quarta-feira, 2 de abril de 2025

A NAU DOS INSENSATOS, de Michel Foucaut

A Narrenschiff é, evidentemente, uma composição literária, emprestada sem dúvida do velho ciclo dos argonautas, recentemente ressuscitado entre os grandes temas míticos e ao lado de Blauwe Schute de Jacob Van Oestvoren em 1413, de Borgonha. A moda é a composição dessas Naus cuja equipagem e heróis imaginários, modelos éticos ou tipos sociais, embarcam para uma grande viagem simbólica que lhes traz, senão a fortuna, pelo menos a figura de seus destinos ou suas verdades. É assim que Symphorien Champier compõe sucessivamente uma Nau dos Príncipes e das Batalhas da Nobreza em 1502, depois uma Nau das Damas Virtuosas em 1503. Existe também uma Nau da Saúde, ao lado de Blauwe Schute de Jacop van Oestvoren em 1413, da Narrenschiff de Brant (1497) e da obra de Josse Bade: Stultiferae erae naviculae scaphae fatuarum mulierum (1498). O quadro de Bosch, evidentemente, pertence a essa onda onírica.

Mas de todas essas naves romanescas ou satíricas, a Narrenschiff é a única que teve existência real, pois eles existiram, esses barcos que levavam sua carga insana de uma cidade para outra. Os loucos tinham então uma existência facilmente errante. As cidades escorraçavam-nos de seus muros; deixava-se que corressem pelos campos distantes, quando não eram confiados a grupos de mercadores e peregrinos. Esse costume era frequente particularmente na Alemanha: em Nuremberg, durante a primeira metade do século XV, registrou-se a presença de 62 loucos, 31 dos quais foram escorraçados. Nos cinquenta anos que se seguiram, têm se vestígios ainda de 21 partidas obrigatórias, tratando-se aqui apenas de loucos detidos pelas autoridades municipais. Eram frequentemente confiados a barqueiros: em Frankfurt, em 1399, encarregam-se marinheiros de livrar a cidade de um louco que por ela passeava nu; nos primeiros anos do século XV, um criminoso louco é enviado do mesmo modo a Mayence. Às vezes, os marinheiros deixavam em terra, mais cedo do que haviam prometido, esses passageiros incômodos; prova disso é o ferreiro de Frankfurt que partiu duas vezes e duas vezes voltou, antes de ser reconduzido definitivamente para Kreuznach. Frequentemente as cidades da Europa viam essas naus de loucos atracar em seus portos.



(História da loucura na idade clássica. Tradução: José Teixeira Coelho Netto)



(Ilustração: Hieronimus Bosch (1490-1500) - Narrenschiff - A nau dos insensatos)

domingo, 30 de março de 2025

MARIELLE PRESENTE, de Solange Padilha

 





O eco da fala propaga a onda

desdobra clamor

o corpo em mil pedaços rodopia

expande

Marielle presente.

Ela não é mais a que desce ladeiras sorrindo

mas a força da Maré que vem

e vira becos ruas avenidas

ondas de mulheres,

mães e filhas,

avós

muralhas que se erguem

aos cartuchos apontando

casas e corpos adolescentes.

Seu corpo estilhaçado no pano de boca da história

É a voz que clama

É a favela

e

o que dela

revivem

poética e resistência

rodas de conversas



Marielle

Eu Comum

matéria e fogo

nome que não morre

entre nós multiplica

Claudias, Suelis, Elisas,

Renascentes girassóis

Resistentes à barbárie

Presente

 

(Mulherio das Letras Portugal - Poesia)

 

(Ilustração: Elisa Riemer - Marielle vive)

quinta-feira, 27 de março de 2025

COM OS GOLFINHOS, de Mario Benedetti

 


María Eugenia: Acho que você vai entender por que não começo esta carta com “querida mamãe”, como eu fazia na distância das minhas antigas férias. A esta altura, nós duas sabemos (você sempre soube; eu, há apenas três anos) que você não é minha mãe, assim como Pedro Luis também não era meu pai. Agora que ele está morto, me dá um pouco de pena saber que você ficou irremediavelmente sozinha. Mas tenho muito mais pena dos meus pais verdadeiros. Sei de fonte segura, como você, que eles foram jogados de um avião no mar, e que foram jogados vivos. Agora é quase impossível provar se isso é verdade ou mentira, mas tendo a achar que é verdade, pois a comprovada sanha dos amigos de Pedro Luis, embora ainda nos impressione e nos repugne, foi uma coisa bem real.

No ano em que cheguei à casa dos meus avós, vez por outra eu ainda sonhava com você e com ele e não podia evitar uma última onda de carinho. Na época eu não sabia de toda a verdade. Mas agora, quando Pedro Luis aparece nos meus sonhos, acordo completamente enojada e quase sempre tenho que correr para vomitar no banheiro. Com você é um pouco diferente, pois de certo modo também foi vítima: lhe meteram nesse escárnio sem nem se darem ao trabalho de pedir seu consentimento.

Agora, reconstruindo nossos ambíguos 15 anos de vida em comum, lembro o estranho olhar que em certas ocasiões (cada vez menos frequentes) você me dirigia; um olhar que então só me causava estranheza, mas que agora posso (ou talvez queira) imaginar que queria dizer: “usurpei o lugar de outra”, ou “acho que ela gosta de mim, mas não mereço”, ou “qualquer dia vão tirar ela de mim”. Era isso? Por outro lado, tenho a impressão de que minha inesperada presença não só não contribuiu para a união de vocês como casal, mas, pelo contrário, causou uma deterioração irremediável, já que, para o nosso peculiar estilo de vida em Mendoza, um divórcio ou uma simples separação era algo no mínimo inconveniente, que os companheiros de armas de Pedro Luis jamais permitiriam. Mas como vocês podiam conviver com um passado tão infame? Como podiam se deitar e fazer amor (ou será que nem faziam?) sabendo que dos dois lados da cama apareciam e os olhavam os fantasmas dos meus verdadeiros pais?

Como é que a vida cotidiana pode continuar normalmente, sabendo que se baseia numa ação ignóbil?

Meus avós me amam, me mimam, me falam dos meus pais, tentam criar em mim um novo estímulo para viver, mas nos meus 18 anos atuais confesso que minha vida está destruída e nas minhas noites há outra fantasia recorrente em que eu também me jogo no mar. Por quê? Para quê? Para me unir a meus pais, ora. No sonho eles me recebem, muito juntos, de braços abertos, rodeados por golfinhos solidários que também se juntam ao festejo. E quando enfim acordo, ainda permanece em mim a sensação de ternura mais nítida de toda minha existência.

Tenho na minha mesa-de-cabeceira a foto dos meus pais e sei que venho deles e de mais ninguém. As adulações de Pedro Luis sempre me pareceram pura hipocrisia, e se as guardo na memória é para repelir todas elas. Sinto, ao contrário, que tuas demonstrações de carinho eram sinceras e eu as conservo como uma coisa positiva em meio a uma imensa fraude. Quem sabe um dia eu consiga reunir forças para voltar a te ver, mas por enquanto não. Ainda estou cheia de rancores e rancorezinhos. Depois de todas as comunhões, missas e homilias a que você me levou, não fiquei apenas sem pais, mas também sem Deus. Gostaria de saber o que você dizia ao seu confessor. E principalmente o que ele lhe dizia. Apossar-se de uma filha de pais desaparecidos e/ou assassinados por tua gente é pecado mortal ou venial? Com 15 pais-nossos e sete ave-marias a ficha fica limpa? Não posso rezar para um Senhor cujos representantes acobertavam cristãmente os carrascos. Agora compreendo o apelo rebelde do Cristo crucificado: “Pai, por que me abandonaste?” Ele, pelo menos, dizem que ressuscitou, mas meus pais afogados não voltaram. No melhor dos casos, não estão rodeados de apóstolos, mas de golfinhos. Talvez Deus, se existe algum, não more lá no Altíssimo, mas no fundo do mais profundo dos mares. E lá onde está, ignore tudo, embora de vez em quando abra suas brânquias e distribua bênçãos. Não descarto que uma noite dessas, eu, que não sei nadar, afinal me decida e mergulhe para buscá-lo, assim mesmo, sem boias, mas com a mochila cheia de recriminações. E mais nada. Tchau, PAULINA.



(Correio do tempo; tradução de Rubia Prates Goldoni)



(Ilustração: Carlos Terribili - ¡Basta!: obra que recuerda a las Madres de Plaza de Mayo)

segunda-feira, 24 de março de 2025

POEMA ÚNICO, de Soeiro Pereira Gomes

 


Para a C...



Menina dos olhos grandes,

Tão grandes que neles vejo

A minha imagem e o mundo

Com que sonho e que porfio...



Menina do riso ingénuo

À porta dos lábios mudos

Como fio de água fresca

Entre o musgo duma rocha...



Menina de tez morena

Que o sol beija e mais ninguém

E de corpo tamanino

E de rosto tão bonito...



- Porque usas carrapito?

P'ra realçar teus encantos

Que são tantos, tantos, tantos

Como estrelas há no céu?...



Menina do meu enleio

Menina doutras meninas

Que tenho nos olhos tristes:

- Solta as tranças, vai cortar

(Não dói nada... e é mais bonito)

Vai cortar o carrapito!



20/07/1949



(O PCP visto por dentro e por fora, Rui Perdigão)



(Ilustração: Christoffer Wilhelm Eckersberg, 1841, Kvinde foran et spejl)

sexta-feira, 21 de março de 2025

O ÚLTIMO REI E O ÚLTIMO PADRE, de Giba Assis Brasil

 


Quem for procurar no Google, e se contentar com a primeira página de resultados, vai descobrir que a frase "O mundo (ou o homem) só será livre (ou deixará de ser miserável) quando o último rei (ou déspota) for enforcado nas tripas do último padre" é de Diderot (ou Voltaire).

Mas a primeira página do Google é apenas um retrato da internet: uma babilônia de dados confusos, repetidos, contraditórios, inúteis e muitas vezes incorretos. Se fizermos o mesmo tipo de pesquisa apressada com, por exemplo, "Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, sem amor eu nada seria", vamos chegar à conclusão de que a Primeira Epístola aos Coríntios foi escrita pelo Renato Russo.

Além da primeira página do Google, aparece a verdadeira riqueza oculta da internet: informação quase ilimitada, a biblioteca de Alexandria dos tempos modernos, eternamente em construção. Os únicos requisitos para chegar lá são curiosidade, paciência e um pouco de sorte.

A frase original em francês sobre reis e padres é um pouco diferente, tão violenta quanto a que chegou aos nossos dias, mas de um ponto de vista individual e não vinculado a uma possível libertação da humanidade: "Eu gostaria, e este será o último e o mais ardente dos meus desejos, eu gostaria que o último rei fosse estrangulado com as tripas do último padre." ("Je voudrais, et ce sera le dernier et le plus ardent de mes souhaits, je voudrais que le dernier des rois fût étranglé avec les boyaux du dernier prêtre.")

Desde 1729, ano em que a frase foi publicada, duas grandes revoluções e muitos embates menores arrancaram as tripas de muita gente, até mesmo de alguns reis e padres. E a frase foi sendo modificada de acordo com as conveniências do momento: "o mundo só será livre quando..." marca a crença na "revolução final" que viria libertar a humanidade de séculos de opressão; o ato criminoso, mas individual, do estrangulamento foi substituído pela forca, provavelmente numa tentativa de dar um caráter ritual à violência dos processos históricos; o próprio rei a ser assassinado deixou de ser um rei qualquer e foi especificado como déspota, certamente num período em que se supunha possível uma monarquia democrática ou "progressista". Mas o padre continuou lá, morto e eviscerado, em quase todas as versões, mesmo depois de João XXIII e do Concílio de Puebla.

E o mais surpreendente em torno dessa frase não é tanto o fato de ela ser anterior a Diderot, Voltaire e o enciclopedismo, mas que seu autor, na verdade, tenha sido um padre.

Jean Meslier (1664-1729), cura da aldeia de Étrépigny, passou seus últimos anos de vida rezando missas, celebrando batizados e matrimônios, enquanto, à noite, preparava uma tentativa de extrema unção do Estado católico francês: seu livro de memórias, de título quilométrico, geralmente reduzido para "Memória dos pensamentos e sentimentos do abade Jean Meslier", tratando dos "erros e abusos dos governos" e principalmente da "falsidade de todos os deuses e religiões do mundo". Foi neste livro que nasceu a frase, o "desejo mais ardente", as tripas de uns no pescoço dos outros.

Publicado postumamente, o livro do "padre ateu" Meslier tornou-o um dos precursores do iluminismo. Voltaire, então com 35 anos, foi seu primeiro editor, fazendo circular por toda a França suas ideias subversivas e anticatólicas numa versão reduzida, "Extrait des sentiments de Jean Meslier".

Diderot, que na época tinha apenas 14 anos, mais tarde escreveria (em "Les Éleuthéromanes") um poema em alusão direta à frase mais violenta e mais conhecida do "pai do ateísmo": "E suas mãos arrancarão as entranhas do padre / na falta de uma corda para estrangular os reis." ("Et ses mains ourdiraient les entrailles du prêtre / Au défaut d'un cordon pour étrangler les rois.") Violento sem dúvida, eventualmente visionário, mas sem a menção aos "últimos" e menos ainda à necessidade de mortes para a redenção dos sobreviventes.

Foi Jean-François de la Harpe, que só iria nascer em 1739, 12 anos após a morte de Meslier, o responsável pela confusão em torno da autoria da frase. La Harpe, um pós-iluminista que, ao contrário de Voltaire e Diderot, viveu para presenciar a Revolução de 1789 e o terror jacobino, tornou-se no final da vida um reacionário defensor da monarquia.

Em seu "Cours de Littérature Ancienne et Moderne" (1799), La Harpe alterou os versos de Diderot, citando-os assim: "E com as tripas do último padre / estrangulemos o pescoço do último rei." ("Et des boyaux du dernier prêtre / Serrons le cou du dernier roi.") Engano histórico? Talvez. Mas não me parece tendencioso ver aí uma deliberada intenção de acusar os iluministas (e por extensão os intelectuais, as ideias) pelos rumos violentos da História.

Seja como for, a frase seguiu seu rumo, às vezes usada para justificar assassinatos, outras para exprimir ódios mortais ou simples revoltas, às vezes apenas para atribuir culpas. O livro de Meslier, que eu saiba, só foi publicado em português em 2003, pela editora Antígona, de Lisboa, com tradução de Luís Leitão. Em 2004, Paulo Jonas de Lima Piva doutorou-se em Filosofia na USP com uma tese sobre "os manuscritos de um padre anticristão e ateu: materialismo e revolta em Jean Meslier".

Uma das muitas e criativas pixações de maio de 1968 em Paris propunha uma variação interessante para o desejo de Meslier: "E depois de estrangular o último burocrata nas tripas do último sociólogo, ainda teremos problemas?" ("Lorsque nous aurons étranglé le dernier bureaucrate avec les tripes du dernier sociologue, aurons-nous encore des problèmes?").

Quanto aos iluministas, eu prefiro ficar com outra frase de Voltaire, sem tripas, sem enforcamentos, sem mísseis: "Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo." É só estar preparado para ouvir (e ler) muita bobagem.



(Ilustração: Pieter Bruegel the Elder: the triumph of death, c.1562 – detail)

terça-feira, 18 de março de 2025

LUNEDÌ / SEGUNDA-FEIRA, de Primo Levi





Che cosa è più triste di un treno?

Che parte quando deve,

Che non ha che una voce,

Che non ha che una strada.

Niente è più triste di un treno.

.

O forse un cavallo da tiro.

È chiuso fra due stanghe,

Non può neppure guardarsi a lato.

La sua vita è camminare.

.

E un uomo? Non è triste un uomo?

Se vive a lungo in solitudine

Se crede che il tempo è concluso

Anche un uomo è una cosa triste.



(17 gennaio 1946; Ad ora incerta)



Tradução de Vasco Gato:



O que é mais triste do que um comboio?

Que parte quando deve,

Que não tem senão uma voz,

Que não tem senão um caminho.

Nada é mais triste do que um comboio.

.

Ou talvez um cavalo de tiro.

Está encerrado entre duas varas,

Não pode sequer olhar para o lado.

A sua vida é andar.

.

E um homem? Não é triste um homem?

Se viver muito tempo em solidão

Se achar que o tempo está acabado

Também um homem é uma coisa triste.



(Traduções e Versões de Poesia; 2017)



Tradução de Edney Cielici Dias:





há coisa mais triste que um trem?

parte em sua hora

percorre a mesma estrada

fazendo o mesmo barulho

nada mais triste que um trem



ou talvez um cavalo de tração

em rédeas, contido entre barras

olhar direcionado para a frente

uma vida de apenas seguir



e o homem? ele não é triste?

aquele que vive em solidão

o que crê no fim de seu tempo

também esse homem é coisa triste





(Ilustração: Paul Gauguin - Self Portrait with Halo and Snake)

sábado, 15 de março de 2025

COMO GANHEI O CONCURSO DE QUEM CONTAVA MELHOR UM FILME, de Hernán Rivera Letelier

 




“Somos feitos do mesmo material dos sonhos.”

Shakespeare

“Somos feitos do mesmo material dos filmes.”

Fada Docine [*]

Como em casa o dinheiro andava a cavalo e a gente andava a pé, quando chegava um filme no acampamento da Mina e meu pai – só pelo nome do ator ou da atriz principal – achava que parecia ser bom, as moedas eram juntadas uma a uma, o preço exato da entrada, e me mandavam assistir.

Depois, ao voltar do cinema, eu tinha de contar o filme para a família inteira reunida na sala. 

Era lindo, depois de ver o filme, encontrar meu pai e meus irmãos me esperando ansiosos em casa, sentados enfileirados que nem no cinema, penteadinhos e de roupa limpa, recém-mudada.

Meu pai, com uma manta boliviana cobrindo as pernas, ocupava a única poltrona que a gente tinha, e assim era a plateia lá de casa. No chão, do lado da poltrona, brilhava sua garrafa de vinho tinto e o único copo que havia sobrado em casa. A galeria era aquela bancada comprida, de madeira bruta, onde meus irmãos se acomodavam em ordem, do menor ao maior. Depois, quando alguns de seus amigos começaram a aparecer na janela, a janela virou o balcão.

Eu chegava do cinema, tomava rapidinho uma xícara de chá (que deixavam pronto me esperando) e começava a minha função. De pé na frente deles, de costas para a parede pintada a cal, branca feito a tela do cinema, começava a contar o filme “de a a z”, como dizia meu pai, tratando de não esquecer nenhum detalhe, nem da história, nem dos diálogos, nem dos personagens.

Aliás, devo esclarecer aqui que não me mandavam para o cinema só por ser a única mulher da família e eles – meu pai e meus irmãos – serem cavalheiros com as damas. Não senhor. Eles me mandavam porque eu era a melhor contando filmes. Assim mesmo, como se ouve: a melhor contadora de filmes da família. Depois, passei a ser a melhor da viela e em pouco tempo a melhor do povoado. Que eu saiba, não havia ninguém no povoado da Mina que ganhasse de mim na hora de contar filmes. Do tipo que fosse: de caubóis, de terror, de guerra, de marcianos, de amor. E, claro, os filmes mexicanos, que eram os que papai, como todo mundo que tinha vindo do sul, mais gostava.

E foi justamente com um filme mexicano, desses cheios de cantorias e muito choro, que ganhei meu título. Não foi nada fácil ganhar esse título.

Ou vocês acham que fui eleita só por causa da minha fina estampa?

Éramos cinco filhos na família. Quatro homens e eu. Nós cinco formávamos uma escadinha perfeita, em tamanho e idade. Eu era a menor. Vocês imaginam o que significa crescer numa casa só de irmãos homens? Nunca brinquei de boneca. Em compensação, era campeã em bolinhas de gude e no jogo de palitinhos. E na hora de matar lagartixas nas minas de cal ninguém ganhava de mim. Era eu botar o olho e paf, lagartixa morta.

Andava de pé no chão todo santo dia, fumava escondida, usava um boné de aba virada e tinha até aprendido a mijar de pé.

A gente mija de pé, a gente urina de cócoras.

E eu mijava em qualquer lugar do deserto de salitre, igual aos meus irmãos. Até nas competições de quem mijava mais longe às vezes eu ganhava. E contra o vento.

Quando fiz sete anos entrei na escola. Além do sacrifício de ter que usar saia, me custou um bocado acostumar a urinar como as senhoritas.

Custou mais do que aprender a ler.

Quando papai teve a ideia do concurso, eu tinha dez anos e estava no terceiro ano do primário. Sua ideia consistiu em mandar a gente, um por um, para o cinema, e depois nos fazer contar o filme. Quem contasse melhor iria toda vez que passasse um dos bons. Ou um mexicano. O mexicano podia ser bom ou ruim, para meu pai isso não importava. Desde, é claro, que houvesse dinheiro para a entrada.

Os outros iam ter de se conformar em ouvir, depois, o filme ser contado em casa. Nós todos gostamos da ideia; todos nós nos sentíamos capazes de ganhar. Não era em vão que, como todas as outras crianças do povoado, cada vez que íamos ao cinema saíamos imitando os mocinhos do filme em suas melhores cenas.

Meus irmãos sabiam imitar perfeitamente o caminhar cambaio e o olhar oblíquo de John Wayne, o gesto de desprezo de Humphrey Bogart e as incríveis caretas de Jerry Lewis.

Eu os matava de rir ao tratar de piscar as pestanas feito Marilyn Monroe, ou de imitar as boquinhas de menina inocente – voluptuosamente inocente – de Brigitte Bardot.

Alguns se perguntarão por que meu pai não ia, ele mesmo, ao cinema; pelo menos quando passassem um filme mexicano. Meu pai não conseguia andar. Tinha sofrido um acidente de trabalho que o deixou paralítico da cintura para baixo. Não trabalhava mais. Recebia uma pensão de invalidez que era uma miséria, mal dava para comer.

Nem preciso dizer que a gente não tinha nem para uma cadeira de rodas. Para levá-lo da sala para o quarto, ou do quarto para a porta da rua – onde ele gostava de beber sua garrafa de vinho tinto vendo passarem a tarde e seus amigos –, meus irmãos tinham adaptado as rodas de um velho triciclo na poltrona. O triciclo tinha sido o primeiro presente de páscoa do meu irmão mais velho e as rodas não aguentavam muito o peso do meu pai, dobravam, e era preciso ficar consertando tudo o tempo inteiro.

E a minha mãe? Bom, minha mãe, depois do acidente, abandonou meu pai. Abandonou meu pai e nos abandonou, os seus cinco filhos. Assim, num vupt! Por isso lá em casa meu pai tinha nos proibido de falar dela; da “sirigaita”, como a chamava com desdém.

“Não me falem dessa sirigaita” – dizia ele, quando algum de nós, sem querer, deixava escapar a palavra mamãe.

Depois, entrava no silêncio e a gente levava horas até conseguir tirá-lo de lá.

[...]

Devo confessar que nunca imaginei que seria a vencedora do concurso de quem contava melhor um filme. É que meu irmão Mirto, o segundo, apelidado de Pássaro, que em casa era o responsável pelas compras, era o favorito de todo mundo. Ele sempre foi alegre e falastrão e passava o dia contando coisas que aconteciam com ele; tinha muito senso de humor.

Já meu irmão Mariano, o mais velho, que por causa de sua gagueira era chamado de Caterpillar – ele se encarregava de cozinhar, apesar de ser o mais inteligente de todos, e “mais sério que cabo de polícia”, como dizia meu pai –, não tinha nenhuma possibilidade, por causa de sua fala quebrada. O coitado tinha começado a gaguejar quando nossa mãe foi-se embora.

Meu irmão Manuel, o terceiro (era quem cuidava da limpeza), nem gostava muito de cinema. Para ele, o que mais importava no mundo era o futebol; era um peladeiro impenitente; suas partidas duravam o dia inteiro, o primeiro tempo de manhã e o segundo de tarde, com um breve intervalo para o almoço. Por causa de seu hábito de fazer um montinho de terra cada vez que ia chutar a bola, foi apelidado de Morrinho.

No deserto, todo mundo exibia com orgulho a condecoração de um apelido; quem não tinha apelido era um nonato, um zé ninguém, não existia.

Meu quarto irmão, Marcelino, o Cabeça de Livro, tinha alma de artista. Gostava de desenhar e pintar com lápis de cor. Em casa era mais para o calado, gostava mais de ouvir que de falar. E sua única tarefa era tirar o lixo.

Depois vinha eu, e, por ser mulher, ninguém dava um tostão por mim. Eles achavam que as mulheres só prestavam para fazer as camas e lavar os pratos – daí que eu cuidava da casa – e por isso não tinha a menor chance. Acontece que havia três coisas que me davam vantagem em cima deles, embora nem eu mesma soubesse. A primeira é que eu devorava os quadrinhos de Hopalong Cassidy, de Gene Autry, de Kid Colt e todos os heróis do Velho Oeste, e eles não liam nada. A segunda é que eu era louca pelas novelas de rádio, uma paixão que tinha herdado da minha mãe, que, comigo nos braços, jamais perdia um capítulo de Esmeralda, a filha do rio. E a terceira era uma coisa que até papai ignorava: quando eu era muito pequena, minha mãe me fazia dormir contando para mim filmes românticos – os seus favoritos –, coisa que não fez com nenhum dos meus irmãos.

“Essas coisas são mais nossas, das mulheres”, dizia ao me dar uma piscada de cumplicidade que eu adorava. 

O primeiro a ir ao cinema foi meu irmão Mariano, o Caterpillar. Sua narração foi um desastre. Naquele dia passou um de guerra – alemães contra norte-americanos –, e a única coisa que se entendia e saía emendado da boca do pobrezinho era o matracar das metralhadoras. E a mímica. Sua mímica era genial. Eu acho que nos tempos do cinema mudo ele teria sido muito bom.

Na vez do meu irmão Mirto, o Pássaro, passaram um de índios, com Jack Palance. Sua narração foi extraordinária. O galope dos cavalos, os tiros, os gritos dos índios, os sinais de fumaça. A gente até achava que estava ouvindo o assovio das flechas passando sobre nossas cabeças, zuuuummm! A única coisa ruim era que Mirto contava tudo na base de “babaquices” e “cagadas”:

“Então, quando o babaca sacou do revólver e atirou na cabeça da babacona, deu uma tremenda cagada porque os outros babacas nem cagando iam deixar que cagassem neles daquele jeito…”.

Manuel, que até que contava direito, contou um filme de vampiros. Acontece que se perdeu por amor. Aos doze anos, estava apaixonado pela filha do dono da loja mais sortida da Mina – era o único dos irmãos que namorava –, e passou a hora e quarenta minutos que durou o filme abraçando a menina, que gemia de medo.

Já com meu irmão Marcelino aconteceu o cúmulo da má sorte. Calado por natureza – “desse menino, é preciso arrancar as palavras com um saca-rolhas”, dizia minha mãe quando morava com a gente –, na vez dele caiu O velho e o mar, um filme quase sem fala.

Sua narração só durou cinco minutos.

Duas semanas mais tarde chegou, enfim, a minha vez, a vez da irmã menor, Maria Margarita, M M, como às vezes meu pai me chamava. Embora eu não tivesse apelido oficial, sabia que pelas costas alguns meninos me chamavam de Maria Machona. O apelido, é verdade, não era muito refinado, mas se observarem bem verão que é composto por duas palavras que começam com a letra eme.

Durante essas duas semanas chegaram vários filmes bons, e alguns muito bons, mas não houve dinheiro para comprar a entrada. Eram meados do mês e mal dava para comer e para a garrafinha de vinho de meu pai.

“A gente tem que esperar o pagamento da pensão”, dizia ele. E aconteceu que justo no dia do pagamento apareceu no anúncio do cinema nada menos que Ben-Hur, o filme que todo mundo no povoado esperava com ansiedade.

Meus irmãos ficaram loucos.

Todos queriam ir ao cinema. Ou pelo menos que o Mirto fosse, já que até aquele momento tinha sido quem melhor havia contado um filme.

Mas meu pai, que era um homem justo, se negou.

“Agora é a vez de Maria Margarita e quem vai é a Maria Margarita.

E ponto final”.

O filme durou três horas. Chorei mais que Sara García, a veterana atriz do cinema mexicano. Eu nunca havia gostado tanto de um filme. Depois soube que, além de ser tão longo, tinha sido o filme mais caro da história. E que havia ganhado onze prêmios Oscar. E além de tudo, Charlton Heston era um dos atores de quem eu mais gostava.

Cheguei em casa com os olhos vermelhos. Todos me esperavam com grande expectativa. Tomei em silêncio a xícara de chá, me pus na frente deles, e sem que meus joelhos tremessem nem nada, comecei a minha narração.

Foi então que alguma coisa se apoderou de mim.

Enquanto contava o filme – gesticulando, dando braçadas, mudando a voz – ia como que me desdobrando, transformando, convertendo-me em cada um dos personagens. Naquela tarde fui Ben-Hur, o jovenzinho. Fui Messala, o malvado do filme. Fui as duas mulheres leprosas que Jesus curou.

Fui o mesmíssimo Jesus.

Eu não estava contando o filme, eu estava atuando o filme. Mais ainda: eu estava vivendo o filme. Meu pai e meus irmãos me ouviam e olhavam para mim de boca aberta.

“Essa menina é uma artista completa”, comentou meu pai quando, esgotada até a última gota, acabei de contar o filme.

Ele e meus irmãos pareciam estar flutuando.

E estavam com os olhos marejados.

Aquela narração, porém, não foi suficiente para me dar o título. Meu pai declarou empate: meu irmão Mirto e eu tínhamos sido os melhores. E como era um democrata convicto, disse que aquela questão ia ser resolvida através das urnas. E em votação secreta.

Mirto seria o candidato número 1.

Eu seria a candidata número 2.

Foram cortados quatro papeizinhos iguais, distribuídos entre os votantes (os candidatos não tinham direito a voto). Cada um escreveu o número do seu candidato e depois depositou o papelzinho num cone de papel.

E veio a contagem.

Dois votos para meu irmão e dois votos para mim (eu intuí que meu pai e Marcelino tinham votado em mim). Para desempatar, meu pai decidiu fazer o que era mais justo e razoável: nós dois iríamos, juntos, ver o próximo filme. E quem contasse melhor seria o vencedor.

Fomos então ver juntos um filme mexicano carregado de canções; se chamava Guitarras de medianoche e era com ninguém menos que Miguel Aceves Mejía e Lola Beltrán, duas das vozes que mais soavam nos bares do deserto. Meu irmão contou primeiro, e com a mesma graça de sempre. Principalmente quando imitava o sotaque mexicano.

Acontece que eu, que também dominava o tom da fala dos mexicanos (tantos tinham sido os filmes deles que eu tinha visto em minha curta vida), além de contar o filme descrevendo as paisagens e tudo, de repente desandei a cantar as canções interpretadas no filme (de tanto ouvir nos alto-falantes dos bares, sabia todas elas de cor). Eles, que nunca tinham me ouvido cantar, acharam estranho que eu cantasse. E que cantasse tão bem.

Até para mim foi uma surpresa.

Meu pai ficou deslumbrado. Principalmente quando cantei No soy monedita de oro, uma das suas canções favoritas. Foi quando o democrata se esqueceu de votos e plebiscitos e me declarou ganhadora absoluta.

“E ponto final!” rugiu ele quando Mirto quis insinuar um protesto. 

E assim me transformei oficialmente na contadora de filmes lá de casa.



Nota do blog:

[*] O nome da narradora é Maria Margarita, mas ela se deu o pseudônimo de Fada Docine, ao se tornar famosa na sua aldeia como contadora de filmes.



(A contadora de filmes; tradução de Éric Nepomuceno)


(Ilustração: Alexander von Wagner (1838-1919) - The Chariot Race, c.1882)

quarta-feira, 12 de março de 2025

DAS LÄCHELN DER MONA LISA / O SORRISO DA MONA LISA, de Kurt Tucholsky

 




Ich kann den Blick nicht von dir wenden.

Denn über deinem Mann vom Dienst

hängst du mit sanft verschränkten Händen

und grienst.



Du bist berühmt wie jener Turm von Pisa,

dein Lächeln gilt für Ironie.

Ja … warum lacht die Mona Lisa?

Lacht sie über uns, wegen uns, trotz uns, mit uns, gegen uns –

oder wie –?



Du lehrst uns still, was zu geschehn hat.

Weil uns dein Bildnis, Lieschen, zeigt:

Wer viel von dieser Welt gesehn hat –

der lächelt, legt die Hände auf den Bauch und schweigt.





Tradução de Paulo Quintela:



Não posso desviar de ti o olhar.

Pois, por sobre o homem que te guarda,

Estás suspensa, as mãos cruzadas devagar,

E sorris, calada.



És célebre como a tal Torre de Pisa,

O teu sorriso passa por ironia.

Sim… porque é que ri a Mona Lisa?

Ri-se de nós, por nós, apesar de nós, contra nós –

Ou que mais o teu riso diria?



Calma nos ensinas o que tem de acontecer.

Porque o teu retrato, Lisa, claro no-lo diz:

Quem deste mundo tanto pôde ver –

Cruza as mãos, cala e sorri, como tu sorris.



(Ilustração: Leonardo da Vinci – Monalisa)

domingo, 9 de março de 2025

A CONTRARREVOLUÇÃO EVANGÉLICA E SEU SENTIDO SOCIAL E POLÍTICO, de Jessé Souza

 



Para Max Weber, o sociólogo das religiões mais influente e importante de todos os tempos, a religiosidade tem íntima relação com a classe social, ou seja, com a posição relativa dos fiéis na hierarquia social. As versões mais racionais e éticas da religiosidade costumam estar relacionadas à vida citadina – em especial aos comerciantes e artesãos qualificados com seu cotidiano calculável, regular e previsível. Já os camponeses e as classes populares percebem seu cotidiano como dominado por forças externas incontroláveis, como a natureza e a opressão social associada ao trabalho desqualificado, dependente e servil.

O pentecostalismo, desde a sua vertente original nos Estados Unidos, nasce como oposição ao protestantismo histórico e ao processo de secularização que lhe foi subsequente. Como se sabe, a tese weberiana para explicar o processo de secularização parte da contradição interna ao protestantismo ascético, que constrói um “caminho para salvação” baseado no sucesso mundano. Ao interpretar o caminho para a salvação eterna como decorrente do sucesso mundano e visível, ou seja, como riqueza material, o ascetismo protestante passa a exigir do fiel a “dominação do mundo” social e natural como precondição para ser salvo.

Para que o mundo seja dominado, ele precisa, porém, ser conhecido. É necessário que se conheça como o mundo social e natural funciona para que se tenha sucesso nele. Ora, a ciência é exatamente a dimensão criada para o conhecimento e controle do mundo externo. Existe uma forte correlação entre o advento do protestantismo e a ascensão da ciência experimental. A visão científica do mundo, no entanto, elimina pouco a pouco o “mistério”, elemento indispensável a qualquer forma de religiosidade. O estabelecimento da ciência enquanto esfera simbólica detentora de sentido hegemônico implica o enfraquecimento – não a morte – da visão religiosa. É por conta de suas contradições internas que o protestantismo é visto como a parteira do mundo moderno, secular – e, dentre outras consequências, um mundo onde a ciência substitui a religião como provedora de sentido.

Isso, por óbvio, não ocorreu sem resistências. Especialmente nos Estados Unidos – a pátria do puritanismo ascético –, foram desenvolvidas, desde o século XVIII, tendências revivalistas da religiosidade, as quais são o berço histórico do movimento pentecostal posterior. Esses movimentos eram plurais, e havia uma quantidade de oferta religiosa significativa comandadas por novos profetas que pululavam em vários lugares. Um deles foi Charles Parham, figura emblemática da novidade pentecostal, que se tornou o primeiro pregador a fazer a ligação entre experiências extáticas – com manifestações de transe e glossolalias (o falar em “língua estranha”) – e o “batismo com o Espírito Santo”.[1]

Um dos seguidores de Parham, William Seymor – que se tornaria conhecido como o “profeta negro da Rua Azuza” – assistia às suas aulas no corredor e não na sala de aula, por conta do racismo de Parham, e decidiu fundar sua própria denominação na Rua Azuza, em Los Angeles. Rua Azuza se tornou, a partir daí, uma espécie de galvanizador e campo de experiência de uma religiosidade que valorizava a tradição negra: em traços como a oralidade da liturgia, testemunhos orais, inclusão do êxtase, sonhos e visões, inclinação para o xamanismo religioso, uso de coreografia e muita música nos cultos.[2]

Essa ligação com a cultura negra explica, em boa parte, a irresistível influência desse tipo de religiosidade entre nós. Aqui podemos já visua lizar que o ancoramento social desse tipo de manifestação religiosa se dirige aos desterrados, humilhados e imigrados. São pessoas que não conseguem se sentir pertencentes à realidade social, visto que essa os humilha e não os reconhece. São pessoas que estão no mundo social, mas não se sentem parte desse mesmo mundo. Nascia então uma religiosidade, feita com precisão de alfaiate, para os abandonados e excluí dos. Como sempre, a religiosidade mágica é a arma dos despossuídos, daqueles que não têm futuro. Como diria Pierre Bourdieu, em uma de suas frases magistrais: “A esperança mágica é a visada de futuro dos que não têm futuro.”

Criada nos Estados Unidos no começo do século XX, essa forma de protestantismo popular tem se globalizado com rapidez entre as massas empobrecidas do Sul global. Descendentes do metodismo Wesleyano e do Holiness Movement [Movimento da Santidade], os pentecostais, por diferença em relação ao protestantismo histórico, acreditam que Deus, por meio do Espírito Santo – responsável pelo componente mágico desse tipo de religiosidade – continua a agir diretamente no mundo prático. Essa ação se materializa em curas, exorcismo de demônios e realização de milagres.

A diferença entre religiosidade ética e religiosidade mágica é a mais importante do universo religioso. A religiosidade ética, produto singular da cultura ocidental – que nasce no judaísmo antigo e influencia diretamente o cristianismo e o islamismo – cria uma tensão ética entre o mundo transcendente e o mundano. O Deus e seus mandamentos morais, na religiosidade ética, pretendem mudar o mundo profano como ele é. Pretende criticá-lo e revolucioná-lo. Por exemplo, Jeová exige dos fiéis que eles não matem, não roubem e não desejem a mulher do próximo porque na humanidade há quem tenha desejos assassinos, desejos de apropriação das coisas alheias e desejos libertinos em relação à mulher do próximo. A religiosidade ética abre a possibilidade de mudança do mundo social e do nosso comportamento nele. Ela é intrinsecamente revolucionária, ainda que os compromissos com os poderes mundanos tenham sido, historicamente, a regra.

Com a magia, temos o efeito contrário. Na magia, não há oposição entre a dimensão religiosa transcendente e a dimensão mundana, mas sim proximidade e contiguidade. Os entes transcendentes são próximos, e seus favores devem ser conquistados do mesmo modo como fazemos com os poderosos deste mundo: com presentes, bajulações, elogios e afagos. Não existe a tensão ética que possibilite transformar o fiel mágico em outra coisa que ele ainda não seja. A regra aqui é a dos rituais: vive-se da repetição, da tradição e do eterno ontem que sacraliza o mundo como ele é.

Além disso, como a moralidade mágica não pressupõe reflexão – uma vez que é mera compulsão pela repetição – inexiste o drama típico da consciência moral ética, que é representado pela questão: devo seguir o que Deus manda, ou seguir aquilo para o qual já me inclino desde sempre? Essa é a primeira forma de consciência moral individual da história – o drama consciente da escolha de caminhos alternativos de vida. Na magia, não há alternativa, nem drama de escolha, nem consciência moral. A magia é, portanto, intrinsecamente conservadora. Não há crítica social possível a partir dela. E foi esse tipo de protestantismo mágico, em forte oposição ao protestantismo histórico, a forma de religiosidade ética mais consequente de que se tem notícia – que tomou o Brasil de assalto a partir dos fins do século XX.

A novidade americana logo chegou, como sempre acontece, rápido ao Brasil. Vários missionários inspirados pela Rua Azuza chegaram aqui poucos anos mais tarde, como Louis Francescon, Daniel Berg e Gunnar

Vingren, os pioneiros do pentecostalismo no Brasil.[3] Os estudiosos dividem em três fases a história do pentecostalismo e neopentecostalismo brasileiro. A primeira onda acontece a partir de 1910, com a vinda dos missionários estrangeiros para ensinar os fundamentos da nova religião. A segunda onda se dá nos anos 1940 e 1950, sobretudo em São Paulo. A terceira onda ganha impulso a partir dos anos 1970 e 1980, em especial com a Igreja Universal do Reino de Deus – comandada com mão de ferro pelo autointitulado bispo Edir Macedo. O contexto da terceira onda é carioca.[4]

O pentecostalismo clássico brasileiro, típico da primeira onda, é representado pela Congregação Cristã do Brasil e pela Assembleia de Deus, a maior denominação pentecostal do Brasil. Suas características principais são o anticatolicismo, o dom de falar em “línguas estranhas”, a crença na volta iminente de Cristo e na salvação paradisíaca, e o radical sectarismo e ascetismo. A segunda onda teve início nos anos 1950 principalmente em São Paulo, a partir de dois missionários americanos que formaram o Evangelho Quadrangular, trazendo para o Brasil a evangelização em massa baseada na cura divina.[5]

Tal ênfase na cura divina foi o grande mecanismo para o crescimento do pentecostalismo brasileiro, como, aliás, aconteceu no mundo todo.[6] O que separa as duas ondas é a ênfase diferencial nos dons do Espírito Santo. A primeira onda enfatiza o dom de línguas; enquanto a segunda privilegia a cura divina. Existe grande influência recíproca entre as diversas denominações, e, em um processo de tentativa e erro, tudo aquilo que se mostrar bem-sucedido tende a ser imitado pelas outras denominações.

A terceira onda se inicia nos anos 1970 e ganha força nas duas décadas seguintes. Seu principal símbolo é a Igreja Universal do Reino de Deus, que é marcada pelo antiecumenismo – forte oposição aos cultos afro, forte hierarquia e centralização, uso de meios de comunicação de massas, ênfase na cura e no exorcismo de demônios. E, como característica mais marcante, as técnicas para retirar dinheiro dos fiéis em troca de bens simbólicos mediante pagamento direto em moeda sonante. Combinado a essa guinada mundana e empreendedora temos a rejeição consequente a toda forma de ascetismo mundano.

Se as ênfases das igrejas anteriores privilegiavam as “línguas estranhas” e a cura divina, na terceira onda neopentecostal a centralidade é do exorcismo de demônios. A singularidade da Universal é baseada na ênfase da luta entre Deus e o demônio, e cabe ao pastor dizer quem é um e quem é o outro (a divindade pode ser associada, inclusive, a Bolsonaro, se o pastor assim o desejar, afinal, ele tem “Messias” no nome). O contexto conservador da magia é levado ao paroxismo na teodiceia neopentecostal. Como inexiste qualquer separação entre a esfera mundana e a transcendente, a esfera mundana é percebida como subordinada à esfera transcendente, perdendo, portanto, qualquer autonomia e independência.

Isso significa que se alguém está doente e não encontra remédio, não é culpa do descaso da sociedade desigual nem da falta de adequado financiamento do sus, mas sim do diabo que invadiu seu corpo. Elimina-se, desde o início, qualquer possibilidade de crítica social à dimensão mundana. O “sacrifício do intelecto”, que Weber percebia em toda forma de religiosidade, é aqui levado ao limite lógico. O mundo social, por mais injusto e perverso que seja, não só não é criticável como passa a ser, inclusive, sacralizado. Trata-se da mais perfeita legitimação da meritocracia e do mundo desigual, visto que invisibiliza as causas da opressão social.

A teodiceia da prosperidade neopentecostal é, em alto grau, uma religiosidade “afirmativa do mundo” – ao contrário de sua negação, como acontece na religiosidade ética. Como corolário, temos a liberalização dos costumes e do apelo ao consumo material. A principal novidade do neopentecostalismo é sua inversão da “negação do mundo” pentecostal clássica em uma decidida “afirmação do mundo” por conta do maior peso do componente mágico e pragmático. O sucesso do neopentecostalismo tem contribuído para influenciar todo o mercado religioso pentecostal. A própria competição pelo controle de meios de comunicação de massas, entre as diversas denominações, traz uma urgência econômica que tende a ser suprida com os dízimos e ofertas em dinheiro.

O que de fato singulariza a Igreja Universal é a exacerbação de uma luta cósmica dualista entre Deus e o diabo pelo domínio da humanidade. Uma guerra, portanto. Pelo menos quatro características principais derivam dessa luta: 1) o embate não é apenas espiritual, mas prático, envolvendo a dimensão sociopolítica e a tentativa de dominar o mundo social segundo seus preceitos, por meio da influência na política partidária e pelo proselitismo nos meios de comunicação de massa; 2) o rompimento com a salvação extramundana e seu ascetismo e rejeição do mundo, tendo como substituta a teodiceia de afirmação e dominação do mundo. Ao contrário da resignação, os neopentecostais são triunfalistas e intervencionistas; 3) como consequência lógica dessa inversão de perspectivas, temos a criação da teologia da prosperidade para o gozo do dinheiro e dos prazeres mundanos; 4) e, como corolário, a ideia de que o serviço a Deus é mediado pelo pagamento em dinheiro: o dízimo – por óbvio – mas sobretudo “ofertas” em profusão.

Notas:

[1]. Leonildo Silveira Campos, “As origens norte-americanas do pentecostalismo brasileiro”,2005.

[2]. Ibidem.

[3]. Ibidem.

[4]. Ricardo Mariano, Neopentecostais, 1999.

[5]. Ibidem.

[6]. Ibidem



(O pobre de direita)



(Ilustração: Templo de Salomão em São Paulo, inaugurado em 31.7.2014; foto da internet,  sem indicação de autoria)

quinta-feira, 6 de março de 2025

MON HUMBLE AMI / MEU HUMILDE AMIGO, de Francis Jammes





Mon humble ami, mon chien fidèle, tu es mort

de cette mort que tu fuyais comme une guêpe

lorsque tu te cachais sous la table. Ta tête

s’est dirigée vers moi à l’heure brève et morne.



Ô compagnon banal de l’homme: être béni!

toi que nourrit la faim que ton maître partage,

toi qui accompagnas dans leur pèlerinage

l’archange Raphaël et le jeune Tobie...



Ô serviteur: que tu me sois d’un grand exemple,

ô toi qui m’as aimé ainsi qu’un saint son Dieu!

Le mystère de ton obscure intelligence

vit dans un paradis innocent et joyeux.



Ah! faites, mon Dieu, si Vous me donnez la grâce

de Vous voir face à face aux jours d’Éternité,

faites qu’un pauvre chien contemple face à face

celui qui fut son dieu parmi l’humanité.





Tradução de Manuel Bandeira :



Meu cão fiel, humilde amigo, sucumbiste

Sob a mesa, fugindo à morte como à vespa

Tu fugias em vida. Ali tua cabeça

Voltaste para mim no passo breve e triste.



Companheiro banal do homem, tu que em teus dias

No que falta ao teu dono achas o que te baste,

Ó ser bendito que a jornada acompanhaste

Do arcanjo Rafael e do jovem Tobias...



Tal como um santo ama ao seu Deus, num grande exemplo

Amaste-me também, ó servo verdadeiro!

O mistério de tua obscura inteligência

Vive num paraíso inocente e fagueiro.



Ah se de vós, meu Deus, a graça eu alcançasse

De face a face vos olhar na eternidade,

Fazei que um pobre cão contemple face a face

Quem para ele foi um deus na humanidade.



(L’Église Habillée de Feuilles / A Igreja Coberta de Folhas: 1906 ; Poemas Traduzidos, 1956)



(Ilustração: Antonio Rotta - un uomo ed il suo cane)

segunda-feira, 3 de março de 2025

IGREJAS NEOPENTECOSTAIS AMEAÇAM DEMOCRACIA NA AMÉRICA LATINA, de José Ospina-Valencia






A luta das igrejas neopentecostais na América Latina é uma luta pelos pobres: por sua consciência, por suas carteiras e por seus votos. Seu êxito se deve também ao fracasso da Igreja católica em atender às necessidades de milhões que buscam apoio num mundo cada vez mais frustrante e sem aparente futuro. E a história de abusos sexuais do dogma católico deixou, além disso, um rastro de repúdio em vários países e contribuiu para a erosão de um poder passado.

Assim, os mais necessitados são recrutados por pastores protestantes que se autodenominam "cristãos" e que, com frequência, têm mais espírito comercial que religioso.

Apesar de o movimento pentecostal ter sido criado em 1906 nos Estados Unidos, são as novas seitas e igrejas fundadas na mesma América Latina as responsáveis pelo auge que ameaça não somente a supremacia da Igreja católica como os princípios democráticos.

Um movimento que parece germinar especialmente no Brasil, na Colômbia, no México, no Peru, na República Dominicana e na Venezuela. No Brasil, haveria 42,3 milhões de fiéis, equivalentes a 22,2% da população. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cada ano abrem no país 14 mil novas igrejas neopentecostais.

Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, considerado pela revista Forbes "o pastor mais rico do Brasil", é proprietário da Record, a segunda rede de televisão mais importante do país. Seu tema favorito: a moral.

O caso da Costa Rica é exemplar: bastou que o pastor e cantor Fabricio Alvarado, candidato à presidência, rechaçasse vociferante o chamado da Corte Interamericana de Direitos Humanos para respeitar os direitos da comunidade LGBTI para que ganhasse o primeiro turno da eleição.

Na Venezuela, por seu lado, milhões não viram outra saída senão refugiar-se em igrejas com nomes como "Pare de sofrer". Já a Guatemala é governada por um humorista e pastor evangélico, Jimmy Morales, que é contra o aborto, recusa o casamento homoafetivo e tem mais receitas contra as minorias do que soluções para a corrupção galopante.

Por todo o continente, há também "casos de superação" de pastores que saíram da pobreza abrindo uma igreja em garagens e que rapidamente se transformam num "exemplo de êxito" com estrambóticos templos e um poder econômico e político inusitados.

O caso de María Piraquive, que deixou de ser costureira num bairro operário de Bogotá, e que com sua Igreja de Deus Ministerial de Jesus Cristo Internacional (Idmji) construiu, desde 1972, um império multimilionário com propriedades em vários países, e a criação de um partido político, são símbolos desse ímpeto. Hoje, a igreja de Piraquive tem cerca de mil sedes em mais de 50 países e até representações em sete Estados federados da Alemanha.

É assustador é que muitos desses pastores tenham tanto êxito com ideias excludentes e um discurso de ódio. Em suas pregações, Piraquive descarta que pessoas com deficiência física possam assumir a veiculação da "palavra de Deus". Uma postura discriminatória em todos os países latino-americanos, que, pelas suas Constituições, se definem como pluralistas e laicos, fundados sobre o respeito e a dignidade humana, e garantidores da liberdade de expressão e de culto.

Paradoxalmente, apesar de essas sociedades terem avançado cultural e economicamente, também graças ao princípio liberal e protestante de que "os pensamentos são livres", o movimento neopentecostal ataca o Estado de opinião. O radicalismo de suas ideias contra as conquistas dessas sociedades abertas, como a abolição da pena de morte, a autodeterminação da mulher e o respeito aos direitos das minorias é difamado como uma suposta "ideologia de gênero" que pretende destruir a família e a moral.

Seus votos fizeram pesar a balança para o lado da recusa do acordo de paz na Colômbia em 2016. Acabar com uma guerra fratricida para salvar vidas pareceu pesar menos que o princípio de retaliação "olho por olho, dente por dente".

E, enquanto as escolas e universidades na América Latina têm de pagar impostos prediais, as igrejas estão isentas de qualquer contribuição, pelo menos na Colômbia, onde até 2017 havia 750 colégios públicos – contra 3.500 igrejas neopentecostais. A recepção diária de dízimos forma a base do poder econômico, convertido em poder político, que, graças a uma agenda moralizadora, está conquistando a política na América Latina.

O teólogo alemão e pastor luterano Thomas Gandow adverte que muitos pregadores neopentecostais atentam contra o espírito do mesmo protestantismo que defendem, que não pode ser expressado com fanatismo, "porque o espírito do protesto não pode ser outro senão o da liberdade". O resto é retrocesso.



(Tradução de Letácio Jansen; 2018)



(Ilustração: sentado em um trono de fogo, Satanás devora uma alma danada, detalhe de mosaicos do século XIII que adornam o Batistério de Florença, Itália)