quinta-feira, 2 de abril de 2026
NO PRINCÍPIO…, de Miguel Nicolelis
No princípio,
O Verdadeiro Criador de Tudo proclamou:
Que haja luz.
Depois de um breve silêncio,
Ele, então, decretou:
E que ela seja E = mc2.
No princípio, havia apenas um cérebro de primata. E de suas profundezas, graças às misteriosas tempestades eletromagnéticas – originárias de um emaranhado de dezenas de bilhões de neurônios moldado por uma tão inédita quanto única caminhada evolucionária –, a mente humana emergiu. Ilimitada, irrestrita, imensa. Envolto em uma interminável combustão e expansão, esse novo tipo de plasma neural, nunca antes visto no universo, logo se fundiu em um contínuo. Dessa amálgama surgiu o andar ereto, a destreza manual, a linguagem oral, a escrita, a capacidade de formar enormes entrelaçamentos sociais, o pensamento abstrato, as mais variadas ferramentas e tecnologias, a introspecção, a consciência e, enfim, o livre-arbítrio. Desse mesmo caldeirão mental eclodiu também a mais concreta definição de espaço tempo já concebida por qualquer matéria orgânica. E, então, do bojo desse perfeito arcabouço, foi possível gerar um verdadeiro dilúvio de abstrações mentais que, quando projetado em direção ao universo que nos cerca, deu origem às verdadeiras tábuas sagradas da condição humana. Prova disso é que, tão logo foram enunciadas, essas abstrações começaram a ditar a essência e o fulcro de todas as civilizações: do nosso egoístico senso de ser às nossas mais preciosas crenças e mitos; dos mais sofisticados sistemas econômicos às mais convolutas estruturas políticas; das mais exuberantes obras de arte às mais perenes edificações, que incluíram a mais completa reconstrução científica de tudo o que circunda a todos nós. Foi assim, então, que do meio dessas tempestades eletromagnéticas neurais, surgiu o magnífico escultor da realidade, o virtuoso compositor e mestre arquiteto da nossa tão trágica, mas, ainda assim, tão heroica trajetória; o curioso explorador da natureza, o incansável perseguidor de suas próprias origens; o mestre ilusionista, o místico de muitas crenças, o artista de muitos talentos; o poeta lírico que compôs, com suas inigualáveis rimas sinápticas, cada pensamento, cada grunhido, cada registro falado, cantado ou escrito, cada mito, cada pintura rupestre, cada deus, cada teorema matemático, cada viagem ao desconhecido, cada genocídio; todas as conquistas, assim como todos os fracassos; cada gesto de amor, cada sonho, cada alucinação; cada sensação e cada sentimento, concebido ou experimentado, por todo e qualquer hominídeo que um dia vagou pela superfície da esfera azul que o Verdadeiro Criador de Tudo decidiu chamar de Terra.
(O verdadeiro criador de tudo)
(Ilustração: Mithran Samuel - Artistic brain image)
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Miguel Nicolelis - No princípio
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