segunda-feira, 1 de junho de 2015

POR EXTENSO, Luísa Costa Gomes





Quero o maior! – desde pequeníssima, sempre o maior. O urso : o maior. O cãozinho : o maior. O livro, se o escolhia : o maior, o com mais cores , o com a letra mais gorda. E, na comida: o prato maior, a fatia maior, a posta maior. O bolo : evidentemente, o maior. Poupada apenas nisto das letras. Abreviaturas, simplificações. Escolhido para nome Nê, porque encontra muito comprido o que lhe impuseram – Ana Lúcia é o seu nome da escola, com que assina os testes e os trabalhos, e Nê o seu nome livre.

Vai agora a atravessar a passadeira de peões e a escrever uma sms ao mesmo tempo. É um truq q costuma fzer para mostrar q tanto se lhe dá. Que é forte. Um carro para, os travões guincham, os pneus até dtm fmo, a mulher baixa o vidro e grita-lhe :

- Ó menina, quer ir já para o céu, tão novinha?

Nê treme tanto que os dentes chocalham na boca, o carro a dois milímetros dos ténis de plataforma que nesse dia estreia, o telemóvel na mão onde a sms começada ainda enlanguesce : “vmos hje ao cc cnema k v o k?”; e a condutora olha-a de dentro da carrinha familiar, sorrindo, cínica e arrancando, em esfogueteada primeira, grita:

- Menina (...) ! Menina Qualquer Coisa, palavra que ela não percebe e escreve no tlm “ia sendo atropelada! tou aq td a trmer!” e envia à Ana Márcia que lhe responde logo “táse!”.

Aq palavra q ela não percebeu teve um efeito curioso em Ana Lúcia. Começou a tomar mais atenção ao mundo, a estar mais alerta para td o que ia e vinha à sua volta, à espera de a reconhecer. Podia acontecer em qualquer lado, na piscina, a meio de um salto da prancha, e ter a orelha tapada pela touca. No polivalente, à passagem de alguém, embora lhe parecesse pouco provável. No polivalente havia sobretudo ruído. Mas era preciso estar preparada. No café, ao interv do almoço, no meio da vozearia dos rapazes que se batiam por td e por nada, ouviu a palavra “desconchavada” vinda de uma mesa de mulheres-gralhas e achou q não era Aquela a Que Demandava, mas acabou por ficar.

Agora, em vez de responder “táse” quando o tio António, o meio tolinho meio irmão do pai q vive na cave, lhe pergunta com um olho meio fechado : “Q tal o dia...? Na escola...?”, ela diz “Olha, tive um dia mesmo desconchavado”, deixando a Leila interdita, com a franja a encaracolar-se-lhe e a escova de alisar o cabelo a pilhas rodando estupidamente na mão. Foi lanchar, quase sem fome, escolhendo a fatia maior. Leila disse, no dia seguinte, afundada na torrente de palavras sem sentido com q normalmente a enviava para a escola: “encardida”. “O quê?”, perguntou. “O quê o quê?”, perguntou a Leila. “Disseste que a camisola estava o quê?”. “Encardida?”. A palavra que Ana Lúcia buscava não era “encardida”, mas passou a usá-la tb. na frase “ Sinto esta fase da minha vida um bocado encardida”. E comeu pouco ao pequeno almoço.

SMS para cá e para lá nas aulas. O tema: um MMS da Ana Sandra que mostrava um homem todo nu com uma grande cabeça de abóbora. Mas Nê já estava noutra. Achou os colegas todos “lúgubres”. E, no interv das dez e meia, espantou a Ana Margarida ao dizer que a comida do refeitório era “sórdida”, que o Paulo andava “sorumbático” e “extravagante”, mas sorriu ao nome da namorada dele, quando lho disseram : Mirtília Túlia. Não era de troça, era um nome q era um nome verdadeiro. E a frase favorita : “ O Paulo é cá um lapa”. E o filme de murros no centro comercial? “Inane”, comentou. Procurou (sem realmente procurar) os sítios onde seria mais provável ouvir o que não percebera da primeira vez. A casita onde morava com o meio tio e a mulher, Leila, passou a ser uma “choça” e o carro deles um “chaço”. Olhou Silvestre, o misterioso vizinho que estudava matérias misteriosas, com nova motivação. Espiava-o do seu pátio em frente à garagem e achava tudo feio – fora a cameleira, “deslumbrante”. E pequenos musgos no muro, “pitoresco”. Não falava muito. Ficava a apreciar o pouco que tinha, procurando as palavras mais apropriadas com gula. Não era, por exemplo, paixão o que sentia por Silvestre, mas “encantamento”, e em outros momentos, “delírio”. De vez em quando escrevia uma palavra no muro, de líquen a líquen. Silvestre, entretanto conquistado pelo prolongado silêncio dela, convidou-a para tomar um café. Acompanhou-a à vitrina.

- É um pastelzinho, por favor – pediu Ana Lúcia - aquele ali.

E apontou, discreta. Era o mais humilde, mas foi dito por extenso, com um belo sorriso de amor, com as letras todas.



(Setembro)


(Ilustração: Balthus - Therèse awake)





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