terça-feira, 20 de janeiro de 2026

SAUDAÇÃO PARA O FUTURO, de Kurt Tucholsky




Caro leitor de 1985,

Por um acaso qualquer te meteste na biblioteca, encontras meu livro Mona Lisa, te surpreendes e lês. Bom dia!

Estou muito embaraçado: usas um terno cujo estilo difere completamente do de minha época; diversa também é a forma como vestes teu cérebro… Já tentei começar três vezes, cada vez com um assunto novo, tem de haver uma ponte entre nós… Toda vez que tento, tenho de desistir — não nos entendemos de jeito nenhum. Sou pequeno demais; estou com minha época até o pescoço; mal dou uma olhada no altímetro do tempo… Vês? já sabia: ris de mim.

Tudo em minha pessoa te parece antiquado: minha maneira de escrever, minha gramática, minha postura… Ah! Não me dês tapinhas nos ombros, não gosto disso. Em vão tento te dizer como vivíamos, como eram as coisas… pra nada. Sorris, a minha voz ressoa do passado, impotente. Tu sabes tudo, e melhor. Devo te contar sobre o que excita as pessoas em minha aldeia do tempo? Sobre Genebra? Sobre a estreia de Shaw? Sobre Thomas Mann? Sobre a televisão? Sobre uma ilha de aço no meio do oceano, servindo de base aérea? Sobre tudo isso tu sopras, e a poeira sobe tão alto que não consegues ver mais nada.

Devo te fazer encômios? Não consigo. É óbvio que vocês não resolveram a questão da “Sociedade das Nações ou Paneuropa?”. As questões não são resolvidas pela humanidade, mas apenas deixadas de lado. Claro que, para o dia a dia, tendes a vosso dispor trezentas máquinas inúteis a mais do que já temos, mas, no final das contas, vocês são exatamente como nós, nem mais burros nem mais inteligentes. O que sobrou de nós? Não busques tão fundo na memória, no que aprendeste na escola. O que sobrou, foi por acaso: aquilo que, de tão neutro, chegou até vós. Do que era realmente grande restou, talvez, a metade. Mas ninguém mais se interessa por isso — quem sabe numa manhã de domingo, um pouquinho, no museu. É como se hoje eu tivesse de conversar com um homem da Guerra dos Trinta Anos: “E então? Tudo bem? Ventou muito no cerco a Magdeburg?”, coisas que se dizem em situações assim.

Eu não posso sequer travar contigo uma conversa mais elevada, acima da média de meus contemporâneos, como diz a canção: porque sois um progressista, como eu. Ah, meu caro: também és um homem de teu tempo. Na melhor das hipóteses, quando digo “Bismarck” e tu tens de fazer força para te lembrares quem foi, já sorrio satisfeito comigo mesmo: não és capaz de imaginar quão orgulhosamente as pessoas à minha volta estão convencidas da imortalidade dele… Bem, deixemos isso pra lá. Além do mais, agora quereis ir tomar o café da manhã.

Bom dia. Este papel já está bem amarelado, amarelado como os dentes de nossos juízes de segunda instância. Vês, agora se esfarela a folha por entre os dedos… claro, de tão velho. Vás com Deus, ou como quer que o chameis. Não temos muito o que dizer um ao outro, nós, os medíocres. Estamos mortos, e aquilo que nos preenchia se foi junto. Tudo era forma.

Sim, ainda quero dar-te a mão. Por civilidade.

Agora vás.

Porém, ainda quero te dizer isso: não sois melhores que nós nem melhores que os que nos antecederam. Não sois nem um pouco diferente de nós, em absoluto…



Nota:

(“Gruss nach vorn” foi originalmente publicado em: Kurt Tucholsky. Das Lächeln der Mona Lisa. Berlin: Rowohlt, 1929, pp. 133-135.)



Tradução de Sérgio da Mata.



(Ilustração: Dorr Bothwell - time portals series)

sábado, 17 de janeiro de 2026

CANÇÃO DO AMOR LIVRE, de Jacinta Passos

 


Se me quiseres amar

não despe somente a roupa.

 

Eu digo: também a crosta

feita de escamas de pedra

e limo dentro de ti,

pelo sangue recebida

tecida

de medo e ganância má.

Ar de pântano diário

nos pulmões.

Raiz de gestos legais

e limbo do homem só

numa ilha.

 

Eu digo: também a crosta

essa que a classe gerou

vil, tirânica, escamenta.

 

Se me quiseres amar.

 

Agora teu corpo é fruto.

Peixe e pássaro, cabelos

de fogo e cobre. Madeira

e água deslizante, fuga

ai rija

cintura de potro bravo.

Teu corpo.

 

Relâmpago depois repouso

sem memória, noturno.

 

(Ilustração: Gerda Wegener: 1886-1940 - Lili Elbe)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O SEXO DA VOVÓ, de André Caramuru Aubert

 


No interior do Brasil nasciam os quatro rios do Jardim do Éden de Adão e Eva e, como cantou o filho Chico com as lições que aprendeu do pai, Sérgio, não havia pecado do lado de baixo do Equador. O mundo repressor e reprimido cristão só lambia, então, a beira da praia. Não entrava terra adentro. Lá bem longe, embrenhando-se mata adentro, corria a história, havia uma terra generosa em riquezas, prazeres e eterna juventude. Nem um nem dois, foram muitos os europeus que, fugindo da repressão, sumiram no sertão, morrendo ou virando “índios”. A ilusão, porém, não haveria de durar. A cultura da cana, a descoberta do ouro e a consequente extensão dos braços do Estado escravista e da Igreja para os interiores da terra carregou junto os olhos punitivos dos padres e dos soldados. O Brasil que era o Éden, o paraíso na Terra, ficou cada vez mais distante, restrito ao folclore, ao Carnaval, aos anúncios do Ministério do Turismo. O prazer ficou lá longe, ora longe no espaço, ora longe no tempo.

Num mundo que foi ficando cada vez mais repressor e reprimido, nos acostumamos a ver o prazer real com desconfiança e a cultivar uma ideia abstrata de prazer inalcançável, porque distante e irreal. O melhor lugar do mundo, você já ouviu muitas vezes, nunca é o aqui e agora. É aquela nostalgia típica dos mais velhos, que não se cansam de repetir como eram melhores as coisas no tempo deles, mesmo que no tempo deles não achassem as coisas tão boas assim. Uma nostalgia, de qualquer forma, com um razoável poder de contaminação, e acabamos acreditando, muitas vezes, que o amor antes era mais verdadeiro, os relacionamentos mais duradouros, o sexo mais intenso, que o LP era melhor que o MP3. Será que as coisas “antes”, “lá longe”, eram mesmo melhores? Será que um tempo em que as mulheres eram obrigadas a casar virgens era melhor que hoje? É curioso como convivem, lado a lado, como as duas faces da mesma moeda fatalista, as ideias de que as coisas sempre melhoram e a ideia de que elas sempre pioram. Nem uma coisa nem outra, a verdade é que as coisas mudam.

A sexualidade e os prazeres a ela ligados, por exemplo, foram muito mais livres até o século 18 do que no século 19 e primeira metade do 20 quando, como escreveu Michel Foucault, foram aprisionados no cárcere privado do matrimônio burguês. A partir daí, especialmente após os anos 60, voltaram a ser gradativamente liberados. Ou seja, é difícil negar que a nossa vida sexual é melhor que a dos nossos avós. O que também não quer dizer grande coisa, pois a vida sexual de nossos avós foi das piores de todos os tempos. E não há garantias de que daqui para a frente as coisas irão automaticamente evoluir; a história não acabou, nunca andou em linha reta e não vai fazer isso agora.

Como hoje, em todas as épocas conviveram as forças da repressão e da liberação. Os olhares severos e vigilantes dos padres e dos soldados do rei podem ter sido trocados pela visão científica e politicamente correta dos médicos e dos policiais do colesterol, do cigarro e do bafômetro, mas o fato é que hoje, como antes, há sempre alguém dizendo a você o que pode e o que não pode, o que é prazer lícito e saudável e o que não é. E também, como sempre, tem gente que não se conforma e continua a procurar os quatro rios do Éden do prazer sem pecados, só que agora não se entra mais sertão adentro para isso (até porque hoje no sertão só há soja, gado, cana e Brasília). E como agora pelo menos a diversidade é respeitada, os quatro rios do Éden podem estar, para alguns, no Nepal, na ioga e no sexo tântrico. Para outros, numa conexão de internet rápida levando a um intenso, real e verdadeiro sexo virtual. Para outros, ainda... bem, você pegou a ideia.



(Revista Trip, 2009)


(Ilustração : Quinten Massijs - L'inegalité du mariage 1525-1530)

domingo, 11 de janeiro de 2026

MANUAL DE DESPEDIDA PARA MULHERES SENSÍVEIS, de Filipa Leal




Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,

não chorar para não enfraquecer o emigrante,

mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,

dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas

com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala

que não pode levar mais de vinte quilos

(quanto pesará o coração dele? e o meu?),

três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,

oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia

e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,

ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda

(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),

pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,

pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas

e mesmo assim não chorar, nunca chorar,

mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,

tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,

uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,

apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,

mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,

que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também

os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas

até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,

com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,

e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,

cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,

cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.



É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.

Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Mas que não chore.



(Vem à Quinta-feira; 2016)



(Ilustração: Yana Khliebnikova – Invisível)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

POR QUE LER?, de Harold Bloom

 


Caso pretenda desenvolver a capacidade de formar opiniões críticas e chegar a avaliações pessoais, o ser humano precisará continuar a ler por iniciativa própria. Como ler (se o faz de maneira proficiente ou não) e o que ler não dependerá, inteiramente, da vontade do leitor, mas o porquê da leitura deve ser a satisfação de interesses pessoais. Seja apenas por divertimento ou com algum objetivo específico, em dado momento, passamos a ler apressadamente. Os indivíduos que, por iniciativa própria, leem a Bíblia, talvez constituam exemplos mais evidentes de leitura com objetivo específico do que os leitores de Shakespeare; no entanto, a busca é a mesma. Uma das funções da leitura é nos preparar para uma transformação, e a transformação final tem caráter universal.

Considero aqui a leitura como hábito pessoal, e não como prática educativa. A maneira como lemos hoje, quando o fazemos sozinhos, manifesta uma relação contínua com o passado, a despeito da leitura atualmente praticada nas academias. Meu leitor ideal (e herói preferido) é Samuel Johnson, que bem conhecia e tão bem expressou as vantagens e desvantagens da leitura constante. Conforme qualquer outra atividade mental, a leitura, para Johnson, devia atender a uma preocupação central, ou seja, algo que “nos diz respeito, e que nos é útil”. Sir Francis Bacon, gestor de algumas das ideias postas em prática por Johnson, ofereceu o célebre conselho: “Não leia com o intuito de contradizer ou refutar, nem para acreditar ou concordar, tampouco para ter o que conversar, mas para refletir e avaliar”. A Bacon e Johnson, eu acrescentaria um terceiro sábio da leitura, inimigo ferrenho da História e de todos os Historicismos, Emerson, que afirmou: “Os melhores livros levam-nos à convicção de que a natureza que escreveu é a mesma que lê”. Proponho uma fusão de Bacon, Johnson e Emerson, uma fórmula de leitura: encontrar algo que nos diga respeito, que possa ser utilizado como base para avaliar, refletir, que pareça ser fruto de uma natureza semelhante à nossa, e que seja livre da tirania do tempo. Falando concretamente, antes de mais nada, busquemos Shakespeare, e deixemo-nos por ele ser encontrados. Para que Rei Lear nos “encontre” é preciso refletir e avaliar até que ponto a natureza da peça é como a nossa, até que ponto a peça nos diz respeito. Não considero tal posicionamento idealista, mas pragmático. Fazer uso da tragédia, basicamente, como uma denúncia do patriarcado é trair interesses cruciais, especialmente no caso de jovens leitoras, afirmação que parece bem mais irônica do que de fato o é. Shakespeare, mais do que Sófocles, é a autoridade máxima no que concerne ao conflito de gerações, e, com mais autoridade do que qualquer outro autor, fala das diferenças entre homem e mulher. Se nos mantivermos abertos a uma leitura plena de Rei Lear, compreenderemos melhor as origens do que julgamos ser o patriarcado.

Bacon, Johnson e Emerson concordam que, em última análise, lemos para fortalecer o ego, para tomar ciência dos autênticos interesses do ego. Trata-se de um crescimento que nos proporciona prazer, e, talvez, por isso os valores estéticos sejam sempre depreciados por moralistas, de Platão até os puritanos que hoje atuam em nossas universidades. Sem dúvida, o prazer da leitura é pessoal, não social. Não se consegue melhorar — diretamente — as condições de vida de alguém apenas tornando-o um leitor mais competente. Sou cético com relação à expectativa tradicional de que o bem-estar social possa ser promovido a partir do aumento da capacidade de imaginação das pessoas, e desconfio de qualquer argumentação que associe o prazer da leitura solitária ao bem público.

É lamentável que na leitura de caráter profissional raramente tenhamos a oportunidade de resgatar o prazer que a referida atividade nos trazia na juventude, quando livros despertavam o entusiasmo de que falava Hazlitt. Hoje em dia, a maneira como lemos depende, em parte, da distância em que nos encontramos das universidades, onde a leitura não é ensinada como algo que proporciona prazer, isto é, segundo os significados mais profundos da estética do prazer. Tanto para um jovem como para uma pessoa mais madura, não é nada cômodo confrontar, de peito aberto, o que há de mais intenso em Shakespeare, e.g., em Rei Lear, entretanto, deixar de ler Rei Lear plenamente (ou seja, sem expectativas ideológicas) é deixar-se enganar cognitiva e esteticamente. A infância passada diante de um aparelho televisor leva à adolescência diante de uma tela de computador, e a universidade recebe alunos que, dificilmente, aceitarão a ideia de que “é preciso / Sair como se chega [...] Quando for a hora”.{1} A leitura se desintegra e, juntamente com ela, grande parte do ego se esvai. Porém, de nada adianta lamentar, e o problema não há de ser remediado com promessas e programas. O que é possível ser feito só pode ser implementado por meio de ingerências elitistas, o que, atualmente, é inaceitável, por bons e maus motivos. Ainda existem leitores solitários, jovens e idosos, em toda parte, mesmo nas universidades. Se resta à crítica literária, hoje em dia, alguma função, esta será a de dirigir-se ao leitor solitário, que lê por iniciativa própria, e não segundo interesses que, supostamente, transcendam o ser.

Os valores, na literatura e na vida, têm muito a ver com o idiossincrático, com excessos que geram significados. Não é por acaso que para os historicistas — críticos que acreditam sermos, todos nós, predeterminados pela História Social — os personagens literários não passam de nomes impressos em uma página. Uma vez que nossos pensamentos não nos pertencem, Hamlet não será sequer uma anamnese. Chego, então, ao princípio número um, se quisermos reparar o modo como lemos hoje em dia, princípio esse que tomei emprestado a Johnson: Livrar a mente da presunção. No sentido aqui empregado, “presunção” implica discurso artificial, cheio de chavões, vocabulário profissional acessível apenas aos iniciados. Tendo as universidades conferido poderes a grupos fechados, e.g., adeptos de abordagens que privilegiam questões de “gênero e sexualidade”, ou “multiculturalismo”, a advertência de Johnson passa a ser: “Livra a tua mente da presunção acadêmica”. Uma cultura universitária em que a valorização de roupas íntimas femininas na Era Vitoriana substitui a valorização de Charles Dickens e Robert Browning pode até parecer algo inusitado, ultrajante, como o ressurgimento de um Nathanael West, mas é tão-somente a norma. Um subproduto desse tipo de “poética cultural” é, precisamente, a impossibilidade de haver um novo Nathanael West, pois como poderia uma cultura acadêmica dessa natureza suster a paródia? Os poemas de ontem foram substituídos pelas meias-calças da cultura. Os neomaterialistas dizem ter recuperado o corpo humano, para uso do historicismo, e afirmam que trabalham em nome do Princípio da Realidade. A vida da mente deve ceder à morte do corpo, mas tal fato não precisa ser celebrado por seitas acadêmicas.

Livrar a mente da presunção enseja o segundo princípio para o resgate da leitura: Não tentar melhorar o caráter do vizinho, nem da vizinhança, através do que lemos ou de como o fazemos. O autoaperfeiçoamento é projeto suficientemente grandioso para ocupar a mente e o espírito: não existe a ética da leitura. A mente deve guardar certa cautela, até ser expurgada da ignorância original; incursões precoces pelo ativismo têm o seu fascínio, mas consomem tempo demais, e, para a leitura, jamais haverá tempo bastante. O impulso historicista, seja com relação ao passado ou ao presente, é uma espécie de idolatria, uma veneração obsessiva das coisas no tempo. Devemos, portanto, ler à luz interior celebrada por John Milton e considerada por Emerson um princípio da leitura, o nosso terceiro: O estudioso é uma vela acesa pelo afeto e pelo gosto de toda a humanidade. Wallace Stevens, talvez esquecendo a fonte, criou belas variações dessa metáfora, mas a frase original de Emerson encerra, com grande clareza, o terceiro princípio da leitura. Não devemos recear o fato de nosso crescimento como leitores parecer por demais autocentrado, pois, se nos tornarmos leitores autênticos, os resultados dos nossos esforços nos afirmarão como portadores de luz a outras pessoas. Penso sobre as cartas que tenho recebido de estranhos, ao longo dos últimos sete ou oito anos, e sinto-me, de modo geral, comovido demais para respondê-las. Para mim, o pathos nelas expresso advém do clamor frequente pelo estudo literário com base no cânone, algo que as universidades desprezam e ignoram. Emerson dizia que a sociedade não pode prescindir de homens e mulheres cultos, e acrescentou, profeticamente: “O povo, e não a universidade, é o lar do escritor”. Emerson referia-se a autores de peso, homens e mulheres que representam a si mesmos, e não os seus “eleitorados”, pois a política por ele defendida era a do espírito.

O propósito da educação de nível superior, hoje em dia tão esquecido, consta, para sempre, do discurso de Emerson intitulado “O Intelectual Americano”, quando o autor se refere aos apanágios do intelectual: “Resumem-se, todos, à autoconfiança”. Recorro, novamente, a Emerson para definir o quarto princípio da leitura: Para ler bem é preciso ser inventor. O que, para Emerson, seria “leitura criativa” foi por mim chamado de “leitura equivocada”, expressão que levou meus adversários a crer que eu sofresse de dislexia. O fracasso, ou o branco, que tais indivíduos veem quando se deparam com um poema está em seus próprios olhos. Autoconfiança não é dom, mas o Renascimento da mente, o que só ocorre após anos de muita leitura. A estética não possui padrões absolutos. Se a ascendência de Shakespeare, segundo o entendimento de determinada pessoa, é fruto exclusivo do colonialismo, quem vai se incomodar em refutá-la? Passados quatro séculos, Shakespeare é mais corrente do que nunca; suas peças serão encenadas no espaço sideral, e em outros mundos, se tais mundos forem alcançados. [...]



(Como e por que ler; tradução de José Roberto O’Shea)



(Ilustração: Francois Xavier Bricard (1881-1935) - A Young Boy).     

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

SEGREDO, de Fernando Pinto do Amaral


Esta noite morri muitas vezes, à espera

de um sonho que viesse de repente

e às escuras dançasse com a minha alma

enquanto fosses tu a conduzir

o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,

toda a espiral das horas que se erguessem

no poço dos sentidos. Quem és tu,

promessa imaginária que me ensina

a decifrar as intenções do vento,

a música da chuva nas janelas

sob o frio de fevereiro? O amor

ofereceu-me o teu rosto absoluto,

projectou os teus olhos no meu céu

e segreda-me agora uma palavra:

o teu nome - essa última fala da última

estrela quase a morrer

pouco a pouco embebida no meu próprio sangue

e o meu sangue à procura do teu coração.



(Às Cegas)



(Ilustração: Johannes Vermeer de Delft - Girl with a Pearl Earring)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

COLINAS COMO ELEFANTES BRANCOS, de Ernest Hemingway

 


As colinas do outro lado do vale eram longas e brancas. Deste lado, não havia sombra nem árvores e a estação ficava entre duas linhas de trilhos sob o sol. Rente ao lado da estação havia a sombra quente da casa e uma cortina, feita de fieiras de contas de bambu, pendurada na porta vazada para o bar, a fim de deter as moscas. O americano e a moça com ele estavam sentados a uma mesa na sombra, fora da casa. Estava muito quente e o expresso de Barcelona chegaria em quarenta minutos. Ele parava neste entroncamento por dois minutos e seguia para Madri.

“O que vamos beber?”, a moça perguntou. Ela tirara o chapéu e o pusera sobre a mesa.

“Está bem quente?”, o homem disse.

“Vamos beber cerveja.”

“Dos cervezas”, o homem disse para a cortina.

“Grandes?”, uma mulher perguntou do vão da porta.

“Sim. Duas grandes.”

A mulher trouxe dois copos de cerveja e dois apoios de feltro. Pôs os apoios de feltro e os copos de cerveja sobre a mesa e olhou para o homem e a moça. A moça olhava para a linha de colinas. Eram brancas sob o sol e a região era parda e seca.

“Parecem elefantes brancos”, ela disse.

“Nunca vi um”, o homem bebeu sua cerveja.

“Não, não teria como.”

“Eu poderia ter visto”, o homem disse. “Você dizer que eu não teria como não prova nada.”

A moça olhou para a cortina de contas. “Pintaram alguma coisa em cima”, ela disse. “O que quer dizer?”

“Anís del Toro. É uma bebida.” “Podemos provar?”

“Escute”, o homem chamou pela cortina. A mulher veio do bar.

“Quatro reales.”

“Queremos Anís del Toro.”

“Com água?”

“Você quer com água?”

“Não sei”, a moça disse. “Fica bom com água?”

“Fica, sim.”

“Vocês querem com água?”, perguntou a mulher.

“Sim, com água.”

“Tem gosto de alcaçuz”, a moça disse e baixou o copo.

“É sempre assim.”

“É”, disse a moça. “Tudo tem gosto de alcaçuz. Especialmente aquelas coisas que você esperou por muito tempo, que nem absinto.”

“Ah, pare com isso.”

“Foi você que começou”, a moça disse. “Eu estava adorando. Foi um bom momento.”

“Bem, vamos tentar ter um bom momento.”

“Tudo bem. Eu estava tentando. Disse que as colinas parecem elefantes brancos. Não é brilhante?”

“É brilhante.”

“Eu queria provar essa bebida nova: nós não fazemos outra coisa, não é? Olhar para as coisas e provar bebidas novas.”

“Acho que sim.”

A moça olhou para as colinas do outro lado.

“As colinas são lindas”, ela disse. “Na verdade, não parecem elefantes brancos. Quero dizer, só a pele vista entre as árvores.”

“Bebemos mais uma?”

“Está bem.”

O vento quente fez a cortina de contas roçar a mesa.

“A cerveja está boa e gelada”, o homem disse.

“Está ótima”, a moça disse.

“É uma operação muito simples mesmo, Jig”, o homem disse. “Nem é uma operação de verdade.”

A moça olhou para o piso em que se apoiavam os pés da mesa.

“Eu sabia que você iria concordar, Jig. Não é nada mesmo. É só deixar o ar entrar.”

A moça não disse nada.

“Vou junto e vou ficar com você o tempo todo. Eles só deixam o ar entrar e então é tudo completamente natural.”

“E o que nós fazemos depois?”

“Vamos ficar bem depois. Como antes.”

“Como é que você sabe?”

“Essa é a única coisa que atrapalha. É a única coisa que nos deixa infelizes.’

A moça olhou para a cortina de contas, estendeu a mão e segurou duas fieiras.

“E você acha que depois nós vamos ficar bem e vamos ser felizes.”

“Tenho certeza. Não precisa ter medo. Conheço muita gente que já fez.”

“Eu também”, disse a moça. “E depois foram todos muito felizes.”

“Bem”, disse o homem, “se não quiser, você não precisa fazer. Eu não forçaria você se você não quisesse fazer. Mas sei que é muito simples.”

“E você quer mesmo?”

“Acho que é a melhor coisa a fazer. Mas não quero que você faça se você não quiser mesmo.”

“Mas se eu fizer você vai ficar feliz e as coisas vão ser como eram e você vai me amar?”

“Eu amo você agora mesmo. Você sabe que eu amo.”

“Eu sei. Mas se eu fizer vai voltar a ser bom quando eu digo que as coisas parecem elefantes brancos, você vai gostar?”

“Vou adorar. Eu adoro agora mesmo, só não consigo pensar nisso. Você sabe como eu sou quando fico preocupado.”

“Se eu fizer você não vai ficar preocupado?”

“Não vou ficar preocupado porque é tudo muito simples.”

“Então eu faço. Porque eu não me importo comigo.”

“Como assim?”

“Eu não me importo comigo.”

“Bem, eu me importo com você.”

“Ah, sei. Mas eu não me importo comigo. E vou fazer e tudo vai ficar bem.”

“Não quero que você faça se é isso que você sente.”

A moça se levantou e andou até o fim da estação. Em frente, do outro lado, havia campos de trigo e árvores ao longo das margens do Ebro. Ao longe, para lá do rio, estavam as montanhas. A sombra de uma nuvem atravessou o campo de trigo e ela viu o rio entre as árvores. “E nós poderíamos ter tudo isso”, ela disse. “E nós poderíamos ter tudo e todo dia fazer coisas ainda mais impossíveis.”

“O que você disse?”

“Disse que nós poderíamos ter tudo.”

“Nós podemos ter tudo.”

“Não, não podemos.”

“Podemos ter o mundo todo.”

“Não, não podemos.”

“Podemos ir para qualquer lugar.”

“Não, não podemos. Já não é nosso.”

“É nosso.”

“Não, não é. E depois que tiram, você nunca mais pega de volta.” “Mas ninguém tirou nada.”

“Vamos ver.”

“Volte aqui para a sombra”, ele disse. “Não se sinta assim.”

“Não estou sentindo nada”, a moça disse. “É só que eu sei.”

“Não quero que você faça nada que você não queira fazer...”

“Não é que não seja bom para mim”, ela disse. “Eu sei. Vamos beber outra cerveja?”

“Está bem. Mas você tem que entender...”

“Eu entendo”, a moça disse. “Será que não podemos parar de falar?”

Sentaram-se à mesa e a moça olhou para as colinas do lado seco do vale e o homem olhou para ela e para a mesa.

“Você tem que entender”, ele disse, “que eu não quero que você faça se você não quiser fazer. Estou perfeitamente disposto a seguir adiante se isso fizer diferença para você.”

“Não faz diferença para você? Podíamos seguir adiante.”

“É claro que faz. Mas eu não quero ninguém além de você. Não quero mais ninguém. E sei que é tudo muito simples.”

“É, você sabe que tudo é muito simples.”

“Você pode muito bem falar assim, mas eu sei como é.”

“Você faria uma coisa por mim?”

“Faria qualquer coisa por você.”

“Você pode parar de falar, por favor, por favor, por favor?”

Ele não disse nada mas olhou para as malas encostadas na mureta da estação. Tinham etiquetas de todos os hotéis em que haviam dormido.

“Mas eu não quero que você faça”, ele disse, “eu não me importo com nada.”

“Eu vou gritar”, a moça disse.

A mulher atravessou a cortina com dois copos de cerveja e os depositou sobre os apoios de feltro úmidos. “O trem chega em cinco minutos”, ela disse.

“O que ela disse?”, perguntou a moça.

“Que o trem chega em cinco minutos.”

A moça deu um sorriso radiante para a mulher, para agradecer.

“Acho melhor levar as malas para o outro lado da estação”, o homem disse. Ela sorriu para ele.

“Está bem. Depois volte e terminamos a cerveja.”

Ele pegou as duas malas pesadas e carregou-as pela estação até os trilhos do outro lado. Espreitou mas não conseguiu ver o trem. Voltando, entrou no salão do bar, onde as pessoas que esperavam o trem estavam bebendo. Bebeu um anis no balcão e olhou para as pessoas. Todas esperavam ordeiramente pelo trem. Atravessou a cortina de contas. Ela estava sentada à mesa e sorriu para ele.

“Está se sentindo melhor?”, ele perguntou.

“Estou bem”, ela disse. “Não tem nada de errado comigo. Estou bem.”





(Tradução de Samuel Titan Jr.)



(Ilustração: foto de Juan Pablo Serrano)