quinta-feira, 8 de outubro de 2015

AUTOCRÍTICA, de André Caramuru Aubert



eu sempre sonhei escrever um poema longo, imponente e épico, nem que não   fosse, vá lá, como a Odisseia, a Divina Comédia, os Lusíadas, o Eugene Onegin ou, ainda, o Fausto. Mas que quando alguém lesse pudesse dizer, ah, este moço se inspirou no Cobra Norato, ou nos Cantos, ou no Waste Land, talvez Patterson, quem sabe no Poema Sujo, ou ainda na Morte e Vida Severina, nas Dream Songs, ou no The Morning of the Poems.

eu também pretendi compor poemas como as canções tão lindas que os brasileiros criam, poemas que saíssem leves e líricos, falando de  barquinhos que vão e vêm, de pegar trens azuis e de lugares onde o imperador fez xixi.

e teve uma época em que eu queria, como os poetas concretos, usar tesoura, cola e xerox e formar quadrados, círculos labirínticos e imagens de efeito com as letras e as palavras, mas

depois desisti, embora nunca tenha abandonado o desejo de saber redigir poemas meio surrealistas, meio vagos e pouco claros até mesmo para mim, tão na moda, tão em uso, daqueles que são mais ou menos desse jeito: pássaros voam, rios de fogo / a boneca estraçalhada / asfalto / luz /o que há? a moça pálida atravessa a rua, o velho / o que há? a vida / de dentro do buraco o bueiro me olha nos olhos /meus dentes apodrecem e  caem / o sobrevoo.

no fim das contas, o que eu gostaria mesmo era de poder escrever poemas que   impressionassem as pessoas, que as comovessem e as deixassem sem fôlego; que as levassem a rir de tristeza e a chorar de alegria; que fossem o sinônimo da arte em sua mais pura realização; e que, o mais importante,        fizessem com que os homens (sofridamente) me invejassem, e as mulheres (ardentemente) me  desejassem...

ah, eu queria tanta coisa! nada disso, porém, eu consigo; limitado que sou, só   faço poemas sobre os meus fantasmas, e os danados teimam em ser simples,concisos, piegas e até (fazer o quê?) meio sem graça.

que pena.



(Ilustração: Ceri Richard - pastoralle)



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