terça-feira, 5 de agosto de 2014

SEGUNDA CARTA, de Albino Forjaz de Sampaio






Foi em Dostoiewsky que eu encontrei um dia esta frase: "No fundo de cada um dos nossos contemporâneos residem latentes os instintos dum carrasco!"

Não tens tu encontrado, ó caricato, nas tuas horas de angústia, somente semblantes frios, corações empedernidos e ouvidos cerrados? Quantas vezes perguntaste onde estavam a Bondade humana, a justiça humana? Quem te respondeu? Inútil pergunta.

Ninguém.

Deus? Onde estava Deus?

Deus não é deste mundo! E cada dia que passa me convenço mais que nele só canalhas existem. Quem sou eu? Um canalha. Quem és tu? Um canalha.

Todos nós disfarçamos os piores instintos. Inútil mascarada, se todos nos conhecemos bem.

Tenho ouvido mais juras sem fé do que de minutos tem um século.

Tenho visto mais traições, mais egoísmos e mais crimes que de mortos tem a eternidade ou de beijos tem levado o corpo duma prostituta que envelheceu no ofício.

Filhas do homem, mães do homem, foi para ele que todas essas mulheres se prostituíram; que elas dançam cancãs infames e sofrem abandalhamentos sem nome.

O seu corpo, onde todos bolçam o seu quinhão de infâmia é como os mármores divinos dos museus, toda a gente lá vai pousar o olhar. Tem alguma coisa duma sentina ou dum confessionário.

Elas é que sabem por quanto se compra um riso. Quanto império, quanta vontade não é preciso para no meio duma carícia não cuspirem a cara dum canalha. "Filhinho, filhinho..." e aquele pedaço de belo lixo rebusca frases, prepara gozos requentados, pedidos sem cerimónia, como se eu lhes arremessasse à cara uma baforada de fumo de cigarro ou lhes salpicasse o rosto com o meu hálito cheio de lama.

Elas ali são minhas, muito minhas. Paguei-as à hora como a corrida dos cocheiros. E o gozo, o gozo brutal, o gozo Deus, fere-me a retina, fricciona-me a epiderme, abraça-me, deslumbra-me e puxa-me para si com seus pulsos de aço como uma amante no cio.

O vício tem recantos como uma cidade à noite.

A quantos já teria pertencido aquilo? Quem seriam? Tateio. "A carne, essa coisa brutal cheia de veias, de nervos, tendões, glândulas e ossos, cheia de instintos e misérias; a carne que sua e cheira mal; que se desforma, se infecta, se ulcera, se cobre de gelhas, de pústulas, verrugas e pêlos" (G. D'annunzio), é mole, viscosa, flácida.

Parece moída. Quantos a terão beijado? Quantos a terão acariciado? Quantos lhe terão batido, quantos?

O pobre corpo nu corre a roda toda como um copo numa bodega, amarrota-se, enlameia-se. Toca-me a vez: os mesmos abraços que dei a minha mãe dou-os agora a esta. Isto é lógico.

Vender o corpo é melhor do que vender a alma, mas vender a alma e o corpo como seria bom!

Mulheres honradas? Ah! tu crês em mulheres honradas e homens bons? És parvo. Todo o homem atraiçoa e toda a mulher falseia. Todos mentem. Mentira é o céu, o inferno é mentira. É mentira Deus, é mentira o Bem, o Amor e a humanidade.

Em que acredito eu? No crime e no dinheiro. O crime é Deus, o dinheiro é Deus, e de ambos o dinheiro é maior. É por dinheiro que se compram almas, por dinheiro é que as mulheres se vendem. Quantas almas não conterá um saco de dobrões, quantas? A quantos corpos não poderia ele fazer despir?

Por dinheiro tudo se compra. As bênçãos das santas e o crânio dos heróis, a camisa de dormir da tua noiva e o rosário do teu confessor. Ciganas e écuyères, saltimbancos e mendigos, fidalgos e aguardente, trapaceiros e sacerdotes, coveiros e apóstolos, santos e famintos, sultanas e cadelas, bobos e cortesãs, escravos e libertos, tudo isto é da sua corte. O próprio Deus, o próprio céu rende-se, quando se lhe mostra um punhado de oiro.

E como o dinheiro ri! Tu nunca ouviste o dinheiro rir? Despeja um saco de oiro e ouvirás uma gargalhada. O som do oiro que se choca é o seu riso, e esse riso a quantos não despedaça a alma?!

Quero que mates teu irmão, que dispas tua irmã na praça pública, que esbofeteies tua mãe. Chego-me a ti e digo-te: oiro, terás muito oiro, um grande deboche de oiro se o fizeres. E tu não resistirás, eu sei-o.

Uma prostituta não é ninguém. Aquela que se dá aos marujos e aos ladrões, à noite, nos recantos, levando-lhes a sua carne para que eles se saciem, vale tanto como a que se dá ao ministro, e a que é cortesã do Papa. A vida das primeiras é mais suada.

Como elas devem odiar as mães.

Pobres mulheres? É uma como qualquer outra. A da esfregadeira, e da mulher a dias, a da amortalhadeira não pesa mais, não custa mais?

Aquilo rende, aquilo inda dá muito dinheiro.

Por que não trabalham? É boa! Então quem me havia de aturar a mim, a ti, a todo o mundo, a todos os canalhas? Quem, não me dirás? Tua irmã? Tua mãe?
O crime é um negócio, a Vida uma escravatura. A alma é escrava do crime, a carne é escrava do gozo.

Morrem? Que temos nós com isso? Todos nós temos que morrer. Quem se lembra duma prostituta que morre? Os corpos perdem-se na terra e no esquecimento como as blasfêmias se perdem no ar.

A vida é uma grande cama onde existe sempre a plena orgia da carne. Lá passam as noites uma rameira abraçada a um poeta, um bêbado no peito duma marquesa que empobreceu. É o panteão ignorado dessa carne infame que o homem chicoteou com beijos. E não sei, como de cada um, assim amassado em lágrimas, não floriu uma chaga, tanta peçonha e amargura eles continham. É a sarjeta onde se escoa a lama da Vida, para onde a terra baba a nata da podridão.

A vida é feita de lodo e os homens do pó do crime. Tudo é lama e toda a lama é igual. A que salpica uma toilette de seda e a que traça constelações nos trapos das mendigas. As almas são de lama, as rosas são de lama, os lírios são de lama, como as estrelas, como as hóstias, como os mortos, como os vivos. Há a lama vestida de pérolas e a vestida de escrófulas, a lama toucada de sedas e cetins e a vestida de crostas e farrapos.

Mas é tudo a mesma impureza, tudo a mesma podridão. Tão impuras são as vestes de Messalina como a escova de dentes da Gauthier, as ligas de Agripina como a cama de Rigolbeche, e tudo isto como o manto da Imaculada Conceição.

A diferença que vai daquele bandalho, que passa de chapéu alto, àquele malandro, que pisca os olhos e pede esmola, não é nenhuma. Pura convenção. Se tu fosses buscar uma rameira de hospital e a toucasses de sedas ela arranjaria corte.

Viriam a seus pés os famintos, as rascoas, os interesseiros, os honrados, os banqueiros, o mundo todo.

Que me importa que a imagem desta libra seja a duma rainha ou a duma prostituta se com ela eu posso comprá-las ambas?

Tudo é dor. A dor é igual. Senti-la maior ou menos é diferença dos nervos que a sentem, como a grandeza dos que a veem: A dor é egoísta como o mundo. A dor da mãe que perdeu o filho é egoísta. São os lamentos pela felicidade que perdeu. Como a da águia a quem roubaram os ovos, como a do avaro a quem roubaram um dobrão, como a da Virgem a quem roubaram Jesus.

Tu já leste os Homens do Mar, de Vítor Hugo? Recordas-te da pieuvre? A dor é a pieuvre. Enlaça os corpos, as almas, suga-as, bebe-as em vida. A alguns deixa somente o esqueleto.

A águia que rói os fígados a Prometeu não é outra senão a Dor. Bendita seja a Dor que tiraniza e leva ao crime.

Tudo mentira, tudo ilusão. Quem sabe lá vida quanta podridão levedou para dar uma rosa, para abrir um malmequer, e para florir uma chaga? Que as chagas o que são senão rubras e esquisitas flores?

Abre um crânio e vê se distingues a alma de Dante da alma de Caim, a de Inocêncio III da do galego da esquina.

Quem distinguirá lá em baixo no ventre da terra a carne de Impéria da carne de Chénier, a ossada de Gilbert da ossada de Ravachol?

O rosto que ri não é o mesmo que chora? A boca que canta e ri não é a mesma que ameaça e insulta, que suspira, que geme e que reza? Os olhos não vêem Deus e o Diabo? As almas não servem a ambos, atraiçoando ambos?

Vê quanto pus encerra esta palavra: Amor! Tu crês no Amor? Na Amizade? No teu semelhante?

É preferível ver um cano de esgoto em toda a sua porcaria a uma alma em toda a sua intimidade. Há almas cuja treva é maior que a noite, consciências cuja lama é maior que a de todos os pântanos da terra.

Cada homem dissimula em si um trágico carnaval. Murger disse algures que a Vida era "uma máscara de forçados". E se pudesses fazer cair a máscara que cada um afivela recuarias de terror.

À face da terra o homem não tem feito senão mal. Foi ele quem inventou os tronos e os altares, que fez a Verdade e a Mentira. Que inventou o canalha que governa e o que sofre e sua até morrer, que inventou a guilhotina e a glória, o deboche e o dinheiro.

Sobre cada ventre pesa uma maldição, sobre cada berço pesa uma agonia.

Há mães que à hora da morte amaldiçoam a sua obra. Benditos os que amaldiçoam. O ventre das mães é o embrião do crime. Barregãs que o desejo ensandeceu deviam ser rompidas pelo ventre como o Senhor prometeu às prenhadas dos povos pecadores. Que seja maldito o ventre de todas as mães.

Filhos fecundados em plena bebedeira, que bateis nas mães, que cuspis em Deus, que quebrais os santos e rasgais as páginas balofas dos missais, vede se na morte não sois iguais aos justos, se todos não são iguais na morte.

Benditos sejam pois os matricidas, benditos sejam os homicidas, os perversos, os malditos. Bendito seja Orestes que violou a mãe, Amon que desflorou a irmã, Myrra que teve incesto com o pai.

Benditas sejam as mães que matam os filhos, o irmão que mata o irmão, o canalha que mata o canalha.

Benditos os que matam porque eles semeiam a felicidade.

Há caveiras que riem bêbadas de riso, outras que cerram os dentes duma grande raiva. Nunca reparaste?

Enchi-te de desolação e abandono. Que eu exagero? Mas isto ainda é pouco. A torpeza da vida não caberia em mil volumes como este. Que eu exagero?! Que eu Exagero?! Patife, tu bem sabes que eu digo a verdade.

Já viste quanto cômico há na vida trágica e quanto trágico há na vida cômica? Há risos que são mais tristes que a tocha dum gato-pingado, lágrima que, por mais que se queira, fazem sempre soltar gargalhadas.

As lágrimas choradas e que a terra tem bebido há 6.000 anos que o mundo é mundo davam um novo dilúvio capaz de afogar o mundo todo. A luz do sol tem visto mais podridões que o mármore duma casa de autópsias.

O que é a vida? Não sei. Eu tenho visto nela muita torpeza e muita lama. Sê mau, ouves? Sê mau. Tens que ser muito mau que a "terra vive do mal".

Às vezes sinto-me fatigado de só o ter sido mediocremente.

Ah! Eu nunca poderia vir a ser um Nero! E Nero que incendiou Roma não é bem maior do que S. Francisco de Assis? Incendiar uma cidade é bom, mas incendiar o mundo? Incendiar o mundo, ó gentes? Que grande obra para um caricaturista! A lama a não querer morrer, a fugir do braseiro...

Nesta hora, pensa, quanta sinceridade não haveria... no egoísmo do salvamento. Que de crimes essa última hora não conteria!

E o fogo, o fogo enorme, lambendo tudo, triturando tudo, por entre o rir das labaredas até que a terra desfeita em cinza, como um bando enorme de andorinhas, voasse pelo espaço através dos séculos.


(Palavras cínicas)



(Ilustração: Danny Quirk - anatomic selfdissections)

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