domingo, 13 de dezembro de 2015

DE COMO SE INICIOU A CONFUSÃO DE SENTIMENTOS DO ÁRABE NACIB, de Jorge Amado







Leu umas linhas no jornal, aspirando a fumaça do charuto de São Félix, perfumado. Em geral, nem chegava a fumar todo o charuto, a ler grande coisa nos diários da Bahia.

Logo adormecia, embalado pela brisa do mar, afrontado pelas iguarias gulosamente devoradas, o inigualável tempero de Gabriela. Ressonava feliz por entre os bigodes frondosos. Aquela meia hora de sono, à sombra das árvores, era uma das delícias de sua vida, sua boa vida tranquila, sem sustos, sem complicações, sem problemas graves. Jamais tinham os negócios marchado tão bem, crescia a frequência do bar, ele acumulava dinheiro no banco, o sonho de um pedaço de terra onde plantar cacau ganhava realidade. Nunca fizera negocio tão vantajoso como ao contratar Gabriela no mercado dos escravos. Quem diria ser ela tão competente cozinheira, quem diria esconder-se sob trapos sujos tanta graça e formosura, corpo tão quente, braços de carinho, perfume de cravo a tontear?...

Naquele dia da chegada do engenheiro, a curiosidade tomando conta do bar, apresentações e cumprimentos, elogios a granel – é um nadador de primeira – quando todos os almoços se atrasaram em Ilhéus, Nacib fizera dia por dia a conta do tempo decorrido desde o anúncio de sua vinda. Gabriela voltava para casa após pedir:

– Deixa eu ir no cinema hoje? Pra acompanhar dona Arminda...

Tirara da caixa uma nota de cinco mil réis, generoso:

– Pague a entrada dela...

Vendo-a partir, esfogueada e risonha (ele não parara de beliscá-la e tocá-la mesmo enquanto comia), contara os dias: três meses e dezoito dias exatamente. De aperreação, cochichos, agitação, dúvida e esperança para Mundinho e seus amigos, para o coronel Ramiro Bastos e seus correligionários. Com descomposturas nos jornais, conversas segredadas, apostas, bate-bocas, surdas ameaças, um clima de tensão em aumento. Havia dias em que o bar parecia uma caldeira prestes a explodir. Quando o Capitão e Tonico mal se falavam, o coronel Amâncio Leal e o coronel Ribeirinho apenas se cumprimentavam.

É para ver-se como são as coisas da vida. Aqueles mesmos dias foram de calma, de perfeita tranquilidade de espírito, de suave alegria para Nacib. Talvez os mais felizes de toda a sua existência.

Jamais dormira tão sereno sua sesta, acordando risonho com a voz de Tonico, infalível após o almoço para um dedo de amargo a ajudar a digestão, um dedo de prosa antes de abrir o cartório. Pouco depois juntava-se a eles João Fulgêncio, passando para a papelaria. Falavam de Ilhéus e do mundo, o livreiro era entendido em assuntos internacionais, Tonico sabia tudo quanto se referia ao mulherio da cidade.

Três meses e dezoito dias tardara o engenheiro a chegar, fazia exatamente o mesmo tempo que contratara Gabriela. Naquele dia o coronel Jesuíno Mendonça matara dona Sinhazinha e o dentista Osmundo. Mas só no outro dia tivera Nacib certeza de que ela sabia cozinhar. Na espreguiçadeira, o jornal abandonado no chão, o charuto a apagar-se, Nacib sorri, recordando... Três meses e dezessete dias a comer comida temperada por ela, não havia em todo Ilhéus cozinheira que se lhe pudesse comparar. Três meses e dezesseis dias dormindo com ela, a partir da segunda noite, quando o luar lambia-lhe a perna e no escuro do quarto saltava um seio da rota combinação...

Nessa tarde, devido talvez ao anormal movimento do bar, à excitação da presença do engenheiro, Nacib não conciliava o sono, tomado por seus pensamentos. A princípio não dera maior importância a nenhuma das duas coisas: nem à qualidade da comida nem ao corpo da retirante nas noites ardentes. Satisfeito com o tempero e a variedade dos pratos, só lhes deu o devido valor quando a freguesia começou a crescer, quando foi preciso aumentar o número de salgados e doces, quando sucederam-se unânimes os elogios e Plínio Araçá, cujos métodos comerciais eram dos mais discutíveis, mandou fazer uma oferta a Gabriela. Quanto ao corpo – aquele fogo de amor a consumi-la no leito, aquela loucura de noites atravessadas  insones – prendeu-se a ele, insensivelmente. Nos primeiros tempos, apenas certas noites a procurava, quando, ao chegar em casa, ocupada ou doente Risoleta, não estava cansado e com sono. Então decidia deitar-se com ela, à falta de outra coisa a fazer. Mas durara pouco essa displicência. Logo habituara-se de tal maneira à comida feita por Gabriela que, convidado a jantar com Nhô-Galo no dia de seu aniversário, mal provara os pratos, sentindo diferença na finura do tempero. E fora, sem o sentir, amiudando as idas ao quarto do quintal, esquecendo a sabida Risoleta, passando a não suportar seu carinho representado, suas manhas, seus eternos queixumes, mesmo aquela ciência do amor que ela usava para lhe tirar dinheiro. Terminou por não mais procurá-la, não responder a seus bilhetes, e desde então, há quase dois meses, não tinha outra mulher senão Gabriela. Agora arribava todas as noites em seu quarto, procurando sair do bar o mais cedo possível.

Tempo bom, meses de vida alegre, de carne satisfeita, boa mesa, suculenta; de alma contente, cama de felizardo. No rol das virtudes de Gabriela, mentalmente estabelecido por Nacib na hora da sesta, contavam-se o amor ao trabalho e o senso de economia. Como arranjava tempo e forças para lavar a roupa, arrumar a casa – tão limpa nunca estivera! –, cozinhar os tabuleiros para o bar, almoço e jantar para Nacib? Sem falar que à noite estava fresca e descansada, úmida de desejo, não se dando apenas mas tomando dele, jamais farta, sonolenta ou saciada. Parecia adivinhar os pensamentos de Nacib, adiantava-se às suas vontades, reservava-lhe surpresas: certas comidas trabalhosas das quais ele gostava – pirão de caranguejo, vatapá́, viúva de carneiro –, flores num copo ao lado de seu retrato na mesinha da sala de visitas, troco do dinheiro dado para fazer a feira, essa ideia de vir ajudar no bar.

Antes era Chico Moleza, ao voltar do almoço, quem trazia para Nacib a marmita preparada por Filomena. A barriga a dar horas, o árabe esperava impaciente. Ficava só, com Bico-Fino, a servir os últimos fregueses do aperitivo. Um dia, sem prevenir, Gabriela aparecera com a marmita, vinha lhe pedir licença para ir à sessão espírita, dona Arminda a convidara. Ficou ajudando a servir, passou a vir todos os dias. Naquela noite lhe dissera:

– É melhor eu levar a comida pro moço. Assim come mais cedo, posso ajudar também. Importa não?

Como ia importar se a presença dela era mais uma atração para a freguesia? Nacib logo se deu conta: demoravam-se mais, pedindo outro trago, os ocasionais passavam a permanentes, vindo todos os dias. Para vê-la, dizer-lhe coisas, sorrir-lhe, tocar-lhe a mão. Afinal que lhe importava, era apenas sua cozinheira com quem dormia sem nenhum compromisso. Ela servia-lhe a comida, armava-lhe a cadeira de lona, deixava a rosa com seu perfume. Nacib, satisfeito da vida, acendia o charuto, tomava dos jornais, adormecia na santa paz de Deus, a brisa do mar a acariciar-lhe os bigodões florescentes. Mas nesse começo de tarde não conseguia dormir. Fazia mentalmente o balanço daqueles três meses e dezoito dias, agitados para a cidade, calmos para Nacib. Gostaria, no entanto, de cochilar pelo menos uns dez minutos, em vez de deter-se a relembrar coisas à toa, sem maior importância. De repente, sentiu que algo lhe faltava, talvez por isso não conseguisse dormir. Faltava-lhe a rosa, cada tarde encontrada caída no bojo da espreguiçadeira. Ele vira quando o juiz de direito, sem dar-se o respeito devido ao seu cargo, a furtara da orelha de Gabriela e a pusera em sua botoeira... Um homem idoso, de seus cinquenta anos, aproveitando-se da confusão em torno do engenheiro para roubar a rosa, um juiz... Ficara com medo de um gesto brusco de Gabriela, ela fez como se não tivesse percebido. Esse juiz estava saindo do sério. Antigamente nunca vinha ao bar na hora do aperitivo, aparecendo apenas, de quando em vez, à tardinha, com João Fulgêncio ou com o Dr. Maurício. Agora esquecia todos os preconceitos e, sempre que podia, lá estava no bar, bebendo um vinho do porto, rondando Gabriela.

Rondando  Gabriela... Nacib ficou a pensar. Sim, rondando, de súbito dava-se conta. E não era só ele, muitos outros também... Por que se demoravam além da hora do almoço, criando problemas em casa? Senão para vê-la, sorrir para ela, dizer-lhe gracinhas, roçar-lhe a mão, fazer-lhe propostas, quem sabe? De propostas Nacib sabia apenas de uma feita por Plínio Araçá. Mas aquela dirigia-se à cozinheira. Fregueses do Pinga de Ouro haviam-se mudado para o Vesúvio, Plínio mandara oferecer um ordenado maior a Gabriela. Apenas escolhera mal o mediador, confiando a mensagem ao negrinho Tuísca, fiel do Bar Vesúvio, leal a Nacib. Assim, fora o próprio árabe quem dera o recado a Gabriela. Ela sorrira:

– Quero não... Só se seu Nacib me botar pra fora...

Ele a tomara nos braços, era de noite, envolveu-se em seu calor. E aumentou-lhe em dez mil réis o ordenado:

– Tou pedindo não... – disse ela.

Por vezes comprava-lhe um brinco para as orelhas, um broche para o peito, lembranças baratas, algumas nem lhe custavam nada, trazia da loja do tio. Entregava-as à noite, ela enternecia-se, agradecia-lhe humilde, beijando-lhe a palma da mão num gesto quase oriental:

– Moço bom, seu Nacib...Broches de dez tostões, brincos de mil e quinhentos, com isso lhe agradecia as noites de amor, os suspiros, os desmaios, o fogo a crepitar inextinguível. Cortes de fazenda vagabunda duas vezes lhe dera, um par de chinelos, tão pouco para as atenções, as delicadezas de Gabriela: os pratos de seu agrado, os sucos de frutas, as camisas tão alvas e bem passadas, a rosa caída dos cabelos na espreguiçadeira. De cima, superior e distante, ele a tratara como se estivesse a pagar-lhe regiamente o trabalho, a fazer-lhe um favor deitando-se com ela.

Os outros no bar a rondá-la. A rondá-la talvez na ladeira de São Sebastião, a mandar-lhe recados, a fazer-lhe propostas, por que não seria assim ? Nem todos haviam de usar Tuísca de portador, como ele, Nacib, iria saber? Que vinha fazer no bar o juiz de direito senão tentá-la? A rapariga do juiz, uma jovem cabrocha da roça, aparecera alastrada de doenças feias, ele a largara.
Quando  Gabriela começara a vir ao bar, ele – idiota! – alegrara-se interessado apenas nos vinténs a mais das rodadas repetidas, sem pensar no perigo dessa tentação diariamente renovada. Impedi-la de vir não devia fazê-lo, deixaria de ganhar dinheiro. Mas era preciso trazê-la de olho, dar-lhe mais atenção, comprar-lhe um presente melhor, fazer-lhe promessas de novo aumento. Boa cozinheira era coisa rara em Ilhéus, ninguém o sabia melhor do que ele. Muita família rica, donos de bares e de hotéis deviam estar cobiçando sua empregada, dispostos a fazer-lhe escandalosos ordenados. E como iria continuar o bar sem os doces e os salgados de Gabriela, sem o seu sorriso diário, sua momentânea presença ao meio dia? E como iria ele viver sem o almoço e o jantar de Gabriela, os pratos perfumados, os molhos escuros de pimenta, o cuscuz pela manhã?

E como viver sem ela, sem seu riso tímido e claro, sua cor queimada de canela, seu perfume de cravo, seu calor, seu abandono, sua voz a dizer-lhe moço bonito, o morrer noturno nos seus braços, aquele calor do seio, fogueira de pernas, como? E sentiu então a significação de Gabriela. Meu Deus!, que se passava, por que aquele súbito temor de perdê-la, por que a brisa do mar era vento gelado a estremecer-lhe as banhas? Não, nem pensar em perdê-la, como viver sem ela?

Jamais poderia gostar de outra comida, feita por outras mãos, temperada por outros dedos. Jamais, ah!, jamais poderia querer assim tanto desejar, tanto necessitar sem falta, urgente, permanentemente, uma outra mulher, por mais branca que fosse, mais bem vestida e bem tratada, mais rica ou bem casada. Que significavam esse medo, esse terror de perdê-la, a raiva repentina contra os fregueses a fitá-la, a dizer-lhe coisas, a tocar-lhe a mão, contra o juiz ladrão de flores, sem respeito ao cargo? Nacib perguntava-se ansioso: afinal que sentia por Gabriela, não era uma simples cozinheira, mulata bonita, cor de canela, com quem deitava por desfastio? Ou não era tão simples assim? Não se animava a procurar a resposta.

A voz de Tonico Bastos veio – felizmente!, respirou aliviado – arrancá-lo desses pensamentos confusos e assustadores. Mas para outra vez neles mergulhá-lo, neles afundá-lo violentamente.

Pois, apenas haviam-se encostado no balcão, servindo-se Tonico do amargo, e já  Nacib, para varrer suas melancolias, lhe foi dizendo:

– Então o homem chegou finalmente... Mundinho lavrou um tento, essa é a verdade. Tonico, sorumbático, botou-lhe uns olhos maus:

– Por que você não cuida de sua vida, seu turco? Quem avisa amigo é. Em vez de ficar falando tolices, por que não toma conta do que é seu?

Queria Tonico apenas evitar o assunto do engenheiro, ou sabia de alguma coisa?

– Que quer você dizer com isso?

– Cuide do seu tesouro. Tem gente querendo roubar.

– Tesouro?

– Gabriela, bestalhão. Até casa querem botar pra ela.

– O juiz?

– Ele também? Ouvi falar de Manuel das Onças.

Não seria intriga de Tonico? O velho coronel estava muito do lado de Mundinho... Mas, também era verdade, agora aparecia em Ilhéus constantemente, não arredava do bar. Nacib estremeceu, viria do mar aquele vento gelado? Apanhou no escondido do balcão uma garrafa de conhaque sem mistura, serviu-se um trago respeitável. Quis puxar mais por Tonico, porém o tabelião arrenegava de Ilhéus:

– Merda de terra atrasada que se alvoroça toda com a presença de um engenheiro. Como se fosse coisa do outro mundo...



(Gabriela Cravo e Canela)




(Ilustração: Di Cavalcanti)







Nenhum comentário:

Postar um comentário