quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

GRANDE SEGREDO, de Jorge de Sena






                                         Alli me mostrarias
                                         aquello que mi alma pretendia (...)

                                         JUAN DE LA CRUZ - Cântico Espiritual
     


Fechou a porta da cela atrás de si, e ficou parada, encostada à porta, sentindo a madeira dura na nuca, através do véu. A luz da lamparina no oratório bruxuleava lenta, às vezes crepitante, e espalhava uma claridade a que ela reconhecia, mais que via, a mesa junto da janela com os livros pousados, e o genuflexório, e o catre de tábuas, e as lajes carcomidas. Sabia perfeitamente o que a esperava. Sentira nitidamente, ao levantar-se da ceia, e depois, na igreja, durante as orações, que mais uma vez ia sofrer a visita... Como o corpo se recusava a despegar-se da porta, para ficar desamparado na cela, assim também, mentalmente, as palavras se recusavam a nomear o horror que a esperava. Tremia: a pele, como a memória, retraía-se num palpitar ansioso, de que as mãos já se levantavam num gesto de repulsa. Era superior às suas forças tudo aquilo; não suportava mais. Apetecia-lhe gritar por socorro, rebolar no chão, fugir pelos corredores e pelo campo fora. Tudo seria preferível. Mil vezes ser assaltada por mendigos e leprosos, mil vezes ser violada brutalmente por soldados e bandidos, mil vezes ser vendida como escrava. Mil vezes a repetição de tudo isso que, na sua pregressa vida, conhecera. Mil vezes viver a desgraça que essa vida fora, antes de, como um refúgio enfim conseguido à custa de tanta miséria, se abrirem na sua frente, e se fecharem sobre ela, as portas do mosteiro. Quando, enfim, entrara nele, também como agora se encostara à porta, não a despedir-se do mundo, mas a sentir que tudo ficara lá fora, e ela renasceria, teria finalmente a ressurreição da sua vida que o peso de uma pedra imensa, que era o seu destino, não permitia que surgisse e caminhasse. Mas, ali dentro, e dentro da ressurreição, esperava-a o horror inominável de ser eleita, de ser visitada, de ser mais do que é possível.

Abanou a um lado e outro a cabeça. Não. Não. Por piedade, não. As dores medonhas que sofrera ao ser possuída com violência por um monstro de dimensões incríveis, nada eram a comparar com o que nestes momentos, sucedia no seu espírito. E, no entanto, a semelhança era muita, era tanta, era de mais.

Quando o clarão começou a surgir entre a janela e o oratório, cerrou os olhos, escorregou ao longo da porta, agarrou no rosário e percorreu as contas que lhe fugiram. Não era uma tentação que repelia assim; mas era, como bem sabia, um esforço para que o céu se contentasse com as relações espirituais de uma oração. Todavia, tudo no seu corpo aflito lhe afirmava que seria inútil. O clarão aumentou, como sempre, e, como sempre, mesmo de olhos fechados ela via o perfume da imensidade luminosa que suprimia as paredes da cela e a envolvia numa ternura tépida que lhe doía na medula dos ossos. Também a música, suavíssima, lhe doía assim; e, no entanto, essa música, que, sem ouvir, sentia, não se misturava à claridade, era antes um acompanhamento, um fundo sobre que a luz se tornava mais aberta e mais imensa. Não tardariam as vozes que lhe apertariam todos os recantos do corpo, como tenazes ardentes, ou como lábios, ventosas, línguas.

Num esforço doloroso, abriu os olhos. A claridade enchia a cela toda, e o catre, o oratório, os livros, o genuflexório, a mesa, as portadas da janela, a própria lamparina, tudo flutuava numa ondulação cadenciada, num torvelinho sem peso, e navegava como de velas pandas, e esteiras rebrilhantes sussurravam de todas as coisas como ao longo do casco de um navio.

Agora eram o hábito e o véu, o cilício que trazia à cinta, e o rosário, que, devagarinho, levantavam voo e entravam na sarabanda macia. A brutalidade sufocante e dilacerante penetrava-a já, enquanto o desfalecimento lhe triturava as vísceras e os ossos, Tudo nela se abria e despedaçava, eram milhares de agulhas que a picavam, facas que a rasgavam, colunas que a enchiam, cataratas que a afogavam, chamas que ardiam sobre águas luminosas, cantantes, e pousavam como fogos-fátuos pelo corpo dela.

Crispando-se numa última recusa, mas ao mesmo tempo cedendo para que aquilo acabasse, inundou-se de uma ardência cristalina, que se esvaía no seu âmago, lá onde a Presença, enchendo-a, martelava os limites dissolvidos da carne. A luz atingiu um brilho insuportável, a música atroava tudo, sentiu-se viscosamente banhada de clamores e apelos que lhe mordiam... E, na treva e no silêncio súbitos, sentiu, nas costas, na nuca e nas pernas, a dureza violenta e fria das lajes em que, do ar, caíra.

Abriu os olhos na escuridão. O corpo dorido e descomposto, o frio e a lamparina que ardia bruxuleante, recordaram-lhe que entrara na cela, mas, com veemência, horror, revoltada humildade, não recordou mais nada. Deixou-se ficar estendida, saboreando uma incomodidade que era exaurido repouso. E começou a ouvir o murmúrio das rezas, a voz da madre abadessa, sussurros que se destacavam e reconhecia.

Leves pancadas soaram na porta, o fecho estalou, e a madre e mais duas entraram recortadas no clarão difuso que vinha do corredor, onde as rezas continuavam. Viu-lhes os hábitos junto do rosto, e as pregas subiam a sumir-se no escuro. Tinham vindo, como sempre, escutar, enciumentas dos favores que acumulavam, apiedadas do sofrimento que lhe cabia em sorte, atraídas e atemorizadas, rezando para a ajudarem e também para participarem daquele clarão sonoro que extravasava pelas frinchas da porta. Quando assim se curvavam para ela, e a levantavam, e carinhosamente a deitavam no catre, e ficavam de joelhos, enchendo a cela e o corredor, rezando com ela, não imaginariam a vergonha imensa que a torturava, ora diversa, ora igual à que sentira quando o emir, no meio da tenda, mandara que a despissem e os soldados, uns após outros, a possuíssem em público. Ela recusara fazer parte, como primeira esposa, do harém, e ele, que a estimava e preferia, e a comprara aos piratas e a trouxera com requintes de delicadeza, mandara que os eunucos a estendessem no divã e a segurassem.

Deitada no catre, de olhos fechados, apagou da memória todas as recordações. Sentia-se descer lentamente, num poço sombrio e úmido, sem fundo. Nem a presença delas, nem as vozes delas, nada podiam contra a solidão e o silêncio. Era este o momento que, afinal, mais temia. Era nestes momentos que, bem sabia, ela consentia na visita próxima, cedia antecipadamente ao apelo e à luz, quando viessem. No dia seguinte, pela madrugada, após um sono pétreo, tudo teria passado. As outras irmãs cruzariam por ela, saudando-a com deferência, trocando ou tentando trocar um olhar comovido, um sorriso amável. A abadessa chamá-la-ia para conversar de coisas correntes, de notícias dos exércitos e dos parentes, dos combates em Jerusalém, e do Santo Sepulcro. E subitamente, na cela, no claustro, no jardim, na adega, quando estivesse só, amanhã mesmo, daqui a um mês, de dia ou de noite, tudo se repetia e recomeçava. É certo que, por mais que fizesse, ocasiões havia em que se afastavam dela as outras, a deixavam só, como se a propiciarem a repetição de acontecimentos que eram honra do convento. E grandes senhores ou pobres mendigos vinham para tentar vê-la, através das grades do coro, ou pediam para que ela os tocasse. A abadessa arrastá-la-ia, de olhos fechados, pegar-lhe-ia na mão, que enfiaria pelas grades, e ela sentiria que lhe choravam nela e lha babavam de beijos. A própria abadessa, trazendo-a em silêncio de volta ao claustro, lhe limparia a mão.

Recolheu sobre o seio a mão que pendia para fora do catre, e agora lhe beijavam. Suspirou. Dentro dos olhos fechados, viu o crucifixo que havia na igreja da sua terra natal, lá longe, há tanto tempo, nos confins da Europa. Foi uma surpresa esquisita que a percorreu trémula da cabeça aos pés. Nunca mais o revira, nem o recordara sem o rever, nem sequer no espírito lhe passara a lembrança, não reconhecida de lembrar-se dele. A imagem sorria para ela, e então ela, menina olhando em volta para verificar se estava só, erguera a mão para o cendal que o cingia, e tentara levantá-lo para espreitar. Porque ele não podia deixar de ser como os outros homens. Mas o cendal, que parecia de tão fina e leve seda, era esculpido na madeira, e ela baixara tristemente a mão, sentindo que a curiosidade lhe fora castigada.

Abriu os olhos, e viu que estava só. Uma paz, uma tranquilidade, uma saciedade que não estava nela, mas no ar que a rodeava, deslaçavam-lhe as derradeiras crispações do corpo contuso. Ainda, mas muito distantes, sentia dores dispersas, ou localizadas onde a violência fora maior. Mas o bem-estar era enorme e contraiu-lhe  os lábios num sorriso. O grande segredo, agora sabia o grande segredo. E adormeceu.

O clarão recomeçou a encher a cela, mas não aumentou mais, nem ressoava. Antes ficou em torno dela, como um dossel, uma atenta e vigilante ternura, que, debruçada sobre ela, a contemplasse, tão dorida e apagada, a respirar tranquila.



                                                    Araraquara, 2 de Setembro de 1961


(Novas Andanças do Demónio; Antologia do Conto Português - organização, prefácio e notas de João de Melo)   



(Ilustração: Felicien Rops - calvary)



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