sexta-feira, 27 de março de 2015

STELA DO PATROCÍNIO, de Valter Hugo Mãe





     

Perguntei a uma vendedora se me ajudava a descobrir o livro da Stela do Patrocínio. Ficou confusa. Achava que se tratava de uma figura da política. Eu expliquei que não. Foi uma mulher institucionalizada que, em delírio constante, dizia as coisas mais desconcertantes. A vendedora exclamou. Um livro de uma louca, dizia ela. E repetiu: você quer o livro de uma louca. Como se eu também já não estivesse bom da cabeça. Quando um rapaz, com ar de chefe, se aproximou, a vendedora mudou de atitude e disse: as pessoas dementeis falam coisificações impressionantes. São de fascínio. De morrer de fascinamento porque são muito honestas, igual criança.

Stela do Patrocínio passou trinta anos em hospícios. Nasceu a 1941 e morreu a 1997. Durante os anos 1980, uma artista plástica filmou o seu discurso espontâneo num pasmo gigante por encontrar tal fonte bruta de poesia. Uma filosofia selvagem, desordenada e desconcertante, incrivelmente abundante, caracterizava o que Stela dizia, como: "Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas / Fazer cabeça, pensar em alguma coisa / Ser útil, inteligente, ser raciocínio / Não tinha onde tirar nada disso / Eu era espaço vazio puro."

O livro que recolhe a poesia de Stela do Patrocínio levou o título de Reino dos Bichos e dos Animais É o Meu Nome. Não saio do Brasil sem ele. Depois que o vício pelo maravilhoso Bispo do Rosário se satisfez um pouco, fiquei com a vontade de prestar atenção a fenómenos de bizarria criativa que o Brasil parece esconder em grande quantidade. Há alguma coisa na arte que não quis conscientemente ser arte que se torna profundamente revelador. Como se os artistas propriamente ditos procurassem apenas merecer a bênção da genuinidade que define o Bispo ou a Stela, ou, no caso português, alguém como António Gancho.

"Não trabalho com o pensamento nem com a inteligência. Mas também não uso a ignorância", dizia Stela. Nesta fórmula, ela levanta a equação fundamental da criação. Nas artes, existirão os que a entendem e os que estarão sempre trancados do lado meramente técnico das capacidades ou dos talentos.

Olhei bem para a vendedora com a expectativa de que ela fosse a reencarnação esdrúxula e trabalhadeira da autora maravilhosa e visionária. Mas o choque do chefe foi tão fulminante que, a partir dali, a moça retraiu-se, nem encontrou o livro. Eu perguntei: e não terá outra edição qualquer que recolha escritos de pessoas dementeis? Ela respondeu: eu saio agora, senhor, não saberia responder a esse problema. Estou esgotada. A cabeça não quer ser cabeça.

Sim, acho que encontrei uma reencarnação da Stela. Fiquei orgulhoso de mim. Não trouxe o livro. Trouxe o privilégio de ter falado com ela. Queria ter-lhe dado um abraço.



(Ilustração:  Stela do Patrocínio)



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