terça-feira, 26 de maio de 2015

DUPLICIDADE, de José Marmelo e Silva






Julinha tem grafonola – e canta como um pássaro primaveril. Marta levanta dinheiro no banco. Celeste guia automóvel. Cantam em conjunto. Riem em coro.

Noémia impera.

Saem para toda a parte, passeio vai, passeio vem, a que horas poderei falar-lhes sossegadamente? Em casa dançam; dançam no campo. A alegria embriaga-as, excita-as, não param, não comem, desafiam todas as murmurações.

Displicente, atónito, vejo-as chegar, partir. Como proceder, como pensar? Cruzo por momentos os braços e observo-as inocentemente, como se voltasse ao princípio da minha vida. Nada sei. Que estranha filosofia me trará o seu tumultuoso conviver? Que estará além do muro desta euforia auto-suficiente?
Persigo-lhes a sombra sem ser visto, analiso-lhes o rastro de olhos no chão. Sou caixeiro, praticamente da loja de Noémia, a quem dou contas, nada mais. Até quando a resistência do meu furor? Constato que as freguesas me entram pela porta dentro com mais assiduidade (este povo é muitíssimo curioso!) posto que as vendas tendam mesmo a estancar. Certamente por usar da crueldade de transmitir às atrasadas o recado revoltante de Maria Noémia: «Pagam, ou tribunal com elas!»

Ah, este advocacismo ! Expliquei a Noémia a crise duma povoação que não vive senão do ajoujar da agricultura: as lágrimas das mães, o contágio das crianças com a tuberculose voraz dos pais, o socorro urgente necessário, a orfandade, a cólera, sei lá!, quantas circunstâncias que são dor de alma e retalham todos os propósitos, – mas Noémia atalhou-me implacavelmente:

– Isso não se cura com esmolas. Quem jamais se apiedou de nós? Esses que nos deviam, menino, são os mesmos que escarneceram de teu pai. São os mesmos que assaltaram a quinta, à sombra das ameaças dos credores. De resto, estava eu a secar-me do outro lado com trabalho, para vocês distribuírem fazendas aqui pelas aldeias! Como te pode caber uma dessas na cabeça?

Vestida de calças masculinas, traçou a perna, puxou, como por hábito, dum cigarro:

«Ouvira bem? Fiados, nem um real!»

O advocacismo tem argumentos, tem leis. No poder, ou na oposição, o advocacismo interpõe-se, agarra, esbulha. Vejam-no em arengas públicas: advoga um socialismo urgente, arroga-se o exclusivo de gritar, de candidatar-se, de vencer. Porém na vida prática, que faz? Esquecido de todas as necessidades do povo, sem planos, sem sacrifícios, ei-lo ao serviço do capitalismo mais sórdido, mais inumano, menos social. Justiça? E vê-la? Tudo retórica, até talvez as minhas próprias palavras! «Nada se remedeia com esmolas? E então?»

Por outro lado, como compreender Noémia, mesmo do ponto de vista religioso? O estado sentimental duma adolescente incomoda-a até às lágrimas; os lares de pai ou mãe inválidos, sem subsídio da lei, sem crime para ninguém, endurecem-na como cimentação. Quer dizer: há sensibilidades que só se derramam por compartimentos, como a água pelos tabuleiros de rega. A inclinação torna-se necessária.

Anoto, desorientado, uma série de futilidades elucidativas.

Marta, por medo dos ratos, dorme com Noémia.

– Medo,?! – intervenho – Que ideia!.

– Não é medo, é impressão... Bole-me com o nervoso. Na primeira noite, um rato enorme não me andava a lamber a chávena?

Celebrámos todos três a pilhéria deste «rato enorme».

Noémia admoesta-me:

– Tu namoras a Laide. Vi-a ontem: é um amor de criança.

O meu pensamento riscou orgulhosamente:

«É um amor de mulher... »

– Para um leviano como tu!

Entupi. «Leviano?! Serei eu assim leviano como dizes?»

Estes pequenos episódios desenrolavam-se de dia para dia, de momento para momento, num crescendo de imprevisto que chegava a tolher-me os movimentos defensivos mais legítimos. Quantas vezes ficara eu amesquinhado e de rosto receoso, contraído!

Marta, durante o chá, servindo-se uma vez desses pequenos bolos de espuma de ovo chamados familiarmente «suspiros», mal levou um à boca, atirou com ingénua malícia:

– Suspiro pela Julinha!

Levando outro:

– Suspiro pela Celeste!

Ao terceiro, inclinando-se para Noémia com meiguice extrema que lhe pôs nos olhos um brilho liquescente extraordinário, murmurou:

– Suspiro pela Senhora D. Noémia, – ao cubo!

Noémia escrevia em revistas femininas, eu presumia-o, tendo a seu cargo, numa delas, o «consultório sentimental». Certa vez, sem que seja meu hábito espreitar, surpreendi-a no corredor a ler um manuscrito a suas pupilas:

«– Aquela rapariga da Figueira, conforme noticiaram os jornais, foi uma vítima da sedução dos homens. É santa e mártir: porque diante da desonra preferiu morrer.»

Noémia tremia, horrorizada. Tornava a viver a tragédia, transmitiu-a a suas amigas. Percebia-se, lá donde emergiam as suas palavras, uma intenção muito firme e decidida.

Segura de que nenhum homem assistia à sua representação, infinitamente triste, acentuou:

«– Alerta, meninas católicas, não se deixem iludir pelo capuchinho vermelho de namoros aparentemente inocentes. Reparem que monstruosidades tamanhas são capazes de cometer os homens! Um noivo atrai a sua própria noiva a uma cilada vil. A infeliz cessa de lutar, quando tem caído extenuada. Pois nesse momento cobarde, (ó céus, que não desabastes sobre a terra negra!) o tirano conspurca-a, arrasta-a canibalescamente para o automóvel e proporciona-a como repasto aos seus amigos!»

O nervosismo de Júlia era excitante. Celeste compunha com o lencinho o borbulhar dos olhos. Desde aí, todas me olhariam com desconfiança, com desprezo, com náusea... Mas eu andava nessa hora com uma fleuma verdadeiramente britânica, pensei: «As minhas mulheres sublevam-se!»

Caminhei para elas despreocupado, desejaria encará-las frente a frente; entretanto o pano, sobre aquela encenação, ainda não caíra. O paroxismo atingiu Noémia, que já não deu por mim. Numa onda de revolta, ergueu repentinamente o busto magro, vestido de negro, e, rígida como eu nunca a vira, tombou nos braços solícitos de Marta. Júlia, Celeste acudiram-lhe, na minha presença, com as suas carícias desajeitadas. Tive também a tentação de desmaiar, mas não com aquela língua negra à dependura escorrendo baba...

Que horror!

Para gáudio e celebração, compram bombons e ponche. Gostam de ponche, que tenho eu com isso? Não as vejo bebê-lo, mas dizem-no diante de mim, à mesa:

– Ontem, quatro garrafas que entornámos! – Pequenas, não foi muito! – aplaudo.

E rejubilam:

– O sr. também gostava, ai não? Vejam lá!

Outro dia passava na rua um cão com o seu dono. Coisa banal... Um rafeiro e um rapaz. Brincavam, acariciavam-se mutuamente como irmãos. A preceptora blagueou para Marta:

– Há alguma diferença entre eles?

A discípula, embevecida:

– Não parece... – e mostrou o canino sobreposto.

Eu, que, repelindo a afronta ao sexo forte, me mostraria quixotesco ou trivial, satisfiz a douta expectativa:

– Há uma diferença: o cão é fiel.

E ambas me acharam uma graça infantil.

Provocava eu próprio as humilhações? a zombaria? Fui arrastado para o inverosímil: transferir-me eu mesmo voluntariamente para o campo mental em que elas se agitam e procuram viver. Aconselhar Noémia? Seria o mesmo que pedir à Lua que nunca se vestisse de quarto minguante. Noémia repudiaria em absoluto, ingratamente, a minha compaixão, o meu auxílio. Pelo contrário: era ela até quem me hostilizava com a insistência dos seus conselhos sobre casos meramente pessoais. Comecei a repontar-lhe. Porquê não olhava para ela? Surpreendida, quis imediatamente dominar-me:

– Eu desconheço-te, Eduardo! Terás tu descido ao nível desta gente? Terás esquecido?...

– Basta! – interrompo-a grosseiramente, batendo a mão na mesa.

Tínhamos acabado de jantar, Noémia levantara-se e preparava-se mais uma vez para despejar sobre mim um acumulado de impropérios, ao fim dos quais, sem dar tempo sequer de defender-me, arrastava Marta abraçadamente (pobre Marta!) e com ela deslizava corredor fora praticando as lamechices do costume.

Desta vez hostilizei-a:

– Em primeiro lugar, que entendes tu por «nível desta gente»?

Noémia pretendia esquivar-se, com determinada mímica ou o que quer que emitia entre-lábios para a discipulazinha.

– Decerto não falavas do nível higiénico, nem económico! – desafiava-a.

Mas Noémia continuava a arredar-se da minha decisão. Eu tinha de enervá-la, de prendê-la pelo insulto ou pela violência:

– Tomaras tu viver moralmente no mesmo nível!

– Olhem como ele está hoje bem educadinho! Querem ver? Mas porquê, ora porquê, menino, diga lá!

– Porque esta gente não tem uma... duplicidade de vida!

– Duplicidade de vida? Que me dizes tu?!

Um pouca intimidado, generalizei:

– Esta gente tem defeitos, tem sobretudo privações. Mas «nível» moral? A cidade está a perder o conceito de moralidade. As convenções sociais prostituíram tudo. Vós já não sabeis o que é nobreza de sentimentos, solidariedade humana, sacrifício pelo semelhante, nem sequer personalidade interior perpetuamente responsável.

– Palavras gastas e ocas e a cantiga do costume. Sabes o que é isso? A tua mania das leituras proibidas...

Protegi o rosto com as mãos à espera do insulto «...com o meu rico dinheirinho, ainda por cima!» Noémia, porém, susteve-se, e apenas lhe reapareceu nos lábios tensos a palavra «duplicidade!»

– Noémia – digo-lhe num apelo de conciliação – porque és assim um temperamento tão complicado?

– Complicado?! – surpreendeu-se. E, pensativa, revestiu-se de súbita modéstia:

– Não. Sou tão simples como qualquer outra.

Uma visível nuvem de tristeza e de silêncio cada vez mais profundo apoderou-se-lhe do pensamento. O círculo nocturno dos seus olhos aumentou. Pela primeira vez eu me senti vitorioso diante de Noémia. Cansadamente e suspirando, retirou-se derreada sobre Marta, e ambas se refugiaram no quarto, fechando-se, como tantas vezes, libertas duma acusação imanente.

«Quem sabe se ela quis apenas afastar a curiosidade? Se foi tudo defensiva simulação?» – ponderei.

Ouviam-se, entretanto, risinhos abafados. Sobre mim, sozinho, desceu imediatamente uma sensação de logro. Noémia, para me vencer, não precisou senão dum pouco de humildade, apesar de tudo disfarçada.

No entanto, o primeiro passo estava dado. Seguiam-se, é verdade, longas horas de abstracção, uma espécie de torpor que me tolhia toda a vontade e só as grandes dores eram suficientemente fortes para produzir. A este, outros estados de alma se sucediam. Acudia-me por vezes um desespero inaudito contra a pureza física de Marta, desperdiçada; contra o abandono da pequenina Júlia, ardente; contra Celeste, leitosa e sobranceira, que eu sempre julguei capaz duma traição.


(Sedução)




(Ilustração: as três graças, Normund Braslins)


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