quinta-feira, 22 de setembro de 2016

AQUÍ EN ESTA ORILLA BLANCA... / AQUI NESTA BEIRADA BRANCA..., de Luis Cernuda








Aquí

en esta orilla blanca

del lecho donde duermes

estoy al borde mismo

de tu sueño. Si diera

un paso mas, caerla

en sus ondas, rompiéndolo

como un cristal. Me sube

el calor de tu sueño

hasta el rostro. Tu hálito

te mide la andadura

del soñar: va despacio.

Un soplo alterno, leve

me entrega ese tesoro

exactamente: el ritmo

de tu vivir soñando.

Miro. Veo la estofa

de que está hecho tu sueño.

La tienes sobre el cuerpo

como coraza ingrávida.

Te cerca de respeto.

A tu virgen te vuelves

toda entera, desnuda,

cuando te vas al sueño.

En la orilla se paran

las ansias y los besos:

esperan, ya sin prisa,

a que abriendo los ojos

renuncies a tu ser

invulnerable. Busco

tu sueño. Con mi alma

doblada sobre ti

las miradas recorren,

traslúcida, tu carne

y apartan dulcemente

las señas corporales,

por ver si hallan detrás

las formas de tu sueño.

No lo encuentran. Y entonces

pienso en tu sueño. Quiero

descifrarlo. Las cifras

no sirven, no es secreto.

Es sueño y no misterio.

Y de pronto, en el alto

silencio de la noche,

un soñar mío empieza

al borde de tu cuerpo;

en él el tuyo siento.

Tú dormida, yo en vela,

hacíamos lo mismo.

No había que buscar:

tu sueño era mi sueño.



Tradução de Wagner Mourão Brasil:


Aqui

nesta beirada branca

do leito em que tu dormes

vejo-me à borda mesma

de teu sonho. Outro passo

e eu cairia sobre

suas ondas, rompendo-o

como a um cristal. Ascende

o calor de teu sonho,

até meu rosto. Teu hálito

sincroniza o andamento

do sonhar: vai sem pressa.

Um sopro incerto, leve,

cede-me esse tesouro

com precisão: o pulsar

de teu viver sonhando.

Olho. Vejo o tecido

de que é feito teu sonho.

Está sobre teu corpo

como couraça tênue.

Cerca-te de respeito.

À virgem tu recorres

toda inteira, desnuda,

quando estás a sonhar.

Na borda são suspensos

os anseios e os beijos:

esperam, já sem pressa,

que ao descerrar os olhos,

abdiques de teu ser

invulnerável. Busco

por teu sonho. E com a alma

dobrada sobre ti,

os olhares percorrem,

tua carne diáfana,

e apartam docemente

as feições de teu corpo,

buscando o que há por trás

das formas de teu sonho.

Nada encontram. E então

penso em teu sonho. Quero

elucidá-lo. As cifras

não servem, não é secreto.

É sonho e não mistério.

Súbito, na mais densa

quietude da noite,

um sonho meu começa

na borda de teu corpo;

nele, eu percebo o teu.

Tu dormindo, eu velando,

éramos semelhantes.

Não havia o que buscar:

teu sonho era meu sonho.





(Ilustração: Lawton S. Parker - paresse - 1916)



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