sexta-feira, 6 de novembro de 2009

AS RAPARIGAS LÁ DE CASA, de Emanuel Félix

Como eu amei as raparigas lá de casa
discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da umidade da terra
do leite acabado de ordenhar
(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-me
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa

(Habitação das Chuvas)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

FALAÇÃO, de Oswald de Andrade

O Cabralismo. A civilização dos
donatários. A Querência e a Exportação.

O Carnaval. O Sertão e a Favela.
Pau-Brasil. Bárbaro e nosso.

A formação étnica rica. A riqueza vegetal.
O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e
a dança.

Toda a história da Penetração e a história
comercial da América. Pau-Brasil.

Conta a fatalidade do primeiro branco
aportado e dominando diplomaticamente
as selvas selvagens. Citando Virgílio para
tupiniquins. O bacharel.

País de dores anônimas. De doutores
anônimos. Sociedade de náufragos
eruditos.

Donde a nunca exportação de poesia. A
poesia emaranhada na cultura. Nos cipós
das metrificações.

Século XX. Um estouro nos
aprendimentos. Os homens que sabiam
tudo se deformaram como babéis de
borracha. Rebentaram de
enciclopedismo.

A poesia para os poetas. Alegria da
ignorância que descobre. Pedr'Álvares.

Uma sugestão de Blaise Cendrars: —
Tendes as locomotivas cheias, ides partir.
Um negro gira a manivela do desvio
rotativo em que estais. O menor descuido
vos fará partir na direção oposta ao vosso
destino.

Contra o gabinetismo, a palmilhação dos
climas.

A língua sem arcaísmos. Sem erudição.
Natural e neológica. A contribuição
milionária de todos os erros.

Passara-se do naturalismo à pirogravura
doméstica e à kodak excursionista.

Todas as meninas prendadas. Virtuoses
de piano de manivela.

As procissões saíram do bojo das fábricas.

Foi preciso desmanchar. A deformação
através do impressionismo e do símbolo.
O lirismo em folha. A apresentação dos
materiais.

A coincidência da primeira construção
brasileira no movimento de reconstrução
geral. Poesia Pau-Brasil.

Contra a argúcia naturalista, a síntese.
Contra a cópia, a invenção e a surpresa.

Uma perspectiva de outra ordem que a
visual. O correspondente ao milagre físico
em arte. Estrelas fechadas nos negativos
fotográficos.

E a sábia preguiça solar. A reza. A
energia silenciosa. A hospitalidade.

Bárbaros, pitorescos e crédulos.
Pau-Brasil. A floresta e a escola. A
cozinha, o minério e a dança. A
vegetação. Pau-Brasil.



(Poesias Reunidas)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

AS CIDADES E A MEMÓRIA, de Ítalo Calvino

1. Partindo dali e caminhando por três dias em direção ao levante, encontra-se Diomira, cidade com sessenta cúpulas de prata, estátuas de bronze de todos os deuses, ruas lajeadas de estanho, um teatro de cristal, um galo de outro que canta todas as manhãs no alto de uma torre. Todas essas belezas o viajante já conhece por tê-las visto em outras cidades, Mas a peculiaridade desta é que quem chega numa noite de setembro, quando os dias se tornam mais curtos e as lâmpadas multicoloridas se acendem juntas nas portas das tabernas, e de um terraço ouve-se a voz de uma mulher que grita: uh!, é levado a invejar aqueles que imaginam ter vivido u ma noite igual a esta e que na ocasião se sentiram felizes.
2. O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade. Finalmente, chega a Isidora, cidade onde os palácios têm escadas em caracol incrustadas de caracóis marinhos, onde se fabricam à perfeição binóculos e violinos, onde quando um estrangeiro está incerto entre duas mulheres sempre encontra uma terceira, onde as brigas de galo se degeneram em lutas sanguinosas entre os apostadores. Ele pensava em todas essas coisas quando desejava uma cidade. Isidora, portanto, é a cidade de seus sonhos, com uma diferença. A cidade sonhada o possuía jovem; em Isidora, chega em idade avançada. Na praça, há o murinho dos velhos que veem a juventude passar; ele está sentado ao lado deles. Os desejos agora são recordações.
3. Inutilmente, magnânimo Kublai, tentarei descrever a cidade de Zaíra dos altos bastiões. Poderia falar de quantos degraus são feitas as ruas em forma de escada, da circunferência dos arcos dos pórticos, de quais lâminas de zinco são recobertos os tetos; mas sei que seria o mesmo que não dizer nada. A cidade não é feita disso, mas das relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos do passado: a distância do solo até um lampião e os pés pendentes de um usurpador enforcado; o fio esticado do lampião à balaustrada em frente e os festões que empavesavam o percurso do cortejo nupcial da rainha; a altura daquela balaustrada e o salto do adúltero que foge de madrugada; a inclinação de um canal que escoa a água das chuvas e o passo majestoso de um gato que se introduz numa janela; a linha de tiro da canhoneira que surge inesperadamente atrás do cabo e a bomba que destrói o canal; os rasgos nas redes de pesca e os três velhos remendando as redes que, sentados no molhe, contam pela milésima vez a história da canhoneira do usurpador, que dizem ser o filho ilegítimo da rainha, abandonado de cueiro ali sobre o molhe.
A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.

(As Cidades Invisíveis, tradução de Diogo Mainardi)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

PRAIA DO ENCONTRO, de David Mourão Ferreira

Esta imaginação de sal e duna,
inquieta e movediça como areia,
ergue, isolada, a praia, mais a espuma
que sereia nenhuma
saboreia...

Quisesses tomar tu este veleiro,
que em secreto estaleiro construí,
sem velas, sem cordame, sem madeira
- mas branco!, e todo inteiro
para ti...

Brilha uma luz de morte sobre o porto
saído mesmo agora da memória...
Ali estarei, à tua espera, morto,
ou vivo em minha morte
transitória...

Combinado. Que eu juro não faltar!
Contrário de Tristão, renascerei,
se pressentir, aérea, sobre o mar,
a sombra singular
do barco que te dei.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A ERA DAS FORÇAS HYDRAULICAS, de O Cruzeiro de 10 de novembro de 1928

(Preservou-se a grafia original).

Anno 2000.
A população do Brasil attingiu 200 milhões de pessoas a precisarem de energia para as suas multiplas actividades: compreende-se como essa necessidade levou ao aproveitamento das forças hydraulicas. Lentamente, medrosamente, a principio, essa utilização de energia se foi, depois, aos poucos accelerando. No anno 2000 já estão longe os tempos em que ainda se importavam carvão e petroleo! Esses recursos primitivos, condemnados pelo progresso da technica, foram desapparecendo, passando a constituir apenas uma recordação historica.
Os 50 milhões de cavallos-vapor de energia hydro-electrica, utilizados no Brasil, no anno 2000, equivalendo ao trabalho mecanico de 600 milhões de homens, a população brasileira, do ponto de vista energetico, é então computavel em 800 milhões. Nessas condições, não admira que sejam enfrentados e convenientemente resolvidos os problemas da producção. As questões nacionaes são, então, estudadas por gente competente, tendo acabado, ha muito, a influencia dos politicos profissionaes. A Natureza, dia a dia dominada, é cada vez mais perfeitamente aproveitada. A luta do homem para o progresso passou a ser travada especialmente nos laboratorios de pesquisa. Ahi é que perscrutam, pacientemente, os segredos da Natureza, e dahi é que saem os processos, cada vez mais aperfeiçoados, de dominio da energia cosmica. Como estamos longe dos tempos em que nem havia Universidade no Brasil, a não ser umas instituições de fachada, formadas por escolas exclusivamente para ensino profissional, e onde a pesquisa scientifica não se podia fazer!
Todas as actividades industriaes foram avassaladas pela energia electrica. São as industrias electro-chimicas, num desdobramento maravilhoso; é a electro-metallurgia; é, ainda, a energia para tudo. As distancias desappareceram, por assim dizer, desde que se resolveu o problema de irradiação da energia.
Lembram-se todos como começou a ser resolvida essa questão. Foi, a principio, a radio-telephonia, logo seguida da radio-photographia. Pouco depois, irradiava-se energia pra fins industriaes, e os motores electricos com energia irradiada se installaram em todos os vehiculos: bondes, trens, automoveis, aeroplanos, navios; e em todas as fabricas; e em todos os logares onde a energia se faz precisa. O problema da distribuição da energia passou, desde então, a ser uma questão definitivamente resolvida.
Transformara-se, com isso, a vida, que Nietzsche affirmou ser, essencialmente, uma aspiração á maior somma de poder, numa vontade que permanece, intima e profunda, em todo ser vivo. A luta pela existencia, pelo poder, pela preponderancia, com a nova forma de distribuição de energia passara a ser uma luta pela posse da energia electrica. A importancia dos povos se alterara, sendo regida a sua classificação pelo valor das reservas em forças hydraulicas.
É assim que o 1° lugar passara a ser da Africa, com os seus 190 milhões de cavallos-vapor hydro-electricos. Em 2° logar vinha a Asia, com 71 milhões. A America do Norte, com 62 milhões, ficara em 3° logar, e a America do Sul em 4° logar, com 60 milhoes de cavallos-vapor hydro-electricos, dos quase 50 cabendo ao Brasil. A Europa, com 45 milhões de cavallos, ficara tendo atrás de si unicamente a Oceania, com 17 milhões.
Cabia agora o dominio aos povos que dispunham de maior somma de energia hydro-electrica. Passara o tempo do imperialismo do carvão e do petroleo, e chegara a era da energia electrica. Os 445 milhões de cavallos-vapor, em que se orçara a energia total das forças hydraulicas da Terra, passaram a regular decisivamente a importancia relativa das 5 partes do mundo.
Ainda ha, no anno 2000, philosophos a indagarem se o progresso existe, affirmando que o que interessa não é poder ser enviado o pensamento á volta da terra, em alguns segundos, mas sim saber se esse pensamento é melhor, mais profundamente humano, mais justo. A vida, em todo caso, mudou completamente. Melhor? Peor? - É difficil sabe-lo. Mas, seguramente, é differente.
É a era da electricidade.
A differença entre a vida de então e a dos anteriores é alguma coisa como a differença hoje existente entre a vida das grandes cidades e a do campo. O ambiente é outro. Outra é a organização da vida. Cada vez o homem se afasta mais da Natureza. Primeiro, liberta-se do dia e da noite. A luz artifical permitte-lhe a vida nocturna absolutamente igual á do dia; a luz solar não é mais reguladora dos habitos quotidianos. A vida em grandes aglomerações vae, aos poucos, deixando em todos os habitos a sua marca. As facilidades augmentam para tudo e os multiplos actos da vida se vão, lentamente mas constantemente, adaptando á nova ordem das coisas. O tempo se distribue de outro modo, e os affazeres são outros. Outros são, tambem, os divertimentos. Insensivelmente, as differenças se vão accentuando.
As viagens e os proprios passeios diminuiram muito, desde que, sem sair de casa, pode-se ver o que ha em qualquer parte da Terra: a televisão, juntada á telephonia, modificou radicalmente os habitos. Não ha necessidade de sair para fazer compras: vê-se, escolhe-se, encommenda-se tupo pelo telephone-televisor automatico. Não ha mais necessidade de viajar, para ver terras longinquas: é só ligar o receptor, e visita-se, commodamente, qualquer museu, ou qualquer paiz. Sómente os objectos devem ser transportados.
Na era da electricidade o rei dos metaes é o aluminio, retirado das argilas pela energia electrica. O aluminio supplantou, com as suas ligas, o ferro, pesado demais e facilmente oxydavel, e ainda substitui o papel, tão facilmente deterioravel. De aluminio são os livros. É em folhas de aluminio que se escreve.
A era da electricidade se caracteriza, essencialmente, pelo emprego da electricidade em todas as formas de energia. Energia luminosa: tudo se iluminna electricamente. Energia chimica: tudo deriva da electricidade. Energia thermica: tudo se aquece ou se resfria pela electricidade. Energia mecanica: tudo se movimenta pela electricidade.
Servindo para tudo, a energia electrica passa a ser a nova moeda. O ouro e as suas representações são formas obsoletas de medir valores. A moeda, no anno 2000, é, tambem, a energia electrica. Pagam-se as compras em kilowatts. Paga-se o trabalho en kilowatts.
A revolução trazida é principalmente nos habitos. Continúa a haver desigualdades sociaes. Ha ricos, possuidores de milhões de killowatts-horas, remediados, que têm alguns milhares de unidades de energia; e pobres, que dispõem apenas de algumas unidades. É verdade que não ha mais fome, desde a adopção do trabalho obrigatorio minimo, nas usinas distribuidoras de energia. Mas as questões sociaes continuam.
Muitos pretendem estender o dominio da actividade industrial do Estado. Parece-lhes insufficiente o monopolio governamental das usinas geradoras e distribuidoras de energia. Começou a questão a proposito da regularização do clima. Uma vez reservada para o Estado a faculdade de provocar as chuvas pela energia irradiada ás nuvens, determinando-lhes a condensação, pareceu a muitos que se deveriam ampliar ainda mais as horas de trabalho obrigatorio minimo, servir-se-ia melhor a colectividade minima do trabalho. Só haveria vantagens nisso. Objectam, porém, alguns ser o caso das usinas de energia, evidentemente, especial.
Da mesma forma, o da distribuição das chuvas, vantajosamente affecto ás autoridades, para beneficio geral. A Repartição das Chuvas, dispondo de todo o serviço official de estatistica, e em connexão com os demais repartições do Ministerio da Agricultura, é uma organização que se resolveu dever ser do Estado. Ampliar, porém, ainda mais os serviços governamentaes, numa socialização progressiva de todas as actividades, não merece as sympathias de um grupo numeroso. Já todos os homens e todas as mulheres, maiores de 18 annos, são obrigados a um serviço diario de 2 horas. Breve serão 3 horas. Onde se irá para nesse caminho? Invocam-se contra as idéias de socialização os velhos principios da liberdade individual. A questão está, assim, longe de ser resolvida
. . . . .
Sonho? - Sim. Mas o sonho de hoje poderá ser, amanhã, realidade. Sabe-se lá até onde nos levará a evolução que hoje se processa tão acceleradamente? Como será a vida no anno 2000?

domingo, 1 de novembro de 2009

FILHOS, de Khalil Gibran

Teus filhos não são teus filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de ti mas não de ti e, embora vivam contigo, não te pertencem.
Podes outorgar-lhes teu amor, mas não teus pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podes abrigar seus corpos, mas não suas almas; pois suas almas moram na mansão do amanhã, que tu não podes visitar nem mesmo em sonhos.
Podes esforçar-te para ser como eles, mas não procures fazê-los como tu.
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Tu és o arco do qual teus filhos são arremessados como flechas vivas.
Que teu encurvamento na mão do arqueiro seja tua alegria.

sábado, 31 de outubro de 2009

O AMIGO DO ZÉ DAS MOÇAS, de José Carlos Sibila Barbosa

Eu não podia dizer que era o meu amigo Zé das Moças quem eu estava vendo ali. Mas que era ele, ah isso lá era. Mas que eu podia dizer que era ele, ah isso lá eu não podia.

Fiquei na dúvida. Se eu digo que era, a cidade inteira vai dizer que eu estou ficando louco, porque eu não posso ter visto que não pode ser visto. Se eu digo que não era, quem vai achar que eu estou ficando louco sou eu mesmo, pois tenho certeza que eu vi que não pode ser visto.

O fantasma, que quando vivo era conhecido por Zé das Moças e era tido como o biruta do lugarejo, conversou comigo e até me falou do seu maior amigo, um canivete que um dia ele ganhou da mulher mais bela do mundo. E o seu mundo era apenas aquele lugar onde nasceu, cresceu, endoidou e morreu.

Nem um único pé para fora dos limites do local o Zé das Moças jamais andou. O que esse defunto biruta me falou, vou deixar para ele mesmo contar, pois, se eu mesmo conto, vão dizer que o biruta sou eu. Na verdade o que eu queria saber do morto que não posso dizer que vi, mas não posso negar ter visto, eu fui logo perguntando.
- Ô Zé, porque em vida você nunca largou os eu canivete amigo?

A resposta me causou mais espanto que a visão do morto, pois que era pura poesia. Poesia que ele não tinha na palavra da vida, mas tinha na vida do morto:

- Este é o meu amigo mais útil – falou-me o fantasma, abrindo as muitas lâminas do seu amigo canivete – Com ele eu divido minhas angústias, vivo momentos de paz... É o companheiro da minha solidão... Um amigo útil... Na verdade a minha primeira intenção foi de explorar esse meu amigão. Então era ele quem dava as primeiras lambidas na laranja azeda à beira do caminho. Frente ao aço duro da tampa da cerveja gelada, era ele que se esforçava no trabalho de liberar o loiro líquido da minha paixão. E se a cana se anunciava bruta, seu Chico, são os seus dentes e não os meus que mais do que depressa a executam... Ah! E se mais valia esse canivete não tem, ainda lhe sobra aquela que vale mais vintém, pois quando eu vejo a bela donzela, é ele que desinibe a minha timidez ao oferecer à cortejada os serviços afiados da tesoura de unhas... Ah! Como era útil esse meu grande amigo... Ele continua funcionando e bem, mas agora não é mais um amigo útil. É apenas amigo.

Dito isso o Zé das Moças desapareceu. Não o vi mais. Nem ele, nem o seu canivete.

Mas se contar esse estranho encontro não posso, e negar que vi seria uma mentira, vou pelo menos imitar o Zé e comprar também um canivete e contarei tudo para ele, chupando laranja azeda à beira do caminho, tomando uma geladinha ou mordendo uma cana. Quem sabe assim eu também encontre a minha donzela para contar minhas estórias.

(Criaturas)