segunda-feira, 10 de março de 2014

O MEL VERDE, de Umberto Ecco







Depois da saída do Poeta, Abdul morava com Baudolino. Certa noite, Baudolino voltou para casa e encontrou Abdul cantando sozinho uma de suas mais belas canções, na qual sonhava encontrar sua princesa distante, mas de repente, quando a via quase próxima, parecia-lhe que estivesse andando para trás. Baudolino não entendia se era a música ou se eram as palavras, ma imagem de Beatriz, que lhe apareceu enquanto ouvia aquele canto, escapou-lhe, desaparecendo no nada, ao seu olhar. Abdul cantava e seu canto jamais parecera-lhe tão sedutor.

Terminada a canção, Abdul  prostrou-se exausto. Baudolino temeu por um instante que estivesse para desmaiar e se debruçou sobre ele, mas Abdul ergueu a mão como que para tranquilizá-lo e começou a rir em voz baixa, sozinho, sem uma boa razão. Ria e seu corpo tremia da cabeça aos pés; Baudolino pensava que estivesse com febre; disse-lhe Abdul,sempre sorrindo, que o deixasse estar que se acalmaria, pois sabia muito bem do que se tratava. E, no fim, pressionado pelas perguntas de Baudolino decidiu confessar seu segredo.

"Ouve, meu amigo. Peguei um pouco de mel verde, um pouco apenas. Sei que é uma tentação diabólica, mas às vezes me ajuda a cantar. Ouve, e não me censures. Quando menino, na Terra Santa, eu ouvia uma história maravilhosa e terrível. Contava-se que existia não muito longe de Antioquia uma raça de sarracenos, que morava entre as montanhas, num castelo inacessível, exceto para as águias. Seu senhor chamava-se Aloadin e incutia grandíssimo terror tanto nos príncipes sarracenos quanto nos cristãos. Com efeito, afirmava-se que, no centro de seu castelo, havia um jardim repleto de todas as espécies de frutas e de flores, onde corriam canais cheios de vinho, leite, mel e água, e a seu redor dançavam e cantavam jovens de incomparável beleza. No jardim podiam viver somente os jovens que Aloadin mandava raptar, e naquele lugar de delícias, adestrava-os apenas para o prazer. E digo prazer porque, tal como sussurravam os adultos - o que me fazia corar, perturbado -, aquelas jovens eram generosas e estavam prontas para satisfazer os hóspedes, proporcionando-lhes felicidades inefáveis e, imagino, extenuantes. Assim, naturalmente, quem entrava naquele lugar não desejava mais sair."

"Nada mal esse teu amigo Aloadin ou que raio de nome tivesse", sorriu Baudolino, passando na fronte do amigo um pano úmido.

"É o que pensas", disse Abdul, "porque não sabes a história verdadeira. Certa manhã, um desses jovens acordou num pátio esquálido, exposto ao sol, e se viu acorrentado. Passados alguns dias de sofrimento, levaram-no à presença de Aloadin, aos pés de quem se lançou, ameaçando suicídio e implorando que o levassem de volta para aquelas delícias, sem as quais não podia viver. Aloadin revelou-lhe, então, que ele caíra em desgraça junto ao profeta e que podia apenas cair de novo em suas graças se estivesse disposto a cumprir uma grande missão. Dava-lhe um punhal de ouro e dizia-lhe que, se partisse em viagem, seguisse para a corte de um senhor seu inimigo e que o matasse. Somente assim poderia merecer de novo o que desejava e, mesmo que morresse naquela missão seria admitido no Paraíso, que era em todo o caso igual ao lugar de que fora excluído, aliás, melhor. Eis por que Aloadin possuía tão grande poder e assustava todos os príncipes vizinhos, mouros ou cristãos, pois seus enviados estavam dispostos a qualquer sacrifício."

"Ora", comentou Baudolino, "é muito melhor uma dessas belas tabernas de Paris, e as suas moças, que podemos ter sem dar garantias. Mas o que tens a ver com essa história?"

"Muito, porque quando tinha dez anos fui raptado pelos homens de Aloadin. E fiquei cinco anos junto com ele."

"E com dez anos desfrutaste de todas aquelas jovens de que estás falando? E acaso te mandaram matar alguém? Abdul, o que estas me dizendo?", preocupou-se Baudolino.

"Eu era muito pequeno para ser rapidamente admitido entre os jovens beatos, e fui entregue como servidor a um eunuco do castelo, que se ocupava de seus prazeres. Mas, ouve o que acabei descobrindo. Durante cinco anos nunca vi jardim algum, porque os jovens estava sempre e tão somente acorrentados em fila naquele pátio batido pelo sol. A cada manhã um eunuco tirava de um armário certos vasos de prata, que guardavam uma pasta parecida com mel, mas de cor esverdeada, passava por cada um dos prisioneiros e lhes dava aquela substância. Eles a saboreavam, e começavam a contar a si mesmos e aos outros todas as delícias de que trata a lenda. Passavam o dia de olhos abertos, sorrindo, felizes. Ao anoitecer sentiam-se cansados, começavam a rir, às vezes de forma discreta, às vezes imoderada e depois adormeciam. Conforme crescia, compreendi o engano a que eram submetidos por Aloadin: viviam acorrentados, achando que estivessem no Paraíso, e para não perder aquele bem, tornavam-se instrumento da vingança de seu senhor. E se depois voltavam salvos de suas missões, acabavam novamente acorrentados, mas voltavam a ver e sentir aquilo que o mel verde lhes fazia sonhar."

"E tu?"

"Certa noite, enquanto todos dormiam, entrei onde ficavam os vasos de prata que guardavam o mel verde e provei um pouco. Provei? Engoli duas colheres e de repente comecei a ver coisas prodigiosas..."

"Te sentias no jardim?"

"Não, eles deviam sonhar com o jardim porque, ao chegarem, Aloadin falava com eles do jardim. Creio que o mel verde faz ver o que cada um quer ver no fundo de seu coração. Eu estava no deserto, ou melhor, num oásis, e vi chegar uma esplêndida caravana de camelos, todos enfeitados com penachos e um bando de mouros com turbantes coloridos, que tocavam tambores e címbalos. E atrás deles, num baldaquim levado por quatro gigantes, era Ela quem chegava, a princesa. Já não sei dizer como era, era... como posso dizer... fulgurante, lembro apenas de um raio, de um maravilhoso esplendor..."

"Mas como era o seu rosto, era belo?"

"Não cheguei a ver o seu rosto, estava com um véu."

"Mas, então, por quem te apaixonaste?"

"Por ela, porque não a vi. Uma doçura infinita tomou conta de meu coração, um langor que nunca mais se apagou. A caravana afastou-se rumo às dunas, entendi que aquela visão não voltaria mais, e disse para mim que deveria ter seguido aquela criatura, todavia comecei a rir ao amanhecer, pensando que fosse de felicidade, mas era o efeito produzido pelo mel verde quando seu poder se acaba. Quando acordei o sol já estava alto, e por pouco o eunuco não me surpreendeu adormecido naquele lugar. Desde então, decidi que deveria fugir para encontrar a princesa distante."

"Mas compreendeste que era apenas o efeito do mel verde..."

"Sim, a visão era uma ilusão, mas o que eu sentia agora dentro de mim não era uma ilusão, mas um desejo verdadeiro. Quando sentes um desejo, ele deixa de ser uma ilusão, passa a existir."

"Mas era o desejo de uma ilusão."

"Mas eu não queria mais perder aquele desejo. Era o suficiente para dedicar-lhe a vida".

Em poucas palavras, Abdul conseguiu encontrar uma forma de fugir do castelo, e conseguiu reunir-se com a família, que o considerava perdido. Seu pai, preocupado com a vingança de Aloadin, decidiu afastá-lo da Terra Santa e mandá-lo a Paris. Abdul, antes de fugir de Aloadin, levou um dos vasos do mel verde, mas explicou a Baudolino que não o havia mais tomado, pelo temor de que a maldita substância o levasse para aquele mesmo oásis, a reviver infinitamente o seu êxtase. Não tinha ideia se poderia resistir à emoção. Ademais a princesa já estava com ele, e ninguém poderia tirá-la de si. Melhor desejá-la como meta do que tê-la numa falsa lembrança.

Depois, com o passar do tempo, e par encontrar força para as suas canções, nas quais estava a sua princesa, presente na distância, decidiu correr o risco de tomar um pouco do mel, muito pouco, na ponta da colher, o suficiente para dar gosto à língua. Tinha êxtases de pequena duração, e assim fizera naquela noite.



(Baudolino, tradução de Marco Lucchesi)



(Ilustração: Angelo Bronzino - Allegorie des Glüks, alegoria da felicidade)



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