domingo, 8 de novembro de 2015

CAMINHO, de Paulo Seben







Um homem de mãos nos bolsos

cruzando a praça vazia.

Talvez em meio à garoa

ou restos de cerração.

O fato é que está sozinho

e tem nos bolsos vazios

as duas mãos impotentes.

O fato é que está vazio,

e as suas mãos tão sozinhas

cerradas nos bolsos vão

sem poder nem ir à toa.

Caminha rumo ao patíbulo.




As mãos seguram a vida

que tenta fugir dali.

Os dentes cerrados cortam

a língua que quer sair.

Os lábios cerrados calam

a voz que iria gritar.

Caminha rumo ao patíbulo

no frio da antemanhã.




Se houvesse sol, se ele abrisse

os braços pra perguntar

por que caminha sozinho,

por que um bolso é algema,

por que há neblina sempre

e praças que atravessar...




O sol não há. Não há gente

a quem fizesse a pergunta.

Caminha trôpego e chuta

pedrinhas em gol nenhum.

Caminha rumo ao patíbulo

e não deseja chegar.



(Caderno Globo 33)


(Ilustração:  Zdzisław Beksiński)

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