domingo, 4 de setembro de 2016

SÚMULA, de Herberto Helder








Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.

Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.

Falo, penso.

Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.

É sempre outra coisa, uma

só coisa coberta de nomes.

E a morte passa de boca em boca

com a leve saliva,

com o terror que há sempre

no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas

próprias rosas.

As pessoas imaginam os seus próprios campos

de rosas. E às vezes estou na frente dos campos

como se morresse;

outras, como se agora somente

eu pudesse acordar.



Por vezes tudo se ilumina.

Por vezes canta e sangra.

Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.

Que a loucura tem espinhos como uma garganta.

Eu digo: roda ao longe o outono,

e o que é o outono?

As pálpebras batem contra o grande dia masculino

do pensamento.



Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.

Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.



- Era uma casa - como direi? - absoluta.



Eu jogo, eu juro.

Era uma casinfância.

Sei como era uma casa louca.

Eu metia as mãos na água: adormecia,

relembrava.

Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.



Apalpo agora o girar das brutais,

líricas rodas da vida.

Há no esquecimento, ou na lembrança

total das coisas,

uma rosa como uma alta cabeça,

um peixe como um movimento

rápido e severo.

Uma rosapeixe dentro da minha ideia

desvairada.

Há copos, garfos inebriados dentro de mim.

- Porque o amor das coisas no seu

tempo futuro

é terrivelmente profundo, é suave,

devastador.



As cadeiras ardiam nos lugares.

Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento

como seres pasmados.

Às vezes riam alto. Teciam-se

em seu escuro terrífico.

A menstruação sonhava podre dentro delas,

à boca da noite.

Cantava muito baixo.

Parecia fluir.

Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.

Chovia nas noites terrestres.

Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.

- Era úmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.

Havia uma essência de oficina.

Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,

com as suas maçãs centrípetas

e as uvas pendidas sobre a maturidade.

Havia a magnólia quente de um gato.

Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia

que saía da mão para o rosto

da mãe sombriamente pura.

Ah, mãe louca à volta, sentadamente

completa.

As mãos tocavam por cima do ardor

a carne como um pedaço extasiado.



Era uma casabsoluta - como

direi? - um

sentimento onde algumas pessoas morreriam.

Demência para sorrir elevadamente.

Ter amoras, folhas verdes, espinhos

com pequena treva por todos os cantos.

Nome no espírito como uma rosapeixe.



- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados

agora nas palavras.

Prefiro cantar nas varandas interiores.

Porque havia escadas e mulheres que paravam

minadas de inteligência.

O corpo sem rosáceas, a linguagem

para amar e ruminar.

O leite cantante.



Eu agora mergulho e ascendo como um copo.

Trago para cima essa imagem de água interna.

- Caneta do poema dissolvida no sentido

primacial do poema.

Ou o poema subindo pela caneta,

atravessando seu próprio impulso,

poema regressando.

Tudo se levanta como um cravo,

uma faca levantada.

Tudo morre o seu nome noutro nome.



Poema não saindo do poder da loucura.

Poema como base inconcreta de criação.

Ah, pensar com delicadeza,

imaginar com ferocidade.

Porque eu sou uma vida com furibunda

melancolia,

com furibunda concepção. Com

alguma ironia furibunda.



Sou uma devastação inteligente.

Com malmequeres fabulosos.

Ouro por cima.

A madrugada ou a noite triste tocadas

em trompete. Sou

alguma coisa audível, sensível.

Um movimento.

Cadeira congeminando-se na bacia,

feita o sentar-se.

Ou flores bebendo a jarra.

O silêncio estrutural das flores.

E a mesa por baixo.

A sonhar.





(Ou o Poema Contínuo)





(Ilustração: André Muller)


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