quarta-feira, 22 de julho de 2015

AQUÍ EN ESTA ORILLA BLANCA... / AQUI NESTA BEIRADA BRANCA..., de Luis Cernuda







Aquí
en esta orilla blanca
del lecho donde duermes
estoy al borde mismo
de tu sueño. Si diera
un paso mas, caerla
en sus ondas, rompiéndolo
como un cristal. Me sube
el calor de tu sueño
hasta el rostro. Tu hálito
te mide la andadura
del soñar: va despacio.
Un soplo alterno, leve
me entrega ese tesoro
exactamente: el ritmo
de tu vivir soñando.
Miro. Veo la estofa
de que está hecho tu sueño.
La tienes sobre el cuerpo
como coraza ingrávida.
Te cerca de respeto.
A tu virgen te vuelves
toda entera, desnuda,
cuando te vas al sueño.
En la orilla se paran
las ansias y los besos:
esperan, ya sin prisa,
a que abriendo los ojos
renuncies a tu ser
invulnerable. Busco
tu sueño. Con mi alma
doblada sobre ti
las miradas recorren,
traslúcida, tu carne
y apartan dulcemente
las señas corporales,
por ver si hallan detrás
las formas de tu sueño.
No lo encuentran. Y entonces
pienso en tu sueño. Quiero
descifrarlo. Las cifras
no sirven, no es secreto.
Es sueño y no misterio.
Y de pronto, en el alto
silencio de la noche,
un soñar mío empieza
al borde de tu cuerpo;
en él el tuyo siento.
Tú dormida, yo en vela,
hacíamos lo mismo.
No había que buscar:
tu sueño era mi sueño.



Tradução de Wagner Mourão Brasil:


Aqui
nesta beirada branca
do leito em que tu dormes
vejo-me à borda mesmo
do teu sonho. Um passo
a mais e eu cairia
sobre as ondas, rompendo-o
como a um cristal. Ascende
o calor de teu sonho,
até o meu rosto. Teu hálito
manifesta a andadura
do sonhar: vai sem pressa.
Um sopro incerto, leve
cede-me esse tesouro
com exatidão: o ritmo
de teu viver sonhando.
Olho. Vejo o tecido
de que é feito o teu sonho.
O tens sobre teu corpo
como couraça tênue.
Cobre-te de respeito.
À virgem tu recorres
toda inteira, desnuda,
quando estás a sonhar.
Na margem são suspensos
os anseios e os beijos:
esperam, já sem pressa,
a que, abrindo teus olhos,
abras mão de teu ser
invulnerável. Busco
por teu sonho. Com a alma
curvada sobre ti,
meus olhares percorrem,
tua carne diáfana,
e apartam docemente
as marcas de teu corpo,
para ver se há por trás
as formas de teu sonho.
Nada encontram. E então
penso em teu sonho. Quero
elucidá-lo. As cifras
não servem, não é secreto.
É sonho e não mistério.
Súbito, na mais alta
quietude da noite,
um sonho meu começa
à beira de teu corpo;
nele, eu percebo o teu.
Tu dormindo, eu velando,
fazíamos o mesmo.
Não havia o que buscar:
teu sonho era meu sonho.



(Ilustsração: Antonio Tordesillas - el sueño de Andrea)





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