quarta-feira, 1 de julho de 2015

SANGUE RUIM, de Arthur Rimbaud





De meus antepassados gauleses tenho o olho azul e branco, e a falta de jeito na luta. Julgo minhas vestes tão bárbaras quanto as suas. Mas não unto meus cabelos.

Os gauleses eram os esfoladores de animais, os queimadores de ervas mais incapazes de seu tempo.

Deles, herdei: a idolatria e o amor ao sacrilégio; — todos os vícios, cólera, luxúria — magnífica, a luxúria — e sobretudo a mentira e a preguiça.

Tenho horror a todos os ofícios. Patrões e operários, todos campônios, ignóbeis. A mão que escreve é a mesma que lavra. — Que século de mãos! — Jamais terei mão. Além do mais, a domesticidade leva muito longe. A honestidade dos mendigos me exaspera. Os criminosos me repugnam como os castrados: quanto a mim, estou intacto, e isso pouco me importa.

Mas quem fez minha língua assim pérfida, a ponto de fazê-la guiar e proteger minha preguiça? Sem servir-me nem mesmo do meu corpo para viver, e mais ocioso que o sapo, vivi em todas as partes. Não há uma só família da Europa que eu não conheça. — Quer dizer, famílias como a minha, que tudo devem à Declaração dos Direitos do Homem. — Conheci cada filho de família!

Tivesse eu antecedentes num ponto qualquer da história da França!

Mas não, nada.

É para mim evidente que sempre fui raça inferior. Não posso compreender a revolta. Minha raça não se sublevou nunca senão para pilhar: como os lobos ao animal que não mataram.

Evoco a história da França, filha mais velha da Igreja. Vilão, teria feito a viagem à terra santa; tenho na memória caminhos das planícies suávias, paisagens de Bizâncio, muralhas de Solima; o culto de Maria, a ternura pelo crucificado despertando em mim em meio a mil magias profanas. — Sentei-me, leproso, sobre os vasos quebrados e urtigas, ao pé de um muro carcomido pelo sol. — Mais tarde, cavaleiro, teria dormido sob as noites de Alemanha.

E mais ainda: danço o sabá numa clareira rubra, com velhas e crianças.

Nada recordo além desta terra e do cristianismo. Jamais findaria de rever-me nesse passado. Mas sempre só; sem família; além do mais, que língua falaria? Jamais me vejo nos conselhos do Cristo; tampouco nos conselhos dos Senhores, — representantes do Cristo.

Embora houvesse estado no século anterior: só hoje torno a encontrar-me. Não mais vagabundos, nem guerras incertas. A raça inferior cobriu tudo — o povo, como se diz, a razão, a nação e a ciência.

A ciência! Tudo foi recomeçado. Para o corpo e a alma, — o viático, — têm-se a medicina e a filosofia, — os remédios das comadres e as canções populares arranjadas. E as diversões dos príncipes e os jogos que eles proibiam! Geografia, cosmografia, mecânica, química!...

A ciência, a nova nobreza! O progresso. O mundo marcha! Porque não haveria de girar?

É a visão dos números. Dirigimo-nos ao Espírito. É certo, é oráculo, o que digo. Eu compreendo, e não sabendo explicar-me sem palavras pagãs, preferiria calar-me.

O sangue pagão retorna! O Espírito está perto, porque Cristo não me ajuda, dando à minha alma nobreza e liberdade? Enfim! o Evangelho passou! O Evangelho! O Evangelho.

Espero Deus com gula. Sou de uma raça inferior desde toda eternidade.



(Uma Temporada no Inferno; tradução de Paulo Hecker Filho)



(Ilustração: Francisco de Goya y Lucientes - Witche's Sabbath)


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