quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

HAVIA CHUVISCO E MISTÉRIO, de Jack Keouac









Havia chuvisco e mistério no início da nossa viagem. Pude perceber que tudo aquilo seria uma grande saga nebulosa. "Iuupii", gritou Dean. "Lá vamos nós!" Inclinou-se sobre o volante e deu a partida; estava de volta a seu elemento natural, qualquer um podia perceber. Ficamos maravilhados, percebemos que estávamos deixando para trás toda a a confusão e o absurdo, desempenhando a única função nobre de nossa época: mover-se. E nos movíamos! Passamos como um raio pelas misteriosas placas brancas que, em algum lugar na noite de Nova Jersey, dizem SUL (com uma flecha) e OESTE (com outra flecha), e pegamos o caminho que apontava para o sul. Nova Orleans! Era o que reluzia em nossas mentes. Da neve suja da "frígida" e afrescalhada cidade de Nova York", como Dean a chamava, para o verdor e os aromas fluviais da velha Nova Orleans, nos confins rejeitados da América; e daí para o Oeste. Ed ia no banco de trás; Marylou, Dean e eu sentamos na frente e mantivemos uma conversação calorosa sobre a graça e a alegria de viver. Dean enterneceu-se, de repente: "Todos vocês, escutem aqui, raios: temos que admitir que tudo está ótimo e que não há nada no mundo com que nos preocuparmos, e devemos COMPREENDER que, na verdade, REALMENTE, não precisamos nos preocupar com ABSOLUTAMENTE NADA. Estou certo?" Todos concordamos. "Aqui vamos nós, estamos todos juntos... O que fizemos em Nova York? Está tudo perdoado." Todos tínhamos deixado algumas questiúnculas lá. "Ficou tudo pra trás, simplesmente por causa dos declives e de tantos quilômetros rodados. Agora vamos para Nova Orleans, para curtir o Old Bull Lee, e vai ser um barato, e agora escutem só esse sax-tenor perder a cabeça", aumentou o volume do rádio até o carro trepidar, "e ouçam como ele conta sua história, com total relaxamento e sabedoria".

Nos ligamos todos na música e concordamos. A pureza da estrada. A linha branca no meio da pista desenrolava-se e grudava-se na nossa roda dianteira esquerda como se estivesse colada ao nosso embalo. Dean arqueou o pescoço musculoso, vestindo apenas uma camiseta na noite invernal, e meteu o pé na tábua. Insistiu que eu dirigisse no tráfego de Baltimore para treinar; correu tudo bem, que ele e Marylou aos beijos e movimentos fogosos esbarravam no volante, me atrapalhando. Era uma loucura; o rádio estava quase estourando. Dean tocou bateria no painel até afundá-lo; fiz o mesmo. O pobre Hudson - nosso velho cargueiro para a China - estava sendo bem maltratado.

"Oh, cara, é demais!", berrou Dean. "Agora, Marylou, escuta, só meu bem, você sabe sou doidamente capaz de fazer tudo ao mesmo tempo e que tenho uma energia ilimitada, por isso, em São Francisco, nós temos mais que continuar vivendo juntos. Conheço o lugar ideal pra você - no fim da linha férrea principal -, estarei lá num piscar de olhos a cada dois dias, por doze horas de enfiada, e, cara, você sabe bem o que nós somos capazes de fazer em doze horas, minha querida. Enquanto isso, continuo morando com Camille como se nada estivesse acontecendo, sacou? Ela não vai ficar sabendo. A gente pode fazer isso, já fizemos antes." Para Marylou estava tudo bem, ela estava mesmo a fim da cabeça de Camille. O combinado era que Marylou iria transar comigo em risco, mas então comecei a pressentir que eles iam ficar grudados e eu seria deixado no olho da rua, abandonado na outra extremidade do continente. Mas para que pensar nisso quando se tem pela frente toda a vastidão dourada da Terra e acontecimentos imprevisíveis de todos os tipos estão à espera, de tocaia, para te surpreender e te fazer ficar satisfeito simplesmente por estar vivo para presenciá-los?




(On the road - Pé na estrada, tradução de Eduardo Bueno)


(Ilustração: Mondrian Piet - summer night)




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