segunda-feira, 1 de agosto de 2011

VISÃO DE UMA MORTE, de William Golding







Sobre a ilha continuava a acumulação de nuvens. Uma constante corrente de ar quente subiu o dia inteiro da montanha, chegando a uns três mil metros; massas giratórias de gás fizeram crescer a estática até que o ar estava pronto para explodir. No fim da tarde, o sol sumiu e um brilho metálico tomou o lugar da clara luz do dia. Até o ar que vinha do mar era quente e não trazia qualquer frescor. As cores sumiram da água, das árvores e das rosadas superfícies de pedra, nuvens brancas e castanhas pairavam sobre a ilha.

Nada se desenvolvia ali, a não ser as moscas que escureciam seu senhor e faziam as entranhas espalhadas parecer um brilhante montão de carvão. Até mesmo quando se rompeu uma veia no nariz de Simon e o sangue jorrou, elas o deixaram sozinho, preferindo o cheiro forte da porca.

Com o correr do sangue, o ataque de Simon transformou-se no cansaço do sono. Dormiu no tapete de lianas enquanto a noite chegava e o canhão continuava a troar. Por fim, acordou e viu indistintamente a terra escura perto da sua face. Ainda assim, não se mexeu, ficou lá, com o rosto de lado na terra, os olhos pesadamente fixos na frente. Virou-se, encolheu as pernas e se apoiou nas plantinhas para se levantar. Quando elas se mexeram, as moscas se irradiaram a a partir das entranhas, com um som maligno, mas logo voltaram a pousar. Simon se levantou. A luz era sobrenatural. O Senhor das Moscas estava pendurado na sua vara como uma bola negra.

Simon falou alto para a clareira.

- Que mais se pode fazer?

Não houve resposta. Simon afastou-se da clareira e se enfiou pelas trepadeiras até chegar à escuridão da floresta. Andou sombriamente por entre os trocos, um rosto inexpressivo, com sangue seco em volta da boca e do queixo. Só às vezes, quando afastava para o lado os cipós pendentes e escolhia seu rumo segundo a inclinação do solo, é que dizia coisas que não chegavam ao ar.

Os cipós já não engalanavam tanto as árvores e surgiu uma luz branca do céu por entre as copas. Era a espinha dorsal da ilha, o terreno levemente mais alto que ficava sob a montanha, lá onde a floresta não era mais uma mata cerrada. Aqui havia amplos espaços entremeados com moitas e árvores enormes. O chão subia à medida que a floresta se abria. Continuou sem frente, cambaleando às vezes de cansaço, mas nunca parando. O brilho habitual sumira de seus olhos e ele andava com uma espécie de determinação displicente, como um velho.

Uma rajada de vento fez com que titubeasse, percebendo que estava ao ar livre, sobre pedra e sob um céu metálico. Viu que suas pernas estavam fracas e que sua língua doía o tempo todo. Quando o vento chegou ao cume da montanha, algo aconteceu: um rápido irromper de azul contra nuvens escuras. Adiantou-se, enquanto o vento soprava novamente, mais forte, inclinando as copas da floresta, e elas se dobraram e rugiram. Simon viu uma coisa encurvada sentar de repente no cimo e olhar para baixo, para ele. Escondeu o rosto e continuou subindo.

As moscas também haviam achado a figura. O movimento de coisa viva assustou-as por um momento e elas fizeram uma nuvem escura ao redor da cabeça. Depois, ao cair o tecido azul do paraquedas, a figura corpulenta inclinou-se para a frente, suspirando, e as moscas pousaram novamente.

Simon sentiu os joelhos baterem numa pedra. Foi em frente e logo compreendeu. A confusão das cordas mostrou-lhe qual era a mecânica dessa paródia; examinou os brancos ossos do nariz, dos dentes, as cores da decomposição. Viu como a borracha e a lona sustentavam impiedosamente o pobre cadáver que deveria estar apodrecendo em outra parte. Então o vento soprou de novo e a figura se levantou, inclinou-se e lançou em sua direção um cheiro fétido. Simon Ficou de quatro e vomitou até sentir o estômago vazio. Pegou as cordas e as soltou das pedras, libertando a figura da indignidade do vento.

Enfim, virou-se e olhou para a praia lá embaixo. A fogueira na plataforma parecia ter-se apagado, ou pelo menos não estar mais soltando fumaça. Mais além, na praia, um fiozinho de fumaça subia para o seu. Sem ligar para as moscas, Simon protegeu os olhos com as mãos e fixou a fumaça. Mesmo àquela distância, era possível ver que a maioria dos meninos – talvez todos – estavam ali. Então haviam mudado de acampamento, para longe do bicho. Quando Simon pensou nisso, virou-se para a pobre coisa arruinada que fedia, sentada ao seu lado. O bicho era inofensivo e horrível; os outros deveriam saber disso o mais depressa possível.

Começou a descer a montanha e suas pernas se dobraram. Mesmo com muito esforço, só conseguia cambalear.




(O Senhor das Moscas, tradução de Geraldo Galvão Ferraz)



(Ilustração: Dornai – immage of life and death)




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