terça-feira, 20 de janeiro de 2026
SAUDAÇÃO PARA O FUTURO, de Kurt Tucholsky
sábado, 17 de janeiro de 2026
CANÇÃO DO AMOR LIVRE, de Jacinta Passos
Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.
Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.
Se me quiseres amar.
Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.
Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.
(Ilustração: Gerda Wegener: 1886-1940 - Lili Elbe)
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
O SEXO DA VOVÓ, de André Caramuru Aubert
domingo, 11 de janeiro de 2026
MANUAL DE DESPEDIDA PARA MULHERES SENSÍVEIS, de Filipa Leal
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.
É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.
(Vem à Quinta-feira; 2016)
(Ilustração: Yana Khliebnikova – Invisível)
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
POR QUE LER?, de Harold Bloom
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
SEGREDO, de Fernando Pinto do Amaral
Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.
(Às Cegas)
(Ilustração: Johannes Vermeer de Delft - Girl with a Pearl Earring)
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
COLINAS COMO ELEFANTES BRANCOS, de Ernest Hemingway
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
PROBLEMAS METAFÍSICOS, de Érica Zíngano
1.
A Galinha anda mais em alta
do que o Ovo
na disputa pela liderança
do ranking
de quem veio antes
do quê
“O Ovo voltou a ficar atrás
da Galinha”, divulgou
há alguns dias
uma pesquisa inglesa
da Universidade de Sheffield
Como a casca do Ovo
é composta por uma proteína
(ovocledidin-17ou OC-17)
encontrada nos ovários
das Galinhas
ficou comprovado
AS GALINHAS VIERAM PRIMEIRO
Um super computador
apelidado pelos seus de HECToR
foi utilizado para acompanhar
as etapas de formação
da casca do Ovo:
os pesquisadores puderam, então,
constatar a presença da OC-17
logo no início do processo
Essa proteína é responsável
pela transformação
do carbonato de cálcio
em cristais de calcita
- elementos que compõem
a casa do Ovo -
O Dr. Colin Freeman
do Departamento de Engenharia
de Materiais, declarou
“há muito tempo se suspeitava de que
o Ovo tivesse vindo primeiro
mas agora
temos a prova científica de que
na verdade
a Galinha foi a precursora”
2.
Em contrapartida
o Ovo é relançado
no mercado
em nova versão
anuncia a propaganda
em meia página
de jornal
OVO LIGHT®
do branco
ao caipira
do pé duro
ao de granja
agora o Ovo
também é light
A tecnologia
a favor
da saúde
do consumidor:
Ovo transgênico
Ovo transfigurado
Ovo industrializado
genético
& genuinamente
transformado
para você
não mais se preocupar
com os altos índices
de colesterol
Coma sem culpa
nada mais de problemas
cardiológicos
as calorias foram reduzidas
a mais da metade
porque agora o Ovo é outro
O sabor não muda nada
c-o-n-t-i-n-u-a-i-g-u-a-l
(GENIAL)
Experimente você também
e sinta sua vida se tornar
mais leve, mais diet
muito mais
OVO LIGHT®
(Ilustração : Odilon Redon - The Egg)
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
O BILHETE DO VIZINHO DO FBI, Miranda July
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
CANCIÓN DEL ESPOSO A SU AMADA /CANÇÃO DO ESPOSO PARA A AMADA, de Eunice Odio
1.
Asomada a mi pecho
Tatuada en él como la edad
y el daño.
Como una suave grey de colinas
cuyo rumbo retorna con el alba,
Habla mi amada
con su amor que tiene
apenas pecho diurno y voz descalza.
A mi sombra
se bordearon de pulpa sus caderas.
Por mí arrea con sus pechos
el ganado del alba,
Y la tarde a su paso se quebranta,
como de junco herido
y laurel entornado.
Párpados transitados
de nieve y mediodía,
Pozo donde mi boca
desmedida resbala
como torrente de paloma
y sal humedecida.
– Sobre los muslos te pusieron
racimos de ira y vocación de besos.
Yo haré que de tus muslos
bajen manojos de agua,
y entrecortada espuma,
y rebaños secretos.
Ven,
Amada.
Los árboles
todos tienen tu cándida estatura,
y tu párpado caído,
y tu gesto mojado,
Edificio de alondras
habitado de climas
donde legisla el sol
sobre viñedos de oro.
A tu sombra
me encontrarán los pájaros salvajes.
Tu voz de aire caído
entre cuatro azucenas,
desfilará en mi oído
como acude la tarde.
Ven,
te probaré con alegría.
Tú soñarás conmigo
esta noche.
Tradução
de Luiza Nilo Nunes:
Caída no meu peito
Tatuada no meu peito como a idade
e o desastre.
Como uma frágil irmandade de colinas
norteadas pela manhã,
Fala a minha amada
com seu amor que mal
tem peito diurno e voz descalça.
À minha sombra
as suas ancas rodearam-se de pomos.
Para mim ela aparelha com seus seios
o gado da manhã,
E quebra-se o poente à sua passagem,
como de junco ferido
e loureiro derrubado.
Pálpebras transitadas
de neve e meio-dia,
Tanque onde se afoga
a minha boca profunda
como correntes de pombas
e sal humedecido.
– Sobre as coxas puseram-te
cachos de cólera e vocação de beijos.
De tuas coxas farei
descer cardumes de água,
e espuma interrompida,
e secretos rebanhos.
Vem,
Amada.
Todas as árvores
têm tua cândida altura,
e tua pálpebra descida,
e teu gesto molhado,
Prédio de cotovias
habitado por febres
onde ministra o sol
sobre vinhedos de ouro.
À tua sombra
hão de encontrar-me os pássaros selvagens.
Tua voz de melancólico sopro
entre quatro açucenas,
soará em meus ouvidos
como o chamado da tarde.
Vem,
provar-te-ei com alegria.
Tu sonharás comigo
esta noite.
(Os
elementos terrestres e outros poemas, 2020).
(Ilustração: Frida Castelli)

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