domingo, 20 de novembro de 2016

POEMA DO HOMEM SENTADO, de Anthero Monteiro








conheci um homem que esperava sempre sentado

nunca se soube o quê no vão de uma porta

ou no degrau de uma escada

é possível que fizesse outras coisas mas raramente

conseguia ser visto de pé



o que fazia aquele homem sempre alapado

como um soba para além de dar utilidade ao traseiro

depois do árduo trabalho de deslocar o ponto de gravidade

para ir ocupar o assento e de oferecer também

serventia ao lugar de acolhimento

que não saberia fazer mais nada de interessante?



que mais fazia aquele homem para além de me colocar

pontos de interrogação nos meandros do cérebro?



puxava de um cigarro e acendê-lo era mais trabalhoso

do que aos calceteiros pavimentar toda a rua

recostava-se para trás contra o degrau

imediatamente superior e arrancava por fim

umas fumaças de dentro do peito

como se quisesse provar que todo o seu âmago

era apenas povoado de neblina



esperava que o paivante se extinguisse

como parecia fazer à própria vida

sem qualquer pressa para apressar ou delongar a morte

sem a mínima emoção existencial

aparentemente sem interrogações

sobre a sua sina de mortal e sem qualquer preocupação

acerca do que lhe faltava ainda cumprir

antes da inapelável descida para outro degrau



às vezes dava-se o fenómeno extraordinário

de se levantar e atravessar a rua

sem se apressar sequer com o trânsito

e ir ocupar o assento da paragem do autocarro



ali ficava como se estivesse à espera dele

e dos sucessivos autocarros de cada meia-hora

sem embarcar em nenhum

punha-se apenas a vê-los chegar e retomar a marcha

como se tivesse por destino apenas ficar

enquanto todos os outros só queriam partir



mas também ele partiu certamente

pois há muito vejo o degrau e o assento vazios

não sei se caiu alguma vez de algum desses poisos

se foi esmagado a atravessar a rua

ou atingido por um raio ou um meteorito



penso que finalmente deve ter tomado

o único autocarro que lhe servia de destino

que ele sabia que só passaria uma vez

e que não podia perder de modo nenhum





(Praça da Poesia, 29 de Maio de 2013)




(Ilustração: Gan T-Seng - old man - Malaysia)



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