terça-feira, 20 de janeiro de 2015

CANTEIRO, de Isabela Penov







     Nessa maldita marmita sem mistura ele remexe o que atura todo dia
     É meio dia, arroz, feijão e agonia requentada já salgada com suor de tanta lida
     Restos de ontem, carne fria de segunda e na segunda a sua carne sente o açoite e a ferida
     A vida amarga sem tempero e o dia inteiro, o dia inteiro no canteiro semeando a força bruta
     “A vida é luta, a vida é luta” já dizia a sua avó
     E aquele nó bem na garganta não desfaz mas disfarça a cada passo a vontade de gritar
     Farinha seca, terra seca, gente seca, sua terra, sua gente, e a saudade lentamente triturada entre seus dentes
     Palita os dentes com os ponteiros do relógio, cospe o ódio, engole o ócio e canta um verso num minuto que  sobrar.
     E num lugar onde ninguém sabe o seu nome ao fim do dia à revelia uma pergunta lhe consome:

      quem escolhe o que come?
     quem escolhe o que come?
     quem escolhe o que come?

     Em meio a ordens tem que mastigar a vida, digerir toda a comida, as feridas mais doídas, sua classe e sua cor
     Uns comprimidos, a tevê e a bebida não dão conta de prender e segurar dentro do peito esse viver doído e estreito de trabalho e desamor
     E ele vomita cada dia então perdido, os pedidos que não fez, os sóis e céus que não viu, as paisagens que perdeu, os minutos que engoliu
     Em meio à bile escorreram da sua boca dois mil sóis meio apagados paga dos dias passados que ele nunca viu passar
     E foi cuspindo um triste grito sem medida, umas lágrimas contidas, todas as contas vencidas e as que nunca vai pagar; suas olheiras, a xepa do fim da feira, a canseira, a bebedeira, os trocados amassados na carteira, a chuteira pendurada, a bem amada que se foi sem ter porquê
     Enxuga os lábios com uns versos amassados que ele fez nos intervalos com a esperança de alguém ler.
     Quando menino ele sonhava em ser poeta, mas a vida é incerta, e a mão semianalfabeta sucumbiu ao desatino, vendeu o sonho menino por moedas no batente
     Ingenuamente achou que vender os sonhos lhe daria outra vida de comida mais decente
     Sem esperança, esqueceu que foi criança e entrou na contradança da máquina de moer gente.
     Toca a sineta então na terça como um tiro de escopeta no seu peito de poeta que não foi e nem será
     Abre a marmita mirrada de todo dia, arroz feijão e agonia, outro dia a lhe gastar
     E num lugar onde ninguém sabe o seu nome é que ele come mas a fome lhe consome ao fim do dia
     Dentro do estômago e do peito ele tem fome e não é fome de pão, é fome de poesia.
     Entre o arroz e um pirão meio mal feito, a barriga, a mente e o peito roncam a dor que carcome
     E num lugar onde ninguém sabe o seu nome ao fim do dia em rebeldia uma pergunta lhe consome:

     quem escolhe o que come?
     quem escolhe o que come?
     quem escolhe o que come?




(Ilustração: Jean Béraud - inverno)




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