudosas dos coqueiros,

Ventos da várzea, fontes do deserto! ...

Nunca mais eu virei, pobres violetas,

Vos arrancar das moitas perfumadas,

Nunca mais eu irei risonha e louca

Roubar o ninho do sabiá choroso...

Perdoai-me que eu parto para sempre!

Venderam para longe a pobre Lúcia!..."




Então ela apanhou do mato as flores

Como outrora enlaçou-as nos cabelos,

E rindo de chorar disse em soluços:

"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."




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Depois além, um grupo, informe e vago,

Que cavalgava o dorso da montanha,

Ia esconder-se, transmontando o topo. . .




Neste momento eu vi, longe... bem longe,

Ainda se agitar um lenço branco...

Era o lencinho tremulo de Lúcia...





Epílogo




Muitos anos correram depois disto ...

Um dia nos sertões eu caminhava

Por uma estrada agreste e solitária,

Diante de mim u'a mulher seguia,

— Co'o cântaro à cabeça — pés descalços,

Co'os ombros nus, mas pálidos e magros ...



Ela cantava, com uma voz extinta,

Uma cantiga triste e compassada ...

E eu que a escutava procurava, embalde,

Uma lembrança juvenil e alegre

Do tempo em que aprendera aqueles versos...

De repente, lembrei-me. . . "Lúcia! Lúcia!"

... A mulher se voltou ... fitou-me pasma,

Soltou um grito. . . e, rindo e soluçando,

Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.

... Mas súbito estacou ... Nuvem de sangue

Corou-lhe o rosto pálido e sombrio ...

Cobriu co'a mão crispada a face rubra

Como escondendo uma vergonha eterna...

Depois, soltando um grito, ela sumiu-se

Entre as sombras da mata... a pobre Lúcia!






(Os Escravos)






(Ilustração: Jean-Baptiste Debret - sala de jantar)




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