sábado, 21 de maio de 2016

DAS CORRESPONDÊNCIAS, de Nina Rizzi







e fiquei. a esperar teus postais do sri lanka. me deitei no chão da cozinha e fiquei. a escutar o motor da geladeira e o remelexo das escovas de dentes (você não sabia, mas eu tenho várias. de mania, sei lá porquê. como tantas coisas, simplesmente é, sem que ter ou saber porquê.), da merda da prednisolona que me incha e o liquidificador de leites que não bebo e o álcool que não me move e os porta-retratos de imagens que nada me dizem e a tinta lilás de dias mais generosos. e a comida do gato. tudo motorizando.

e em noites ainda mais quentes e úmidas eu me sentava lá em cima da tremitante-geladeira de pernas abertas e as suas eram de pau. assim te cria, louca. louco. turbilhão do motor-nos.

e fiquei. a olhar pro telhado barato-lodoso feito nas coxas. umas grossas outras nem isso. a fiação que me mete medo, elétrica que sou. chocada de teias de aranhas que afasta visitas e teus postais que não me chegam do sri lanka.

você queria minha calma. pronto, taê. me construiu pr’além platonismo. sou matéria calma. MENTIRA, porra! eu continuo (n)a mesma. espalhada entre modernismos, pensamentos complexos, marxismos, blues, choro, o empreguinho de vilanias e a carne fremitante-tanto de te esperar.

eu tentei te ligar. eu queria tão-desesperadamente falar com você que meus dedos tremiam teus números. fumei os vinte cigarros com o telefone na boca. com os dedos arrancados dentes. mas eu não sei nada dos teus números.

e não tem esse negócio de sapatão-decadente, não. não tem nada de nada, porque é um tudo indissociável. miscigenar calar correr deitar beber me jogar ao mar. e começar tudo de novo os cabelos presos a tez branca a polidez o amarelo riso. o infindo meio-ser. quiçá a meio-coisa.

eu iria ver as magrelas. e me inspirar nelas. você disse. disse que cuidaria disso. de nos querer erguidos-juntos com toda fé em porra nenhuma. se abraçou de vez às mulatas que não são hipotéticas. desencantou da minha falsa branquidez patética. de novo. eu penso que elas são lindas. nossa cabeça é tão cheia que não podemos simplesmente fazer caber as merdas da teletela. é muita cultura pra dois serezinhos, macho. isso pode acabar com a gente. de brocha mesmo. de distopia. então elas são lindas e há também as brancas e rijas e eu até gozava de te ter assim livre, desde que você existisse em si de algum modo. em si e não dos meus tijolos. de mim só a tua carne materialista.

mas eu não vi nada disso. que teus postais não me chegaram do sri lanka. a minha bagagem, imaterial, vazia. e fiquei.



(Escritoras Suicidas)



(Ilustração: Antoine Helbert)



Um comentário: