quarta-feira, 25 de julho de 2012

DA ORIGEM DA RELIGIÃO, de Friedrich Nietzsche






— Da mesma maneira que o homem vulgar imagina ainda hoje que a cólera é a causa de seu arrebatamento; o espírito, a causa do pensamento; a alma, a causa do sentimento; em suma, da mesma forma que se admite ainda, inconsideradamente, inúmeras entidades psicológicas como causas — igualmente, ainda na mais ingênua escala social, o homem interpreta os fenômenos com a ajuda de entidades psicológicas personalizadas. Os estados de alma que lhe pareciam estranhos, arrebatadores, apaixonantes, considerava-os obsessões, encantamentos provocados pelo poder de alguém. (É assim que o cristão, hoje, a mais ingênua e atrasada categoria humana, condiciona a esperança, a tranquilidade, o sentimento de “redenção”, a uma inspiração psicológica de Deus. Por ser o tipo essencialmente sofredor e inquieto, a quietude, a felicidade, a resignação parecem-lhe como algo de estranho que necessita uma explicação.) Entre as raças de grande vitalidade, inteligentes e fortes, é o epiléptico que desperta mais comumente a convicção de que existe a intervenção de uma potência estranha; mas toda espécie de sujeição da mesma ordem, por exemplo: o constrangimento que se nota no entusiasta, no poeta, no grande criminoso, nas paixões como o amor e o ódio, arrasta à invenção de potência extra-humanas. Concretizam o estado de alma em uma única pessoa, e pretendem que, quando se nos manifesta, é por influência dessa pessoa. Em outras palavras: na formação psicológica de Deus, um estado, para ser o efeito de alguma coisa, é personificado.



Contudo a lógica psicológica diz assim: o sentimento de potência, quando subitamente se apossa do homem e o subjuga — é o caso de todas as grandes paixões — desperta certa dúvida quanto à capacidade da pessoa: o homem não ousa imaginar que é a causa desse sentimento — imagina uma personalidade mais forte, uma divindade que o substitui.




A origem da religião encontra-se, portanto, nos extremos sentimentos de potência que surpreendem o homem por seu caráter estranho; e, semelhante ao doente que ao sentir estranhos torpores em um de seus membros daí concluísse que sobre ele outro homem estivesse deitado, o ingênuo homo religiosus se dissocia em diversas pessoas. A religião é um caso de “alteração da personalidade”, espécie de sentimento de terror e de medo diante de si mesmo... Mas, ao mesmo tempo, extraordinária sensação de felicidade e de superioridade. Nos doentes, a impressão da saúde basta para que creiam em Deus, na influência de Deus.




Os estados de potência inspiram no homem a sensação de que ele é independente da causa, que é irresponsável: sobrevêm sem serem desejados, logo não somos os autores... A vontade não libertada (isto é, a consciência de uma mutação em nós, sem que a quiséssemos) exige urna vontade estranha.




O homem não ousou atribuir a si mesmo todos os momentos surpreendentes e fortes de sua vida, imaginou que esses momentos eram “passivos”, que os “sofria”, e a eles estava “subjugado”... A religião é um produto da dúvida quanto à unidade do indivíduo, uma alteração da personalidade... A proporção que tudo quanto é grande e forte foi sendo considerado sobre-humano e estranho pelo homem, este foi se amesquinhando e separou as duas faces em duas esferas absolutamente diferentes, uma desprezível e fraca, outra forte e surpreendente, chamando à primeira “homem”, à segunda, “Deus”.




E portou-se assim quase sempre; no período da idiossincrasia moral, não considerou como “desejadas”, como “obra do indivíduo”, suas sublimes condições morais. O cristão também substitui sua pessoa em duas ficções, uma mesquinha e fraca, a que chama homem, outra sobrenatural, a que chama Deus (Salvador, Redentor)... A religião amesquinhou o conceito “homem”; sua extrema conclusão é que tudo quanto é bom, grande, verdadeiro, permanece sobre-humano e só nos é dado pela graça...



(Vontade de Potência)


(Ilustração: Zurbarán - são Francisco ajoelhado)



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