sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

COLINAS COMO ELEFANTES BRANCOS, de Ernest Hemingway

 


As colinas do outro lado do vale eram longas e brancas. Deste lado, não havia sombra nem árvores e a estação ficava entre duas linhas de trilhos sob o sol. Rente ao lado da estação havia a sombra quente da casa e uma cortina, feita de fieiras de contas de bambu, pendurada na porta vazada para o bar, a fim de deter as moscas. O americano e a moça com ele estavam sentados a uma mesa na sombra, fora da casa. Estava muito quente e o expresso de Barcelona chegaria em quarenta minutos. Ele parava neste entroncamento por dois minutos e seguia para Madri.

“O que vamos beber?”, a moça perguntou. Ela tirara o chapéu e o pusera sobre a mesa.

“Está bem quente?”, o homem disse.

“Vamos beber cerveja.”

“Dos cervezas”, o homem disse para a cortina.

“Grandes?”, uma mulher perguntou do vão da porta.

“Sim. Duas grandes.”

A mulher trouxe dois copos de cerveja e dois apoios de feltro. Pôs os apoios de feltro e os copos de cerveja sobre a mesa e olhou para o homem e a moça. A moça olhava para a linha de colinas. Eram brancas sob o sol e a região era parda e seca.

“Parecem elefantes brancos”, ela disse.

“Nunca vi um”, o homem bebeu sua cerveja.

“Não, não teria como.”

“Eu poderia ter visto”, o homem disse. “Você dizer que eu não teria como não prova nada.”

A moça olhou para a cortina de contas. “Pintaram alguma coisa em cima”, ela disse. “O que quer dizer?”

“Anís del Toro. É uma bebida.” “Podemos provar?”

“Escute”, o homem chamou pela cortina. A mulher veio do bar.

“Quatro reales.”

“Queremos Anís del Toro.”

“Com água?”

“Você quer com água?”

“Não sei”, a moça disse. “Fica bom com água?”

“Fica, sim.”

“Vocês querem com água?”, perguntou a mulher.

“Sim, com água.”

“Tem gosto de alcaçuz”, a moça disse e baixou o copo.

“É sempre assim.”

“É”, disse a moça. “Tudo tem gosto de alcaçuz. Especialmente aquelas coisas que você esperou por muito tempo, que nem absinto.”

“Ah, pare com isso.”

“Foi você que começou”, a moça disse. “Eu estava adorando. Foi um bom momento.”

“Bem, vamos tentar ter um bom momento.”

“Tudo bem. Eu estava tentando. Disse que as colinas parecem elefantes brancos. Não é brilhante?”

“É brilhante.”

“Eu queria provar essa bebida nova: nós não fazemos outra coisa, não é? Olhar para as coisas e provar bebidas novas.”

“Acho que sim.”

A moça olhou para as colinas do outro lado.

“As colinas são lindas”, ela disse. “Na verdade, não parecem elefantes brancos. Quero dizer, só a pele vista entre as árvores.”

“Bebemos mais uma?”

“Está bem.”

O vento quente fez a cortina de contas roçar a mesa.

“A cerveja está boa e gelada”, o homem disse.

“Está ótima”, a moça disse.

“É uma operação muito simples mesmo, Jig”, o homem disse. “Nem é uma operação de verdade.”

A moça olhou para o piso em que se apoiavam os pés da mesa.

“Eu sabia que você iria concordar, Jig. Não é nada mesmo. É só deixar o ar entrar.”

A moça não disse nada.

“Vou junto e vou ficar com você o tempo todo. Eles só deixam o ar entrar e então é tudo completamente natural.”

“E o que nós fazemos depois?”

“Vamos ficar bem depois. Como antes.”

“Como é que você sabe?”

“Essa é a única coisa que atrapalha. É a única coisa que nos deixa infelizes.’

A moça olhou para a cortina de contas, estendeu a mão e segurou duas fieiras.

“E você acha que depois nós vamos ficar bem e vamos ser felizes.”

“Tenho certeza. Não precisa ter medo. Conheço muita gente que já fez.”

“Eu também”, disse a moça. “E depois foram todos muito felizes.”

“Bem”, disse o homem, “se não quiser, você não precisa fazer. Eu não forçaria você se você não quisesse fazer. Mas sei que é muito simples.”

“E você quer mesmo?”

“Acho que é a melhor coisa a fazer. Mas não quero que você faça se você não quiser mesmo.”

“Mas se eu fizer você vai ficar feliz e as coisas vão ser como eram e você vai me amar?”

“Eu amo você agora mesmo. Você sabe que eu amo.”

“Eu sei. Mas se eu fizer vai voltar a ser bom quando eu digo que as coisas parecem elefantes brancos, você vai gostar?”

“Vou adorar. Eu adoro agora mesmo, só não consigo pensar nisso. Você sabe como eu sou quando fico preocupado.”

“Se eu fizer você não vai ficar preocupado?”

“Não vou ficar preocupado porque é tudo muito simples.”

“Então eu faço. Porque eu não me importo comigo.”

“Como assim?”

“Eu não me importo comigo.”

“Bem, eu me importo com você.”

“Ah, sei. Mas eu não me importo comigo. E vou fazer e tudo vai ficar bem.”

“Não quero que você faça se é isso que você sente.”

A moça se levantou e andou até o fim da estação. Em frente, do outro lado, havia campos de trigo e árvores ao longo das margens do Ebro. Ao longe, para lá do rio, estavam as montanhas. A sombra de uma nuvem atravessou o campo de trigo e ela viu o rio entre as árvores. “E nós poderíamos ter tudo isso”, ela disse. “E nós poderíamos ter tudo e todo dia fazer coisas ainda mais impossíveis.”

“O que você disse?”

“Disse que nós poderíamos ter tudo.”

“Nós podemos ter tudo.”

“Não, não podemos.”

“Podemos ter o mundo todo.”

“Não, não podemos.”

“Podemos ir para qualquer lugar.”

“Não, não podemos. Já não é nosso.”

“É nosso.”

“Não, não é. E depois que tiram, você nunca mais pega de volta.” “Mas ninguém tirou nada.”

“Vamos ver.”

“Volte aqui para a sombra”, ele disse. “Não se sinta assim.”

“Não estou sentindo nada”, a moça disse. “É só que eu sei.”

“Não quero que você faça nada que você não queira fazer...”

“Não é que não seja bom para mim”, ela disse. “Eu sei. Vamos beber outra cerveja?”

“Está bem. Mas você tem que entender...”

“Eu entendo”, a moça disse. “Será que não podemos parar de falar?”

Sentaram-se à mesa e a moça olhou para as colinas do lado seco do vale e o homem olhou para ela e para a mesa.

“Você tem que entender”, ele disse, “que eu não quero que você faça se você não quiser fazer. Estou perfeitamente disposto a seguir adiante se isso fizer diferença para você.”

“Não faz diferença para você? Podíamos seguir adiante.”

“É claro que faz. Mas eu não quero ninguém além de você. Não quero mais ninguém. E sei que é tudo muito simples.”

“É, você sabe que tudo é muito simples.”

“Você pode muito bem falar assim, mas eu sei como é.”

“Você faria uma coisa por mim?”

“Faria qualquer coisa por você.”

“Você pode parar de falar, por favor, por favor, por favor?”

Ele não disse nada mas olhou para as malas encostadas na mureta da estação. Tinham etiquetas de todos os hotéis em que haviam dormido.

“Mas eu não quero que você faça”, ele disse, “eu não me importo com nada.”

“Eu vou gritar”, a moça disse.

A mulher atravessou a cortina com dois copos de cerveja e os depositou sobre os apoios de feltro úmidos. “O trem chega em cinco minutos”, ela disse.

“O que ela disse?”, perguntou a moça.

“Que o trem chega em cinco minutos.”

A moça deu um sorriso radiante para a mulher, para agradecer.

“Acho melhor levar as malas para o outro lado da estação”, o homem disse. Ela sorriu para ele.

“Está bem. Depois volte e terminamos a cerveja.”

Ele pegou as duas malas pesadas e carregou-as pela estação até os trilhos do outro lado. Espreitou mas não conseguiu ver o trem. Voltando, entrou no salão do bar, onde as pessoas que esperavam o trem estavam bebendo. Bebeu um anis no balcão e olhou para as pessoas. Todas esperavam ordeiramente pelo trem. Atravessou a cortina de contas. Ela estava sentada à mesa e sorriu para ele.

“Está se sentindo melhor?”, ele perguntou.

“Estou bem”, ela disse. “Não tem nada de errado comigo. Estou bem.”





(Tradução de Samuel Titan Jr.)



(Ilustração: foto de Juan Pablo Serrano)

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

PROBLEMAS METAFÍSICOS, de Érica Zíngano

 






para Heitor Ferraz



1.

A Galinha anda mais em alta

do que o Ovo

na disputa pela liderança

do ranking

de quem veio antes

do quê

“O Ovo voltou a ficar atrás

da Galinha”, divulgou

há alguns dias

uma pesquisa inglesa

da Universidade de Sheffield

Como a casca do Ovo

é composta por uma proteína

(ovocledidin-17ou OC-17)

encontrada nos ovários

das Galinhas

ficou comprovado

AS GALINHAS VIERAM PRIMEIRO

Um super computador

apelidado pelos seus de HECToR

foi utilizado para acompanhar

as etapas de formação

da casca do Ovo:

os pesquisadores puderam, então,

constatar a presença da OC-17

logo no início do processo

Essa proteína é responsável

pela transformação

do carbonato de cálcio

em cristais de calcita

- elementos que compõem

a casa do Ovo -

O Dr. Colin Freeman

do Departamento de Engenharia

de Materiais, declarou

“há muito tempo se suspeitava de que

o Ovo tivesse vindo primeiro

mas agora

temos a prova científica de que

na verdade

a Galinha foi a precursora”

2.

Em contrapartida

o Ovo é relançado

no mercado

em nova versão

anuncia a propaganda

em meia página

de jornal

OVO LIGHT®

do branco

ao caipira

do pé duro

ao de granja

agora o Ovo

também é light

A tecnologia

a favor

da saúde

do consumidor:

Ovo transgênico

Ovo transfigurado

Ovo industrializado

genético

& genuinamente

transformado

para você

não mais se preocupar

com os altos índices

de colesterol

Coma sem culpa

nada mais de problemas

cardiológicos

as calorias foram reduzidas

a mais da metade

porque agora o Ovo é outro

O sabor não muda nada

c-o-n-t-i-n-u-a-i-g-u-a-l

(GENIAL)

Experimente você também

e sinta sua vida se tornar

mais leve, mais diet

muito mais

OVO LIGHT®



(Ilustração : Odilon Redon - The Egg)


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O BILHETE DO VIZINHO DO FBI, Miranda July

   


Desculpe incomodar você, mas tive a impressão de que alguém estava usando uma teleobjetiva para tirar fotos da sua casa pela janela. Se era alguém de seu conhecimento, perdão pelo mal-entendido, se não, tenho anotados marca/modelo/placa do veículo. Brian (o vizinho) e seu número de telefone

Não que fosse necessário usar uma teleobjetiva, já que nossas janelas da frente são enormes e sem cortinas. Às vezes, antes de entrar em casa, paro para olhar Harris e Sam inocentemente entretidos. Harris dando alguma explicação silenciosa para Sam ou segurando Sam bem no alto. Sinto muita ternura por eles. Tente memorizar esse sentimento, digo a mim mesma. De perto eles são exatamente as mesmas pessoas que você vê daqui.

De cara, descobrimos que tipo de vizinho Brian era. O vizinho do FBI. Se há algo que aprendemos com Brian é que ser do FBI não é tão secreto quanto ser da CIA. Ele usa seu colete (à prova de balas?) com a insígnia do FBI muito mais do que o necessário. É como se alguém do Dodgers regasse a grama de uniforme. Toda a vizinhança diria algo tipo, Já entendemos, cara, você joga no Dodgers.

Então a primeira coisa que Harris fez depois que li o bilhete em voz alta foi zombar que é claro que o vizinho do FBI havia “flagrado” alguém com uma “teleobjetiva”. Em seguida, não fez mais nada. Estava ocupado e achou que não devia se aprofundar.

— Mas é meio assustador, não acha?

— As pessoas tiram fotos de tudo hoje em dia — disse ele, saindo da sala.

— Você não acha que devo ligar pra ele?

Mas Harris não ouviu.

— Ligar pra quem? – perguntou Sam.

Fiquei ali segurando o bilhete com aquele sentimentozinho de abandono que a gente tem milhares de vezes por dia no convívio doméstico. Podia ter chorado, mas por qual motivo? Não que eu tivesse que fofocar com meu marido sobre qualquer coisinha; para isso servem os amigos. Harris e eu somos mais formais, como dois diplomatas que não podem afirmar se um envenenou a bebida do outro. Sempre sedentos mas desejando que o outro dê o primeiro gole.

Você primeiro.

Não, você primeiro!

De forma alguma, só depois de você.

Esse pisar em ovos pode soar estressante, mas eu tinha certeza de que nós dois riríamos por último. Quando todo mundo estivesse de saco cheio de nós, já estaríamos em outra, tendo uma lua de mel. Talvez aos sessenta anos.

Minha amiga Cassie diz Te amo! toda vez que termina uma ligação com o marido. Sempre que ouço morro de vergonha por ela.

Mas eu o amo, diz ela.

Você só estava dizendo o quão desolada e presa se sente.

Então ela dá uma risadinha que indica que não tem controle de nada. Eu não espero que ela seja honesta com o marido mas que no mínimo abra o jogo comigo! Os relacionamentos dos outros nunca fazem sentido. Uma vez consegui que Jordi, minha melhor amiga, gravasse uma conversa casual entre ela e sua esposa. Jordi é uma escultora brilhante que sabe teorizar de maneira convincente sobre qualquer assunto, mas nessa conversa mal conseguiu dizer uma só palavra enquanto sua esposa vociferava sobre a estupidez de um programa popular da TV. Vez ou outra Jordi murmurava uma pergunta; mas na maior parte do tempo ria das coisas que Mel dizia. Achei que podia estar envergonhada, mas não.

— Eu adoro que Mel é muito segura de si. Adoro pessoas teimosas. Você é assim.

Me senti tão lisonjeada que logo me habituei à dinâmica delas.

— Esse programa é tosco mesmo — respondi. — Mel tem razão.

Meus amigos estão sempre me presenteando com bobagens assim — capturas de tela de conversas sobre sacanagens, e-mails paras as mães — porque sempre quero saber como é ser outra pessoa. O que será que estávamos fazendo? Que diabos acontecia o tempo todo neste planeta? É claro que nenhum desses artefatos tinha qualquer significado; era como tentar segurar a fumaça pelo punho. Que punho?

Coloquei o bilhete do vizinho em cima da minha mesa. Também estava ocupada, mas sempre tenho tempo para me preocupar. A bem da verdade, é provável que já estivesse preocupada com alguém usando uma teleobjetiva para fotografar através das nossas janelas quando o bilhete chegou. Preocupar não é o verbo certo — esperar, talvez. Eu já esperava esse acontecimento e ele estava acontecendo desde o meu nascimento, ou algo por aí. Se não fosse esse homem do outro lado da janela, seria Deus, ou meus pais, ou meus verdadeiros pais, que na verdade são só os meus pais, ou meu verdadeiro eu, que há tempos esperava o momento certo para assumir o controle de tudo e me tirar da jogada. Tudo que peço é que seja alguém que realmente queira cuidar de mim. Demorei dois dias para ligar para meu vizinho Brian porque estava ocupada saboreando minha situação, aquele momento em que alguém de quem estou a fim finalmente responde à mensagem e você quer dominar a jogada por mais tempo.

Os relacionamentos dos outros nunca fazem sentido

— É engraçado ligar pra alguém que mora do lado — comentei. — Bastava eu abrir a janela.

— Não estou em casa agora.

— Beleza.

Ele disse que o homem havia estacionado perto da esquina e que não tinha fotografado outras casas.

— Talvez estivesse só admirando sua casa – sugeriu Brian.

Não gostei. Quer dizer, é uma casa bonita, mas peralá. Não passei esses dois dias ensaiando essa ligação à toa, só porque minha casa é bonita.

— Sou uma figura quase pública — respondi, exagerando um pouquinho na falsa modéstia. Falsa modéstia é uma coisa bem difícil de dosar, é como saber medir bem a quantidade de chantilly que a gente quer usar da lata. Ele disse que estava preocupado justamente por isso, por causa da minha notoriedade. Respondi humilde, “Ah, obrigada, que bom que você está de olho”.

— Meu trabalho é esse – respondeu Brian.

— Certo – respondi, caindo na real.

Eu não sou um nome conhecido. Não vou me aprofundar nos detalhes chatos das coisas que faço, mas imagine uma mulher que teve sucesso por muitos meios desde a juventude e seguiu assim com muita constância, sempre orbitando suas preocupações centrais numa espécie de estado de fuga extático, certa de que não havia outro caminho a seguir — sua vida toda seria essa única conversa com Deus. Deus talvez seja a palavra errada. O Universo. O Subjacente. Eu trabalho numa garagem adaptada. Uma das pernas da minha mesa é menor que as outras e todos os dias dos últimos quinze anos eu ensaiei colocar um calço, mas meu trabalho é cheio de urgências diárias — estou sempre num momento decisivo; tudo está sempre prestes a acontecer. Às cinco da tarde, antes de entrar em casa, tenho que começar a desacelerar a mente, como o astronauta Buzz Aldrin se preparando para esvaziar a máquina de lavar louça logo depois de voltar da Lua. Não fale sobre a Lua, digo para meus botões. Pergunte a todos como foi seu dia.

Brian, o vizinho, perguntou se eu conhecia alguém que queria comprar uma picape.

— É um F-150 modelo 2013. Estou de mudança e preciso me livrar de muitas coisas.

— Ah! Onde vai morar?

— Não posso divulgar meu novo endereço — disse Brian, e me desculpei pela pergunta.

Falsa modéstia é uma coisa bem difícil de dosar, é como saber medir bem a quantidade de chantilly que a gente quer usar da lata

— Imagino que muitos detalhes da sua vida sejam ultrassecretos.

— Pois é – respondeu, numa voz suave. — Mas adorei esse bairro. Todas as árvores e o jeito que os coiotes uivam à noite.

— Eu também adoro. São muitos coiotes! Dezenas, parece.

— Mais.

— Pois é.

Não falamos mais nada e eu não quis romper o silêncio — parecia que ele, sendo um agente do FBI, saberia a hora certa de fazer isso. Mas continuamos assim até que comecei a sorrir para mim mesma, fazendo uma careta sutil de constrangimento, e mesmo assim o silêncio permaneceu, mas o nervosismo foi embora e comecei a pensar no silêncio como algo que estávamos praticando juntos, como uma jam session, mas aí a sensação passou e fiquei completa e inexplicavelmente triste. Meus olhos se encheram de lágrimas e enfim o silêncio foi rompido porque funguei e ele disse Pois é mais uma vez, resignado. E aí, como se nada tivesse acontecido (e de fato nada tinha acontecido), ele voltou a falar do cara com a teleobjetiva.

— Por segurança, anotei a placa dele. Posso te mandar por mensagem quando chegar em casa.

— Com certeza — respondi. — Perfeito.

Eu sabia que não devia contar essa conversa para o Harris. Ele ia levantar as sobrancelhas e sorrir de cansaço. O quê?, Você fazendo a íntima com um estranho? Como assim?

Sempre tento ser a pessoa mais reservada possível. Em casa, tento fazer a roda da vida doméstica girar para que possamos levar uma vida tranquila e saudável, sem desastres e doenças. Isso exige um planejamento contínuo. Por exemplo, faço sete waffles para Sam todo fim de semana, recheio com ovos tipo extra, para que mantenha uma dieta rica em proteína a semana inteira. Mas planejar isso tudo dá trabalho, não é divertido — então tento equilibrar as coisas com espontaneidade, quiçá inventando uma brincadeira para o café da manhã ou uma cobertura nova para o waffle. Segundo Harris, eu só quero ter o controle de tudo. Quem tem razão? Nós dois temos, mas admiro o estoicismo velho-mundista de Harris. Ele inclusive se veste à moda antiga, como um pedreiro ou comerciante. Sal da terra é algo que se poderia dizer dele, mas ninguém jamais diria que eu sou o sal da terra. Não que eu seja uma pessoa ruim, mas entre nós dois eu com certeza sou pior. Estou o tempo todo mordendo a língua — literalmente pressionando gentilmente a língua entre os dentes — e contando até cinquenta. E aí a vontade de dizer algo desnecessário passa.



(De quatro; tradução de Bruna Beber)



(Ilustração: Edward Hopper - night windows, 1928)

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

CANCIÓN DEL ESPOSO A SU AMADA /CANÇÃO DO ESPOSO PARA A AMADA, de Eunice Odio

 


1.     

Asomada a mi pecho

Tatuada en él como la edad

y el daño.

Como una suave grey de colinas

cuyo rumbo retorna con el alba,

Habla mi amada

con su amor que tiene

apenas pecho diurno y voz descalza.

A mi sombra

se bordearon de pulpa sus caderas.

Por mí arrea con sus pechos

el ganado del alba,

Y la tarde a su paso se quebranta,

como de junco herido

y laurel entornado.

Párpados transitados

de nieve y mediodía,

Pozo donde mi boca

desmedida resbala

como torrente de paloma

y sal humedecida.

– Sobre los muslos te pusieron

racimos de ira y vocación de besos.

Yo haré que de tus muslos

bajen manojos de agua,

y entrecortada espuma,

y rebaños secretos.

Ven,

Amada.

Los árboles

todos tienen tu cándida estatura,

y tu párpado caído,

y tu gesto mojado,

Edificio de alondras

habitado de climas

donde legisla el sol

sobre viñedos de oro.

A tu sombra

me encontrarán los pájaros salvajes.

Tu voz de aire caído

entre cuatro azucenas,

desfilará en mi oído

como acude la tarde.

Ven,

te probaré con alegría.

Tú soñarás conmigo

esta noche.

 

Tradução de Luiza Nilo Nunes:

 

Caída no meu peito

Tatuada no meu peito como a idade

e o desastre.

Como uma frágil irmandade de colinas

norteadas pela manhã,

Fala a minha amada

com seu amor que mal

tem peito diurno e voz descalça.

À minha sombra

as suas ancas rodearam-se de pomos.

Para mim ela aparelha com seus seios

o gado da manhã,

E quebra-se o poente à sua passagem,

como de junco ferido

e loureiro derrubado.

Pálpebras transitadas

de neve e meio-dia,

Tanque onde se afoga

a minha boca profunda

como correntes de pombas

e sal humedecido.

– Sobre as coxas puseram-te

cachos de cólera e vocação de beijos.

De tuas coxas farei

descer cardumes de água,

e espuma interrompida,

e secretos rebanhos.

Vem,

Amada.

Todas as árvores

têm tua cândida altura,

e tua pálpebra descida,

e teu gesto molhado,

Prédio de cotovias

habitado por febres

onde ministra o sol

sobre vinhedos de ouro.

À tua sombra

hão de encontrar-me os pássaros selvagens.

Tua voz de melancólico sopro

entre quatro açucenas,

soará em meus ouvidos

como o chamado da tarde.

Vem,

provar-te-ei com alegria.

Tu sonharás comigo

esta noite.

 

(Os elementos terrestres e outros poemas, 2020).

 

(Ilustração: Frida Castelli)



sábado, 20 de dezembro de 2025

PARA AGARRAR OS SONHOS E CAVALGAR O DORSO DOS TIGRES, Marcelo Mirisola





Querer dissimular o ódio dentro de si, sufocá-lo, é algo mais desgastante e, evidentemente, menos prazeroso do que simplesmente usufruir, sorvê-lo até o limite da sabotagem, da autocensura.

Em outras palavras, qualquer ódio é justificável. Imaginem uma hidroelétrica. Agora, imaginem o ódio como a força que movimenta as turbinas dessa Itaipu dentro de seu peito, qual o sentido da represa senão gerar movimento e energia? O problema todo é iluminar cemitérios (corre-se o risco), mas está valendo: pela simples ação de odiar, pelo fato de soltar as rédeas e deixar o ódio correr solto.

Eu odeio, mas não sei odiar. Bem, isso não interessa. Não estou aqui para falar dos meus cemitérios iluminados.

Voltando. O que eu quero dizer é que, uma vez que o ódio seja bem alimentado e bem distribuído, qualquer ódio será autossuficiente. Se embalado com rancor tanto melhor, e mais: qualquer pretexto é válido para odiar e justifica-se por si mesmo, tanto faz se as “razões” que brotam desse ódio são oceânicas ou microscópicas, legítimas ou ilegítimas. Portanto, o ódio não precisa nem de esclarecimentos nem de álibis. Sob esse ponto de vista, o ódio é amoroso e anfitrião. Independentemente da gravidade do ocorrido, o ódio não obedece a hierarquias, nem faz distinções de gravidade. Por exemplo, odiar a velhinha que fechou a porta do elevador na sua cara é a mesma coisa que odiar o político que trocou seu voto por um loft em Miami.

Qual a diferença da esposa que traiu o marido com o entregador de pizzas para o vizinho do 52, que acende incenso todo final de tarde? Em se tratando de ódio, nenhuma. Odeia-se e ponto final.

O ódio é um sentimento gratuito e democrático – e é recíproco e desproporcional. Por si só, não passa de nuvem, fútil e torpe, à guisa dos crimes que cometemos em seu nome. O ódio seria irrelevante se não o remoêssemos, e é aí que mora a besta: no apto. 52. O idiota metido a zen-budista, seria capaz de empalá-lo com as varetinhas de incenso, acredite nisso.

O remoer é o que mata, é o que ocupa o lugar da contemplação, do recreio merecido, daquilo que os místicos mais sádicos chamam de paz. E esse remoer pode ser experimentado, muito mais violentamente, através da busca de sentimentos que tenham como objetivo anular o ódio. A compaixão e o perdão são como gasolina na fogueira – e a culpa é a cereja em cima desse bolo explosivo. Se voce não consegue extrair tesão da culpa (isso é para profissionais), tente ao menos exercitar o amor: é o caminho mais fácil para se chegar ao ódio. Sabe por quê?

Porque o amor exige empenho, disciplina e trabalho. Ou não exige nada. Somente os CDFs e os autistas amam. Para o entregador de pizzas, e para o babaca do 52, e para os masoquistas em geral, o amor é o caminho mais fácil para se chegar ao ódio, porque a preguiça irá fatalmente aproximar esses dois sentimentos, isto é, uma vez estabelecida a preguiça e a negligência, odiamos com mais fé e propriedade, e – por exclusão – o amor se transforma numa caricatura. Daí a confusão entre amor e ódio, daí o apego àquilo que não tem, digamos, aderência. O umbigo, as vaidades, os pet shops e as novelas do SBT nascem desse amor caricato.

No jogo de tentativas e erros, erramos. O ódio sincero, aquele que brota do coração apaixonado, está ao alcance de poucos iluminados – é quase um gesto de amor, sobretudo se se voltar contra si mesmo.

Um parêntese. Quando falo em gesto de amor, não estou falando do amor-caricatura supracitado, mas falo do amor genuíno, do amor desprendido – porque o único amor que conta é o gratuito e o desprendido, o resto é troca de interesses, autismo, sadomasoquismo e disciplina. O resto é 100% da humanidade. Pois bem, fechado o parêntese, vos digo: esse amor, além de ser um sentimento quase angélico e, portanto, desumano, é praticamente irmão gêmeo do ódio sincero, com a diferença de que é muito mais seletivo, excludente e cruel do que o ódio, apesar da sinceridade. O amor não remói.

E mais uma coisa. Experimentar o ódio em toda a sua plenitude (consumi-lo na própria carne) não é uma garantia de libertação, tampouco um passaporte para o sublime, no sentido de que somente quem odeia é capaz de amar – o amor não está nem aí para o sublime, o amor é indiferente à glória e à transcendência humana, o amor é barra-pesadíssima, escarnece do homem e é impiedoso uma vez que não odeia. O amor que experimentamos, o amor caricato, só não acaba porque somos infantis e temos a capacidade de chafurdar e nos regozijar no ridículo que ele nos oferece. Daí vêm o ciúme, as chantagens, as oficinas de tapioca, as entrelinhas, os filhos. E, assim, o ódio permanece escravo do amor. O reinventa.

Foi a carga amorosa que derrubou Lúcifer. Foi o amor demais que incendiou suas asas e o precipitou entre nós. Alguém duvida disso?

Em outras palavras: o ódio é apenas um placebo dado por Deus ao diabo para distrai-lo de sua incapacidade de amar. Nós somos esse placebo, a imagem e a semelhança – feitos de barro misturado com estrume (para dar uma liga), ilusão e asas incendiadas. De modo que seria uma bobagem encarar o ódio – somente porque é eminentemente humano e diabólico – como uma espécie de fase que antecede o amor. O ódio, como eu disse acima, é escravo, é algo mais comezinho, mais fácil, mais tátil, menos hipócrita e, incomparavelmente, menos intenso que o amor, em que pesem o rancor, o ressentimento e a vingança fulgurantes e as obras que se intentam – Francis Bacon que o diga – a partir desses sentimentos, apesar disso, odiar é algo que reconcilia o homem com o pobre-coitado que ele é, odiar é cumprir a sentença que foi imposta como o pior dos castigos aos homens, qual seja: conhece-te a ti mesmo.

Bem, o leitor perguntaria: onde você quer chegar? No sacolão da esquina. Isto é: trato de mesquinharias e de milagres, estou falando da pequenez do ser humano, de vestir a carcaça sobre a alma doente, de viver sem amor e administrar os holocaustos de cada dia, falo dos cadarços do Bukowski. Trato do alvorecer da indiferença, de usufruir do ínfimo, e, mais ou menos como dizia Nietzsche, falo de “agarrar sonhos e cavalgar o dorso dos tigres”. Tô falando de seguir em frente apesar dos pesares, de ir ao sacolão e escolher os melhores tomates e, de repente, – por que não? –arriscar uma gentileza com um travo de amargura, estou falando de esgares e de uma receita para criar monstros: de amar o semelhante com todas as suas forças porque ele é capaz de odiá-lo com a mesma intensidade.



(Cult;11 de novembro de 2013)



(Ilustração: escultura de Matt Verginer)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

FIVE O'CLOCK TEAR, de Emanuel Félix

 




Coisa tão triste aqui esta mulher

com seus dedos pousados no deserto dos joelhos

com seus olhos voando devagar sobre a mesa

para pousar no talher

Coisa mais triste o seu vaivém macio

p'ra não amachucar uma invisível flora

que cresce na penumbra

dos velhos corredores desta casa onde mora



Que triste o seu entrar de novo nesta sala

que triste a sua chávena

e o gesto de pegá-la



E que triste e que triste a cadeira amarela

de onde se ergue um sossego um sossego infinito

que é apenas de vê-la

e por isso esquisito



E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos

seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado

o álbum a mesinha as manchas dos retratos



E que infinitamente triste triste

o selo do silêncio

do silêncio colado ao papel das paredes

da sala digo cela

em que comigo a vedes



Mas que infinitamente ainda mais triste triste

a chávena pousada

e o olhar confortando uma flor já esquecida

do sol

do ar

lá de fora

(da vida)

numa jarra parada



(A Palavra O Açoite; 1977)



(Ilustração: Pieter Janssens Elinga; 1623-1682)

domingo, 14 de dezembro de 2025

LER, de Cesare Pavese

 


É verdade que não devemos nos cansar de conclamar os escritores à clareza, à simplicidade, à solicitude para com as massas que não escrevem, mas às vezes se instaura a dúvida de que nem todos saibam ler. Ler é tão fácil, dizem aqueles cujo hábito de ler acabou com qualquer respeito pela palavra escrita. Mas quem, pelo contrário, trata de homens ou de coisas mais do que de livros, e sai pela manhã e volta à noite, endurecido, quando por acaso ele se recolhe a uma página, dá-se conta de ter sob os olhos algo difícil e bizarro, esmorecido e ao mesmo tempo forte, que o agride e o encoraja. Seria inútil dizer que este último está mais perto da verdadeira leitura do que o outro.

Acontece com os livros assim como com as pessoas. São levados a sério. Mas justamente por isso devemos nos precaver de torná-los ídolos, isto é, instrumentos de nossa preguiça. O homem que não vive entre livros, e que deve fazer um esforço para abri-los, tem um capital de humildade, de força inconsciente – a única que vale – que lhe permite se aproximar das palavras com o respeito e a ansiedade com que se aproxima de uma pessoa querida. E isso vale muito mais do que a “cultura”; isso é, na verdade, a verdadeira cultura. Necessidade de compreender os outros, caridade para com os outros, que é afinal o único modo de compreender e amar a nós mesmos: a cultura começa aqui. Os livros não são os homens, são meios para alcançá-los; quem os ama e não ama os homens é um presunçoso ou um condenado.

Existe um obstáculo ao ler – e é sempre o mesmo, em todos os campos da vida –, a excessiva segurança de si, a falta de humildade, a recusa a acolher o outro, o diferente. Sempre nos fere a inaudita descoberta de que alguém viu não mais longe do que nós, mas diferentemente de nós. Somos feitos de hábitos mesquinhos. Amamos nos maravilhar, como crianças, mas não tanto assim. Quando o estupor nos impele a sair de nós mesmos, a perder o equilíbrio para reencontrar talvez um outro mais destemido, então enrugamos a boca, batemos o pé, voltamos realmente a ser criança. Mas das crianças nos falta a virgindade, que é a inocência. Nós temos ideias, temos gostos, já lemos livros: possuímos alguma coisa e, como todo possuidor, estremecemos por esta alguma coisa.

Todos nós, infelizmente, já lemos. E como acontece frequentemente de os pequenos burgueses se importarem mais com o falso decoro e os preconceitos de classe do que os ágeis aventureiros do grande mundo, assim o ignorante que leu alguma coisa se prende cegamente ao gosto, à banalidade, ao preconceito que o tomou, e a partir de então, se ocorre de ele ainda ler, ele julga e condena tudo de acordo com tal medida. É muito fácil aceitar a perspectiva mais banal e se apegar a ela, seguros do consenso da maioria. É muito cômodo supor que todo esforço já acabou e que se conhece a beleza, a verdade, a justiça. É cômodo e vil. É como acreditar que se está absolvido do eterno e temente dever de ter caridade com os homens simplesmente porque de vez em quando dá uma moeda ao pedinte. Nada faremos, nem mesmo aqui, sem o respeito e a humildade: a humildade que entreabre frestas em nós através da nossa substância de orgulho e preguiça, o respeito que nos persuade à dignidade dos outros, do diferente, do próximo enquanto tal.

Fala-se sobre livros. E sabe-se que livros, quanto mais ingênua e plana é a sua voz, mais dor e tensão eles custaram a quem os escreveu. É inútil, portanto, ter esperança de tateá-los sem pagar um preço pessoal por isso. Ler não é fácil. E acontece, como se costuma dizer, que quem estudou, quem se move agilmente no mundo do conhecimento e do gosto, quem tem o tempo e os meios para ler, muito frequentemente acaba sem alma, sem amor pelo homem, acaba encrostado e endurecido pelo egoísmo de casta. Enquanto quem aspiraria, como aspira à vida, a este mundo da fantasia e do pensamento, quase sempre se encontra ainda privado dos elementos iniciais: lhes falta o alfabeto de alguma linguagem, não lhes sobram nem tempo, nem forças, ou, pior, estão corrompidos por uma falsa preparação, quase uma propaganda, que lhes barra e deturpa os valores. Quem encara um tratado de física, um texto de contabilidade, a gramática de uma língua, sabe que existe uma preparação específica, um conjunto mínimo de noções indispensáveis para tirar algum proveito da nova leitura. Quantos se dão conta de que uma bagagem técnica análoga é necessária para se aproximar de um romance, um poema, um ensaio, uma reflexão? E, ainda, que essas noções técnicas são incomensuravelmente mais complexas, sutis e fugidias do que as outras, e não podem ser encontradas em nenhum manual, em nenhuma bíblia? Todos acham que um conto, um poema, será naturalmente acessível à atenção humana comum, por falar não ao físico, ao contabilista ou ao especialista, mas sim ao homem que existe em todos eles. E é este o erro. Outro é o homem, outros, os homens. No final das contas, é tola a lenda de que poetas, narradores e filósofos se referem ao homem em absoluto, ao homem abstrato, ao Homem. Eles falam ao indivíduo de uma determinada época e situação, ao indivíduo que tem determinados problemas e procura resolvê-los à sua maneira, inclusive e sobretudo quando lê romances. Será preciso então, para entender os romances, situar-se em sua época e propor-se os seus problemas; o que quer dizer, nesse campo, aprender antes de mais nada as linguagens, a necessidade das linguagens. Convencer-se de que, se um escritor escolhe certas palavras, certos tons e ares insólitos, ele tem pelo menos o direito de não ser subitamente condenado em nome de uma leitura precedente, na qual os ares e as palavras estavam mais organizados, eram mais fáceis ou apenas diferentes. Esse feito da linguagem é o mais vistoso, mas não o mais urgente. Claro, tudo é linguagem em um escritor, mas basta ter compreendido isso para se ver em um mundo mais vivo e complexo, onde a questão de uma palavra, de uma inflexão, de uma cadência, torna-se de repente um problema de costume, de moralidade. Ou até mesmo de política.

Isso basta então. A arte, como dizem, é uma coisa séria. É tão séria quanto a moral e a política. Mas se temos o dever de nos aproximar dessas duas últimas com uma modéstia que mira a clareza – caridade com os outros e dureza conosco –, não é possível compreender com que direito, diante de uma página escrita, nos esquecemos de sermos homens e de que com um homem estamos falando.

 

Referência bibliográfica

 PAVESE, Cesare. La letteratura americana e altri saggi. Livro digital. Turim: Einaudi, 2014, s/p.

 

(Tradução de Cláudia Alves)

 

(Ilustração : Alfred Stevens 1856 - jeune fille lisant)