sexta-feira, 1 de março de 2013

O ATOR, de Chico de Assis








(Dedicado a Lima Duarte)



— Então você tem curiosidade em saber como é o ator por dentro? Eu digo. O dentro está por fora o fora está por dentro. Entenderam? Trato simples para um ator. Jogar a vida de fora pra dentro e depois devolver a mesma vida botando de dentro pra fora. Entre uma coisa e outra, isso que alguns chamam de arte. Eu prefiro artimanha.

Mas quando o ator começa achar o seu personagem o mundo fica bem diverso. Vamos por passos: primeiro é preciso deixar-de-ser.

— Isso mesmo: deixar de ser, desaparecer, espiantar diante de si e dos outros. Tomar-se invisível. Trocando em miúdos: SER NADA. Porque, no nada, tudo cabe. Se você já está lotado de tantas emoções e idéias, dentro não cabe mais coisa alguma. É preciso abrir espaço, no nosso eu, para o-que-virá. Porque aquele personagem que virá não será nem maior nem menor do que você. Terá seu exato tamanho. Fácil não é? Alguém pode pensar que um ator veste um personagem como veste um terno.

— Não, não é assim. Isso não é a arte de representar.

Temos que ir aos poucos, com cautela, vendo através da mente ainda nublada, os primeiros tratos de sentimentos e gestos do personagem. Daí, começa a surgir uma linha mais forte e marcada, como uma espécie de foco que vamos buscando cada vez com maior nitidez. São formas que dançam a nossa frente, desordenadas, uma orgia de jeitos e facetas disparatadas. Um, que não nós, ficaria doido com o embrulho. Mas com este leite fomos criados, nós que somos atores.

É deste caos que vai nascer o personagem. Primeiro, bruto e mal acabado como um calunguinha de barro, daqueles de mestre Vitalino. Bruto, mal acabado, mas já muito belo. Depois, as formas mais delicadas vão se desenhando, suave e constantemente, durante o processo. Tudo montadinho, como um jogo vivo. Como pescar no rio da própria alma e encher o picuá de detalhes de vida; relances de emoções; tratos de angústia, visões de sonhos. Rostos que vimos uma vez … Meia vez… Vez alguma. Apenas produto da invenção de um ser. E assim vamos vestindo de vida esse prodígio. Este ser noviço, que nos tira a calma.

Dorme conosco, acorda conosco, come e bebe conosco e até ama e odeia juntinho com a gente: a pele ali, relando a pele. É um trambolho desajustado que acaba por se acomodar com a gente. Atrevido, nos mostra o próprio rosto para que não tenhamos dúvidas que ele é ele; e não nós.

— Ah, que caminho de aventura, seres tu mesmo e outra criatura. Ah, que loucura chorar e rir, por si mesmo e pelo estranho que lentamente tiraste da vida e do sonho, para a realidade da arte. Juro! Só o ator. Isso só o ator pode sentir.

E chega o momento em que tudo fica como que pronto. O personagem domina, vem à tona como um monstro abissal. Reinventando a realidade. E és tu quem o soltas e seguras, como um cavaleiro num rodeio mortal. Aí, já não vives para ti mesmo e sim para ele.

Acordas cedo e dormes tarde: para ele. Recebes aplausos, flores e cumprimentos; mas são para ele. Você, ator‚ é apenas o humano intermediário. Quando te encontram na rua, chamam pelo nome dele e és obrigado a responder. E, se és ator, eu te juro que é questão de tédio.

Às vezes, a gente pergunta:

— Mas por que não separam o criador da criatura?

O chato‚ que… às vezes até nós mesmos nos confundimos. Às vezes, eu não sei se sou EU mesmo, ou os personagens que crio. Eu fico tão ligado a ele que palavras minhas passam como dele e as dele como minhas. E chega um tempo que não sei mais onde termina a mão dele e começa meu próprio braço. E perco a noção. De qual coração são as batidas que sinto no peito? Do meu… do dele… não sei.

Aí, chega o tempo de quebrar o espelho. O personagem chega ao fim do seu tempo de vida. Começa a morrer e não podes morrer com ele. Tens que desfazer o já feito. Desinventar o ser e dividir o coração no peito. No começo‚ é como aprender a andar e falar de novo; como se tivessem te cortado pela metade. Não sabes mais viver uma vida só. Sua íntima essência de ator requer a duplicidade.

— Que monotonia, ser eu mesmo, noite e dia.

— Então eu fico confuso. Conto histórias, invento mentiras, minto realidades, misturo tudo e jogo no sonho e jogo o sonho na vida e a vida. Discuto futebol, vou às corridas de cavalo, converso com meus cães, bebo com os amigos. Mas fujo dos espelhos. Pelas noites fico rodeado de antigos fantasmas de personagens mortos que me assombram com lembranças. Tantas vidas que viveram, tantas mais que viver. Então finjo que estou feliz. Engano que estou triste. Mas, na verdade, estou só incompleto. É isso: meia vida e meia morte.

— Mas, quando se é ator, a vida segue de outro jeito. Cai na tua mão outro papel. Passas os olhos e alguma coisa te fisga como um anzol. Tentas fugir arrastando a linha, mas é tarde. Estás novamente pescado.

— Então eu te digo que o primeiro passo é deixar-de-ser. Depois, deixar bater baixinho dentro de teu peito o coração daquele personagem que lentamente se forma e te deforma.

— Vocês querem saber o que é preciso para ser ator?

Eu digo: são olhos que chorem lágrimas duplas. Às vezes um olho que ri enquanto o outro chora. Olhos que olhem a um tempo para fora e para dentro. É preciso a boca treinada para separar o sabor da tua lágrima do gosto da lágrima criada. Mas, principalmente‚ é preciso manter a alma ensolarada e ampla, para ser um DEUS dentro de si. Para poder jorrar para fora com luz, angústia e talento, com toda a voz, o comando:

FAÇA-SE O HOMEM!


(Ilustração: Picasso - the actor)






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