sexta-feira, 24 de outubro de 2014

DEMAIN, DÉS L'AUBE / AMANHÃ, NA ALVORADA, de Victor Hugo







Demain, dès l’aube, à l’heure où blanchit la campagne
Je partirais. Vois-tu, je sais que tu m’attends.
J’irais par la forêt, j’irais par la montagne.
Je ne puis demeurer loin de toi plus longtemps.

Je marcherais les yeux fixés sur mes pensées,
Sans rien voir au dehors, sans entendre aucun bruit,
Seul, inconnu, le dos courbé, les mains croisées,
Triste. Et le jour pour moi sera comme la nuit.

Je ne regarderai ni l’or du soir qui tombe,
Ni les voiles au loin descendant vers Harfleur,
Et quand j’arriverais, je mettrai sur ta tombe
Un boquet de houx vert et de bruyère en fleurs.



Tradução de Wagner Mourão Brasil:



Amanhã, ao branquear na alvorada a campanha
Eu partirei. Bem sei o quanto esperas por mim.
Irei pela floresta, irei pela montanha.
De ti não posso mais viver tão longe assim.

Olhos fixos, irei pensando ensimesmado,
Sem nada ver em torno e sem ruído ouvir,
Curvo, anônimo, só, dedos entrelaçados,
Triste. As noites, dos dias não vou discernir.

Eu não avistarei nem o ouro do sol que tomba,
Nem as velas ao longe para Harfleur rumando,
E ao chegar colocarei sobre a tua tumba 
Um buquê de azevinho e urzes desabrochando.



(Nota do tradutor: Victor Hugo escreveu este poema, de versos alexandrinos, em memória de sua filha Leopoldine Hugo, morta aos 19 anos em um naufrágio no Sena, poucos meses após se casar. Seu marido, que tentou salvá-la, também afogou-se).




(Ilustração: Casper David Friedrich)

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