terça-feira, 18 de agosto de 2015

A MOÇA DO CABELO AZUL, de Roberto Drummond






 Leitor contumaz e costumeiro da coluna de Marcelo Rios, meu anti-stress das manhãs, deparo, oh, sim, deparo com a fotografia da moça do cabelo azul. É uma bela moça, de nome Maria Antônia Calmon, e vê-la na fotografia de um mago do "click", Lincoln Continentino, melhora o astral.

Ah, leitores, diante da foto da moça de cabelo azul, eu vos digo: Belo Horizonte tem jeito, Minas tem jeito, o Brasil tem jeito, a América do Sul tem jeito.

Revogam-se queixas e lamúrias, solidões e pessimismos, que Maria Antônia Calmon exibe sua cabeleira azul — que nada tem a ver, suponho e espero, com paixão clubística.

Otimismo, irmãos!

Da moça do cabelo azul eu me transfiro para o noticiário sobre os sem-casa de Betim. Fico pensando no tempo em que cheguei a Belo Horizonte. Alberico Souza já era bravo militante político da União Colegial de Estudantes. Naquela época — há de recordar-se de outro líder estudantil de então, João Bosco Murta Lages — Belo Horizonte não tinha uma moça de cabelo azul, e nem em suas vizinhanças, os sem-casa de Betim.

Pergunto a Wilson Frade, que viveu a época:

— Ali pelos anos 50 ou 60, circulava pelos salões e pela noite elegante uma moça de cabelo azul?

A resposta há de ser não. Como não existiam jornais a cores, mesmo que Ângela Diniz ou Lilian Sônia (duas lembranças queridas) quisessem usar perucas coloridas, a fotografia delas apareceria nas colunas com uma tonalidade, quando muito, cor de cinza. De qualquer forma, para quem, como este escrevinhador de quimeras, veio acompanhando o exercício da liberdade em Belo Horizonte e adjacências, é muito bom ver Maria Antônia Calmon com o cabelo azul.

A liberdade, minhas irmãs, é muito mais complicada e, muitas vezes, moça do cabelo azul, é a sua bandeira.

Mas o que dizer dos sem-casa de Betim, que se apresentam, mexicanamente, zapatistamente, encapuzados? Tal como o cabelo de Maria Antônia Calmon, eles são o sinal da liberdade?

Pois eu custo dizer: sim.

Poderia ficar calado, mas eu penso, como diria Milton Campos, que os sem-casa, os sem-terra, os sem-esperança, não são um caso de polícia. Antes de mandar a polícia, é preciso conversar.

Alguém dirá:

— Mas os sem pertencem a uma perigosa facção que segue os ensinamentos de Stalin e de Mao, e estavam treinando guerrilha no Serro.

Ora, desde a Revolução Cubana que existe uma Sierra Maestra no coração do mundo, e, em particular, no coração da América Latina. Eu mesmo já escrevi a respeito em meu romance "Hilda Furacão" (e setenta e seis milhões de brasileiros viram as cenas na minissérie na Globo), já treinei guerrilha em Belo Horizonte. Já quis transformar a Serra do Curral em Sierra Maestra.

Pensar em guerrilha é uma doença infantil do esquerdismo. Longe de mim apoiar invasões. Longe de mim apoiar guerrilhas. Mas, não vamos nos esquecer que mataram dois sem-casa de Betim. Até aqui eles são vítimas. Querer transformá-los em vilões é desviar o assunto, é querer esquecer que dois sem-casa foram assassinados. Invoco o governador Milton Campos, que era udenista e conservador: ele preferiu mandar o trem pagador, em vez da polícia, para acabar com a greve dos ferroviários da Rede Mineira de Viação em Divinópolis. É preciso saber conviver com o cabelo azul de Maria Antônia Calmon e com os encapuzados de Betim, pois tanto um quanto os outros são um sinal dos novos tempos.



(Jornal Hoje em Dia -06/05/99 )




(Ilustração: Picasso - Blue Nude)



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