terça-feira, 4 de outubro de 2016

PÂNTANO, de Mariana Ianelli







Haverá uma noite

No fundo desta lama

Para tudo o que foi teu :

O caminho de partida,

O horizonte das bandeiras,

O extraordinário ano de 1980.

Entre guelras e barbatanas,

No ventre de uma água sonolenta,

O castelo de tua memória se acende.

Ressurge um alto portão de madeira,

De longe brilha a pesada maçaneta,

Cresce para baixo o tronco do velho castanheiro.

No escuro passeia o teu amigo inexistente,

Deitam-se juntas as tuas amantes insatisfeitas,

Do topo de uma escada o teu filho te acena.

Os muros contornados e logo desconhecidos,

As alamedas visitadas e já desaparecidas

Formarão ali tua cidade secreta e sem fronteiras.

O retorno para casa como se para um cativeiro,

Toda vacuidade do suplício e do desejo,

Um gemido de orgasmo reboando no silêncio :

Tudo o que foi teu renascerá

No pântano de uma noite derradeira

Para além do tempo do esquecimento.





(Ilustração:Jean-Marie Poumeyrol  - Les arches)


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