sábado, 30 de julho de 2016

MUSA, de Sophia de Mello Breyner Andresen









Musa ensina-me o canto

Venerável e antigo

O canto para todos

Por todos entendido



Musa ensina-me o canto

O justo irmão das coisas

Incendiador da noite

E na tarde secreto



Musa ensina-me o canto

Em que eu mesma regresso

Sem demora e sem pressa

Tornada planta ou pedra



Ou tornada parede

Da casa primitiva

Ou tornada o murmúrio

Do mar que a cercava



(Eu me lembro do chão

De madeira lavada

E do seu perfume

Que atravessava)



Musa ensina-me o canto

Onde o mar respira

Coberto de brilhos

Musa ensina-me o canto

Da janela quadrada

E do quarto branco



Que eu possa dizer como

A tarde ali tocava

Na mesa e na porta

No espelho e no corpo

E como os rodeava



Pois o tempo me corta

O tempo me divide

O tempo me atravessa

E me separa viva

Do chão e da parede

Da casa primitiva



Musa ensina-me o canto

Venerável e antigo

para prender o brilho

Dessa manhã polida

Que poisava na duna

Docemente os seus dedos

E caiava as paredes

Da casa limpa e branca



Musa ensina-me o canto

Que me corta a garganta



(Livro Sexto - 1962)





(Ilustração: Richard Emil Miller)




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